As Crônicas de Kat - Capítulo VIII

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Os saltos faziam um som absurdamente alto no longo corredor, que estava consideravelmente silencioso estando ao lado de uma festa. Suspirei quando cheguei à porta da sala que queria. Podia ouvir a música lá dentro, o som das conversas animadas, o barulho dos copos brindados. Com cuidado abri a porta e me esgueirei em meio à confusão de pessoas.
Era a festa de Mardi Gras mais concorrida do ano. Todos os jovens queriam um convite. O meu chegou a minha porta antes que eu pudesse pensar se queria ir. A maioria das pessoas ali usava máscaras como resquício do desfile da terça-feira gorda que aconteceu mais cedo. Procurei entre os presentes, as feições da dona da festa: Sophie Hass, a mulher que junto com suas nove irmãs, estava entre mais conhecida socialite e uma espécie de rainha de Nova Orleans. A festa de Mardi Gras era uma forma de fazer com que esse status fosse confirmado e que todos vissem o quanto ela era rica, bonita e poderosa.
Menos para mim, é claro. Seu poder e sua riqueza estavam fora de questionamento. O motivo pelo qual eu estava ali era bem diferente do da maioria das pessoas, o motivo pelo qual eu estava à procura de Sophie também. Encontrei-a deitada em uma chaise longue posicionada no meio do salão de baile, rindo enquanto conversava com a única de suas irmãs que estava por perto. A pequena, que parecia um anjinho, Katerina. A visão dela me fez me dar conta do que eu estava prestes a fazer. Aquilo tudo era perigoso, qualquer pessoa normal em Nova Orleans consideraria impensável. Dois séculos atrás eu seria jogada na fogueira pela minha própria família – ser bruxa tudo bem, mexer com magia negra, jamais!
Sorri à ideia de fugir das crenças da família. Isso me deu força de vontade para conseguir chegar até Sophie. Quando me aproximei, ela ergueu os olhos para mim, o rosto relaxando quando me viu. Ao seu lado, Katerina sorriu, com leveza. Duas aristocratas, em todos os aspectos.
- Você veio... – Sophie sussurrou, de forma tão discreta que por um momento eu achei que ela sequer tivesse dito qualquer coisa.
Pensei no que responder. Parecia que a minha voz havia sido engolida e agora pairava dentro de mim, como gases. Segurei uma risadinha a esse pensamento. Por fim, optei por dizer diretamente, torcendo para não parecer mais idiota do que já parecia:
- Quero ser uma vampira.

As Crônicas de Kat:
Lágrimas de Gelo

Depois de diversas discussões, sobre o futuro do grupo após a entrada de Tatiana, as garotas resolveram que voltariam para os Estados Unidos. De lá, conheceriam o resto da América. Claro que elas não conseguiriam sair da Rússia para os Estados Unidos durante a Guerra Fria, então esperaram que as coisas se acalmassem para deixarem o país, o que levou trinta e seis entediantes anos.
Mal começaram as comemorações da reunificação alemã e do fim da URSS, o Exército, agora um grupo de dez (onze com Pierre) correu para fora da Rússia com toda vontade e, pela Inglaterra, viajaram de volta para os Estados Unidos. Elas recuperaram o acesso ao dinheiro que acumularam e com satisfação descobriram que ele havia se multiplicado. As pedras preciosas que usavam no pescoço valiam centenas de milhares combinadas. A magia do jogo monetário em Wall Street fez com que elas ficassem em Nova York por alguns anos, mas não demorou até que a cidade se tornasse perigosa.
Viajaram então por diversos lugares nos Estados Unidos, conhecendo estado por estado. Passaram alguns anos procurando por vampiras em potencial, sem encontrar ninguém que merecesse o lugar no Exército. Os boatos sobre as bruxas do Sul inevitavelmente as atraiu e quando 1997 chegou, marcando algo entre oito e nove anos da peregrinação delas pelo país, Sophie encontrou o amor de sua vida: Nova Orleans.

Nova Orleans, Estados Unidos
12 de dezembro de 1997
Diário de Kat
Eu preciso admitir: a casa que compramos para viver em Nova Orleans é maravilhosa. Possui dois andares: no de cima ficam os 10 quartos, coloridos e decorados ao bel prazer de cada uma das donas, no de baixo ficam a sala, o salão de baile, a sala de jantar, a biblioteca – ou cela de Pierre se preferirem – e a cozinha.
A sala de visitas é nosso lugar preferido. Ficamos quase o dia todo ali, conversando, lendo, fazendo brincadeiras e às vezes costurando com Ellie. Os invernos na Louisiana são tranquilos, perfeitos para passar um tempo relaxada à luz da lareira... De dia, é claro. A noite a coisa muda totalmente de cenário.
Festas da alta e baixa classe dominam as noites de novembro e dezembro em Nova Orleans. Boates são dominadas por música alta e envolvente e por milhões de corpos desesperados. Salões de jantar de classe alta ficam cheios de pessoas bem vestidas, música clássica e do som de taças de champanhe sendo chocadas umas contra as outras. Nós dez nos revezamos entre um tipo de festa e o outro a cada noite. Temos passe livre para qualquer boate e somos as primeiras a receber convites para as festas da alta classe. Todos querem exibir as irmãs Hass em sua casa, a família mais quente da cidade, a mais conhecida.
Tudo começou nove meses atrás. Nunca íamos as dez até a próxima cidade que invadiríamos, sempre enviávamos duas de nós para dar uma geral na cidade antes que pudéssemos entrar e descobrir se conseguiríamos o que precisávamos lá. Para Nova Orleans era a vez de Sophie e Charlottie. Elas demoraram um dia a mais que o combinado, que já era uma semana. Mas antes que pudéssemos nos preocupar, elas voltaram, ambas com roupas novas e um brilho no olhar que eu não via no rosto delas há muito tempo.
- Nova Orleans é... – Sophie suspirou, deixando a paixão pela cidade transbordar. Soph tem sentimentos apenas pelas coisas certas. – A Paris do século XIX. Bem, como me contaram que Paris era no século XIX. Bailes tomam conta das ruas, mulheres bem vestidas e cheias de joias passeiam para lá e para cá. Homens brancos e mestiços todos muito bem-apessoados andam pelas ruas assobiando e balançando o chapéu. É claro que existe muita coisa moderna lá, carros, semáforos e coisas do tipo... Mas as pessoas! – Mais suspiros – Ah, as pessoas parecem congeladas no tempo, tão encantadoras quanto eram cem anos atrás. E a maior parte delas fala francês! – Ela foi até Ellie e apertou suas mãos entre as dela – Ah, Ellie, você iria adorar. Ou melhor, você vai adorar! Nós vamos? Não vamos? – Ela pousou os olhos sobre mim ao dizer isso, implorando por uma confirmação.
