23/12/2019

NaNoWriMo 2019: A coisa mais difícil que já precisei fazer

Escrever é difíciiiiiiiiiiiiiiil. Eu não sei como as pessoas fazem isso profissionalmente e eu tenho feito isso profissionalmente desde que me entendo por gente. Principalmente quando é sobre algo com o que você se importa ou algo que te faz visitar as profundezas do seu ser em busca de sentido para conseguir transformar em palavras. É cansativo e horrível e te deixa ismdimdimdfjdfjbfjbfjdb, sabe? Eu tive um ano difícil de escrita porque eu tive um ano difícil no geral. E não foi porque escrever ficou chato ou porque eu não gosto do que estava escrevendo. É o oposto, eu amo o que eu estou escrevendo, então eu não quero enfrentar o que preciso fazer. É bem mais fácil chegar em casa e assistir 12 episódios seguidos de The Office, que, por sinal, eu já estou terminando, mesmo que eu tenha começado em outubro. É bem mais fácil limpar meu apartamento novo todinho, culpar o trabalho pelo cansaço emocional e esquecer da vida.
Eu começo o post assim porque eu queria ter postado ele na primeira semana de dezembro. Depois eu tinha certeza que ele ia sair antes do fim da primeira quinzena e depois eu precisava terminar ele dia 19 de dezembro, porque é aniversário da Mia e eu devia ao mundo dizer o que exatamente aconteceu com o livro dela. Mas ao invés disso, já estamos no dia 23, oito dias para o fim do mês e eu só estou escrevendo agora (dois dias atrás) porque preciso pegar meu ônibus às 15 horas e eu disse a mim mesma noite passada, antes de ir dormir às 10, que eu acordaria cedo para terminar esse post. Não é a obrigação que me move até aqui, mas o fato de que eu preciso deixar meu quarto novo arrumado antes de viajar. Então, vamos lá, tentar fazer o melhor possível.

