As Crônicas de Kat - Capítulo II

by - 21:04

As batidas do coração de Pierre funcionavam como um relógio para mim.
3 por segundo.
180 por minuto.
Eram a prova gritante de que ele ainda estava acordado, a despeito do que Ellie ordenara. Ele estava deitado sobre um túmulo, com os olhos apertados de forma dramática, enquanto eu tentava ignorar seu cheiro. Aquele cheiro de sangue.
- Kat?  - Ele perguntou depois de um tempo, arriscando abrir um olho e depois o outro.
- Sim?
- Mamãe demora?
- Não muito, Pierre. Durma como ela mandou e tudo vai ficar bem.
Eu sabia que ele estava com medo, mas não conseguia me concentrar nisso. Tudo que eu sentia era sede.
Um dos lados positivos de ser humano ou demônio (ou os dois) é que você tem todos esses sentimentos para distrair da necessidade de se nutrir.
- Kat? – Ele chamou outra vez, soando cansado, mas nervoso.
Esforcei-me para ser pelo menos condescendente. Já que na idade dele eu tinha visto coisas muito piores do que as que aconteceram naquela noite, de forma nenhuma conseguiria ser compreensiva.
- Sim, Pierre?
- De onde criaturas como nós viemos?
Precisei de um certo esforço para me lembrar que ele era meio íncubo. A sede era tanta que tudo que eu conseguia ver era seu lado humano. E na floresta, nem sinal de Ellie. Saltei para o lado de Pierre e prendi a respiração.
- Depois da criação do mundo, quando Adão ainda habitava o Jardim do Éden sozinho, Lúcifer enviou uma de suas crias, Lilith, para seduzir Adão e destruir o jardim. Deus então criou Eva, frustrando os objetivos de Lilith, que foi chamada de volta ao inferno e recebeu uma punição: Todos os dias daria a luz a 1000 filhos e filhas – íncubos e súcubos. Esses demônios cumpriram os mandamentos que Lilith não cumpriu: seduzir e destruir. Eles possuiriam humanos e copulariam com eles criando crianças que trariam as pestes. E assim nasceram bebês como você, Pierre.
- E quanto aos vampiros, Kat, de onde eles vêm? – Disse uma voz vinda da floresta.
- Da Áustria, Ellie. – respondi ironicamente.
A silhueta de Ellie, carregando um bolo de corpos amassados, finalmente aparecia à luz da lua. Pierre já ressonava. Atirei-me na direção de Ellie, mas seus olhos faiscaram, avisando para manter distância e responder a pergunta. Eu suspirei.
- Um dia, um íncubo enviado a terra possuiu um homem chamado Claudius. Ele costumava ser rei da Romênia na época em que a terra tinha um nome que eu não consigo pronunciar. Uma vez tendo possuído o íncubo, conheceu Cíntia, esposa de Claudius e se apaixonou por ela. – Nesse ponto eu fiz uma careta - Como não queria destruir sua vida, ele voltou ao inferno e pediu a Lilith para que fizesse dele humano. Sua mãe concordou, mas sendo transformado em humano ele perdia todos os direitos que tinha no inferno. Ele abandonou o hospedeiro e recebeu um corpo que correspondesse a aparência de sua alma. Ao ser desprezado por Cíntia, que sofria pela perda definitiva do marido, ele implorou aos demônios do inferno que lhe concedessem vingança. Seu pedido foi negado diversas vezes, até que resolveram fazer uma concessão. E ele foi transformado no primeiro vampiro: ganhou beleza e imortalidade, entre outros poderes, mas foi sobrepujado pelos que antes eram seus irmãos e recebeu três ordens...
- Multiplique, destrua, mantenha-se longe. – Ellie completou sorrindo e me atirou um dos corpos. Menos de 30 segundos depois ele estava atirado sobre a pilha de ossos atrás do túmulo onde eu estava.
- Não vai beber? – Perguntei olhando os outros corpos nos braços dela.
- Já bebi. – Ela pegou um dos corpos e colocou do lado de Pierre. – Essa aqui não tem muito sangue aproveitável, mas imagino que seja sua.
Enquanto Ellie se afastava e levava o outro corpo em direção à arvore, a lua iluminou o rosto pálido sobre o túmulo.
- Sophie! – Exclamei sem poder me controlar. – A Danse Macabre foi para ela.
- Foi o que eu pensei também. – Ellie disse terminando de pendurar o outro corpo na arvore. – Então eu acho que quando ela acordar vai querer deste aqui.
Quando Ellie pulou da arvore bem atrás de mim e eu vi o outro corpo, eu entendi o que tinha acontecido naquela noite.
- Alguma parte da história sobre o surgimento de vampiros que você contou é verdade? – Ellie disse, tão perto que sua respiração jogava fios do meu cabelo contra o rosto.
- Não. – Respondi devagar, pensando na dança que assustara Pierre mais cedo.
- Qual é então?
Por um minuto, o cemitério inteiro estava silencioso. Os únicos sons vinham do corpo ressonante de Pierre e da respiração lânguida de Ellie em minha nuca. Engoli em seco antes de sussurrar:
- Alguns segredos deveriam nunca ser revelados.

As Crônicas de Kat:
Danse Macabre

Entre novembro de 1864 e janeiro de 1873, Kat e Ellie permaneceram quase fora do radar. Com exceção de alguns ataques ocasionais a vilarejos, elas se dedicaram à criação de Pierre, por isso as anotações de Kat durante esses anos resumiam-se ao desenvolvimento da criança demônio.
Com 8 anos então, Pierre já cometera mais de 5 assassinatos em massa, já sabia ler e escrever e sua dieta resumia-se em frutas e cereais e algum sangue ocasional que não o nutria, mas fazia com que se sentisse parte da família.

Verdant, França
12 de janeiro de 1873
Diário de Sophie
Magnólia me chama lá em baixo, mas eu estou ignorando. Sei que tudo isso é só um teatro e que, na verdade, ela não quer que eu desça. A versão de mim que ela lentamente tece diante dos olhos do Barão causa uma impressão muito melhor do que qualquer aparição minha pode causar.
Já faz 10 dias que o Barão busca por esposas entre as famílias nobres da cidade. E com Deborah e minha irmã já mortas e titio e Magnólia não tem filhos, eu sou a última que pode defender o sangue Hass para as próximas gerações.
Nem sei o que tem de demais no sangue Hass.