Mesmo que todas as vampiras do Exército, até mesmo Ellie, não estivessem completamente encantadas com essa descrição, eu não saberia dizer não àqueles olhos turquesa. Viemos então para Nova Orleans. Pierre reclamou, dizendo que aquilo ali era igualzinho à velha Orleans, que era um saco. Ninguém se importa com a opinião de Pierre, então dissemos para ele calar a boca e nos seguir.
Primeiro ficamos em um hotel, o que já chamou atenção, porque nós dez nos apresentamos como irmãs, com o sobrenome Hass. Explicamos que só tínhamos o pai em comum, ele havia tido várias mulheres e dos mais diversos países europeus. Todas elas acabaram morrendo e por fim, papai morreu, deixando-nos com um grande legado que não queríamos dividir, já que somos muito unidas. Sophie deixou claro também que estava a procura de uma casa grande para morar em Nova Orleans, o que deixou todos que ouviram essa história muito felizes. No dia seguinte, já éramos assunto.
Todos os olhares se viraram para nós quando saímos para o café da manhã. Não comemos nada, é claro, mas era incrível ser o centro das atenções e o tema dos cochichos enquanto agíamos de forma leviana, como as ricas jovens que somos. Assim que saímos compramos um carro, ou melhor, uma limusine. Pierre, que aprendeu a dirigir na Rússia, se transformou em nosso motorista, mas as mãos de Sophie ficavam a todo tempo perto do pescoço dele, ameaçando tocá-lo caso ele tentasse tomar essa posição como liberdade. Ele parecia cada vez mais cansado, cada vez menos ele mesmo. Não tinha nada a ver com o menino que nos traiu e fugiu e nem com o jovem soldado ferido que foi carregado até nosso apartamento em Genebra. Ele era um demônio inocente que finalmente descobrira o que aconteceria caso todos os vampiros voltassem a ter almas. Seu ódio era distribuído entre Sophie, Anika e agora Tatiana, que ao contrário do que ele queria, se ligou muito mais a Ellie do que a ele.
Ellie, inclusive, continua com a liderança silenciosa do Exército. A maioria das vampiras continua sendo inegavelmente ligadas a ela, que era o exemplo de vampira. Depois de um tempo eu decidi que ser tão líder quanto Ellie era muito cansativo e que era melhor eu ser apenas matriarca do Exército.
Matriarca. Essa palavra me fez rir dentro do carro enquanto íamos até a quinta casa que visitamos em busca da casa perfeita. Ninguém olhou para mim, todas estavam muito entretidas em suas conversas, animadas pela ideia de poder olhar mansões e mais mansões antes de escolher qual se adequava mais a nós. Acabamos comprando aquela quinta mansão, a mais aconchegante de todas e com quartos suficientes para todos nós. Decidimos quem ficaria com cada quarto no joquempô. A biblioteca vazia serviu de forma maravilhosa para Pierre e a equipamos com um penico, o que o fez reclamar que já estava acostumado com o banheiro. Nós avisamos que contrataríamos uma criada, que cuidaria do que ele precisasse e manteria sua cela limpa. Ele ia continuar a reclamação, mas avisamos que tínhamos contatos e influência o suficiente para manda-lo para uma cadeia de verdade pelo tempo que nos conviesse e o Inferno não entraria em contato com ele até a hora que precisasse dele. Isso o deixou cheio de ódio, mas assim que Sophie levantou uma mão, entediada, ele parou e rosnar e se sentou no tapete que cobria o chão da biblioteca. Antes de sair, só lembramos que se fossemos sair de casa ele iria dirigir, então podia parar de parecer tão emburrado.
Os primeiros convites para bailes chegaram antes mesmo que terminássemos de nos instalar. Todos na cidade queriam nos conhecer melhor, saber o que nos trouxera até ali, nos permitir algumas horas de diversão. Fomos aos poucos. Primeiro Ellie, Sophie e Kaylee foram para um leilão de caridade. Depois Naomi, Tatiana e Charlottie as acompanharam em um baile de máscaras. Então eu, Anika e as gêmeas fomos com elas para uma festa a fantasia. Quando todas já éramos conhecidas, coisa que levou pouco tempo, começamos a divulgar informações selecionadas sobre nós. Quanto mais contávamos, mais atentos, fascinados e prontos para explicar o que não sabíamos eram nossos ouvintes.
Descobrimos que perdemos coisas importantes enquanto estávamos presas na Rússia. Alguns dos artistas, a moda e as tendências das décadas de 50, 60, 70 e 80 foram grandes surpresas para nós, que aos nossos admiradores e interlocutores dissemos que nosso pai era conservador e nos deixou aprender só coisas relacionadas ao cuidado com a casa. Foi quando perguntaram se nós não queríamos uma criada. Nós queríamos, mas ainda não conhecíamos a cidade o suficiente para saber quem era confiável e quem não era. No mesmo instante surgiram diversas sugestões de criadas confiáveis e discretas. A alta classe sempre tinha criadas discretas. Discrição era ideal para quem ia cuidar de nosso prisioneiro.
E assim conhecemos Juliana Mayfair.

Diário de Juliana
Sophie, quero dizer, madame Sophie foi quem me deu este caderno. Ela pediu para que eu anotasse tudo que eu sinto e penso, para que dessa forma não me sentisse tão sozinha, para não ficar tão mal sobre o trabalho, sobre os segredos que escondia. Precisei concordar e aceitar o presente agradecida, porque se ela soubesse a verdade, eu estaria morta a essa altura. Essa verdade é que eu já tenho uma confidente. Alguém de quem eu não conseguiria esconder nada, mesmo se quisesse. Alguém ainda mais confiável que eu, porque seus próprios segredos a ensinaram a se proteger de todas as formas.
Eu conheci Louise logo que nasci, sendo ela três anos mais velha que eu. Cresci junto com ela, já que minha mãe trabalhava em sua casa. Brincávamos juntas, estudávamos juntas, lanchávamos juntas, fazíamos tudo juntas, exceto quando a mãe dela estava por perto e a carregava para algumas obrigações. Descobri que Louise era minha irmã quando eu tinha 8 anos e ela 11. Àquela altura já éramos melhores amigas, inseparáveis. Descobri quando o pai dela faleceu e minha mãe, despedida e proibida de ir até o enterro me contou em lágrimas o que havia acontecido em 1983. Ela me disse que quando eu crescesse eu deveria lutar por meus direitos de herança e dividir aquela casa enorme em que vivêramos com Louise.
Eu disse a ela que não faria isso. Aquilo tudo era de Louise por direito. Eu poderia me virar perfeitamente bem. Isso levou minha mãe à ira. Naquele dia eu fui dormir sem jantar e no dia seguinte, fui mandada para morar e trabalhar em uma casa. Comecei a trabalhar naquela época, quando eu tinha apenas 8 anos. Tecnicamente isso era ilegal, mas eu me descobri trabalhando, assim como minha mãe trabalhara, para pessoas para quem a lei não existe: Bruxas. As chefes de Nova Orleans.
