Os cabos desconectados do meu cérebro: Um relato de diagnóstico do TDAH em adultos

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Aviso: Diagnósticos de TDAH só podem ser feitos por profissionais capacitados. Estou compartilhando minha história porque as histórias de outras pessoas me ajudaram a buscar meu próprio diagnóstico, mas sem minha psicóloga e psiquiatra não haveria diagnóstico algum. 

Minha memória mais antiga é do meu aniversário de 3 anos. É só um flash escuro de todo mundo cantando parabéns para mim, onde eu só vejo a luz das velas e tenho a vaga impressão de que estou cercada pelos meus pais. Só sei que era meu aniversário de 3 anos por causa da casa onde estávamos. Minha segunda memória é um pouco mais difícil de localizar no tempo, mas aconteceu alguns meses depois disso. Eu não devia ter mais de 4 anos. Acordei cedo demais e percebi que era a única pessoa acordada em casa. Como eu era muito pequena, é possível que tivesse alguma regra sobre levantar antes de ter um adulto acordado, então eu continuei na cama, em silêncio e com minha cabeça cheia de pensamentos: principalmente sobre algo que eu tinha aprendido recentemente sobre como números são infinitos. Em algum momento, eu resolvi descobrir se conseguia contar até 200. Eu consegui e é claro que essa foi a primeira coisa que eu contei para todo mundo quando a casa acordou.

Eu não sei porque essa memória do dia em que eu descobri que conseguia contar até 200 é tão forte para mim, mas eu me lembro da sensação de orgulho que senti, como se eu fosse a pessoa mais inteligente do mundo. Eu também me lembro do fato de que a infinitude dos números sempre foi um conceito muito difícil de aceitar e eu tinha certeza de que quando fosse mais velha conseguiria contar todos os números, até o fim. Além disso, o fato de eu ter acordado e continuado deitada — em silêncio, envolvida no meu próprio mundo — quando eu era tão pequena que o número 200 é uma conquista, me parece um sinal um pouco claro de neurodivergência. Que ninguém via, porque eu estava no meu próprio mundo.

Outro ponto importante de só ter memórias a partir dos meus 3 anos é que desde que eu me lembro, todo mundo me diz que quando eu era pequena, eu era bem mais sociável e inquieta do que me tornei. Era algo que as pessoas me diziam constantemente, sobre como eu era conversadeira quando era bebê. Mais velha, eu era uma criança particularmente quieta e observadora. E quando eu falava, parecia que tudo que eu falava era errado, então eu falava menos e menos. Eu tinha uma mania desrespeitosa de "corrigir adultos". Na verdade, se eu estava ouvindo uma conversa e um adulto dizia algo que eu sabia que não estava correto, eu interrompia para ajudar. Eu sabia que às vezes as pessoas não lembravam as coisas direito e se eu tinha uma ótima memória, eu deveria ajudar, certo? Errado. Porque adultos mentem e mentem muito. Eu levava bronca sobre como nunca deveria interromper ou desmentir algo que um adulto estava dizendo e que era mal educada por isso, então eu ficava quieta. Quando eu era um pouco mais velha, eu também tinha uma mania que adultos odiavam de compartilhar situações desconfortáveis com todo mundo que eu via. Ou de compartilhar o que eu pensava em situações sociais inapropriadas. Nesses momentos o "Lembra de como você era faladeira quando era menor?" virava "Ôh menina que fala demais. Ninguém te ensinou educação não?". E eu ficava tão confusa. Toda vez que eu via que o que eu falava era errado, eu resolvia que não deveria mais falar. 

Às vezes, eu também falava muito alto, como a minha avó. Ou eu demorava demais para fazer algo ou chegar a algum lugar, como meu pai. Características que as pessoas podiam até comentar de forma brincalhona quando eu era criança, mas quando comentavam sobre em outras pessoas, era de forma crítica. Eu ouvia muito que eu era "quase um homem" porque eu não percebia quando alguém mudava o cabelo e as unhas, ou a bagunça, algo que eu derrubei. Ninguém acreditava em mim quando eu dizia que não lavei a pia cheia de louça porque não percebi que estava na hora de lavar ou que não limpei algo porque não tinha notado que estava sujo. Eu implorava que quando algo precisasse ser feito, me pedissem para fazer e eu faria, mas eu sempre fui chamada de egoísta e desconsiderada se eu não percebesse pela postura de um adulto, que ele precisava da minha ajuda. Mas eu também tinha dificuldade em seguir tarefas diárias ou em começar uma nova rotina, quando os adultos colocavam na cabeça que "as coisas precisavam mudar". 