Diário de Kat
Sempre quis conhecer Verdant – o vilarejo no norte da França onde 20 mil bruxas foram queimadas no século IX, logo no início da Inquisição, sempre me encantou. Mil anos depois a cidade ainda é vista como amaldiçoada. E realmente é.
Não é preciso ser um gênio para entender maldições de bruxas mortas em nome da magia. Elas são mártires. O seu sacrifício protege seu sangue e amaldiçoa o sangue de todos que tentarem mal contra eles. E já que de acordo com os relatos - nos quais eu não exatamente acredito - todas as bruxas da cidade foram mortas, sobrou bastante sangue cheio de maldição.
Estamos instalados no cemitério da cidade porque por algum motivo Pierre dorme bem em túmulos. Eu e Ellie nos revezamos na caça, tomando cuidado com quem matamos. Sempre existe a chance de uma bruxa ter escapado e passado a magia a diante e se tem uma coisa que eu aprendi com a minha mãe é: Não mexa com a vida de bruxas. Jamais.

14 de janeiro
Diário de Sophie
Estou exausta, mas de certa forma, feliz. O barão me escolheu!
É claro que escolheu.
Ele disse que jamais viu rosto tão angelical, moldurado por cabelos tão belos e colorido por olhos de cor tão rica em todas as suas viagens pela Europa! Exatamente essas palavras. Sei porque não posso esquecer o momento em que ele se ajoelhou em minha frente e me entregou um anel, que dizia ter pertencido à todas as suas antepassadas nos últimos, com uma enorme pedra de diamante azul e pediu para que eu fosse só sua.
Mas não sou ingênua. Sei que isso tudo foi muito bem ensaiado por ele e sua mãe. Não existem tantas nobres assim em Verdant e as que existem estão comprometidas com nobres de maiores títulos e mais ricos que ele. Então fique com Sophie Hass ou fique sozinho!
Na verdade, eu não me importo que Sebastian – ele já deixou que o chamasse assim – me ache que a criatura mais tenebrosa de toda França. Eu serei baronesa! Terei um nome que é nobre desde a época de Joanna D’arc (Sua família recebeu esse título pela ajuda durante a Guerra dos 100 anos). Isso é muito mais do que Deborah jamais
Sei que Magnólia partilha de minha felicidade por ir embora. Ela finalmente vai se livrar da imprestável que é razão para viver desconfortável em sua própria casa.
Hoje fui tirar minhas medidas, ainda para o vestido de noivado. O baile que o anunciará está marcado para 7 de fevereiro. Parece longe, mas o casamento será logo em seguida, no fim do mês.
Meu vestido é longo e azul com uma abertura de vermelho vivo no peito, que a costureira diz valorizar meu tom de pele. À noite eu sei que vai parecer poderoso.
Pensando agora, lembro que aconteceu uma coisa esquisita quando eu saía da costureira. Magnólia ficou para trás discutindo seu próprio vestido e eu fiquei na soleira da porta, olhando o movimento na banca de frutas do outro lado da rua. De repente, meus olhos se cruzaram com os de um garotinho.
Ele era alto, pálido e tinha cabelos muito escuros. Eu daria mais ou menos uns 10 anos a ele. Ele estava preso à saia de uma garota mais alta que estava de costas para mim, com o rosto meio escondido.
Foram seus olhos que me chamaram atenção. Eram de um azul escuro, cor de noite, mas de uma intensidade cruel que não tinha nada de infantil. Eles fizeram algo dentro de mim vibrar como se me lembrando das minhas raízes mais antigas. Como minha irmã costumava fazer com seus olhos azuis.
O garotinho apertou a saia com mais força. A frieza agora era confusão e medo. A moça então se virou. Como era bonita! Os cabelos escuros caíram em cascata sobre o rosto de uma forma que me deixava com vontade de tocá-los. E aquele rosto! Tão suave!
Até que se destorceu e a fúria que eu vi ali por um momento me fez recuar. Então ela pegou o garotinho no colo e ele apontou um dedo para mim. Por reflexo levantei dois dedos em sua direção. Então ele começou a chorar, como se eu o estivesse torturando.
E no instante seguinte, eles não estavam mais lá.

Diário de Kat
- Existem 3 tipos de pessoas nas quais demônios não podem tocar: sacrifícios, pessoas protegidas por sacrifícios e frutos de incesto.- Foi isso que eu respondi para Ellie quando ela me contou sobre o incidente na banca de frutas.
- Por que frutos de incesto? – Ellie perguntou com Pierre, ainda assustado, no colo.
- Ao contrário do que muitos pensam, a união entre dois seres é a mais sagrada de todas e no incesto ela é maculada, fazendo do fruto dele tão sujo que se torna intocável. Por isso as bruxas mantinham “o sangue puro”. A expressão certa seria “o corpo fechado”. Demônios não podem tocar sua alma, só o seu corpo, a menos que a pessoa assim decida. Uma bruxa na qual demônios não podem tocar é uma bruxa poderosa.
- Será que ela...?
- Não dá para saber. Eu prefiro acreditar na segunda opção. Se ela é descendente de qualquer uma das 20 mil bruxas que se entregou em sacrifício, ela é protegida de ações externas.
- Mas é um feitiço de mil anos...
- Que parece está se desgastando, ou se quebrando, caso contrário Pierre estaria pior...
Com isso, Ellie ficou em silêncio. Eu levantei meus olhos para ela.
Eram incrivelmente raras – considerando que eu passava todos os dias com ela - as vezes em que eu podia admirar a vampira que Ellie se tornara. Ali, parada no escuro, com os olhos pensativos brilhantes e apenas uma parte dos dentes à mostra Ellie poderia ser musa de qualquer pintor renascentista. Eu sabia que, para Pierre, ficar no colo dela era como se pendurar em qualquer estátua dali, mas é o que acontece quando se é criado por vampiros. E a frieza de Ellie me fazia gostar do que via ainda mais.  Ela é perfeita como uma obra de arte perfeitamente moldada por mim e ninguém mais. Ela não se parecia com um anjo (como dizem que eu pareço), mas sim com a razão principal do desejo de alguém.
À luz da lua, eu podia esperar que os ossos dos túmulos se erguessem e viessem reclamar sua Elenore. Não fariam isso sem uma boa briga. Ellie é minha. Ela é meu mérito. Por mais que Pierre fosse meu triunfo secreto, Ellie sempre foi a peça chave do meu grupo.
Um plano começou a surgir em minha cabeça, e eu perguntei sorrindo se Ellie já estava pronta para hipnotizar alguém.