Louise, pelo lado de sua mãe também fazia parte de uma família assim. Ela ficou mais que feliz em saber que eu era sua irmã e me prometeu que assim que ela fizesse 18 anos e tivesse poder total sobre seus bens, eu voltaria a morar com ela. Eu nunca deixei de visitá-la, afinal de contas ela era minha melhor amiga e irmã. Todas as minhas tardes de folga que não eram do conhecimento de minha mãe eram passadas com ela, dividindo novidades, trocando conselhos, pedindo ajuda para certas situações.
A mãe de Louise continuava comandando a casa com punhos de ferro. Ela evitava ao máximo deixar que a filha fizesse qualquer coisa. Eu sabia que ela a educara a contragosto: Louise tinha a mesma alma livre, enérgica e indomável do pai. Se não fosse necessário que sua família e seus poderes continuassem através da sua filha, a mãe de Louise provavelmente abandonaria a filha em algum lugar ou pior, a mataria. Mas, conforme crescia, Louise foi tomando conta da casa que era dela por direito.
Enquanto isso, eu mudei de trabalho algumas vezes, mantendo sempre o mesmo nível de empregadores. Era considerada uma empregada de confiança, mas as bruxas não tinham coragem de manter uma criada em casa por muito tempo, por isso faziam rodízio entre si, me mantendo como criada particular da filha ou algum desses trabalhos pessoais. Mal sabiam elas, é claro, que eu contava tudo que ouvia de importante para Louise. Louise sempre escondeu segredos com toda discrição possível, até porque ela não tinha ninguém a contar nada além de mim. Tudo que ela descobria sobre as outras bruxas de Nova Orleans, guardava para si mesma para usar quando finalmente fosse a líder de sua família.
Eu quase nunca ia até a casa de minha mãe. Ela trabalhava fora e eu também. Grande parte do tempo eu dormia, comia e me virava na casa em que trabalhava. Tinha pouquíssimos pertences e sempre me desfazia da maior parte deles quando não serviam mais para mim. Quando eu queria guardar algo de valor, pedia para que Louise o fizesse.
No início deste ano, eu fiz 13 anos e já podia ser vista como criada em público. Comecei então a servir como garçonete em eventos da alta classe, por toda a cidade. Ganhava mais e trabalhava menos, o que era maravilhoso. Ao fim de março, me convidaram para servir em um coquetel na casa de uma das muitas famílias para as quais eu trabalhei.
Foi assim que as irmãs Hass entraram na minha vida.

Continuação da entrada do dia 12 de dezembro de 1997 no diário de Kat
Juliana era uma linda negrinha que de acordo com o que soubemos trabalhava em casas de família desde os oito anos. Agora ela só fazia freelances em grandes festas. Sophie, nossa líder em Nova Orleans, foi quem abordou ela com cuidado, lançando olhares para mim quando queria saber se eu aprovava seus atos. Juliana aceitou pegar um trabalho regular por um tempo, mesmo que fosse só para descansar. Explicar o que ela faria é que foi o complicado.
- Acredito que você saiba que trabalha para bruxas. – Sophie disse, delicada, sentada sobre a chaise longue que temos na sala com Juliana ao seu lado.
Eu estava sentada ao chão fingindo jogar cartas com as gêmeas. Ao invés disso, ouvia todas as palavras. As outras de nós aparentemente estavam em seus quartos. Juliana balançou a cabeça, concordando, mas como Sophie a incitou a prosseguir, ela suspirou.
- Não é necessário muito esforço para saber disso. – Disse, simplesmente.
- A questão é que elas não sabem que sabemos disso e também não sabem o que nós somos. E este último item, mesmo que você descubra, não poderá contar para ninguém, certo?
- Nunca. – Ela disse conseguindo colocar o doce sotaque do sul na pequena palavra.
- Certo – Sussurrou Sophie, com cuidado. Olhou para mim pedindo por ajuda.
Ela não via forma de explicar aquilo. Eu me levantei, deixando as cartas no chão. Juliana olhou para mim e eu vi Sophie suspirar de alívio. Ela estava quase correndo dali.
- Quanto a seu trabalho... – Comecei, devagar, olhando nos olhos escuros de Juliana. – Bem, é complicado explicar. Digamos que nós temos um convidado especial em casa. E você apenas precisará cozinhar para ele e limpar o lugar onde ele fica.
Juliana ergueu a sobrancelha esquerda.
- Para vocês não? – Ela olhou para Sophie ao perguntar isso, então Sophie respondeu:
- Não, não, fique tranquila, nós nos viramos.
- Mas ele – Completei - é uma pessoa complicada. Uma pessoa teimosa e difícil. E é extremamente sedutor quando quer. Ele fará tudo para distrair você e tentar convencê-la a deixá-lo sair de seus aposentos. Não se deixe seduzir e sempre que isso acontecer fale conosco.
Juliana parecia confusa, mas concordou com o que eu dizia. Pedi que as gêmeas a levassem até a suíte dos empregados para que ela se acomodasse. Sentei-me aonde ela tinha se sentado.
- No que você está pensando, Kat? – Sophie perguntou quando olhou para mim e me observou encarar minhas mãos.
- Eu não sei, mas... – Disse, com cuidado. – Talvez ela sirva para o Exército.
Ela sorriu.
- Eu também pensei em algo assim, mas a decisão sempre é sua.
- São novos tempos, Soph. Mulher nenhuma trabalha a partir dos oito anos, mas Juliana não parece ser do tipo que reclama desse tipo de coisa. Ela parece ser tão forte como qualquer uma de nós. Além disso, ela é linda de uma forma que nenhuma de nós é...
- Por ela ser negra?
- Talvez. Ela me fez pensar naquela história de “um número maldito e um número sagrado”. 13 vampiras de 7 nacionalidades. “Nacionalidade” nesse caso pode querer dizer etnia.
- Explique.
Suspirei.
- Vou explicar assim: você se lembra do pan-eslavismo? Ou como durante a segunda guerra Hitler defendia a criação de um único estado alemão, o que você detestava completamente? – Sophie, concordou, sorrindo. Continuei: - Agora divida “nacionalidade” desse jeito. Pessoas com o mesmo tipo físico, como mesmo tipo de cultura. Como os eslavos, os germânicos, os latinos. Na Europa Ocidental, você pode notar apenas pela aparência ou pela forma como se age, quem é francês, espanhol, inglês, português ou pelo menos quem tem ascendência desses lugares...
- Onde você quer chegar? – Sophie perguntou, me interrompendo.
- Ainda precisamos de uma nacionalidade e três vampiras para completar o número sagrado. Faz 80 anos desde que Bianka morreu, isso dá quase duas gerações. Talvez Juliana tenha vindo até nós por um motivo.
