31/08/2013

XVI Bienal do Livro Rio: Parte 1

Olááá, BOM DIA NESSAS 6H30 DA MANHÃ DE SÁBADO!!! Como vocês vão? Curtiram As Crônicas de Kat? Tentaram comentar? Porque o blogger tava uma bosta para ser comentado esses últimos dias, eu sei. Mas agora, vamos deixar a Kat viajar um pouquinho antes do capítulo 2 e fazer um superespecial em comemoração à chegada da XVI BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO RIO DE JANEIRO!
Eu vou pra lá daqui a pouquinho (saindo as 7h30 e voltando, e no dia 8 de setembro (e talvez SE DEUS QUISER dia 06 também). Depois de hoje eu vou fazer uma maratona de resenhas de livros que eu li mais recentemente e no dia 9, o resumão dos dias de festa.
Esse primeiro post vai ser atualizado durante todo o dia, e depois refeito no dia 8 para que vocês possam ficar de olho em tudo que eu vou fazer no evento. Esse gadget ↓ vai ficar atualizando o dia todo com as fotos que eu vou postar.

INDISPONÍVEL

E esse gadget, vai ficar com os posts do twitter. Vocês podem acompanhar a cobertura por aqui, atualizando a página o tempo todo, ou pelas redes sociais porque eu não ligaria de ser seguida :p

INDISPONÍVEL

Além disso, cada vez que eu fizer uma pausa eu vou postar alguma coisa aqui, falando sobre como anda o evento. NÃO DEIXEM DE OLHAR, porque eu vou tirar o máximo possível de fotos (inclusive da Carolina Munhóz e do Nicholas Sparks, entre outros) e muitas delas eu não vou conseguir postar no insta, além das atualizações que não vão poder ser ditas em 140 caracteres. Espero que vocês amem tudo <3 
G.

9h18 - Rio Centro: Acabamos de chegar e já estamos numa fila imensa. Descemos no terminal alvorada e minha mãe só reconheceu o ponto porque quem lê tem uma cara diferente. Ta uma confusão aqui na fila porque ninguém sabe onde vai ser o que.  VÃO ABRIR OS PORTÕES ANTES PORQUE TA MUITO CHEIO. TO INDO.

11h20 - O Nicholas Sparks abriu a chance de autografar os livros de TODO MUNDO QUE TA AQUI. Já tinha acabado as senhas quando ele mudou de ideia. Tem mais de 2 mil pessoas e ele vai autografar TODO MUNDO. To na fila agora. Já fui no troca-troca do #acampamento e troquei 7 livros. TEM MUITO LIVRO BOM LÁ. Vou encobrisse bateria pra tirar fotos com o Nicholas e a Carol ❤

21h06 - Home Sweet Home - Depois daquela hora, não só eu precisei guardar bateria pras fotos como o 3G ficou negativo e inoperante. Sério, até a própria Carol reclamou disso.

RESUMÃO: E aí??? Eu sei, eu sei, eu sou um doce de pessoa por ter entrado ontem morrendo de dor de cabeça só pra dizer pra vocês porque eu tinha sumido no meio da cobertura e tentar escrever o resumão, vocês não precisam dizer. Mas sério, depois daquela hora, tudo se resumiu em passar 3 horas na fila do Nicholas e depois desistir.
Quando a gente entrou no evento, fomos direto para o auditório, mas os seguranças já não estavam deixando ninguém entrar porque tinha atingido 400 pessoas na fila para a senha. Foi quando eu avisei no twitter o que tinha acontecido. Então nós fomos até o outro pavilhão ver o acampamento. Um pouquinho depois de trocar os livros na estante troca-troca (foto - esses são os meus, tem mais 2 da minha mãe e um da minha irmã), nós ouvimos o aviso no mega-fone de que o Nicholas ia atender todos e que era pra todo mundo se dirigir ao auditório Rachel de Queiroz, com calma. Acontece que a essa altura, a fila tava na Sala de Imprensa (deem uma olhada no mapa do pavilhão azul pra ter uma noção) então foi meio ilógico dizer isso. Mas foi na fila que eu vi as meninas do Leitora da Depressão pela segunda vez, e finalmente tive coragem de pedir fotos e ganhei um marcador (na foto dos livros).
Enfim, depois de algumas corridas, algumas pausas e alguns revesamentos entre eu e minha mãe para descansar um pouquinho (e muitos gritos de quem tava na frente do auditório, o que causou MUITO mimimi das pessoas que tavam na fila comigo. Tipo sério, o que vocês esperavam de um evento desse numa cidade com 6 milhões de habitantes? Damas da sociedade segurando a ponta de seus lindos vestidos com o dedo mindinho levantado? Pelamor) eu fui almoçar na frente da saída do auditório 3 a cada 5 garotas que saiam do encontro com o Nicholas saiam dizendo "ele é tão gostoso!". Será que era o Justin Bieber lá dentro? Nunca saberemos. (NÃO TÔ CHAMANDO O JUSTIN BIEBER DE GOSTOSO tô dizendo que essa é a reação que a maioria das garotas tem na frente dele).
Um pouco depois (e por isso que eu nem almocei direito), deu 13h50 e eu corri pro acampamento para pegar a senha do bate-papo com a Carolina Munhóz pelo menos pra garantir meu lugar. Fui correndo no acampamento e graças a Deus 14h, consegui pegar uma senha. Depois foi só eu voltar pra fila que mamãe desistiu. A bagunça era imensa, e não tava andando direito. Foram mais de 3 horas na fila esperando e nada porque quem tava invadindo era que conseguia alguma coisa. De acordo com o twitter da Bienal o número de pessoas foi 40% maior do que o esperado e isso causou a desorganização. Não é por nada não, mas EU AVISEI que daria muito mais gente que o estimado várias vezes essa semana. De qualquer forma, eu só posso dizer que valeu super a pena desistir da fila, curtir um pouquinho o estande da Alemanha e depois ir pro bate-papo com a Carol evento que merece um post só pra ele, como eu disse que faria.
Vejo vocês amanhã, com surpresas.
G.