20 de janeiro
Diário de Sophie
Com a confusão do casamento e tudo o mais, eu esqueci de registrar algo assustador que tem acontecido em Verdant: Pessoas tem desaparecido aos pares quase toda noite. Geralmente são homens fortes ou mulheres jovens, o que é bem preocupante.
Os anciões constantemente lembram as lendas das forças malignas que ficaram aqui depois das mortes das bruxas, mas estamos no fim do século XIX, é claro que ninguém os leva a sério. Eu acho que deveriam levar. E duvido muito que alguém em Verdant saiba mais sobre forças malignas do que eu. De qualquer forma a culpa tem recaído em alguns fugitivos da prisão de Paris.
Agora sobre os acontecimentos de hoje: meu tio estava no campo e encontrou um corpo. Ou melhor, ossos. Automaticamente julgaram ser de um dos desaparecidos, mas bastou um médico colocar os olhos para saber que era impossível. Os ossos eram muito antigos. Parecia quase pré-históricos. Não dava para entender como ossos tão antigos tinham ido parar no meio do campo de trigo, tão expostos, sendo que não estavam ali ontem. Minha tia, que já estava ansiosa e agia como se soubesse de algo grave antes mesmo de saber sobre os ossos, se lembrou então de algo: a Danse Macabre.
Danse Macabre é a dança universal da morte, onde tudo e todos que vivem têm seu lugar um dia. Uma lenda antiga diz que em noites de lua cheia ou de lua nova, os representantes da Morte e as vezes até a própria se levantam e vem buscar os moribundos para a sua dança, lembrando aos que brincam com a morte de sua inevitabilidade.
A próxima lua cheia só acontece no início do mês que vem e a última lua nova aconteceu há 5 dias, o que faz com que a teoria de Magnólia se perca. Além disso, a Danse só ocorre em ciclos especiais da lua, como a da lua azul que aconteceu há

Diário de Kat – Anotações de Ellie
Estou na escrivaninha do quarto do Barão Noville agora enquanto ele dorme. Sinto-me cheia do meu primeiro “irresistente” (que é como Kat chama aqueles que oferecem seu sangue de boa vontade, mesmo que estejam hipnotizados para isso) e queria poder sair daqui, para que fosse mais fácil resistir à vontade de matá-lo de uma vez. Mas Kat pediu que eu ficasse aqui até que ela voltasse, então eu agradeço por pelo menos, estar com o diário dela e poder anotar tudo o que aconteceu nos últimos dias.
Começamos a pesquisa pela costureira. Fingi ser a irmã mais velha de Pierre e Kat levando-os para fazer novas roupas. Logo fiz perguntas sobre a moça de cabelos dourados que havíamos visto saindo da loja há alguns dias. Perguntas que ela respondeu com prazer: A garota se chama Sophie Hass e está para se casar com o projeto de nobre que dorme na cama às minhas costas. Perdeu a mãe e a irmã em um acidente assustador há 6 anos, coitadinha, e desde então mora com os tios. Tem 18 anos agora e é uma flor de menina, com um rosto cuja beleza só não se iguala à da pequena na qual ela tentava vestir em um vestido marrom tão sem graça que fazia Kat parecer uma criança, realmente.
Quando saímos da costureira, Kat disse que estava na hora de agir. Deixamos o cemitério ontem à noite e invadimos uma cabana há um quilômetro do castelo onde estou que tem comida o suficiente para Pierre.
Agora Kat está na casa de Sophie e eu era responsável por descobrir o máximo que eu pudesse sobre o barão, mas o idiota só sabia me encher de elogios sem sentido quando entrei em seu quarto no meio da noite e depois cedeu a hipnose tão rápido que eu estou achando que sua cabeça fosse completamente vazia.
Eu nunca vou entender homens, e muito menos como já pude me interessar por eles. São criaturas tão fascináveis pela beleza externa. E nem o sangue é melhor. Kat diz que tem algo a ver com o fato de mulheres serem mais suscetíveis a sentimentos por isso seus corações batem mais rápido com mais frequência, deixando o sangue mais saboroso com o passar do tempo.
Tudo que eu sei é que preferia estar lá fora caçando ou simplesmente ensinando algo a Pierre a estar aqui presa com esta criatura.