- E como você terá certeza de que ela é a pessoa?
- Ela tem 13 anos e passou os últimos 5 trabalhando, certo? Ela nunca ficou com ninguém em nenhum sentido e tem a idade certa para ser seduzida por Pierre. Se ela não for, saberemos que é a pessoa certa. Mas se for... Bem, você sabe.

Continuação da entrada do dia 12 de dezembro de 1997 no diário de Juliana
As irmãs Hass, são dez: Sophie, Kaylee, Ellie, Naomi, Tatiana, Anika, Charlottie, Miranda, Valentina e Katerina, sendo que de todas, a idade dessa última é a que me deixa mais curiosa. Elas me ofereceram um trabalho regular e me prometeram pagar mensalmente mais do que eu recebia trabalhando nas festas. Ofereceram também um cômodo fixo, roupas novas e me pediram para dizer tudo que eu gostava de comer que elas acrescentariam a lista de compras.
Era uma proposta irrecusável, então claro que eu aceitei, mesmo sabendo que nenhuma oferta de trabalho tão perfeita seria simples assim. Logo que eu cheguei, eu descobri o que estava acontecendo: Katerina me contou que eu cuidaria de um convidado delas, por quem eu não deveria me deixar seduzir e quem eu não deveria deixar sair de seus aposentos de jeito nenhum.
Prisioneiro e cela são palavras mais certeiras. Logo no meu primeiro dia de trabalho, depois de uma noite bem dormida, eu entrei nos tais aposentos. Era uma biblioteca antiga, mas vazia, sem livro nenhum. O tal convidado estava dormindo em um colchonete fino e duro no canto da sala, ao lado de um penico cheio. Diversas embalagens de comida compactada estavam espalhadas pela sala. Era um nojo.
- É claro que minha única obrigação tem que ser algo desse tipo. – Resmunguei, ao fechar a porta da sala e começar a varrer o chão.
O som que fiz acordou o rapaz que dormia. Ele se sentou no colchão e esfregou os olhos. Fingi que não havia percebido e continuei a varrer.
- Quem é você? – Ele perguntou com a voz rouca.
Continuei agindo como se ele não estivesse ali. Ele pigarreou.
- Olá. Quem é você?
- Sua babá. – Respondi, um pouco revoltada. Nenhuma das donas da casa estava presente então eu podia fazer isso.
- Finalmente! Achei que elas estivessem brincando sobre arrumar uma criada para cuidar disso aqui.
Olhei para ele com mais cuidado. Era um homem alto e com olhar grave. Seus olhos eram de um azul escuro, mas muito intenso, do tipo que altera o estado dos seus sentimentos só em si dirigir para você. Por dentro eu me perguntei quem diabos era aquele garoto e porque diabos aquelas irmãs escondiam ele na biblioteca, mas como aquilo não era nem de longe a coisa mais estranha que eu já tinha visto, acabei dizendo em voz alta apenas outra reclamação:
- Não, não estavam brincando. Só não me avisaram o quanto você era nojento.
Ele riu.
- Faz semanas que eu estou aqui, sozinho, tendo barrinhas de cereal atiradas na cabeça três vezes ao dia e tendo que atirar meus dejetos pela janela sempre que esse penico enche. Eu realmente esperava que você não notasse a bagunça.
- Que diabos você andou fazendo para que elas te odiassem tanto assim? – Perguntei, antes de conseguir me impedir, me amaldiçoando logo em seguida.
Ele ficou quieto, sentado, encarando o nada. Eu continuei varrendo o chão como se ele fizesse parte da decoração da sala. O vi esfregando a cabeça depois de um tempo.
- Às vezes até eu esqueço. – Sussurrou. Então disse em voz mais alta: - Digamos que eu as traí. Destruí a confiança que elas tinham em mim. Quando voltei, elas me odiavam. Mas isso foi há tanto tempo atrás que acho que eu acreditava que a essa altura elas já teriam me perdoado e me deixado ir.
- Quanto tempo? Cinco anos? A mais velha delas parece ter dezoito.
- Escolha interessante de palavras. Parece ter dezoito.
Percebi que estava falando demais e me calei. Terminei de varrer a sala e antes de buscar uma pá e uma sacola de lixo peguei o penico para limpar. Vi-o vigiar cada um dos meus passos, mas fingi que ele não estava ali. Quando saí, com o balde na mão, percebi que algumas das irmãs entravam em casa. Sophie, usando um lindo vestido branco-pérola que só alguém muito rica usaria para uma manhã de compras, tomou a dianteira.
- Ah, Juliana, você já começou! – Ela disse com um sorriso, próxima a mim. Não fez careta para o balde de fezes que eu carregava, mesmo que até eu estivesse fazendo exatamente isso. – Bem, ótimo, se precisar de qualquer coisa, é só dizer.
- Pode deixar.
Comecei a andar em direção ao quintal, mas antes que eu entrasse pelo vão da porta, virei a cabeça e consegui ver Sophie abrir a porta da biblioteca e enfiar a cabeça na entrada ao dizer:
- Pierre, está na hora do seu banho. A boa notícia é que compramos roupas novas. A má é que você precisará me acompanhar a uma festa. De braços dados, sabe?
Então vi Ellie, a mais calada das irmãs, me encarando no início do corredor com o maxilar cerrado. E corri para cumprir as minhas obrigações.

Continuação da entrada do dia 12 de dezembro de 1997 no diário de Kat.
Isso já era no começo de abril. Os meses seguintes passaram rápido e o verão nos deixou animadas para organizar o jardim da casa. Aprendemos a fazer isso na época em que ficamos em Graz para esperar a alma de Sophie se normalizar. Nosso novo jardim se tornou o assunto da cidade.
Aliás, tudo que nós fazíamos se tornava o assunto da cidade. Sophie garantiu que isso acontecesse. Onde quer que nós estivéssemos, ela dava um jeito de chamar atenção, sempre a mais bela, a mais vivida, a mais interessante do lugar. Claro que isso logo atraiu atenção dos homens mais ambiciosos da cidade. Era óbvio que Sophie era riquíssima e a chefe da família. Não só queriam que ela se casasse com eles, como esperavam que as irmãs dela também se casassem com parentes deles. Por isso, Sophie inventou que estava comprometida com um homem de Nova York. Logo começaram a enchê-la dizendo que ela precisava trazer o rapaz para Nova Orleans para ser apresentado à alta sociedade, nem que fosse uma vez só. Por isso Sophie comprou roupas novas para Pierre e o fez acompanha-lo em duas festas, até que ele pedisse arrego, após todos os machucados que ganhou ao andar de braços dados com Sophie.