28/08/2013

As Crônicas de Kat - Capítulo I

Nunca soube como fui parar lá fora, mas acordei no meio da floresta.
Respirar foi meu primeiro reflexo, mas fui atacada pelos meus próprios sentidos quando todos aqueles cheiros chegaram até mim. Um em especial se destacou e eu percebi que vinha da pequena trouxinha que se remexia loucamente embaixo de uma árvore, sem emitir um único som. A sede me atingiu tão rápido que antes que eu pudesse perceber...
- ELLIE, NÃO!
Congelei com a criatura já nos braços e os caninos a centímetros do rosto gordinho. Arregalei os olhos para a figura que aparecia por trás das árvores escuras.
- Kat?
Na escuridão completa, os contornos da pálida Kat pareciam os de um anjinho esculpido em mármore.
- Escute, eu sei que a sede é desnorteante agora, mas não mate o bebê.
Ela parecia angustiada ao dizer isso e isso era mais para se dizer que tudo que já vi em seu rosto. Só que a menção da palavra “bebê” me trouxe memórias e uma espécie de repulsa que me fez jogar a criaturinha no chão e deixar a palavra “monstro” escapar dos meus lábios.
Kat deu um salto e pegou o “bebê” no chão ninando-o.
- Não é culpa dele ter nascido como nasceu, e muito menos ser o que é. Ele pode crescer e ser o que você quiser que ele seja, Ellie. E ele é seu filho.
- Eu sinto desprezo por ele. – Rosnei, me sentindo com uma sede desesperadora. Por mais nojo que eu sentisse a medida que as lembranças chegavam, o cheiro do sangue do bebê estava me machucando.
- Não, não sente. – Kat nem piscou. Apenas continuou ninando a coisa como se fosse a mais preciosa do mundo – Desprezo é um sentimento, assim como ódio, medo ou qualquer coisa que pensa que sente. Você não sente mais. Isso são ecos, lembranças, sentidos confusos. Logo, logo isso vai acabar. – Então finalmente levantou os olhos verdes para mim – E pode começar com a aceitação do fato de que você deu a luz a uma das criaturas mais poderosas desse mundo, Ellie. Bebês meio demônios foram quase extintos. Ele é o primeiro nos últimos 400 anos.
Dei um passo para trás em sinal de recusa ao que ela dizia. Eu havia sido moldada para ver aquele bebê como a criatura que me matou, o ser que destruiu minha vida.
Os olhos de Kat se tornaram suplicantes.
- Eu preciso de você, Ellie. E você me conhece bem o suficiente para saber que eu não imploraria se não fosse realmente necessário.
Minhas lembranças sobre Kat me bombardearam com essa frase. Penso no que ela disse sobre sentidos confusos e me concentrei no que Kat havia dito sobre não sentir... E de repente não havia medo. Ou dor. Ou até a mínima repulsa. Só sangue. E meu bebê fazia parte do meu.

As Crônicas de Kat:
Ellie

Os fatos registrados em As Crônicas de Kat foram retirados dos diários de Kat e das vampiras que transformou. O primeiro foi adquirido quando Kat completou 20 anos de transformação – descrito no diário como “meu aniversário de 30 anos” - quando ela achou que já era o momento de registrar as marcas que deixaria no mundo como muitos que ela foi forçada a estudar antes de ser transformada (e por isso algumas histórias são contadas em 2ª pessoa e não como simples relatos).
As informações sobre sua transformação traumática, e as viagens de Kat antes da formação do Exército serão acrescentadas durante a história. Algumas partes necessitaram ser completadas por narrações feitas após o acontecimento dos fatos. Outras foram organizadas em uma ordem que permite a melhor compreensão dos fatos pelo leitor.
O diário é o único lugar em que Kat foi completamente sincera sobre o que acontecia com ela, porém as anotações são muitas vezes vagas e infantis. Antes de hoje as únicas que conheciam essas histórias eram as vampiras do Exército.
Eu, Olivia Bittencourt, atesto que para todos os fins o que está escrito aqui é o relato mais fiel possível do que aconteceu de verdade.

Paris, França
10 de outubro de 1864
Diário de Ellie
Disseram-me que nunca houve tanta névoa em Paris desde o ano que eu nasci. Madame Pepot costumava dizer que é assim que os espíritos viajam. Até Mary sente algum tipo de presságio ruim sobre esse clima. Eu apenas o acho condizente com meu estado de espírito.
Hoje encontrei Alec pela primeira vez desde que seu noivado saiu nos jornais. Ele estava sorrindo, de braços dados com uma garota pequena e rechonchuda de olhos azuis e um longo cabelo dourado que o mercador chamou de Angélique. Nenhum dos dois me viu, mas não acho que me ver faria muita diferença.
Vê-lo fez toda a diferença para mim. Não acredito em mim mesma quando penso que, mesmo que por meio segundo, acreditei que nós pudéssemos dar certo. Porque ele se casaria com uma órfã? Sem futuro, sem passado, sem nome? Uma Pleurer!

Diário de Kat
Eu deveria saber que era apenas uma questão de tempo até que mamãe convocasse sua “arma indestrutível” e “fonte de poder que não podia ser comparada a nada que nossa família já tivesse tido nas mãos em milhares de anos”.
Era meu aniversário de 30 anos quando minha decrépita mãe me contatou de algum lugar entre a Rússia e a Eslováquia e me disse que eu tinha uma missão em Paris para “usar meus conhecimentos reparando a bagunça que seu tio Julian tem causado”.
O QUE ELA ACHA QUE EU SOU? UMA LIGAÇÃO DIRETA PARA O SUBMUNDO? Quando eu falei sobre não ser mais uma criatura controlável, ela listou delicadamente todas as formas possíveis de me matar se eu não continuasse fazendo tudo que ela precisa que eu faça. Ou seja, eu estou sob o controle dela para sempre.
Hoje é meu primeiro dia em Paris e eu já entendi tudo. Aparentemente, meu primo Alec era apaixonado por uma órfã e prometeu casamento assim que ela tivesse idade suficiente para mandar em si mesma. Porém, Julian com medo de perder ótimas chances de estender o poder do bom nome que criou, evocou um espírito qualquer para possuir o filho e dar fim em sua paixão.
Eu não entendo muito sobre o amor, mas entendo o instinto e as pessoas dessa família não deveriam ter algum tipo de instinto paternal? Quer dizer, vale mesmo a pena destruir a alma do seu próprio filho e substituir por um demônio qualquer simplesmente porque ele foi burro o suficiente para se apaixonar? Esse tipo de estupidez – e com estupidez eu quero dizer a paixão - acontece com uma frequência perturbadora.