21 de janeiro
Diário de Sophie
Acabei de ter uma das experiências mais esquisitas da minha vida. E acredite, isso significa muita coisa.
Eu estava sentada na cama, escrevendo sobre o que aconteceu ontem, quando ouvi uma batida na janela. (Aliás, percebi agora que terminei a escrita de ontem no meio de uma frase. Eu estava em choque com algo que pensei, mas não era nada tão importante) Como tem um galho lá que me perturba há um bom tempo eu não me importei.
Até que as batidas se tornaram constantes e ritmadas, então eu fui até a janela e a abri para ver o que estava acontecendo. Fui recebida por olhos verdes que me encaravam pendurada na árvore que fica ao lado da janela.
- Não se assuste, por favor. – a garota disse, baixinho - Eu só preciso de um lugar para ficar.
Eu recuei instintivamente, mas foi um erro. Deu espaço para a criaturinha saltar pela janela e pousar no chão à minha frente.
- Quem é você? – Disse assustada, e por alguma razão, pensando em feitiços antigos.
Ela tentou ajeitar o vestido creme completamente esfarrapado no corpo pequeno e delgado, mas lindo de várias maneiras, antes de levantar os olhos para mim.
- Meu nome é Katerina. Mas você pode me chamar de Kat. Desculpe pela aparição desengonçada, mas eu não tinha para onde ir e eles me disseram que você me entenderia e ajudaria.
- Eles quem ? – Perguntei atônita.
- Os espíritos, ora! Eu sou a última de uma família de bruxas também!
O choque foi imediato. Como uma garota simplesmente pousava no meu quarto e dizia conhecer o único de meus muitos segredos que precisava ser guardado até a morte?
- AAh, você não tem conversado com o outro lado ultimamente. – Kat disse, demonstrando compreensão. – Você é bem mais velha do que eu. Sua mãe tentou sacrificar você também?
Recuei mais uma vez, entrando em pânico. Naquele ponto, já estava me forçando a acreditar que aquilo era um sonho. Então a expressão de Kat mudou outra vez, se tornando triste.
- Me desculpe. Eu estou cansada, não deveria falar tanto de coisas assustadoras... Há duas noites minha mãe tentou me sacrificar. É necessário que todas as últimas bruxas de cada família que sobrou em Verdant se sacrifique para que a maldição sobre a cidade continue forte o suficiente. Eu fugi. Não era lua cheia ou nova, então um sacrifício...
-...Faria você voltar como vampira. – Completei quase que inconscientemente.
- Isso! Então eu fugi. E ontem à noite os espíritos disseram que Sophie Hass seria a pessoa certa para falar. Você sabe como são os espíritos, eles sempre têm seus próprios motivos secretos.
Eu finalmente entendi. Ela era só uma garotinha, fugindo com medo da própria mãe e sozinha. Exatamente como eu, seis anos atrás.
Eu a ajudei a tomar banho e emprestei roupas que ficaram enormes, mas confortáveis para dormir. Então arrumei um canto para que ela dormisse no quarto e nós duas fomos dormir.
Esta manhã, ela não estava em lugar algum.

Diário de Kat
Cheguei à casa do Barão e encontrei uma Ellie impaciente, à beira da janela, e a vista de qualquer um que subisse a rua. Assim que me viu, ela saltou da janela, se transformou e pousou ao meu lado.
Não sei se eu já disse isso, mas Ellie pode se transformar em morcego. A transfiguração de vampiros está ligada a encantamentos e a condições que eu ensinei a ela logo nos primeiros meses que passamos juntas. Ela dominou a técnica, como se fosse feita para isso.
- Você é completamente insana? – Perguntei enquanto ela arrumava o vestido que naturalmente tinha deslizado durante a transformação.
- Ainda não, mas estava prestes a ficar.
Balancei a cabeça e comecei a andar.
- Você se entedia muito fácil, Ellie. E vai acabar nos metendo em alguma encrenca.
- Quanta confiança! Até parece que não lembra de quantas vezes eu nos salvei de encrencas que você arranjou.
- Eu me lembro, mas Verdant é diferente de qualquer outro vilarejo que já visitamos. Tem sangue de bruxas espalhado por cada canto dessa cidade. É muito mais poder do que eu já vi. Um passo em falso, leva direto para um abismo.
Com o silêncio que se seguiu eu fui forçada a me virar para Ellie.
- Por que você sempre fica tão absorta quando fala sobre bruxas?
- Porque eu sou uma, oras!
- Não, Kat. Você está morta agora. Você é uma vampira.
O tom condescendente, o mesmo que ela usa com Pierre, fez meu estômago revirar.
- Morta ou não, eu tenho sangue nas veias e meu sangue é de bruxa. Eu ainda sei feitiços, invocações, evocações e ainda posso chamar a natureza... Ela apenas não me reconhece mais como parte dela.
- Kat...
- Você não quer discutir isso.
Ela suspirou delicadamente.
- Você tem razão. – Disse – E como foi com Sophie?
Eu sorri.
- Por que vocês órfãs estão sempre tão desesperadas por alguém com quem se identificar e manter por perto que ignoram coisas básicas como “deixar alguém desconhecido entrar em casa no meio da noite é perigoso” ou “se tem sangue na roupa de alguém que não está machucado, o sangue provavelmente é de outra pessoa”?
- Ei, não me venha com essa de “vocês órfãs”, Katerina! Ambas sabemos que você me hipnotizou o bastante para desses detalhes passarem despercebidos.
- É esse o problema com Sophie: Ela não pode ser hipnotizada. Isso e o fato de ela odiar vampiros.
- Por que ela odeia vampiros?
- Isso eu não descobri, mas uma coisa é certa: aquela garota esconde algo que faria metade dessa cidade colapsar.
O que eu não entendo é como. Eu tenho muitos segredos. Meu tempo na Romênia e na Ucrânia é tão obscuro quanto uma noite sem estrelas. Mas eu sou uma vampira. Se assassinato é meu instinto básico, é de se esperar que existam muitas coisas piores na minha história.
Agora que diabos uma garota que vive em uma cidade minúscula e que perdeu a mãe e a irmã e agora vive quase como uma criada com os tios e que vai se casar com um homem que quase matou de tédio alguém que já está morta pode ter a esconder?
Tudo bem, ela é uma bruxa. E esconde isso, mas foi como bruxa que eu apareci para ela e ela continuou esquiva e arredia, até que viu a si própria em mim e me acolheu como uma irmã.
Foi fácil descobrir que ela era bruxa. Bastou o sobrenome, Hass. Eu li um diário de uma Hass que se envolveu com magia negra e voltou como vampira, mas foi morta por caçadores. Então, quando eu fui conhecer Sophie, eu acrescentei o detalhe do sacrifico e finalmente tive certeza de que o feitiço em Verdant está se quebrando.
Chegamos à cabana quando o sol já nascia. Pierre ainda dormia, espalhado sobre o sofá, então Ellie o acordou e o mandou comer, deitando no sofá, onde ele estava. Eu me deitei no chão, pronta para ir dormir também, mas então me lembrei:
- Ellie, como foi com o barão?
- Extremamente tedioso. – Ela respondeu com os olhos fechados, e as mãos sobre a barriga.
- Eu sei, mas eu quis dizer se você conseguiu descobrir alguma coisa útil com ele.
- Não. Ele só sabia babar por mim e me dizer o quanto era linda.
Não era bem uma surpresa.
- Ele está sendo forçado a se casar, se apaixonaria até por uma cabra se isso significasse fazer da vida de Sophie um inferno. – Disse, mostrando a lógica.
- Não acho que a mãe dele vá deixá-lo fazer da vida de Sophie um inferno. – Ela respondeu encarando o teto.
- Por que você diz isso?
- Ela está fazendo do tudo para ter certeza que Sophie vai se apaixonar por Sebastian, e manter fidelidade a família deles.
- E por que? Ela é órfã, sem nada a oferecer aos Noville além do nome.
- E do sangue de bruxa.
A lógica veio a mim como um chute na barriga.
- Ela sabe. – Me levantei em um salto - Se eles tiverem um filho, a família da baronesa está protegida para sempre. Mas se Sebastian cometer qualquer erro contra Sophie... - Não completei a frase.
- Então eu sinto muito que eu possa ter dado a Sebastian a vontade de frustrar os planos da mãe.
Olhei a bela vampira de olhos fechados, o corpo relaxado no sofá.
- O que você fez, Ellie?
Ela abriu um sorriso, que fez a luz do sol nascente brilhar sobre seus caninos de uma forma macabra.
- Nada que milhares de vampiras não tenham feito antes de mim.
Eu a encarei, esperando por mais, mas ela simplesmente se virou para o lado, dando as costas para mim. Foi quando vi um rasgo em seu vestido que ia do início das costas até a cintura e soube o que ela queria dizer com “que milhares de vampiras não tenham feito antes de mim”.