Prólogo
O NaNoWriMo 2019 começou normal. Completamente. Eu comecei a escrever à meia noite do dia primeiro (já que este ano não tem horário de verão, porque normalmente eu posso começar às 23h do dia 31), e escrevi mais de 5 mil palavras no primeiro dia, meta pessoal alcançada. Escrever de dia é difícil normalmente no meu apartamento em Conquista porque o sol da tarde bate diretamente contra a parede e a casa parece um forno. Mas no segundo dia foi difícil escrever durante o dia por outros motivos. Eu sabia que escrever sobre uma personagem que perdeu a mãe aos 16 anos e teve vários problemas com a família seria muito pesado para mim, o que eu não imaginava é que tão no comecinho, eu já me sentiria tão mal. Existem momentos em que escrever quando eu me sinto mal é fácil, porque me ajuda a entender as coisas. Aqueles dias não foram um desses momentos. Eu consegui me forçar a escrever por mais tempo e apesar de ficar para trás na minha meta pessoal depois do terceiro dia, eu consegui me manter acima da meta do NaNoWriMo até o quinto dia, quando eu cheguei a 12.357 palavras. Naquela noite, eu acabei atualizando minha contagem de palavras um pouco tarde demais e a contagem entrou no dia 6. O site do NaNoWriMo foi atualizado no último ano e àquela altura a opção de editar a contagem de palavras ainda não estava disponível, além de que sempre tinha algum bug no gráfico. Foi quando minhas frustrações meio que desmoronaram e eu fui dormir sem continuar escrevendo à noite porque eu simplesmente não conseguia.
No dia 6, eu tive uma sessão de terapia e minha psicóloga comentou que eu parecia emocionalmente exausta. E eu disse a ela que eu sentia como se as coisas estivessem por um fio e como se faltasse uma coisinha a mais que puxasse esse fio e ativasse a descarga de sentimentos descontrolados que estavam dentro de mim. Conversamos sobre o que eu poderia fazer para me sentir mais confortável, e eu acabei transformando o dia em dia de cuidados pessoais. Fui ao shopping, comprei cortinas novas para que meu quarto ficasse mais fresco e, na verdade, acabei gastando dinheiro demais em novas roupas de cama. (spoiler alert: mais ou menos um mês depois, eu vendi minha cama e agora quero comprar de casal, então o dinheiro que eu gastei aquele dia só vai valer a pena se eu ganhar o sorteio do shopping e ganhar um apartamento com um carro na garagem). Depois, fui pra casa e deitei confortavelmente na minha cama, assistindo The Office pelo resto do dia. Eu já tinha postado no fórum do NaNoWriMo sobre o problema da edição da contagem de palavras, mas como ainda levaria alguns dias para o problema ser resolvido, eu pensei que se eu pulasse um dia de escrita, meu gráfico pelo menos ficaria "certo". Péssima ideia. Chegar no dia 6 e desistir de escrever todo dia? Simplesmente horrível, mas foi o que eu fiz.
No dia 7 eu voltei a escrever, assim como no dia 8, mas eis que do dia 8 para o dia 9 o problema se repete e a contagem de palavras só entra no dia 9. Foi aí que a coisa ficou feia de verdade. Escrevi um textão no fórum do NaNoWriMo super triste e agoniado que finalmente recebeu resposta sobre a atualização da função de editar a contagem de palavras, que foi trabalhada pelos próximos dias. Eu só consegui voltar a escrever depois que a função foi restabelecida e eu pude editar minha contagem de palavras, no dia 13. Vocês entendem o problema depois disso né? Porque a ideia do NaNoWriMo é manter você escrevendo todos os dias, mesmo que não seja com a mesma quantidade de palavras. Alguns dias vão ser bons e outros ruins, mas a ideia é escrever todos os dias. Uma grande parte do que me fazia escrever todos os dias, mesmo que fosse 15 palavras, são os badges que o NaNoWriMo oferece conforme você vai escrevendo. Escrever todos os 30 dias do mês resulta em um badge de 30 dias escritos que libera as cargas de serotonina para o meu cérebro. O badge ainda está lá, mas o site novo estava tão bugado que tomava e tirava badges aleatoriamente, o que era bem frustrante. Outra coisa eram os writing buddies ou os amigos. O site novo fez com que a gente perdesse todos os buddies e precisasse adicionar de novo, então eu perdi todo o histórico das pessoas que conheci por causa do NaNoWriMo e muitas delas nem têm mais acesso às suas contas antigas então suas contas nem existem mais. Nunca pensei que fosse ficar triste por isso, já que eu torço para outras redes sociais deletarem contas inativas, mas aqui estamos. É claro que as minhas frustrações com os problemas do site eram mais um sintoma do que a causa de porque eu simplesmente não conseguia escrever.