E aí tinha a escola. No primário, eu era uma estrela simplesmente porque me ensinei a ler e escrever sozinha. Mas eu também era disruptiva, distraída e constantemente trazia tópicos de discussão inapropriados. E eu era péssima em olhar nos olhos das pessoas, o que os professores achavam o maior sinal de desrespeito possível. Eu cheguei a fazer trabalhos INTEIROS sobre o tema errado, porque eu não estava prestando atenção. Só quem viveu lembra do trabalho sobre a Mesopotâmia que foi feito na bandeira de Israel. Os professores que gostavam de mim, gostavam. Os professores que me odiavam, odiavam a ponto de me humilhar na frente da minha mãe.

Já no ginásio, foi quando eu comecei a me sentir burra e minhas notas despencaram. Porque no ginásio, a escola não acaba quando termina. As tarefas de casa passaram a ser mais sérias e, principalmente, estudar em casa se tornou obrigatório, se eu quisesse passar nas provas. Mas eu não conseguia. Eu nunca consegui. Quando eu chegava em casa, meu cérebro simplesmente não conseguia voltar atrás e estudar. Com sorte, o que eu ouvia em sala de aula era o suficiente para que eu conseguisse fazer a prova. Mas nem sempre era. E de qualquer forma, quando eu ouvia todo mundo falando sobre estudar em casa, eu mentia e dizia que tinha estudado sim, porque me sentia mal por não conseguir. Quando o assunto era decorar fórmulas, pode esquecer. E eu me sentia tão burra quando não conseguia.

O ensino médio chegou no mesmo ano que eu fui diagnosticada com ansiedade, depressão e síndrome do pânico. Apesar de ter começado o ano com boas notas, uma semana em casa depois que eu torci o tornozelo foi o bastante para que eu acabasse em uma prova final no fim do ano. O segundo ano foi ainda pior: 6 provas finais, 2 recuperações. Esse foi um ano péssimo em gênero, número e grau, mas ter perdido em história foi um auge tão grande que eu nunca vou esquecer do rosto da minha mãe, sem saber o que fazia comigo para que eu me dedicasse à escola novamente. Eu levava livros para a escola todos os dias e era conhecida como alguém que ficava no meu canto, lendo. Eu não li o livro paradidático do 1º ano quando ele fez parte do currículo, mas li no ano seguinte porque me interessei pelo tema. E muitas vezes eu lia em sala de aula. E aí eu levava bronca, dos mesmos professores que relevavam a proibição do uso de celulares para tirar fotos com alunos. Eu tinha a mania de desenhar castelos nos cantos do meu caderno e em alguns dias tinha mais castelos desenhados no caderno do que matéria anotada. Estudar em casa não era uma opção, mesmo que eu me convencesse de que ia conseguir.

Se você continuou lendo até aqui, pode estar se perguntando porque eu contei minha história de vida toda de infância, se isso é um relato sobre um diagnóstico que aconteceu ano passado, quando eu já tinha 23. A razão é bem simples: Todas as coisas que eu mencionei até agora são sintomas de TDAH

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade é um transtorno genético e neurobiológico, o que quer dizer que você nasce com ele, herda da sua família e ele afeta a biologia do seu cérebro. Se parece que hoje em dia eu coloco no TDAH a responsabilidade de tudo que acontece na minha vida, é porque quando seu cérebro é formado de uma forma, toda a sua vida é afetada por isso. E muitas das características que eu tinha quando criança que me faziam ser chamada de egoísta e desrespeitosa e me fizeram acreditar que independente das minhas intenções eu era uma pessoa egoísta e desrespeitosa por natureza, eram só sintomas de neurodivergência — literalmente, uma pessoa cujo desenvolvimento neurológico é atípico, foge da norma.