22 de janeiro
Poema colado no diário de Sophie

Oceano nefasto
Que invade minha noite
E tira meu sono
Prometa-me que pelo menos esta hora
Serei eu seu o dono

Quero ouvir teu sussurro sereno
Do teu respirar
Antes que pegue no sono
Prometa-me que pelo menos esta hora
Serei eu o seu dono


23 de janeiro
É como se eu tivesse tudo que eu sempre quis: Meu príncipe encantado, uma mãe de verdade e uma irmã.
Kat ressurgiu na noite seguinte, explicando o motivo do seu sumiço: Ela tinha medo de que minha tia a visse em casa e eu ficasse encrencada. Então eu expliquei que está tudo bem que ela fique, desde que permaneça no quarto. Ela ficou por aquela noite, mas continua escapando antes do sol nascer aparecendo só quando o sol se põe.
Ontem, Sebastian veio até aqui e me entregou o poema que coloquei aqui. Ele disse que meus olhos não pararam de persegui-lo durante a noite, tomando conta de sua vida inteira como um oceano dominador. Eu achei isso tão maravilhoso. Quer dizer, ele realmente não precisava escrever algo assim, o casamento já está encaminhado, mas ainda assim ele o fez.
E ainda tem a mãe dele: a baronesa tem sido como uma mãe. Ela disse que perdeu os pais quase na mesma idade em que eu perdi minha família. Ela vem aqui e me conta histórias, discute detalhes do casamento e várias outras coisas. Eu já a amo como uma mãe.

25 de janeiro
Diário de Kat – Anotações de Ellie
Faz 2 dias que a criaturinha irritante não aparece nessa casa. E ainda me força a ver o barão todas as noites.
O motivo é que agora ela quer Sophie em nosso grupo; o mistério em torno da garota foi forte o suficiente para fazer até Kat se encantar. Agora a vampirinha está enfurnada naquela casa, descobrindo o máximo possível sobre Sophie e atraindo a confiança dela para transformá-la assim que possível.
Eu a lembrei que Pierre não conseguiu torturar Sophie, então talvez ela não possa ser transformada em vampira, mas Kat diz que é diferente se ela quiser ser transformada e abrir mão da proteção do sacrifício. É tudo uma questão do que Sophie quer ou deixa de querer. O único problema é que Sophie odeia vampiros, por um motivo que nós duas nem sabemos, então Kat tem muito trabalho pela frente.
Kat nunca transformaria alguém a força por mais que ela pudesse fazer isso. Seria agir como a mãe dela, e isso é algo que ela definitivamente nunca faria. Se tivesse sentimentos, Kat odiaria sua mãe.
Minha parte no plano delicado é afastar o barão o máximo possível de sua noiva e descobrir o que a mãe dele sabe sobre a maldição. Isso não tem ido muito bem. Ultimamente Sebastian tem escrito poemas sobre mim e quando sua mãe encontrou um deles, o forçou a entregar todos eles, aos poucos, para Sophie. Este é um caso onde o medo vence o amor, porque não importa o quanto ele esteja apaixonado pela sua musa noturna (cujo nome ele sequer sabe) nada é maior do que o medo da fúria de sua mãe caso os planos dela sejam frustrados - planos dos quais tudo que ele disse que sabe é que precisa desempenhar este papel de noivo dedicado.
Kat não fica frustrada com a falta de informações, apenas pede para que eu continue tentando. Bem, isso frustra a mim. Eu nunca tive Kat tão longe ou tão fria. É como se Sophie fosse a única coisa com que ela se importasse agora. Até de Pierre ela esquece.
Veja bem, isso não é ciúmes, até porque ciúmes é um sentimento, mas pelos últimos 8 anos, nós 3 temos sido uma família, uma própria comunidade sem segredos e agora vê-la dividindo algo com alguém de fora é tão... Errado.