História
Eu sabia o que queria escrever e como queria escrever, mas eu não conseguia. Esse é um problema frequente, pra falar a verdade e um problema que eu percebi ser bem comum, conversando com outros autores. Quanto mais você se importa com o que você está escrevendo, pior. Eu escrevo constantemente. O twitter é minha rede social preferida por um motivo — um microblog significa que eu estou sempre fazendo miniposts de blog. Quando qualquer coisa acontece, minha primeira reação é escrever sobre, antes mesmo de processar a situação e para processar a situação. Ao mesmo tempo, eu sou escritora, o que quer dizer que se eu não estiver trabalhando no que eu preciso escrever, é como se eu não estivesse escrevendo. Então, é fácil sentir como se a meta de "escreva todo dia" não estivesse dando certo, mesmo que eu esteja escrevendo todos os dias. Nem que sejam mensagens longas e melosas que eu mando para a Kira e edito um milhão de vezes antes de enviar. 
Eu entrei em 2019 sentindo que seria um grande ano para a escrita. Porque eu escreveria meu TCC de vez, escreveria o livro-reportagem e, depois da formatura, teria seis meses inteiros de escrita. Seis meses, com o NaNoWriMo no finalzinho deles. E só depois eu conseguiria um trabalho. Ao invés disso, eu não consegui parar quieta até conseguir um trabalho. E o trabalho foi a principal fonte de dores de cabeça e desespero para mim durante o ano inteirinho. Era como se eu não fosse me sentir segura até conseguir um emprego. Como se nada desse certo até eu ter estabilidade. E agora que eu consegui, eu simplesmente me recuso a me agarrar à estabilidade. Todo mundo quer e espera que eu trabalhe para conseguir estabilidade e trabalhar com isso para o resto da minha vida, mas eu só disse sim para trabalhar com política porque é um contrato de um ano.
Mas vamos com calma. O NaNoWriMo saiu dos trilhos mesmo depois de eu ter voltado a escrever no dia 13 e eu escrevia dia sim, dia não, dia não, dia não, dia sim, dia não, dia não, dia sim, dia não, dia não, dia não. Ainda assim, quando eu falei no evento do NaNoWriMo em Salvador dia 23, eu estava convencida de que conseguiria bater 50 mil palavras se escrevesse direto na semana seguinte. E eu provavelmente conseguiria, se eu estivesse conseguindo escrever. O que eu não estava. Meu último dia de escrita no NaNoWriMo 2019 foi o dia 26 de novembro, quando eu atingi 24.759 palavras. Naquele mesmo dia, eu tinha acordado com uma mensagem da minha psicóloga me perguntando se ela poderia passar meu contato para um conhecido dela que precisava de um profissional de comunicação. Uma ligação depois, eu fui encarregada de montar um plano de comunicação para a assessoria de comunicação da prefeitura de Igaporã, no interior da Bahia. E então eu precisei tomar a decisão mais difícil de todas e desistir do NaNoWriMo. 
Eis a questão, novembro foi difícil para o NaNoWriMo, mas para a minha vida profissional num geral, foi um bom mês (apesar de eu ter perdido o prêmio Mix Literário e não ter passado na primeira fase do concurso que fiz em outubro): Além do lançamento da edição corrigida de A Linha de Rumo, no dia 11/11 eu recebi a proposta de um estágio em Nova York. Vocês sabem que me mudar para Nova York sempre foi meu sonho e o pior é que o estágio seria para auxiliar na produção de shows e cobrir esses shows para um site, o que significa que eu trabalharia com o que eu quero muito trabalhar, jornalismo musical. O problema seria a falta de dinheiro, porque além da mudança ser cara, do aluguel em Nova York ser um absurdo (1640 reais por mês para alugar um sofá cama no Queens WASSUP), eu receberia por comissão, então eu não tenho ideia de quanto eu ganharia a cada mês. O emprego dos sonhos não pagava o bastante, então eu precisei colocar os planos para ele em pausa. Semanas depois, eu tive o evento em Salvador, que foi outro sonho e, finalmente, no dia 26 essa proposta de emprego.
Eu repeti várias vezes nos últimos meses que eu não queria trabalhar com política. E eu não quero. Eu desprezei completamente o concurso público recente da assembleia legislativa do Amapá porque a ideia de ser assessora de comunicação concursada de algum lugar me deixa em pânico, por melhor que seja o salário. E na verdade, minha vontade era ser repórter. Mas me mostre um lugar que esteja contratando repórteres e eu vou te perguntar porque você não me mostrou antes. O jornalismo no Brasil está mais sucateado que os meus dois quartos. Juntos. Revistas praticamente não existem mais, o jornalismo digital é visto como piada e paga muito mal e o jornalismo de TV é a última coisa que eu quero fazer na vida (mas não vou ficar repetindo isso porque o universo ouve). Rádio eu nem conto porque eu simplesmente não tenho talento para isso. Então, quando eu recebi a proposta de trabalhar em uma cidadezinha no interior da Bahia com quase o mesmo número de habitantes que meu número de seguidores do Instagram, eu não levei em consideração o fato de eu trabalhar para políticos. Eu levei em consideração o seguinte: 1) Meu contrato é só de um ano, com possível renovação caso o prefeito seja reeleito; 2) Eu vou morar relativamente perto da cidade onde eu nasci (4 horas de carro, 6 horas de ônibus) e onde minha irmã vai morar, então eu poderei ir lá sempre que precisar; e 3) Eu vou ser paga o piso salarial dos jornalistas. Parece pouco, mas sabe quantos jornalistas recém-formados que recebem o piso eu conheço? Nenhum. Por que as empresas seguiriam o guia da Fenaj, se para ser jornalista não precisa de diploma e considerando que se depender do presidente, nem de registro profissional vai precisar? Assessoria de comunicação é o que mais rende um bom salário e foi para aí que eu precisei ir.
Pra falar a verdade, eu estava desesperada. Eu já tinha procurado empregos temporários de Natal porque a situação monetária estava gravíssima. E tinha um dinheiro que eu estava esperando chegar agora em janeiro, mas depois descobri que ele é para janeiro de 2021, então eu precisei me virar. Eu senti que o trabalho não seria tão pesado e eu conseguiria ganhar bem o suficiente para me sentir segura. E eu ainda sinto isso. Duas semanas de trabalho depois, têm sido ridículo e estressante, mas ao mesmo tempo, eu consigo sentir a estabilidade financeira chegando. E mesmo que meu emprego tenha sido ameaçado essa semana por alguém e eu já tenha arranjado briga simplesmente por defender meu próprio trabalho, não tem sido nada muito além do que eu esperava. Se a faculdade me ensinou qualquer coisa é que existem homens em posição de poder que falam apenas para ouvir a própria voz e que nunca vão perceber os próprios erros, mesmo quando uma série de evidências se mostrarem diante deles. Eu acho que o maior problema até agora é que eu sinto que eu estou de volta ao meu primeiro emprego. As pessoas não percebem o que este emprego é para mim e a verdade é que é como se fosse um freela. Eu sou oficialmente, legalmente e contratualmente, uma prestadora de serviços. Estou prestando serviços de assessoria de comunicação à prefeitura. E é assim que eu me sinto. Estou aqui para prestar os serviços pelo tempo do meu contrato e depois disso, só Deus sabe. E as pessoas no trabalho agem como se eu devesse tratar esse trabalho como se fosse a coisa mais importante da minha vida e como se se as coisas dessem errado agora, eu nunca fosse conseguir outro emprego. E eu faço terapia há tempo demais para ser assim. Só de eu ter conseguido o trabalho dos meus sonhos e ter tido a consciência de pensar "Ainda não é a hora, mas daqui há um ano, quem sabe?" ao invés de me jogar, pegando um empréstimo ou sei lá o quê, eu já mostrei a paciência e a calma que muita gente gostaria de saber como praticar.

