O que você precisa saber sobre ter 22 anos

Em um ano normal, quando eu chego à minha Temporada de Aniversário (os 100 dias entre 10 de novembro e 18 de fevereiro) sem escrever a segunda parte da "É só uma fase", eu costumo esperar até uma semana antes do dia e escrevo o que eu achei da minha idade atual e o que eu espero da próxima de uma vez só. Além disso, nos últimos dois anos os posts da É só uma fase foram menos "o que eu espero/acho sobre ter 20/21 anos" e mais textos metafóricos sobre a vida adulta num geral. Então pode ser uma surpresa que eu tenha inventado de escrever um post sobre como é ter 22 anos em janeiro, mas comigo tentando chegar a 300 mil visualizações antes do aniversário de 10 anos do blog em 7 de fevereiro e as postagens dessa coluna sendo a mais populares, é apenas lógico que eu resolva escrever as duas partes dela em dois meses. E com 22 anos sendo uma idade certamente mitificada pela cultura pop em nossa geração, eu tenho muita coisa a dizer.

E a primeira coisa é: Taylor Alison Swift deve dinheiro a todas as que passaram 2020 com 22 anos. Mais ou menos as pessoas que nasceram entre os últimos 3 meses de 1997 e os 9 primeiros meses de 1998. Nós fomos fodidos. 22 foi lançada quando eu tinha 15 anos e desde então eu sonhava com a ideia de ter uma festa de 22 anos com o tema Taylor Swift (rolou) e celebrar ser uma pessoa aos 22, formada na faculdade e vivendo minha melhor vida. 22 deveria ser um ano incrível, cheio de novidades e com confiança em relação à todas as mudanças. Eu estava disposta a passar a maior parte do ano em boates e shows, como se eu tivesse 19 anos de novo. E aí, a pandemia. Eu fui ROUBADA dos meus 22 anos e dos meu grande momento de: 

"Eu não sei você, mas eu me sinto com 22
Tudo vai ficar bem se você me mantiver perto de você"
TAYLOR, TEM UMA PANDEMIA ROLANDO E NINGUÉM PODE FICAR PERTO DE NINGUÉM.

E não é só isso, em toda cultura pop (apesar de ser principalmente na cultura pop norte-americana), 22 anos é a idade dos seus vinte onde você pode ser mais burra. Nessa vida de consumir muitas sitcoms, eu não pude deixar de notar como mulheres de 22 anos são retratadas nessas séries (ou seja, de forma altamente misógina): Jovens adultas com incapacidade de fazer boas escolhas, cheias de energia e extremamente promíscuas. Parafraseando Justin Bieber: Deveria ser eu. Eu deveria ter passado o último ano envolvida em todo tipo de promiscuidade, mas ao invés disso eu passei o último ano decepcionando minha família simplesmente por existir. Eu deveria passar o último ano saindo carregada de bares e indo para o trabalho de ressaca, mas ao invés disso eu fui demitida, resolvi beber pra me distrair e acabei tendo um episódio depressivo sob luz de LED, na minha cama. TAYLOR SWIFT, VOCÊ ME PROMETEEEEEU. Eu quero compensação monetária por danos morais.

Mas falando sério, meus 22 não foram brincadeira. Eu poderia ser positiva e pontuar primeiro os lados positivos, mas precisamos falar sobre o quanto é difícil. Ter 22 anos em 2020 foi completamente ridículo. Pensa aqui comigo: Aos 20 anos eu publiquei meu primeiro livro, aos 21 anos eu me formei na faculdade e viajei para o exterior pela primeira vez, aos 22 eu fui demitida de um emprego que ninguém entendeu o motivo de eu ter aceito, simplesmente porque um cliente decidiu fazer uma reclamação ampla demais que se referia a "uma menina" (não era eu). Aos 20 eu tive o melhor aniversário da minha vida e melhor ano da minha vida, aos 21 eu tive alguns dos melhores momentos da minha vida na melhor cidade do mundo, aos 22 eu até tive um aniversário incrível (vantagens de nascer em fevereiro), mas foi o último momento em que eu pude reunir as pessoas que eu mais amo no mesmo lugar por meses e a melhor cidade do mundo se tornou a cidade com a maior taxa de transmissão de Covid-19 do mundo.

"Nós estamos felizes, livres, confusas e solitários ao mesmo tempo"
Quem está, Taylor? QUEM ESTÁ?

Meus 22 anos não foram brincadeira e apesar de saber que tudo que aconteceu na minha vida e no mundo não teve nada a ver com o fato de eu ter 22 anos e eu simplesmente tive azar de ter feito 22 durante uma pandemia global, eu sei que tem muita coisa na minha vida que seria do mesmo jeito independente do ano em que eu completasse 22. Sabe por que pessoas de 22 anos são retratadas como estúpidas na cultura pop (além da misoginia)? Porque nós somos.

Pessoas de 22 anos são supostamente adultos funcionais. Mas a suposição está errada, nós não somos. Na minha idade, minha mãe já estava no segundo emprego há mais de um ano, minha avó já tinha 3 filhos e minha bisavó tinha 5. Eu tenho um gato que vomita na cama que eu acabei de lavar. Aos 18 nós somos jogados em um mundo muito confuso e desenvolvemos novas responsabilidades que nós nem sempre estamos prontos para enfrentar. Aos 22, nós supostamente já temos que ter desenvolvido mecanismos para enfrentar essas coisas. Afinal faz 4 anos desde que você se tornou legalmente um adulto (um mandato presidencial inteiro) deu tempo de aprender algo né? Não, não deu.