27 de janeiro
Diário de Sophie
Hoje foi a última prova do vestido do noivado e depois passei a tarde toda brincando com Kat no jardim. Se você ignorar os olhos, ela se parece com a minha irmã aos 10 anos, especialmente quando se irrita.
- Sophie, - Ela chamou enquanto estávamos deitadas no gramado – Quanto você sabe sobre o mundo lá fora? O que você conhece?
- Nada. Nunca saí de Verdant. – Respondi, com os olhos fechados por causa do sol.
- E você nem pensa em sair?
- Como baronesa talvez eu viaje para outros países. Eu serei rica afinal de contas. Mas não acredito que deixarei Verdant, só me mudarei para o castelo.
- E me deixará sozinha!
Abri os olhos e me sentei olhando para ela e sendo recebida por um muxoxo mimado do tamanho do mundo.
- Não Kat, nunca! Você é como minha irmãzinha. Irá para a corte comigo.
- Mas eu não posso entrar para a corte. Minha mãe ainda me procura, ficar bem a vista seria a morte para mim.
- Nós daremos um jeito. Sempre há um jeito.
Ela sorriu, mas de uma forma triste.
- De qualquer forma, não quero ficar em Verdant. Há tanto para se ver lá fora e nem a vida eterna me proporcionaria tempo de experimentar tudo.
Eu fiz uma careta.
- Por que você fala tanto sobre vida eterna?
- Você nunca pensou em viver para sempre?
- Você diz como um vampiro?
- E por que não?
- Por que alguém iria querer viver como um sugador de sangue demoníaco?
- Ser vampiro é como qualquer maldição, você sacrifica sua alma em troca de poderes incríveis... E vida eterna.
- Você ignora a parte macabra da coisa toda. Sangue, homicídios, uma vida puramente noturna. Você mesmo fugiu disso quando veio até aqui, Kat.
- É, mas eu repensei minha escolha. Como eu disse, é uma maldição. Mas vampiros geralmente estão ocupados demais aproveitando o que é ser um vampiro para se importar com essa parte do sangue e dos homicídios.
Eu a olhei, incrédula. No meio da discussão, os olhos verdes brilhavam como folhas ao sol.
- Por que você gosta tanto de vampiros? – Perguntei.
Ela ergueu o queixo sendo petulante.
- Por que você não gosta?
Nesse momento, Magnólia saiu pela porta dos fundos, me gritando. Quando olhei novamente, Kat não estava mais lá.

28 de janeiro
Diário de Kat
Eu estava colocando Pierre para dormir, quando Ellie entrou na cabana, ruidosamente, carregando o corpo gorducho do banqueiro da cidade nos ombros. Eu o ataquei antes mesmo que ela o soltasse.
Quando terminei, ela estava sentada no sofá com as mãos sobre o colo, olhando para mim com os olhos cor de mar tão gelados que poderiam transformar a casa inteira em um iceberg.
Fui até o sofá e me sentei ao seu lado. Como ela continuava a me encarar, eu me deitei em seu colo arregalando os olhos de uma forma que só a vampira mais gélida do mundo ousaria ignorar. Infelizmente, a vampira mais gélida do mundo é Ellie.
- Você pode, por favor, me perdoar? – Perguntei, pensando no que ela escreveu aqui.
- Me diga o que está acontecendo e eu posso considerar não arrancar a cabeça da sua amiguinha Hass.
- Você não faria isso...
Ela nem piscou.
- Ah, eu faria sim. Caso você tenha se esquecido, eu sou uma vampira Katerina, e vampiros são demônios sem alma. Sabe o que isso significa? Que nós não temos nada a perder.
Mas eu pisquei, várias vezes.
- Espera... Você tem medo que me torne menos vampira por passar mais tempo com Sophie do que com você e Pierre? É sobre isso que é todo essa conversa de “somos vampiras”?
Ela não respondeu. Então eu peguei seu rosto pelas bochechas com as palmas das mãos e puxei-o na minha direção.
- Ellie, eu SOU uma vampira! Uma vampira! Eu pertenço a você e a Pierre, não a Sophie.
- Não foi isso que você disse há alguns dias. – Ela disse ainda com o rosto entre minhas mãos, os olhos me surpreendendo com a frieza que ainda conseguiam passar.
- É uma condição vampírica. Uma obsessão quase amorosa por algumas pessoas. Não existe condição mais forte do que vampiros ligados por laços de sangue, Ellie. Nada para o vampiro substitui o sangue. É ele que no faz pertencer a alguma coisa... Pertencer... a uma família. – Eu fiz uma longa pausa. As peças se encaixando devagar e tudo fazendo sentido. O que me perturbara o dia inteiro, quase me fazendo desistir de transformar Sophie finalmente tinha uma solução. – Ellie, você é brilhante!
Ela finalmente desvencilhou o rosto das minhas mãos.
- O que eu fiz?
- Finalmente descobri como transformar Sophie!
- Como você pretende convencê-la a isso? – A pergunta soou amarga.
Olhei nos olhos de Ellie, novamente sem conter a admiração por ela. A sensação de lembrar que eu a criei é tão inebriante que eu mal conseguia acreditar que estava prestes a fazer isso outra vez.
Depois de um momento, eu peguei o braço de Ellie delicadamente e deslizei a unha do indicador pela veia que aparecia na parte interior do cotovelo até seu pulso, numa cicatriz de mordida. Esse tipo de cicatriz nunca vai embora por completo.
- Com a mesma coisa que mantém nós duas juntas. Sangue.

1º de fevereiro
Diário de Sophie
Aqui está registrado o início de minha dor, para que quando sentir isso outra vez, eu possa me lembrar de que tudo é finito.
Sinto-me febril. De uma forma dolorosa e sufocante. A última coisa da qual sinto vontade, é de levantar da cama e ainda assim preciso fazê-lo toda manhã.
Digo a mim mesma que me tornarei baronesa, que a mãe de Sebastian será como minha mãe e que meu marido tão doce, será meu melhor amigo, mas tudo soa como um eco em uma alma perturbada, que começa a definhar.
Kat foi embora. Por definitivo se é verdade que vampiros podem sangrar até a morte e eu mal posso acreditar que sinta tanta falta dela. De uma vampira! É como perder minha irmã para essa força maldita, outra vez.
Tudo aconteceu há 2 dias, quando nós duas fomos juntas pegar meu vestido e sapatos na costureira. Deixei Kat em uma esquina escura, fora da vista de intrometidos e fui até a loja. Quando voltei a encontrei caída no chão, cercada de sangue e com um corte na barriga.
- Sophie... Um cachorro... eu não o vi. – Ela disse com a voz cheia de dor e os olhos quase fechados.
Eu fiquei em choque. Não havia métodos de tirá-la dali sem agravar aquele ferimento, já enorme.
- Sophie... – Ela disse, parecendo exausta – Você pode me salvar... Escute, eu preciso que se mantenha calma, certo? Eu preciso do seu sangue. – Ela engasgou e gemeu de dor. – Ele vai me curar... Porque eu sou uma vampira.
Então ela fechou os olhos e abriu os dentes, mostrando um sorriso levemente macabro.