11 de outubro
Diário de Ellie
Consegui um emprego! Irei substituir Mary!
Ela finalmente conseguiu o emprego de professora que tanto queria e pediu a Madame Pepot para me contratar para cuidar das crianças e, já que eu sempre fui muito boa com os mais novos, ela nem hesitou em aceitar.
Eu sei que tudo dá a impressão de que eu não quero seguir em frente e deixar o orfanato para trás, mas eu realmente preciso de um pouco de estabilidade antes de começar a viver de verdade.

Diário de Kat

Retirado de um jornal em Paris
O corpo de Claudette Gnoi foi encontrado essa manhã, banhado no próprio sangue e com feridas em diversas partes, em frente ao Orfanato Pepot. A família encontra-se desolada e traumatizada.  A polícia busca qualquer tipo de informação sobre pessoas vistas nos arredores na noite de ontem.

Só isso? 3 horas dedicadas a matar lentamente aquela pobre criatura e tudo que a morte ganha é uma nota de rodapé?
É, fui eu quem fiz isso. Corpos banhados em sangue são a minha nova assinatura psicopata. É como um toque de brilhantismo aos jantares da meia noite. Quando acham um corpo sem sangue deduzem que foi um vampiro, mas quando acham um corpo banhado em sangue acham que foi um maníaco sádico qualquer. Mas advinha só? Vampiros SÃO maníacos sádicos.

12 de outubro
Angélique é a pessoa mais entediante da face da terra. Fui forçada a passar horas com ela, agindo como humana e foi tão terrivelmente chato que eu nem tive forças para ficar imaginando como seria destroçar aquele pescoço gorducho (o que sempre faço para me distrair quando estou com humanos).
Eu sei que sangue é sangue, mas eu não estou faminta, muito pelo contrário, e mesmo que a vida de um vampiro se resuma em sangue nós gostamos de fazer da experiência a mais divertida possível. Prolongando nosso mortífero gozo, com o requinte de um gastrônomo e ampliando-o através das progressivas investidas de uma ardilosa abordagem.
Quero dizer se você estivesse com fome e pudesse escolher entre preparar um cozido de anchovas com cebola, alho e salsa e um peru assado recheado com passas, bacon e pedaços de maçã o que escolheria?
Voltando ao assunto, em algum ponto no meio da infinita conversa de Angélique sobre todo o bordado que ela teria que fazer para o enxoval de seu casamento, titio Julian chegou e me levou até sua sala para conversar.
Aparentemente, meu dever aqui é descobrir que tipo de demônio ele evocou para possuir Alec. De repente, só porque eu fui obrigada a me encontrar com alguns espíritos do baixo escalão, eu me tornei a especialista da família em Inferno.
Quando eu perguntei por que ele queria tanto assim saber qual o tipo de demônio se no final ele só mataria Alex e possuiria o próximo babaca que se atrevesse a invocá-lo, ele me contou que aparentemente o corpo de Alec teve uma reação... curiosa, ao ver sua antiga noiva.
O que significa que meu primeiro passo é conhecer a tal Eleanor. Ou melhor, Ellie.

16 de outubro
Diário de Ellie
Não consigo dormir, e sei do que é a culpa.
Por mais que eu acredite que ao colocar em um papel eu estou dando mais poder aos fatos do que deveria, sei que eu preciso registrar para que eu tenha certeza que aconteceu, sem a influência das histórias de terror de madame Pepot.
Há 4 dias uma garotinha (que afirma ter 14 anos, mas não parece ter mais de 10) apareceu ensanguentada e esfarrapada na porta do orfanato, pedindo abrigo. Seu nome é Katerina, mas logo fez com que todos a chamassem de Kat. Ela é uma criaturinha irritante e irritável com olhos verdes enormes e um rostinho que deixaria os anjos de qualquer afresco com inveja.
Eu arrumei um lugar no quarto das meninas, preparei um banho e comida, mas ela só aceitou o primeiro, depois se vestiu com roupas confortáveis que peguei emprestado de Eileen.
Como as mortes na Rue Saix estão aumentando de número todas as noites, Madame Pepot permite que eu vá para casa mais cedo, logo, hoje eu fui liberada as 16hrs.
Já estava me preparando para sair quando François, uma das crianças mais novas mais novas do orfanato, apareceu cambaleando pelo corredor com uma ferida no pescoço. Corri até ele e perguntei o que tinha acontecido, mas ele apenas ficou repetindo “um gatinho, um gatinho” e como parecia com febre imaginei que estivesse delirando. Voltei lá para cima, e dei um banho nele e o ajudei a pegar no sono. Então procurei por Kat por tudo o lugar para pedir que mantivesse o olho em François durante a noite, mas como não pude encontrá-la, deixei um bilhete pendurado na porta do quarto e rezei para que ficasse tudo bem.
Quando saí, já estava bem escuro, então redobrei a atenção. A rua estava deserta... Por isso quando o grito cortante soou, ele ecoou por cinco quarteirões. Assim como o silêncio aterrador que veio em seguida.
Eu sabia que não podia fazer muito pela pessoa e provavelmente só me colocaria em perigo, mas eu estava muito perto do orfanato para não me preocupar com o que aconteceria em seguida, então segui o eco do som e dei de cara com o pior cenário que poderia sonhar: um corpo estava jogando no chão em uma posição medonha.
Perfurações apareciam em todas as partes visíveis e o sangue escorria delas com tanta força que o som se assemelhava ao de uma torneira. O rosto estava desfigurado, com a língua para fora e cortada na metade, os olhos já estavam fora da órbita havia muito tempo, mas os dois buracos negros ainda tinham a expressão de pânico da morta.
Justo quando me perguntava que tipo de criatura infernal tinha feito aquilo, eu vi a bolinha completamente negra que se mexia em volta do corpo. O gatinho se esgueirava ao lado do corpo lambendo cada ferida habilidosamente e levando, a cada lambida uma bela quantidade de sangue.
Eu engoli em seco, e o som pareceu tão alto que chamou a atenção do gato para mim. Ele parou e levantou os olhos, verdes e brilhantes como folhas, parecendo me olhar diretamente e por meio segundo eu tive a impressão de que reconhecia aqueles olhos verdes de algum lugar... Então eu corri.
Ao chegar em casa, me joguei na cama e me cobri até a cabeça, com o coração aos pulos e implorando para que o sono acabasse com o que vi, mas não consegui pregar os olhos nem por um segundo o que me trouxe até este diário.