Enquanto isso, Juliana trabalhava silenciosa limpando a biblioteca todos os dias e se retirando para seu quarto ao acabar. Em algumas tardes não a encontrávamos lá e imaginávamos que ela tinha saído para encontrar alguém, mesmo que não tivesse pedido para nós para sair, o que deveria ter feito. Eu torcia para que o encontro dela não fosse com um interesse amoroso, porque nesse caso o teste que eu a submetera não adiantava nada: se ela estivesse apaixonada é claro que não se deixaria seduzir por Pierre.
Quando contei para as meninas que planejava incluir Juliana no Exército, todas ficaram bastante animadas, até mesmo Ellie, que sempre tinha restrições em relação a esse tipo de coisa. Depois de um tempo descobri que ela não acreditava que Juliana fosse resistir a Pierre o que me fez pensar de onde surgiu essa confiança em sua prole.
Voltando ao verão e ao jardim, ele começou a fazer com que recebêssemos visitas em casa o tempo todo. Por isso precisamos começar a cozinhar e limpar com ainda mais frequência. Ellie era uma dona de casa exigente, que mandava sempre que nós limpássemos a sala de visita enquanto ela fazia chá e cozinhava biscoitos. Estava sempre na sala quando as visitas chegavam e recebia diversos elogios ao descobrirem que era ela que mandava na casa enquanto Sophie estava o dia inteiro festejando. Até tentaram começar a cortejá-la, mas perceberam que Ellie é grave demais para começar esse tipo de coisa tão cedo.
Depois do verão começamos a dar festas no salão de baile e pedimos a Juliana que voltasse a trabalhar servindo festas e a oferecemos um aumento. As duas melhores festas foram a de Halloween e a de Ação de Graças, ambas temáticas e ambas lotadas.
A cidade inteira adora as irmãs Hass e nós precisamos admitir que também adoramos a vida em Nova Orleans. Festas dia e noite, uma casa confortável, mimos para todos os gostos e ainda Juliana, que nos garante que o tempo aqui não está sendo perdido. Será uma pena quando precisarmos ir embora... Especialmente para Sophie...

Continuação da entrada do dia 12 de dezembro de 1997 no diário de Juliana
Depois de conhecer Pierre, eu precisei desabafar com Louise. Ela se chocou um pouco. Conhecera as irmãs Hass e mesmo que achasse que elas escondiam alguma coisa, nem desconfiava que elas escondiam um demônio na biblioteca. Perguntei como diabos ela sabia que ele era um demônio. Ela sorriu.
- Meio demônio. Eu aprendi a detectar eventos infernais e você fede a um encontro com íncubo. - Arregalei os olhos e ela caiu na gargalhada. – Relaxa, o Inferno só te afeta se você quiser que ele te afete.
- Eu não entendo esse tipo de coisa. – Resmunguei.
- Se você quiser, eu te explico. Não é muito difícil na verdade.
- Eu acho que vou precisar saber disso, já que lidar com ele é a definição do meu trabalho.
Ela, então, me ensinou tudo que eu deveria saber sobre o Inferno para sobreviver ao meu trabalho.
Meses se passaram e tudo ficou mais fácil. Eu mantinha os aposentos de Pierre em ordem e ele sabia ser organizado quando tinha alguém para fazer o que eu fazia: cuidar dele.
As irmãs Hass passavam grande parte do tempo se revezando em passeios, deixando-me sozinha com Pierre uma vez ou outra. Pierre nunca era aberto comigo, nunca contava o que estava acontecendo. Eu o sentia tentando me seduzir, vez ou outra, mas estava vacinada. Contava tudo para Louise, mas não havia tanto assim para contar, as irmãs Hass quase nunca dividiam algo novo comigo e eu também nunca perguntava. A prisão de Pierre era a única informação que eu tinha e nem sabia porque ela havia acontecido. Quando festas começaram a acontecer dentro da casa das Hass, eu passei a trabalhar nelas também, mas tinha ajuda e recebia mais.
No fim de tudo, eu gosto do que faço, mesmo que isso pareça estranho.

16 de dezembro
Diário de Kat
- Nenhuma das bruxas pode saber o que nós somos de verdade, vocês têm que me jurar isso! – Kaylee dizia, em uma reunião comigo, Ellie e Sophie na sala de visitas.
Não era nada oficial. As outras garotas haviam saído com amigas e estávamos apenas nós quatro em casa conversando e conversando até que o assunto recaiu sobre as bruxas que comandavam Nova Orleans.
- Estou surpresa por elas ainda não saberem – Sophie começou, segurando um bocejo. Ela não dormia há dias. Passa quase todas as noites fora de casa e quando chega quer passar um tempo conosco. – Mas fique tranquila, Kay, não pretendo que elas saibam e não acho que as outras queiram que elas saibam também.
Kaylee estava olhando bem nos olhos de Sophie enquanto esfregava uma cicatriz, distraidamente. Eu observei as cicatrizes que subiam por seu braço, se escondiam na manga da blusa e apareciam outra vez no pescoço. Suspirei.
Quando era normal que as mulheres usassem vestidos recatados e de manga longa, as cicatrizes de Kaylee ficavam escondidas e quase nunca afetavam sua beleza natural. Hoje, quando as roupas estão ficando cada vez menores, mesmo as calças jeans e blusas de manga 3/4 que ela usa não escondem todas as marcas em sua pele. Não são cicatrizes marcantes, nojentas ou bizarras, mas sempre que alguém se aproximava de Kaylee e via aquelas marcas subindo por seus braços, queria saber o que havia acontecido e sua hostilidade em relação a isso afastava todo mundo. Foi por isso que mesmo aparentando ser mais velha que Ellie, ela não recebeu o mesmo número de avanços amorosos que a outra.
- Ainda não entendo como você consegue ficar tão calma quando todas essas bruxas estão te cercando. Você precisa lembrar que para as bruxas americanas até falar com um vampiro é magia negra. Se elas descobrirem, irão nos atacar, completamente enfurecidas. Talvez você não lembre muito bem o que houve da última vez que o Exército esteve em uma cidade dominada por bruxas.
Sophie piscou, agora totalmente acordada.
- É claro que eu me lembro, Kaylee. Mas todas elas estão mortas agora, graças a você, e a cidade que comandavam agora é só uma cidade fantasma. É isso o que acontece quando alguém cruza o caminho do Exército. Não importa quanto tempo leve, essas pessoas acabam completamente destruídas.
Foi a vez de Kaylee piscar, desconfortável.
- Até Kat sabe que não é uma boa ideia ficar em uma cidade cheia de bruxas, Sophie. Eu sei que você ama Nova Orleans, mas... – Kaylee não conseguiu completar.
- Como assim “até Kat”? Vocês falam como se eu fosse completamente inconsequente. – Reclamei, ao mesmo tempo que Sophie dizia:
- Kay, você não gosta de Nova Orleans? - Ela dizia isso inclinando a cabeça de forma que os cachinhos na ponta dos fios dourados caíssem para o lado. Seus olhos violeta cresciam com expressões que só eram possíveis em alguém com sentimentos. É claro que Sophie aprendeu a usar seus sentimentos a seu favor.