Nesse ponto Sophie desmaiou deixando o diário e a caneta cair sobre o assoalho. Quando acordou, nenhum dos dois estava mais lá. O mesmo só foi encontrado mais de um século depois, um pouco antes desta narrativa começar. Esta foi efetivamente a última anotação de Sophie em seu diário.

2 de fevereiro
Diário de Kat
Eu nunca deveria ter mexido com o que eu não conhecia. Até Ellie me avisou.
Eu ainda podia sentir o olhar chocado de Sophie em meu rosto, quando eu contei tudo para ela. Então ela caiu em um choro histérico.
- Não posso ajudar você, Kat. Eu não posso...
Estiquei devagar as mãos até as dela e as apertei. Eu estava pronta para a raiva, o desespero, até o choque absoluto, mas aquela histeria me surpreendeu. Lembrou-me que eu não sabia muito sobre ela, mas as respostas estavam prestes a chegar.
- Meu corpo é fechado, Kat. Eu sou fruto de um incesto. Você não pode tomar meu sangue.
Ela continuava chorando enquanto eu via meu plano desmoronando. Eu não podia transformá-la sendo ela o que era. Ou não deveria... Mas fiz de qualquer jeito, quando Sophie beijou minha mão completamente ensanguentada, pedindo perdão por não poder me salvar. Com isso ela engoliu sangue e não é preciso muito para um batismo definitivo.
No momento em que ela fez isso, eu senti meu sangue congelar nas veias. Tradicionalmente, frutos de incesto possuem sangue e corpo impuro e como essas partes são as únicas que um demônio (em todas as suas divisões e concessões, o que inclui vampiros) toca, nós não podemos tocar em um fruto de incesto. Mas mesmo que um demônio não possa tocar alguém, ninguém pode impedir esse alguém se tocar no demônio. E é por isso que alguns deles se tornam vampiros, por vontade própria. Eu só não acredito que a última pessoa que eu imaginaria que se transformaria em vampira por vontade própria, acabou fazendo isso. E eu nunca soube por que ela odeia vampiros.
Pedi para que Sophie fosse embora, porque não queria que ela me visse morrer. A despedida foi complicada e longa e eu já estava começando a sentir a perda de sangue. Assim que ela foi embora e a perdi de vista ataquei a primeira pessoa que encontrei na rua. Passei então o resto da noite me lembrando de tudo que sabia sobre frutos de incesto.
Eu já tinha lido o que acontece quando eles se batizam: Dias e dias de dor e febre enquanto o corpo rejeita o sangue do batismo, que se prende ao corpo e não sai. Então finalmente, o corpo morre de exaustão e o sangue de vampiro o revive. A maioria deles volta com uma sede de vingança assustadora contra seus criadores, mas não é isso que me perturba, não me importo com vampiros sanguinários (até porque todos eles o são), o que me assusta são as bruxas sanguinárias, ainda mais as que se associaram com a Morte para amaldiçoar, que são as criaturas mais perigosas de que se sabe.
A maldição de Verdant. Todo mundo diz que o sangue de quem ataca uma bruxa de Verdant é amaldiçoado, mas ninguém explica o que exatamente isso quer dizer. E eu sou uma vampira! Ter o sangue amaldiçoado pode significar... Qualquer coisa!

Prontos para dançar?

 O ruído de estalos se intensificava com o passar dos minutos. Kat sentia um frio na espinha.
Conhecia aquele som; Ele a levava de volta a 38 anos atrás, uma memória que ela se esforçava para apagar...

A sete quilômetros dali Sophie estava inclinada sobre uma bacia, vomitando. A baronesa não gostava nada do que via: com a garota Hass tão doente, seus planos iriam para o espaço. Ela precisava ter um bebê. E viver para criá-lo.
De repente o som de cascos de cavalo chegou a seus ouvidos, mais convidados estavam para chegar ao baile que já havia começado. A baronesa pegou a noiva pelos ombros, afastando-a da bacia e arrumou seu vestido dando-a uma aparência aceitável e levando-a até a recepção.

Kat esperava. Nem precisava levantar a cabeça para olhar para a lua. Ela sabia o que estava para acontecer. Sentia em seus ossos que um dia pertenceram a uma bruxa.
Pendurada em uma gárgula, ela ouvia os passos de Ellie e Pierre na floresta, vindo em direção ao cemitério. Eles fariam acampamento ali, caçariam após o baile e iriam embora de Verdant naquela noite e da França na manhã seguinte.
Kat sabia que Sophie estava definhando e temia a maldição, então esperava estar em um lugar onde pudesse combatê-la quando chegasse a hora.

Sophie estava prestes a desmaiar. Já pisara no pé do prefeito três vezes de tão tonta que se sentia. A dor já estava a tirando do sério. Era como o inferno. Bem em suas veias.

- Você, criatura teimosa, descanse, pois a viagem será longa e você está quase pesado demais para ser carregado. – Ellie dizia a Pierre arrumando suas roupas e arrumando o lugar para que ele dormisse.
Os estalos continuavam, cada vez mais altos. Ellie então se virou para Kat que encarava a pilha de ossos, que sempre estivera atrás da capela do cemitério em Verdant, com a testa franzida.
- O que foi, Kat?
Como Kat não respondia, Ellie olhou a pilha. Aos poucos foi vendo os ossos mudarem, se tornando mais pálidos. Brilhantes. A lua cheia tomando conta deles.
Katerina
O sussurro sibilante cortou o ar. Ellie tinha certeza ouvira alto e claro o nome.
Katerina o vento repetiu, mais alto. Meu sacrifício negado.
- Kat... ? – Ellie perguntou outra vez, encarando o rosto de anjo com a testa franzida.
- Ellie... O que acontece última estrofe de Lenore?

Sophie já estava exausta. Mas precisava falar com Sebastian. Estava cansada de segredos e antes do anuncio do noivado na meia-noite, ele precisava saber a verdade.
Encontrou seu noivo conversando com os amigos e pedindo licença o puxou pelo braço até uma varanda.
- Preciso contar uma coisa, Sebastian. Para que você decida se realmente quer se casar comigo.