Diário de Kat
Incubus. O demônio sexual que toma a forma de um homem e ataca mulheres a noite.
É uma lenda interessante, mas mal interpretada. O íncubo toma o corpo de um homem (apenas homens belos, aliás) e não ataca só mulheres e não só adormecidas.
O demônio só usava o corpo das mulheres para reprodução. O bebês são meio humanos (na parte física) e meio demônios (na parte espiritual). Com aparência humana, mas imortais e com o poder igual aos do que a gente chama de “demônios do baixo escalão”, ou seja, aqueles que são mandados para terra em possessões. De qualquer forma, não existem bebês meio humano e meio demônios desde a idade média.
Eu só estou falando tudo isso porque foi esse o demônio que titio invocou acidentalmente. Dentre todos os demônios existentes no Inferno, ele invoca justo a espécie mais imprevisível e incontrolável. Se eu sentisse alguma coisa, eu quase sentiria pena de Angélique.
Tudo que eu precisei fazer para descobrir porque “Alec” reagiu ao ver Ellie, foi me aproximar dela um pouco. Assim que adquiriu confiança em mim, ela me contou tudo sobre o noivado, e eu descobri que eles já tinham se conhecido no sentido bíblico do termo. É óbvio que o íncubo iria se sentir atraído pela última parceira física do hospedeiro.
Agora nada disso importa, titio já sabe de tudo e meu trabalho está terminado. Ou quase. Eu iria embora de Paris hoje... Se não tivesse me deixado seduzir por Ellie.
Não no sentido sentimental da coisa toda, óbvio, mas tem algo de atraente na força, na coragem, na beleza e na história dela que me faz lembrar da primeira ordem: multiplique.
Ela daria a vampira perfeita, e eu tenho me divertido tanto criando a “rua de sangue", que acho que a única forma de ir embora de ir embora da cidade agora é deixando uma herdeira.

27 de outubro
Diário de Ellie
Duas outras crianças apareceram machucadas e delirantes hoje de manhã. E o total de mortes na Rue Sainx chegou a dezessete. Todas violentas e macabras como a que eu vi.
Essa tarde, eu e Kat estávamos no quintal do orfanato lavando toalhas sujas com o sangue das crianças. Kat esfregava cantarolando uma canção em uma língua romena e encarando a água vermelha com toda concentração do mundo.
A cena era encantadora. Fazia com que eu pensasse em crianças de uma Europa distante e desconhecida, usando roupas coloridas, brincando em uma floresta a beira de um riacho, enquanto uma garotinha pobre lava roupa imaginando quando pode se juntar a eles. Alguma coisa dentro de mim me fazia pensar que talvez a música falasse sobre isso.
- Onde você aprendeu essa música? – Perguntei, quando ela terminou.
Kat afundou a toalha que segurava na água e puxou de volta lentamente, e, segurando um suspiro, respondeu:
- Onde mais? Na Romênia.
- Você já esteve lá?
Mais uma vez ela terminou de lavar uma peça antes de responder.
- Eu já estive em toda Europa, Ellie. Em florestas escuras, em montes nevados, onde os sábios habitam e a comida é intragável. - Ela começou a torcer as roupas e as colocar em uma bacia. Iríamos usar as mesmas toalhas para diminuir as febres. - Conheço as pestes. – Ela disse depois de um tempo. Seus olhos pareciam sem foco, se lembrando de algo passado. – Conheço as bruxas. Sei de histórias que deixariam seus cabelos em pé. Vi coisas que se transformariam em seus piores pesadelos.
Naquele momento a imagem do gato me veio na cabeça. Os olhos dela eram os olhos do gato. Eu sabia que era ela.
- O que é você? – Deixei escapar entre dentes.
Então ela voltou a si.
- Como?
Fiquei tão em choque quando os olhos dela voltaram ao normal gigantesco e doce, que não consegui voltar a perguntar. Balancei a cabeça, e ela terminou de arrumar as tolhas.
Mais tarde perguntei como ela podia saber tanto sobre a Europa sendo tão jovem. Ela ergueu os olhos, deu de ombros e disse algo que soou como alemão então se virou e voltou para dentro do orfanato com a bacia nas mãos.

29 de outubro
Diário de Kat
“Laß sie ruhn, die Todten.” Deixe os mortos em paz.
Eu sei que Ellie sabe.
Eu vi a certeza em seu olhar quando eu falava sobre minhas viagens.
Não sei porque, mas não me importo que saiba e ela prefere ignorar o que sabe. Tudo que ela queria era uma amiga, e eu apareci me tornando isso. A órfã estrangeira, como ela. E é por isso que independente de que criatura assassina ela imagina que eu sou, ela não vai me denunciar. Ou fazer qualquer outra coisa que um humano normal faria.
Ah, Ellie... De todos os poemas alemães que eu li escondida quando criança, Lenore sempre foi meu preferido. Aquela que ama o morto e mantém nele sua fidelidade, com a morte compactua e à morte sucumbe, mesmo que tudo que tenha feito seja simplesmente amar.