- Gosto. – Kaylee disse, obstinada, porém calma – Mas nós não poderemos ficar aqui para sempre e em pouco tempo perceberão o que nós somos.
- Não se preocupe! – Sophie exclamou, fazendo outro movimento com a cabeça que fez com que a luz brincasse em seus cabelos. – Ainda levaria anos para que elas percebessem qualquer coisa e antes que elas possam perceber, nós estaremos fora daqui.
Surpreendi-me ao perceber que Sophie fazia planos para sair de Nova Orleans. Então me dei conta de que nem eu me lembrava que tinha uma missão a cumprir fora daquela maravilhosa cidade sulista dos Estados Unidos. Logo em seguida, me lembrei de Juliana e resolvi mudar o tema da conversa para minha futura nova vampira.
- E o que vocês acham? Juliana está indo bem?
Todos os olhos da sala se viraram para mim. Os de Kaylee se estreitaram.
- Bem até demais.
Fiz uma careta.
- Explique-se.
- Pierre tem sido tão sutil e suave quanto foi comigo e até eu estava mais derretida por ele que ela.
- Talvez... – Disse pensando em uma forma suave de dizer o que eu pensava – Talvez Juliana perceba que há algo de ruim nele.
- Ah, qual é. – Sophie disse em seu natural jeito despreocupado – Um cara preso, desesperado e triste é um prato cheio para qualquer garota solitária.
- Talvez ela não seja tão solitária assim. – Kaylee disse, erguendo a sobrancelha.
- Ela não tem namorado, acredite. – Quando me dei conta de que estava na defensiva sobre ela, já era tarde demais - Eu a segui todas as vezes que ela saiu nos últimos meses. Ela foi se encontrar com uma amiga em quase todas as saídas e só em duas foi até a casa da mãe.
O silêncio recaiu sobre a sala por alguns minutos até que Ellie abriu um sorriso maldoso e disse com os olhos brilhando:
- Você tem certeza de que era uma amiga? – A ênfase na palavra destilava veneno, ou fagulhas de gelo, se é que isso existe - Quer dizer, talvez ela possa não gostar da coisa né?
- Você quer dizer que ela é...? – Me senti corar e desviei os olhos sem poder me controlar.
As três explodiram em uma gargalhada ritmada e doce.
- Arrá, então ainda existe algo de uma dama vitoriana nessa vampira centenária. – Sophie brincou, ainda rindo – Lésbica, Kat. Ellie está dizendo que Juliana pode ser lésbica. Não seria tão surpreendente assim.
- Mas bem, - Eu disse, tentando encará-las, mas as risadas me desconsertavam (ainda me deixam vermelha, só de descrevê-las) - isso estragaria o plano que tive.
As risadas foram minguando até que Ellie pigarreou e discordou de mim:
- Bem, não é porque ele é meu filho... Pelo amor de Deus não façam essa cara de surpresa, eu já me acostumei a chamá-lo de meu filho outra vez... Mas ele é meio íncubo. Ele é sedutor de uma forma sobrenatural, que ultrapassa normas físicas. Nenhum ser humano normal deixaria de cair em seus encantos. A única forma de evitar ser conquistada por um cara assim é se... – Ela se interrompeu e arrumou o corpo na chaise longue.
Os olhos de Kaylee se arregalaram.
- E se ela for uma bruxa?
- Não é. – Resmunguei, frustrada. As três pareciam estar colocando todos os empecilhos possíveis para que Juliana não fosse transformada. – E se fosse? Metade de vocês é.
- Mas uma bruxa de Nova Orleans nunca se tornaria vampira por escolha própria.
- Uma bruxa de Nova Orleans também nunca seria uma criada na casa de outras bruxas, por isso eu digo: Juliana não é bruxa. Porém, não me subestime, Kaylee! Se eu transformei a filha de um pastor protestante, uma bruxa que odiava vampirismo e uma órfã cheia de razões para odiar o Inferno, eu posso perfeitamente transformar quantas bruxas de Nova Orleans eu quiser.
- Calma, Kat. Eu não pretendia ofender você! – Kaylee disse, levantando as mãos. – Mas cá entre nós, nada do que nós dissermos vai impedir você de transformar Juliana, vai?
- Não se eu estiver certa de que ela serve para o Exército. – Reconheci em minha voz a frieza de Ellie e o calculismo de Sophie. E foi isso que me fez sair da sala e ir para meu quarto fazer algo que não senti vontade de fazer em 130 anos: ficar sozinha.

19 de dezembro
Diário de Juliana
A preparação para as festas de Natal trouxe um clima inesperado na casa das Hass: O de família. Bem, as Hass são uma família bem unida, é claro. 10 irmãs morando em uma casa sem brigas frequentes é algo totalmente surpreendente. Mas, eu não sei explicar como, sempre houve uma frieza surpreendente nesta casa que se dissipou agora que o Natal e o fim do ano se aproximam.
Os festejos começam no dia 21, com o festejo de solstício de inverno. No dia 22 teremos uma festa de aniversário para Naomi – não me pergunte de quantos anos, as respostas a essas perguntas são sempre confusas. Logo em seguida, começarão as três festas de natal: a festa para arrecadar fundos para sei lá o que, o baile de máscaras que será uma demonstração da festa que elas farão no Mardi Gras e a ceia de natal, no dia 25, para a qual Pierre comparecerá novamente como noivo de Sophie. Uma semana depois, uma festa de fim de ano para todos os jovens de Nova Orleans será celebrada aqui.
Até as irmãs concordaram comigo que seria quase impossível eu conseguir lidar sozinha com tantas festas ou mesmo com a ajuda dos ajudantes que elas geralmente contratam, então pediram para que eu encontrasse pessoas que eu confiasse e que fossem tão bons quanto eu para me ajudarem a organizar e servir tudo. Quando pedi ajuda para Louise, perguntando se ela conhecia alguém de confiança, ela disse que conseguiria que sua mãe emprestasse todos os empregados de casa, desde que eu conseguisse que ela e sua mãe fossem convidadas para todas as festas. O pedido era, no mínimo, inesperado.