Katerina.
- Danse Macabre. – Ellie sussurrou respondendo ao vento.
- Alguém está prestes a morrer. – Kat disse de volta sem olhar para Ellie. – Alguém que brincou com a morte.
Os ossos começavam a se unir. Pierre prendeu a respiração atrás de Ellie, o medo fazendo suas veias pulsarem, desesperadas. Se ele não se controlasse estaria torturando Ellie em questão de segundos. Kat não sentiria nada. Pierre nunca foi capaz de torturá-la. Ela era um sacrifício.
Katerina.
- Por que eles sussurram seu nome?
- A Morte está reclamando o que perdeu da última vez que esteve tão perto de mim.
Meu sacrifício negado.

- Eu matei minha mãe.
Os olhos de Sebastian se arregalaram instintivamente. A primeira badalada da meia-noite do dia 8 de fevereiro ressoou nas ruas quase desertas. Sophie continuava dizendo tudo na lata.
- Ela precisava sacrificar a última com o sangue Hass para reforçar a maldição sobre a cidade. Seria eu, mas eu seria um sacrifício impuro que só resultaria em desastres. Eu sou fruto de um incesto. Única filha de Jonah, com sua irmã Deborah. Então ela matou Charlottie. Mas não era lua cheia ou nova, ela voltou como vampira. Ela foi embora quando renasceu. E eu fiquei sozinha com Deborah. Deborah me culpou por perder Charlottie. Ela me torturou. Física e mentalmente. Então eu a matei. Coloquei fogo na casa. E ninguém sabia o que tinha acontecido com Charlottie, então ficou registrado que as duas tinham morrido aquela noite. Em um acidente.

Terceira badalada da meia noite.
- Ellie. Para trás. Pierre, por favor, acalme-se. Eles querem falar comigo.
Katerina. Meu sacrifício negado. Voltou para mim?
- Eu não pertenço a você. Fui tomada. Você sabe disso.
- Com quem ela está falando? – Pierre perguntou alto demais.
- PIERRE! – Kat gritou sem tirar os olhos da caveira à sua frente - CALADO. NÃO CHAME ATENÇÃO.
Katerina. É minha agora?
- Eu já disse que não. Nunca foi a intenção de minha mãe me entregar a você. Eu esperava que soubesse disso. A Morte costumava ser mais esperta e menos fácil de enganar.
Os ossos sibilaram. Dezenas agora estavam unidos, como se de mãos dadas, se aproximando do túmulo da gárgula em que Kat estava.
Katerina. Por que está aqui?
- Coincidência. Não é a mim que você veio buscar. É a algum moribundo que brincou com a morte.

- Por que me conta isso? É um segredo que deveria levar para o túmulo.
- Porque não quero que você se case com alguém que não sabe quem é. Quero que me ame pelo que sou.
Sebastian parecia nauseado. Mais ainda que Sophie, se é que isso era possível. Sophie não ousava levantar os olhos da escada. Pensava na irmã vampira, em Kat, na doença, em tudo que sabia sobre ser uma bruxa. O sino badalava ritmicamente.
- Não amo você. Nem poderia. Ainda mais agora.

Katerina. Por que persistes a brincar comigo?
- Porque essa é a essência de quem eu sou. Uma aberração. Não pertenço a você. Nunca pertenci. Eu fui prometida ao inferno antes mesmo de nascer. Eu não faço parte da Totentanz.
Ninguém escapa da Dança da Morte. Ela é inevitável.
- Eu não escapei. Eu a recebi e a escorracei. Eu não pertenço aos mortos.
E aquelas as quais transformou?
- Elas são minhas. Você não pode tocá-las.
Katerina. Continuará a brincar?
- Vocês não têm alguém para buscar?
Kat sabia que estava vendo nada mais nada menos que os últimos restos mortais das 20 mil bruxas mortas bem em frente a seus olhos. Só conseguia pensar na maldição.
Última badalada.

Sebastian a segurou pelos braços, ensandecido.
- Tudo que era preciso era que você se apaixonasse por mim e nós tivéssemos um bebê para que nossos sangues se unissem. E como você matou sua mãe, então você está amaldiçoada. Todo plano da minha mãe foi para o inferno. – Então ele olhou para a escadaria a seus pés. - Que é para onde você vai. E eu vou estar livre para me casar com ela.
Então a atirou. Sophie caiu pela escada em cambalhotas. E foi só quando chegou ao chão que foi ouvido o claque dos ossos se partindo...

...e indo ao chão. A Dança dos Mortos chegara ao final.

Fui acordada por dedinhos me cutucando nos braços.
Conforme a consciência chegava, eu me assustava com as sensações em meu corpo. Não havia mais dor. Não havia mais enjoo. Não havia mais febre. Mas existia esse cheiro. Esse cheiro desesperador, que fazia minha boca arder como uma sede cruel.
Abri os olhos e fui recebida por olhos azuis e uma garganta pulsante.
- PIERRE NÃO! CARAMBA! Por que vocês sempre renascem com vontade de atacar o garoto demônio?
Quando levantei os olhos a cena que vi foi um garotinho preso as saias de uma moça alta de vestido azul e uma linda vampira com rosto de anjo parada bem a minha frente com um sorriso que eu reconheceria em mil anos.
- KAT! – Me pendurei no pescoço dela, em um abraço apertado.
Ela me abraçou de volta, me apertando bem firme.
- Fico satisfeita que seu último sentimento seja seu amor por mim, Sophie.
Atrás dela, a garota resmungou. Kat se afastou.
- Esses são Ellie e Pierre. As pessoas que você viu em frente a banca de frutas.
Eu a olhei, confusa. Ela apenas deu de ombros.
- Eu ainda preciso contar muita coisa. E ainda preciso descobrir muita coisa com você. Agora, por que não aproveita e mata a sede? Amanhã viajaremos para longe.
No momento em que ela disse sede, minha boca voltou a queimar. Deixei um rosnado escapar, então ela sorriu e se afastou, revelando um corpo pendurado em uma arvore as suas costas. Sebastian. E foi aí que eu senti meus dentes pontudos contra a pele no meu próprio sorriso macabro, pela primeira vez.




You May Also Like

0 comentários