31 de outubro
Diário de Ellie
Longa manhã arrumando os preparativos para a festa de Halloween. É claro que madame Pepot vai fazer seu discurso sobre os demônios de outubro para as crianças, que imploraram para que a tradição fosse seguida, mesmo com Mary fora do orfanato. Mas estou divagando. Nenhuma dessas coisas é mais importante para ser relatada do que o que aconteceu noite passada.
Kat foi embora... Começar por essa frase prova como minha cabeça está bagunçada e quão confusa estou. Ela não foi embora, apenas deixou o orfanato. Não podia mais ficar. Deus, porque não começo do início de uma vez por todas?
Ontem a noite eu já estava deitada, quando a camareira bateu à porta e disse que uma garota queria me ver. Eu me assustei com isso, mas pedi para que a deixasse entrar.
Era Kat. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, e suas mãos... Cheias de sangue. Ela tinha matado alguém outra vez, mas pela primeira vez sentiu medo.
Quando eu pedi que explicasse tudo, ela me contou sua história: Sua mãe era uma bruxa que a transformou em vampira faz bastante tempo (ela não disse quanto). Não podia controlar seu instinto de matar pessoas. Não imaginou que tantas consequências pudessem vir do que havia feito. Ela estava tão confusa e tão perdida que nem percebeu que o sangue em suas mãos vinha de um corte, imenso acima dos pulsos.
Quando percebeu, o desespero dela pareceu aumentar e ganhar proporções gigantescas. Ela disse que se não tivesse sangue humano não poderia se curar! Não pensei duas vezes antes de oferecer o meu a ela, eu parecia naturalmente inclinada a isso, como se algo dentro de mim estivesse pedindo por isso.
Ela negou. Mas como continuou chorando, eu fiz antes dela, como fazemos com crianças no orfanato. Puxei seu pulso e me aproximei do sangue, achando-o menos repulsivo que geralmente acho.
Por meio segundo, um arrepio tomou conta de mim quando percebi o quanto o sangue dela era frio, mas me afastei com o susto e a sensação passou.
Então entreguei meu pulso para ela. E ela me mordeu. Foi mais doloroso do que podia imaginar, mas acabou rápido, pois ela jurou que não me machucaria de forma definitiva. Então disse que agora estávamos ligadas, para sempre, porque tínhamos trocado sangue. Nós duas nunca mais ficaríamos sozinhas.

Esse ponto é o último no diário de Ellie. Ela se sentiu tonta então e desmaiou, acordando apenas quando o despertador do quarto badalou o horário da festa de Halloween. Se quiser conhecer o trecho perdido da história, leia Haunted.

- Não importa o que acontecer, não ataque o bebê. Haverá consequências. – A frase fez com que Ellie voltasse a prestar atenção em mim. Ela apenas soltou um rosnado, então eu sorri – Você deve estar com sede. Vem, vamos ao vilarejo. É noite de festa.
Havia muitas coisas que eu não podia prever quando quis transformar Ellie. O demônio em Alec era a primeira. Os padrinhos imortais sabe-se-lá-de-espécie de Ellie a segunda. O nascimento de um bebê meio demônio, a terceira.
A criaturinha ressonava apertada contra mim então, com o coração aos pulos, mais rápido do que de qualquer humano. Ele tinha os olhos de Ellie, talvez um pouco mais escuros, e todo o resto de Alec. Mas ele não é filho de meu primo. Ele era o ser mais poderoso deste mundo.
Antes de me transformar minha mãe me fez ler diários, cartas e até ficção para que eu fosse muito poderosa do outro lado. Mas eu nunca seria tão poderosa quanto eles. Até que Ellie veio e mudou tudo.
- Precisamos de um nome. – Eu disse animada depois de um tempo.
Ellie parecia entediada, os olhos frios.
- Você escolhe.
- Tem que ser grande, importante, poderoso...
- Eu estou com sede, Kat. – Ela me interrompeu.
Nesse ponto, estávamos próximos da aldeia, onde uma festa acontecia.
- Vê isso? – Eu apontei na direção das pessoas – Todos da festa? São todos seus.
- Todos? – Ela arregalou os olhos, hesitando por trás da sede. Presa as lembranças de humanidade.
- Sim.
- Mas são muitos, Kat!
- E...? – Revirei os olhos - Eu sempre sou julgada por criar banhos de sangue. Um humano a mais, cento e sessenta e quatro a menos, que diferença faz?
Ellie ainda hesitava quando paramos no meio da festa.
- Ellie. Piedade é um sentimento.
Os olhos dela brilharam e ela finalmente entendeu o que eu quis dizer. No fim da noite, eu tinha Ellie, um bebê demônio, e uma cidade fantasma.
- Pierre. – Ellie disse, deitada no chão, vendo o sol nascer.
- Pierre?
- Um nome forte, importante, poderoso. O nome do primeiro homem que matei.
O bebê aceitou o nome com um gorgolejar suave.



19/08/2013

Haunted - Atualizado

Oi oi oi. Tudo bem com vocês? Como vai a vida? Como vai a escola? (falando nisso tá na hora de eu fazer a lista de notas da escola pra ver quanto falta de uma vez. Eu achei meu boletim do ano passado no meu diário e aquilo me deixou até envergonhada... Ai peraí, eu tô divagando de novo).
Enfim como prometido, mesmo com uma semana de atraso, aqui está uma versão totalmente atualizada de Haunted conto que deu origem a Ellie, a primeira vampira transformada por Kat em As Crônicas de Kat que estreia dia 28, às 21hrs, aqui no blog e também primeiro conto que eu escrevi e postei, lá nas terras longínquas de 2011 na época em que o blog ainda era o puccasecrets. Espero que vocês gostem.


Uma das necessidades da mente humana é entender tudo que acontece à sua volta. Em um mundo de milhões de anos e bilhões de habitantes não há sequer uma pessoa que entenda tudo. Por isso o conhecimento antigo é passado a cada geração. Entretanto ninguém pensa ou compreende as coisas da mesma forma, então quem pode nos garantir que o que sabemos e conhecemos hoje é a verdade? Quem pode separar o mito da verdade? E se a mensagem que os povos antigos estivessem tentando passar fosse outra?