Epílogo

E é essa a questão. Mesmo que eu me sinta desesperada e assustada e mesmo que eu tenha passado a primeira semana de trabalho chorando antes de dormir todo santo dia e a segunda semana de trabalho reprimindo meus sentimentos até o sábado, quando eu baixei os episódios que faltavam de New Amsterdam e voltei para Conquista no ônibus assistindo e chorando. Eu sei que o chororô e o medo é um chororô e um medo saudável. Porque a vida não é só estar feliz e ter sonhos realizados todo santo dia. Eu não estou mais em Los Angele. Eu não quero deixar esse trabalho destruir meu emocional ou me fazer esquecer de quem eu sou. Eu não vou me tornar uma pessoa ambiciosa ou uma peça política e eu sei muito bem que isso será uma dor de cabeça tremenda para mim no próximo ano, mas tudo bem. Eu vou fazer o que precisar ser feito, por mais difícil que seja. Afinal, eu desisti do NaNoWriMo depois de 6 anos e 4 vitórias. E perder sem me sentir um lixo foi muito difícil. Perder sabendo que venci em outros sentidos, foi quase incompreensível.
Eu trabalhei nas últimas duas semanas e voltei para Conquista sábado. Já tenho um apartamento, vazio além de um colchão inflável e algumas coisas que eu levei ou comprei na última semana. Aos poucos quero construir meu habitat temporário. Volto para lá no dia 2, já com o gato e com grande parte das minhas coisas. Preciso muito de um fogão e uma geladeira, então se conhecer alguém que estiver vendendo, me avise. Com um custo de vida mais baixo e mais tempo livre, tem muita coisa que eu quero fazer no ano que vem, mas eu não quero colocar a pressão do "ser o meu ano" de novo. Eu quero só lembrar que a maioria das coisas incríveis que aconteceram comigo foram coisas que eu nunca poderia planejar ou controlar. Eu só preciso não esquecer de quem eu sou.
G.

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