- Vai parecer estranho, mas a verdade é que eu tenho passado os últimos meses totalmente obcecada pelas irmãs Hass. – Ela explicou, enquanto bebia um pouco do chocolate quente que dividíamos em seu quarto. – Depois do que você me contou, descobrir tudo sobre elas se tornou uma espécie de objetivo de vida. Tenho arrumado formas de estar nas mesmas festas que elas e enchido de perguntas todos que já conversaram com elas. Mas aquela família criou uma espécie de redoma de poder em torno de si. Elas são tão poderosas que até mesmo as bruxas, que mandam nessa cidade há não sei quanto tempo, estão fazendo de tudo para caírem em suas graças. É quase impossível se aproximar de uma delas durante as festas a que vão e ainda mais próximo do impossível ser convidada para uma festa na casa delas. Estar lá e talvez, quem sabe, conhecer Pierre seria perfeito para que eu pudesse descobrir o que quero. Eu sei que não é seguro que saibam que ainda temos contato, mas você é a pessoa mais próxima delas que eu conheço, quer dizer, você mora naquela casa. Nós duas sabemos que você consegue me colocar lá, então, por favor, Juliana, por favor, faça isso.
Enquanto ela falava, eu já ia arquitetando planos para colocá-la nas festas. Era impossível negar qualquer coisa para Louise, filha única e herdeira de coisas demais.
- Tudo bem, tudo bem, eu consigo. – Respondi suspirando. – Mas eu realmente vou precisar de seus criados. Só não entendo porque você não tem medo.
Louise ergueu a sobrancelha loura.
- Medo?
- Nós não sabemos o que elas são, só que elas estão mantendo um demônio como prisioneiro. Um demônio, Louise. Como não ter medo dessas criaturas?
- Ah, qual é, Juliana, até eu conseguiria manter prisioneiro um híbrido de demônio. – Ela colocou nas palavras a mesma ênfase que eu colocara – Se eu tivesse motivos, naturalmente. O que eu não tenho. Por enquanto. Então não, eu não tenho medo delas. Sei me defender.

20 de dezembro
Diário de Kat
- Juliana pediu para trazer alguém às nossas festas? – A pergunta vinha de Sophie, a mais interessada neste assunto.
Todas nós estávamos na sala comum, à luz da lareira bordando em tempo recorde as palavras “Lembrança da ceia de Natal da família Hass. 1997.” em fios de ouro, em 200 toalhinhas de mãos. A preparação para as nossas festas de fim de ano fazia com que até Sophie resolvesse ficar em casa.
- Na verdade, ela me contou que uma ex-empregadora dela emprestaria seus criados, mas que havia dito que queria ser convidada para ao menos uma das festas. - Respondi, suavemente – Então, eu disse que ela poderia vir a todas se quisesse.
- E por que você fez isso? – Perguntou Ellie, que colocava de lado sua quinta toalhinha enquanto eu pegava a minha segunda.
- Porque a tal empregadora é a mesma que ela sempre vai visitar quando some. Então eu pensei: por que não colocar as duas dentro de nossa casa e descobrir o que há com elas?
- Desde que você cuide de vigiá-las e ninguém mais. – Resmungou Anika, que sempre acabava em vigia junto com as gêmeas.
- Fique tranquila. Vocês podem se divertir, eu cuido disso.
- Ah, nós vamos nos divertir... – Miranda disse enquanto terminava a curva de um dos cês.
- Especialmente amanhã. – Valentina completou.
A festa de solstício foi o disfarce perfeito para uma ideia que tivemos para ficar mais tempo em Nova Orleans. Mortes chamam atenção demais agora que a TV está aí para noticiar todos os casos e que a polícia caça insistentemente serial killers quando mortes são muito parecidas. E mesmo que não matássemos, atacar pessoas e depois apagar suas memórias é perigoso demais: até a mordida cicatrizar, seria provável que encontrassem o machucado e o associassem a vampiros.
O amor de Nova Orleans por vampiros surgiu há alguns anos – obrigada, Anne Rice – e cresceu a ponto de hoje em dia diversos grupos de debates sobre o tema existirem pela cidade. Convidamos pessoas pertencentes a esses grupos com a justificativa de que por serem entusiastas de coisas místicas eles poderiam explicar perfeitamente tudo que acontecem em noites como as de amanhã. Convidamos também às famílias das bruxas que geralmente convidamos, apenas para despistar. Por ser solstício de inverno, esse último grupo de pessoas não virá, já percebemos que é tradicional que as famílias de bruxas fiquem juntas em casa nessas datas.
Então amanhã a casa estará cheia de fãs de vampiros, que guardarão perfeitamente bem o segredo a respeito do que somos e estarão mais do que dispostos a se tornar nossos “doadores irrestentes”. E caso eles resolvam contar para alguém o que somos, as chances de acreditarem neles mal existem, quem iria confiar que a família mais admirada de Nova Orleans são um bando de sugadoras de sangue demoníacas? Nem eu acredito.

22 de dezembro
Diário de Juliana
Mal deu sete da noite, Louise me deu um susto entrando pela entrada de serviço.
- O que você pensa que está fazendo? – Perguntei, agarrando-a pela manga da blusa. Os outros criados na cozinha me lançaram olhares tortos. – Você é convidada, tem que entrar pela porta da frente.
Louise arrancou a manga de minhas mãos.
- Só vim avisar que voltarei depois da meia-noite. Acontece que por ser solstício eu tenho que jantar com a minha mãe, em casa. É tradição ou sei lá o quê. Ela declinou o convite, mas eu virei. Não perderia nenhuma dessas festas por nada.
- A festa começa às 21h. Você não acha que vai ser estranho se você chegar tão tarde?
- Acho, mas caso não me recebam eu entro por aqui outra vez e me enfio naquele salão de baile. – Louise esticou a mão e alcançou um canapé que ia para a festa, jogando-o na boca - Duvido que percebam.
- Louise, eu ainda acho que isso é perigoso demais...
 Mal eu disse essas palavras, Tatiana entrou na cozinha, vindo checar os preparativos.
- Droga. – Resmunguei ao me dar conta de que não ia dar tempo de tirar Louise da casa antes que Tatiana me visse e nesse momento ela me notou.
- Juliana, está tudo de acordo com o pedido?
A essa altura ela já estava em minha frente, os olhos escuros examinando a garota ao meu lado, que nesse momento abriu um sorriso amarelo.
- Sim, senhorita Hass. – Respondi, tentando manter a calma - Perfeitamente.
- E esta é...? – Ela perguntou trocando o olhar entre eu e Louise. Não tinha nenhuma arrogância na voz, simplesmente estava perguntando porque uma desconhecida estava em sua cozinha, sem roupas de criada.
- Ela é Louise, filha daquela ex-empregadora que falei para a senhorita Katerina. Ela veio trazer a notícia de que não poderá vir. – Louise me beliscou e eu acrescentei: - Pelo menos não antes da meia noite.
Tatiana soltou um “hmm” baixinho, considerando o que eu tinha dito. Mordeu o interior da bochecha e disse:
- Bem, Louise, acredito que não dê para você vir à meia-noite. Não na festa de hoje. Chegar no dia seguinte ao solstício meio que quebra o princípio da festa de solstício, não né? Mas você pode vir amanhã, para o aniversário da Naomi. Será divertido.