Paris, 31 de outubro de 1864
Em um país como a França, quando existe medo na capital, existem grandes chances de se tornar pavor nacional. As mortes que fizeram a rua do Orfanato Pepot receber dos jornais o título Rue Sainx, são um excelente exemplo.
Mesmo sendo noite de Halloween e tendo visto o que vi há alguns dias, eu sigo pelos corredores estreitos, espalhando "Bonnes soirées" cada vez que encontro alguém. Quando viro na rua do orfanato sinto meu coração saltar ao ouvir um grito. O som é agudo e desesperado, como alguém precisando de ajuda. Corro na direção dele imaginando que seja alguma criança precisando de ajuda. Mas quando paro na frente do orfanato me deparo com um silêncio que só pode ser definido como de túmulo. Então me lembro da lenda:
Era a noite de Halloween de 1856 no orfanato. A Srª Pepot nunca gostou do dia das bruxas. Ela é religiosa e costumava dizer que era como comemorar a existência de demônios. Já Mary, dizia que as crianças tem que ver o lado positivo de comemorações. De qualquer jeito, eu só tinha sete anos quando a Srª Pepot reuniu todas as crianças para contar uma história:
- Dizem que esse orfanato foi construído em cima de um local de rituais satânicos. E que diversas feiticeiras morreram aqui em 1358. As bruxas em questão por vingança quiseram mandar seus pequenos amiguinhos do inferno para amaldiçoar esse lugar. E eles passam todo outubro observando o local.
"Quando Jean me contou isso, eu pedi que ele abandonasse a casa, mas ele não quis. Preferiu ficar por vocês. Por isso oramos todas as noites, crianças. Para nos protegermos deles. Nunca se sabe que demônio você vai encontrar aqui em outubro. E nunca se sabe o que ele vai fazer com vocês. É impossível fugir. Se acontecer com vocês, só peçam uma morte rápida. Assim poderão ser poupados de muita dor."
Não preciso dizer que não dormi aquela noite.
Abro a porta a minha frente com a voz de Srª Pepot, ecoando:
- É impossível fugir.
Ouço outra vez o grito desesperado, que agora me paralisa. Sinto meus olhos se encherem de um liquido que não consigo identificar e que os faz queimar. O liquido em questão escorre até meus lábios e ao tocar com a língua descubro que é exatamente o que temia. Posso sentir, gotas e mais gotas de meu sangue escorrerem através de meus olhos sujando meu vestido e até meus sapatos. Sei que pode ir embora se eu parar de chorar mas não consigo. A ideia de uma morte dolorosa e trágica aos quinze anos parece ridícula, até que ela seja iminente.
- Nunca se sabe que demônio você vai encontrar aqui em outubro. E nunca se sabe o que ele vai fazer com vocês.
Eu fecho os olhos tentando evitar as gotas de sangue que deixam a sala com cheiro de metal. Ouço passos na escada que me deixam tensa. E então paro de ouvir qualquer coisa.
Sou tomada por uma dor lancinante, como uma enxaqueca que parece vir de todos os meus ossos e se espalha por meu corpo me tirando todo o ar. Eu poderia gritar, mas dói tanto que minha boca não pode se mexer. Eu fico paralisada de dor.
- Se acontecer com vocês só peçam uma morte rápida. Assim poderão ser poupados de muita dor.
Eu começo uma lenta oração, entrecortada por pura agonia, pedindo para que pare. Então sou capturada por olhos azuis tão claros quanto o céu em um dia ensolarado.
- Eleanor. Sabia que viria.
Então tudo é uma sequência infinita de dor. E quando parece que o fim é impossível, vem o silêncio.
Ouço vozes. Sinto frio. Não, é mais do que frio. Me sinto fraca como se qualquer força vital tivesse sido esgotada e ainda estivessem tentando roubar mais. Respirar se torna a coisa mais difícil do mundo e falar está fora de cogitação. Então eu espero. Apenas espero.
É como se acompanhasse uma cena distante. Ouço o barulho de algo gotejando e sei que é meu sangue pelo cheiro. Sei que estou afogada em uma poça com meu sangue, como aquela garota que vi há alguns dias. Mas a lembrança vem cheia de uma névoa perturbadora. Minha garganta queima, assim como meus olhos, e sou forçada a acompanhar tudo isso sem poder fazer nada para impedir. Isso é a morte? Não deveria doer.
Então eu ouço outra vez as vozes.
- Ei, ela está viva!
- Você consegue me ouvir?
- Acho que não.
- De qualquer jeito, temos que levá-la.
- Certo, vou carregá-la.
Então tudo fica escuro outra vez.
Quando abro os olhos, a primeira coisa que vejo é o mar. Em seguida percebo que estou deitada em uma cama com dossel olhando para a janela de um quarto cor-de-areia. Me sento olhando em volta e tentando me lembrar.
- Ah, você acordou. - Uma mulher diz entrando no quarto, segurando um vestido.
Ela tem um leve sotaque inglês por trás de um Francês impecável. Tem a pele de um tom oliva, olhos castanhos e os cabelos muito cacheados caindo sobre os ombros. É só um pouco mais alta que eu e parece ser só um pouco mais velha também, apesar de eu não fazer ideia de quantos anos tenho. Olho para o espelho a minha frente e respiro fundo tentando lembrar quem é a estranha de cabelos escuros e olhos azuis gelo à minha frente.
- Meu nome é Faith. - Ela diz se sentando a minha frente - E o seu?
- Eleanor. - Diz um homem entrando no quarto. - Eleanor Pleu-rer. - Ele diz o último nome devagar e uma parte de mim sabe que ele só faz isso para destacar o fato de eu ser uma órfã.
- Ellie?
Ele balança a cabeça. Vai até a penteadeira. Eleanor. Esse nome não faz sentido para mim.
- Desculpem-me. - Digo cobrindo a perna com uma mantinha. - Vocês podem me dizer o que aconteceu?
- Não se lembra? - Faith pergunta.
- Não. De nada.
- Isso é bom, Peter?
- Eu não diria exatamente bom. - Peter diz cruzando os braços.
Eu suspiro. Como não sei o que aconteceu não sei o que pode ser bom ou o que pode ser ruim.
- Diga sua teoria. - Ela diz, em inglês, que por algum motivo eu entendo.
- Você pode achar ridículo, mas eu acho que foi um íncubo.
- Como?
- Um íncubo. Conhecido demônio que procura mulheres indefesas e as ataca.
- Certo. Você sabe que eu sou bem cética em relação a isso, mas as lendas não dizem que o íncubo procurava mulheres adormecidas?
- Como você mesma disse é uma lenda. Ele é o mais próximo de um vampiro que existe. Ele precisa de sangue. E raramente deixa suas vítimas vivas.
- Mas ele a deixou viva.
- É isso o preocupante. O único motivo pelo qual o íncubo deixa suas vítimas vivas é reprodução.
Faith leva 30 segundos para entender. Então prende a respiração.
- Mas... Ela tem quinze anos.
- Não é o tipo de coisa que um demônio respeite.
Faith balança a cabeça sem olhar para mim. Imagino que eles pensem que eu não posso entender o que dizem.
- Como você sabe tanto?
- Meu avô era exorcista.
- Conte-me tudo. - Ela diz com uma ênfase nervosa.
- Certo. O íncubo geralmente está preso a um lugar ou a uma linhagem sanguínea. No caso de Eleanor provavelmente tem algo a ver com o lugar, mas deve existir um motivo para ele ter deixado Ellie viva e não outra pessoa. Ao contrário do que as pessoas pensam, o íncubo não é como um espírito. Ele é mais como um parasita. Ele suga toda alma do hospedeiro destruindo-a e usa o hospedeiro para matar e reproduzir, antes de se livrar da casca vazia.
- E o que exatamente esses "bebês" se tornam?
- Meio humanos, meio demônios.
- O que exatamente isso significa?
- Não sei dizer ao certo, Faith. São muitas lendas e muitas histórias para conseguir distinguir a verdade do que é só lenda. E de acordo com o que dizem, não existe um bebê meio demônio há mais de 400 anos. Eles geralmente morrem antes de atingir a idade adulta.
Ela se vira e me lança um olhar triste.
- E o que isso significa para ela?
- Nós temos que ser realistas. Não acho que isso vá acabar bem.
- Eleanor pediu para que cuidássemos dela, Pete. Devemos isso a ela.
- Eu sei, querida. Vou fazer o máximo que puder para salvá-la, eu prometo.
Peter a abraça e eu me encolho na cama.
- Vocês podem me dizer o que aconteceu? - Repito.
Faith desvia dos braços de Peter e se senta na cama a minha frente.
- Você estava no Orfanato Pepot no Halloween. Foi atacada e perdeu boa parte de seu sangue. Ficou desacordada por quatro dias.
- Não é só isso... Eu não me lembro de nada.
- Nada?
- Também está nas lendas. - Peter diz em inglês - Ele vai tirar tudo dela, Faith.
Vejo lágrimas se formarem nos olhos dela, mas ela as controla.
- Existe muito que deve saber, Ellie. Mas agora... não está com fome?
- Sim. Muita.
- Trarei alguma coisa. Acha que consegue se trocar?
- Claro.
- Então a deixaremos sozinha durante alguns minutos. Peter.
Peter sorri e sai do quarto acompanhando Faith.