Sendo justa, a definição do TDAH mudou várias vezes desde que eu nasci. Originalmente o Transtorno de Déficit de Atenção e o Transtorno de Hiperatividade eram separados. Depois, se juntaram, mas continuaram serem vistos de forma independente. Eu ouvi várias vezes que tinha TDA, não TDAH, justamente por não ter hiperatividade. Eventualmente, o TDAH se tornou um transtorno só, com três manifestações: A desatenta, a hiperativa-impulsiva e a combinada. Bem mais recentemente, houve uma evolução de diagnóstico e muitos psiquiatras (a minha inclusa) perceberam que só a versão combinada existe e que só porque uma pessoa com TDAH não apresenta desatenção e hiperatividade o tempo inteiro, não quer dizer que ela não apresente as duas manifestações. Por exemplo, enquanto eu escrevia isso, eu comecei a senti a sensação de que o tecido da minha roupa estava me incomodando e comecei a me mover descontroladamente até achar algo para focar (o som do teclado) e me sentir melhor. É claro, este é outro dos momentos onde eu estou sozinha e não preciso "me mascarar", fingir que está tudo bem para que as pessoas não pensem que eu sou estranha.

A parte interessante de eu contar esta história nessa ordem é que eu só percebi todos esses sinais de TDAH em mim mesma quando eu era criança, depois que eu fui diagnosticada e pude voltar atrás e me entender. O que me fez começar a investigar o diagnostico em mim, foi a comunidade autista na internet. Tanto no TikTok, quanto no Facebook. Se pessoas autistas não fazem parte da sua bolha, saiba que é comum que elas compartilhem experiências e até mesmo dicas sobre como existir neste mundo. Desde coisas como ferramentas de autorregulação emocional (como Pop Its e Fidget Spinners, em seu uso original), até dicas financeiras para pessoas que sofrem com impulsividade.

Quanto mais eu me identificava com características e experiências de pessoas autistas, mais eu me perguntava se eu mesma não tinha esse diagnóstico, mas sempre tinha uma coisa que me desclassificava. Eventualmente, eu me dei conta de que acomodações para o autismo são boas para todas as pessoas do mundo, o que continua sendo verdade. Mas neurodivergente para neurodivergente, me perceber como TDAH era só uma questão de tempo. O algoritmo foi trazendo cada vez mais pessoas com TDAH que também compartilhavam as próprias experiências e quando eu me identificava com elas, não tinha nada que me desclassificasse. Eventualmente, eu trouxe essa ideia para a terapia. Isso foi em setembro de 2020. E foi aí que o diagnostico começou.

Fidget ring, meu dispositivo preferido na história!

Uma das primeiras coisas que minha psiquiatra disse para mim é que mesmo que ela me conheça há muito tempo (desde duas semanas depois da morte da minha mãe), ela me conheceu em uma época onde eu já sabia como esconder as características mais sociais do meu TDAH. Por exemplo, aos 16 anos, eu já sabia o quanto as pessoas querem que você olhe nos olhos delas enquanto elas falam, então eu fazia isso o máximo possível. Eu também já tinha uma rotina de coisas para dizer quando eu não tinha ouvido o que a pessoa disse porque não estava prestando atenção. E quanto eu estava hiperativa, eu não mexia as pernas ou as mãos com tanta frequência, eu mordia o interior da boca. Além disso, eu tinha tanta depressão e tanta ansiedade, que os sintomas que eu tinha se confundiam justamente com a ansiedade. E surpresa! TDAH não tratado, leva à depressão.

Infelizmente, minha habilidade em esconder as características interpessoais do TDAH fez com que eu só fosse diagnosticada dois anos depois de ter me formado na faculdade — foi isso que me causou os sentimentos mais conflitantes sobre o diagnostico. Apesar de ter sido a pessoa que sugeriu a pesquisa e que insistiu até o diagnóstico (por sinal, aparentemente insistir em um diagnóstico é parte importante do diagnóstico. Porque mostra que não é só uma "ideia" que você teve, mas algo que realmente te afeta), quando eu fui oficialmente diagnosticada, no dia 5 de julho de 2021, eu senti uma sensação poderosa de luto. Finalmente, eu tinha um rótulo que explicava várias coisas que eu senti durante toda a minha vida. Mais de um na verdade, TDAH e neurodivergente. Finalmente, eu tinha certeza de que eu não era um monstro sem coração por ser distraída, atrasada e por não conseguir fazer algumas coisas, mesmo que eu quisesse muito. E ainda assim, eu me senti triste.