Estar nos seus vinte não é nada parecido com ser um adulto de 18 ou 19 anos. E ter 22 não tem nada a ver com ter 21 ou 20. Aos 20 e 21 você toma um monte de decisões ridículas e tem a absoluta coragem de defender cada decisão que você toma. As consequências chegam e te causam dor de barriga, mas você assume porque já sabia que se algo acontecer, é de responsabilidade tua. Aos 22 você continua tomando decisões estúpidas, mas dorme de conchinha com o arrependimento toda noite.

O lado positivo é que você aprende que algumas responsabilidades não vale a pena assumir: Enquanto aos 21 eu me jogava de frente em algumas batalhas, falando merda e não tendo problema algum em pedir desculpas ou oferecer meu endereço a quem estava ameaçando me processar por calúnia sobre algo que não era mentira, aos 22, eu parei de expressar minha opinião no BookTwitter porque eu me dei conta de que é uma batalha que só vai me estressar e traumatizar, ao invés de causar algum efeito positivo.

Não me entendam errado, eu ainda brigo com estranhos na internet o tempo inteiro — principalmente no Facebook e no TikTok —, mas zoar adolescente e Boomer que falou merda primeiro com frases prontas é completamente diferente de argumentar perfeitamente sobre um tema que você domina ou se irritar com algo que afeta a vida de pessoas a longo prazo e ainda assim ser comida viva por quem discorda de você ou só por quem não gosta de você mesmo. Quer dizer, dois anos atrás eu saí em uma tirada de tweets sobre o fim do programa de estágio do qual eu fiz parte e como estágios voluntários não levam em consideração quem precisa trabalhar para viver e fui chamada de iludida por pessoas que depois publicaram trabalhos sobre meritocracia. As pessoas não tem ciência da própria hipocrisia, vão te odiar por algo que elas nem discordam por vontade de defender os próprios ídolos e honestamente, elas não valem o tempo e a saúde que você perde em uma briga.

"Esta é a noite em que nós esquecemos sobre os corações partidos"

Ao mesmo tempo, meus sensores intuitivos para as brigas que vale a pena comprar estão mais apurados. Desde me colocar à frente para novas oportunidades, até saber quando me afastar no momento em que percebo que a oportunidade não é para mim. Com a idade vem a sabedoria e minha raiva do universo tem sido aos poucos substituído por uma paciência saudável ou pelo menos a sabedoria de pensar bem antes de falar. A transição não está completa, mas estamos a caminho.

Esse é inclusive um dos motivos pelos quais eu passei pelo menos 3 meses do ano passado morrendo de vontade de chegar aos meus 30. Eu sinto que toda a ansiedade e incerteza do último ano e dos próximos vai desaparecer quando eu estiver seguramente nos meus trinta e com as etapas da vida mais definidas. Especialmente a parte profissional, mas a psicológica também. Só que tem todo um aspecto sendo trabalhando na terapia no momento que é justamente sobre aproveitar a vida como ela está e não passar tanto tempo desejando a próxima etapa. Então, tenho tentado respirar fundo e aproveitar os meus vinte, que ainda estão muito longe de acabar.

Outro aspecto positivo do último ano, é que me aproximou um pouco mais de quem eu realmente sou e do que eu quero na vida. Quem acompanhou o Grande Surto sobre Bebês em 2019, sabe que eu não tinha certeza se queria ter filhos ou não. 2020 confirmou que eu quero e estou disposta a ser a única unidade parental se precisar. Claro que isso não é algo que eu tenho planejado para os próximos 10 anos, mas foi bom chegar a essa conclusão. Eu também finalmente me tornei MEI e estou desde já abusando do meu CNPJ, que foi uma daquelas decisões responsáveis relacionadas a me colocar à frente de novas oportunidades e realmente vender meu peixe para o mercado de trabalho, por mais feio que ele seja.

Eu também me aproximei um pouco mais de ter uma crença real sobre o universo. Faz alguns anos que eu estou completamente deslocada de qualquer tipo de fé que eu já tive. Por uma série de razões, mas eu gosto de datar a falta de fé a algumas coisas que disseram para mim na época em que minha mãe morreu. Se eu for para o inferno, quem quer que tenha me dito que no céu minha mãe não se lembra de mim porque causaria muita dor para ela, no meio do meu luto, quando eu ainda sentia muita dor, pode se culpar por isso. Além disso, o fato de que a igreja evangélica é uma grande responsável pela instalação do fascismo no Brasil é um outro motivo para eu não me identificar mais com a religião onde eu cresci.

Mas religião à parte, o espiritualismo vai aos poucos se tornando uma parte dos meus vinte que eu não previ. Eu não entrei ainda na fase bruxa que dizem que todas as mulheres passam aos vinte anos, mas pareço estar no meio do caminho para quem olha de fora. Eu não sei. O que não muda para mim é o poder da fé. Eu sempre acreditei na fé acima de qualquer outra coisa. Sempre acreditei que quando você acredita em algo com vontade, esse algo passa a ser real, mesmo que não seja. E a minha fé está ligada às coisas ao meu redor às que eu me sinto verdadeiramente conectada. Aos que me causam puxões de energia e me deixam tonta e calma ao mesmo tempo. Meu medo sempre foi não saber o que acontece depois da vida e a fé tem sido sobre não querer saber. Só viver cada dia pelas coisas que renovam a minha alma.

"Tudo vai ficar bem"

Então talvez a Taylor Swift tenha razão sobre "happy, free, confused, lonely in the best way". Mas apenas talvez. Tudo que eu sei é que eu não sou mais o tipo de pessoa que sente falta de quem eu era anos atrás. E eu estou aprendendo a não desejar ser outra pessoa a cada dia que passa.

Até a próxima,

G.

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