- Eu conheci sua mãe em 1809 em Londres - de onde nós duas somos. Assim como eu e Peter, ela pertencia a uma espécie diferente. Não sei como poderia explicar para você. Apenas considere que somos imortais.
Eu balanço a cabeça concordando. Olho outra vez para a janela e para o mar.
- Em 1845, ela conheceu seu pai. Ela o amava de verdade e desistiu da imortalidade por ele. Se mudaram para Paris quando ela já estava grávida de você e só voltamos a nos ver em seu batizado. Quando você tinha dois anos, eu li a notícia de que um incêndio havia acontecido em Paris deixando apenas uma garotinha viva. Não recebia notícias de sua mãe haviam meses e senti imediatamente que aquela garotinha era você. Corri até a França, mas cheguei tarde demais. Acabei perdendo você e passei os últimos anos a procurando. Foi por isso que fomos ao orfanato. Você cresceu lá e estava trabalhando lá há algumas semanas, substituindo Mary. Ela entrou em contato com a gente quando soube que a procurávamos. Quando eu e Peter chegamos lá, encontramos a verdadeira carnificina. Todas as crianças, Mary e um garoto que não conhecemos estavam mortos. Madame Pepot não pode ser encontrada. E você estava desmaiada na poça do seu próprio sangue. Você tem sorte em não se lembrar.
- Desculpe-me, mas eu não vejo nenhum machucado, como eu posso ter perdido tanto sangue?
- Digamos que Peter e eu não achamos que tenha sido... Um acontecimento normal.
- Seria algo como um demônio?
- Sim. Como o vampiro das histórias antigas, mas de uma forma diferente.
- Mesmo assim, eu não estou machucada. Como ele pode ter tirado meu sangue?
Faith desvia o olhar imaginando como dizer isso para mim. Então eu me lembro. A dor lancinante, o cheiro forte de metal, a paralisação, o demônio entrando em meu corpo. Então a dor me possui outra vez. Ouço meus gritos através de uma névoa de dor. O som queima meus ouvidos e eu sinto meus olhos arderem como se estivessem em chamas. Quando tudo passa, estou agarrada a Faith com a respiração ofegante.
- Está tudo bem, querida. - Ela sussurra.
- Acho que isso confirma o que eu pensava. - Peter diz se sentando na cama.
Eu permaneço encolhida nos braços de Faith com medo e suando frio. Peter suspira.
- Você terá que ser forte, Eleanor.
- Vocês acham que aquela coisa deixou um filhote em mim. - Digo, soluçando. - Estou com medo
- Vai ficar tudo bem, Ellie. Eu prometo.
- Faith, eu sei falar inglês.

Faith e Peter saem do quarto quando eu começo a cochilar. Mas não pego no sono antes de ouvir eles conversarem no quarto ao lado.
- Foi a primeira vez que ouvi você mentir. - Peter diz, calmo.
- O que você queria que eu dissesse? Que ela vai morrer? Ela tem quinze anos, Pete. Eu não imagino como ela vai poder conviver com o fato de ter perdido as pessoas que conhecia em um massacre, ter sido atacada por um demônio e ainda estar carregando uma criatura dele se ela não tiver uma perspectiva de final feliz?
- Eu sei que isso a deixa triste, mas temos que ser sinceros com ela. Ela vai precisar ser forte para enfrentar isso.
- Eu sei. Mas estou com medo.