Oposto a este ano onde eu finalmente entendi o que sentia e finalmente pude utilizar as ferramentas a meu favor para ser não só mais funcional, mas mais feliz, eu tive 23 anos onde eu precisei lidar sozinha com todas essas sensações. 23 anos acreditando que eu era egoísta, não pelo que eu fazia com os outros intencionalmente, mas por minha natureza. Mordendo minha bochecha em carne viva para que eu não mexesse as mãos descontroladamente. Desses anos, 15 foram passados entre escola e universidade. 15 anos me sentindo burra porque eu não conseguia estudar em casa ou me concentrar na sala de aula depois de ter acordado às 5 da manhã. Toda humilhação passada em sala de aula, a sensação de que eu nunca seria boa o bastante e que mesmo nos meus momentos mais inteligentes, sempre ficaria em 3º ou 4º lugar. Esse tipo de coisa fica com a gente, para sempre. E por mais feliz que eu esteja em ter o diagnóstico, as ferramentas e as respostas hoje; por mais que eu saiba que quando eu tiver um filho, que terá grandes chances de também ser neurodivergente, eu vou ter essas ferramentas à disposição dele... Não dá para não ficar em luto por tudo que eu não tive quando estava crescendo.

Eu acho que foi uma mistura de luto com culpa que me fez lutar firmemente contra o uso de remédios para o TDAH. Eu transformei em uma batalha pessoal, conseguir me autorregular e regular minha rotina o suficiente para que eu não precisasse da medicação. E eu consegui, apesar de nunca ter conseguido adicionar o exercício à minha rotina. Minha psiquiatra sempre confiou em mim e quando eu explicava para ela meus motivos para não querer começar a medicação, ela aceitava. Mas ela insistia em quase toda consulta. Eu pensei que estava livre da recomendação na última consulta, falando sobre meu sono e minha alimentação que estavam longe de perfeitas. Então minha psiquiatra mencionou algo importante e me deu o motivo mais significativo para que eu começasse a medicação: O esforço para manter a rotina e controlar o TDAH sozinha estava afetando minha depressão e minha ansiedade.

E a medicação para o TDAH não é brinquedo! Um dos motivos pelos quais eu não menciono qual medicação eu comecei, é que as pessoas às vezes usam medicação do TDAH para se automedicar e focar nos estudos/trabalho, o que é a coisa mais imbecil que eu já ouvi falar, só pelo perigo que ela representa. Eu precisei fazer exames para o coração, medir a pressão e medir meus batimentos cardíacos durante o dia que eu comecei a medicação. 

Eu estava com medo de que minha cabeça ficasse muito quieta, ao contrário do que eu estou acostumada, que eu esquecesse de comer, que eu ficasse estranha e focada demais e que eu ficasse viciada na medicação. Como vocês podem ver no vlog que eu adicionei lá em cima, nada disso aconteceu. Na verdade, eu não tive nenhum efeito colateral e eu estou muito grata pela medicação no momento. Pelo meu nível de produtividade, porque eu não me sinto destruída no fim do dia. Porque mesmo gripada, eu consegui existir. Eu não me sinto diferente, eu me sinto melhor em ser eu mesma. E eu acho — EU ACHO — que o motivo disso tudo é que eu tenho um transtorno e a medicação que eu estou usando serve para o tratamento desse transtorno. Quem poderia imaginar que tratamento deixa a gente melhor?? E às vezes eu penso, é assim que pessoas neurotípicas se sentem o tempo inteiro?? Não é surpresa que elas achem que mandam no mundo.

Então, é isso. Eu espero que a minha história se conecte com alguém, em algum lugar do mundo, que precisa ouvir isso. Eu deixei muitas situações e traumas de fora, porque já compartilhei traumas o bastante no YouTube esta semana, mas acho que deu para ter uma boa noção de tudo.

Se quiser compartilhar um pouco da sua história, eu vou amar ouvir.
Até a próxima,
G.

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