Acordo na manhã seguinte e visto o vestido que Faith deixou em cima de uma cadeira. Quando olho no espelho, deixo minhas mãos caírem sobre o volume sob o vestido. Prendo o cabelo, me controlando para não chorar. Não tenho sequer nove meses. No máximo alguns dias. Engulo em seco e saio do quarto indo até a cozinha onde encontro Faith cozinhando.
- Bom dia. - Digo indo até o fogão onde ela está.
- Bom dia, querida. Está se sentindo bem?
- Dentro do possível. Vim para ajudar.
- Não precisa, Ellie. Você precisa de descanso.
- Não por enquanto. Eu posso ajudar agora.
Faith me entrega uma vasilha onde ela tinha começado a bater um bolo para o café da manhã. Começamos a conversar. Ela me conta histórias sobre minha mãe e até começamos a rir. É uma sensação boa.
Quando o café fica pronto, comemos. Peter foi para Paris. Então quando acabamos sinto sangue escorrer pelo meu nariz. Faith está ao meu lado antes que eu possa perceber.
- Ah, querida.
Eu tosso e cuspo sangue. Faith me leva até o sofá tenta me consolar. Eu tenho o mesmo espasmo de dor que tive na noite anterior, é como se me sufocasse. Sinto meus ossos pipocarem, a dor sufocante. E o cheiro de sangue. Começo a engasgar com o sangue que entra pelo meu nariz, queimando meus pulmões. Então para.
- Ótimo. Ainda posso diminuir a dor.
Eu ofego algumas vezes e percebo que as minhas mãos estão inclinadas sobre minha barriga de uma forma protetora. Mas a última coisa que quero no mundo é proteger o que quer que seja isso que esteja crescendo em mim. Eu o odeio com todas as minhas forças.
Dois dias inteiros se passam, enquanto o pequeno monstro cresce em mim. Hoje não consigo sair da cama direito e divido o tempo entre dormir e beber litros de água e comer a comida que Faith deixa de vez em quando. A coisa costuma não me faz vomitar o que como, mas rouba toda a energia que essa comida me dá. Está quase anoitecendo quando caio no sono.
Sonho que estou em um jardim. Corro pelo lugar, fugindo de alguém. Então sou derrubada por meu perseguidor. Ambos rimos e quando ele se vira, sou tomada por olhos azuis tão claros quanto o céu em um dia ensolarado.
- Eleanor. Sabia que viria.
- Se me pegarem aqui eu estou perdida.
- Só até a semana que vem, minha querida. Então poderemos nos casar.
Eu rio.
- Parece até um escritor romântico falando. Com ambições muito grandes para aquilo que você realmente pode alcançar.
- Não acredite no que dizem, Ellie. Meu pai não irá me deserdar se me casar com você.
- Até porque um conde sempre sonha em ver seu filho e herdeiro casado com um orfã de origem estrangeira.
- Inglesa. E não há provas de que você não seja nobre.
- Talvez eu seja uma princesa perdida. - Digo ironicamente.
- Não haja como se não fosse possível.
- Calado, Alec! Me faça acreditar que vamos mesmo poder nos casar.
- Não há dúvidas de que isso vá acontecer, minha Ellie.
Alec me beija de uma forma que me faz mesmo acreditar em suas palavras. O sonho prossegue de uma forma que me faz esquecer de qualquer pesadelo que esteja vivendo.
Acordo gritando de dor e sufocando. Tudo fica bem pior quando sinto minha pele se rasgar e sinto sangue escorrendo por minha perna. Grito ainda mais, o que piora a dor na cabeça e nos ossos. Faith entra no quarto com uma toalha na mão. Ela não consegue mais parar a dor, apenas deixa as crises - que estão sendo cada vez mais longas e piores - passarem. Sinto que uma eternidade se passou quando a dor para. E levo outra eternidade para me recuperar.
- Eu... - Digo quando Faith usa uma toalha para limpar o sangue em minha perna. - Eu... Descobri...
Soluço.
- Calma, Ellie. Não se esforce.
- Eu descobri... - Tusso cuspindo sangue - Descobri.
Respiro fundo e acabo engasgando.
- Ellie!
Sinto como se a criatura estivesse crescendo ainda mais dentro de mim.
- Faith, eu descobri... A ligação entre eu e o íncubo... E o hospedeiro. Eu era noiva do hospedeiro... Alec... Ele iria se casar comigo... Quando eu fizesse quinze anos... Não sei o que aconteceu... Eu...
- Está tudo bem, Ellie.
Ela me puxa devagarzinho para o seu braço. Eu estou tonta. Estou nervosa. Mas de meia hora se passa e eu já estou calma quando digo:
- O que você vai fazer quando a coisa nascer?
- Não sei.
- Prometa que vai matá-lo.
- Ellie.
- É um monstro, Faith. Um monstro. Você não vê o que ele está fazendo comigo?
- Não é isso, querida. É que o que eu sinto agora, é diferente de como vou me sentir quando ele nascer.
- Não é um bebê, Faith, é um monstro. - Começo a chorar. - Prometa que vai matá-lo, por favor, prometa.
- Eu prometo, Ellie.

9 de novembro de 1864.
Pode ser definido como o último dia da minha vida.
O dia em que fui morta pelo meu próprio bebê.
Tudo começou quando acordei. E entrei em trabalho de parto. Eu podia senti-lo saindo do meu corpo e usando qualquer meio para isso. Eu o sentia queimando e machucando cada centímetro do meu corpo. Não me lembro de visto nada além de vermelho. Não me lembro de ter ouvido nada além de meus gritos e minha pele sendo rasgada em partes cada vez menores. Não me lembro de ter sentido nada além de dor e o cheiro de sangue, sangue e mais sangue. Sufoquei no meu sangue, bebi meu sangue e vomitei meu sangue. Senti meu sangue escapar do meu corpo. Senti lágrimas de sangue em minha bochecha e cada vez mais sangue a minha volta. Tudo em minha volta pulsava em um vermelho tonto e cheirava a ferro. Eu podia sentir a coisa me partindo de dentro para fora. Tudo doía e sangrava.
Até que acabou. O fim pareceu mais pacífico e doce. Uma calmaria depois da tempestade. Como acordar de um pesadelo. E a última coisa que eu ouvi foi seu choro.