Louise abriu ainda mais o sorriso amarelo e concordou, evitando dizer uma palavra. Tatiana sorriu e se virou, saindo da cozinha sem dizer mais nada.
- Eu avisei. – Disse para Louise, me virando para voltar às minhas obrigações.
Mas ela me seguiu.
- Como se as palavras daquela garota fossem me impedir de vir a essa festa. – Disse, pegando quitutes enquanto ia atrás de mim até o fogão - Aliás, qual delas é ela, hein? Pela idade eu diria Naomi, mas como ela usou a terceira pessoa para se referir a essa, tem que ser outra.
- Aquela é Tatiana. – Interrompi - Naomi tem olhos verdes. Pensei que você estivesse obcecada pelas irmãs Hass, mas pelo visto não o suficiente. - Balancei a cabeça ao me dar conta de que estava na casa delas e que as chances delas estarem ouvindo aquilo eram enormes. – Mas que diabos você quer dizer com as palavras dela não vão te impedir de vir hoje à noite?
- Eu sou obcecada, mas são irmãs demais, então eu me foco nas irmãs mais interessantes: Sophie e Katerina. – Ela disse, com as mãos na cintura. - Eu poderia apostar que uma das duas, senão as duas, são a causa desse mistério todo. E respondendo a sua pergunta: eu quis dizer exatamente o que eu disse. Depois da meia noite estarei aqui e conseguirei entrar naquela festa, ou eu não me chamo Louise...
Ouvi as risadas de duas das irmãs no corredor e aproveitei a deixa para expulsar Louise da casa.
- Quando você voltar nós conversamos. Agora sai. – Empurrei-a porta a fora e bati a porta deixando seus protestos para trás no momento em que as gêmeas abriram a porta pedindo minha ajuda no salão de baile.
O salão de baile estava lotado. Todos os empregados tentavam entender as ordens que as irmãs davam em vários lugares da sala. Enquanto eu tentava ajudar as gêmeas a pendurar flocos de neve gigantes no teto, aproveitei para observar a decoração.
As maravilhosas chaise longues da sala comum estavam dispostas pela sala, como sempre fazem quando tem festa na casa. Lençóis brancos as cobriam e ao lado de cada uma delas estava posicionada uma mesinha de tampo de vidro com todos os quitutes da festa. Papel branco picotado imitando neve estava espalhado pelo chão e flocos de neve desenhados em isopor estavam sendo pendurados no teto, aos poucos. Tudo era incrivelmente refinado e tudo – à exceção da comida – havia sido feito pelas mãos das irmãs Hass.
Quando desci da escada, as gêmeas perceberam minha admiração.
- E aí? O que você achou?
Olhei para elas pensando no que devia dizer. Então me dei conta de que só poderia elogiar o trabalho delas.
- Está tudo maravilhoso.
- Obrigada. – Miranda (reconheci pelo diamante azul no pescoço) disse, sorrindo - Deu bastante trabalho.
- Especialmente com Ellie comandando tudo. – Valentina completou, passando a mão pela testa em uma atitude dramática. – Nunca pensei que alguém fosse ser tão exigente quanto papai.
Era a primeira vez que eu as via citar o pai e me surpreendi. Considerando que elas são duas das irmãs mais novas eu nunca pensei que elas conheceram o pai por tempo suficiente para perceber esse tipo de coisa. Miranda percebeu meu estranhamento.
- Meu Deus, Valentina, você decididamente fala demais! – Reclamou, cutucando a irmã - Enfim, Juliana, eu realmente sinto muito que você não possa ficar na festa esta noite. Mas a boa notícia é que se você continuar fazendo tudo do jeito certo em breve poderá ser uma de nós.
Valentina deu um beliscão na irmã.
- E sou eu quem falo demais! – Exclamou, nervosa.
Eu não fazia ideia do que elas estavam falando, mas a fala cantada das gêmeas causava uma espécie de hipnose em mim. Ao me dar conta disso, eu balancei a cabeça e disse entredentes que precisava voltar para a cozinha. Quando saí, dei de cara com Sophie e Charlottie, que vinham conversando pelo corredor. Acenei com a cabeça e continuei meu caminho, mas o encontro me fez me dar conta de uma coisa: todas as irmãs usavam vestidos exatamente iguais. Vitorianos, totalmente brancos e com um corpete ajustado em cada um dos tamanhos de cada uma delas. Poderiam ter sido feitos por qualquer estilista, mas eu ouvi a máquina de costura no quarto de Ellie por dias, então sei que foram ela e Kaylee que os fizeram. As irmãs também usavam correntes de ouro no pescoço, cada um com uma pedra preciosa diferente, variando do rubi mais escuro (Kaylee) ao topázio mais claro (Naomi). Eu já havia visto essas correntes, que elas sempre usavam em aniversários e outras datas importantes. Nessa noite estranha, essas pedras pareciam significar algo grave.
Me envolvi no trabalho da cozinha e tentei me impedir de pensar sobre esse tipo de coisa, afinal, eu não tenho nada a ver com o que minhas empregadoras fazem ou deixam de fazer. Um pouco antes das nove, e de os convidados começarem a chegar, notei que todos os empregados estavam na cozinha, ao invés de prontos para servir, onde deveriam estar. Mal me dei conta disso, as dez irmãs entraram na cozinha, em uma formação estranha de vestidos iguais em pessoas diferentes.
- Nós gostaríamos de agradecer pelo serviço prestado hoje. – Ellie começou, tomando a dianteira como fazia poucas vezes – Mas... Não precisaremos de vocês até às 3 da tarde de amanhã.
Alguns empregados trocaram olhares, estranhando. Eles haviam sido chamados para cozinhar e servir.
- Está tudo perfeitamente organizado hoje no salão de baile e nós queremos certa privacidade com nossos convidados. – Ellie continuou. - Vocês podem ir para suas casas, até amanhã, quando nos ajudarão com a festa de Naomi. Por hoje é só. Juliana você pode comer o que ainda ficou na cozinha e fazer o que quiser, mas pedimos que não vá até o corredor do salão de baile. Se puder, leve um pouco de comida à biblioteca, por segurança. – Acrescentou colocando uma ênfase nessa última frase, só para ter certeza.
Então saíram, deixando uma sensação esquisita no ar. Era tudo muito estranho, mas não o mais estranho que todos nós já havíamos presenciado nas casas que trabalhamos, então aos poucos todos trocaram as roupas que usavam e foram embora dali, me dizendo “boa noite” polidos.
Nem todo mundo havia ido embora quando a campainha começou a tocar e ainda continuou a tocar por muito tempo quando foram embora. Enquanto ouvia esses sons, eu encarava a bandeja de salgados pensando sobre as irmãs Hass. Eu moro nessa casa há cerca de 8 meses e nunca fui maltratada ou deixei de receber tudo que tinha direito e de vez em quando alguns extras. A casa é confortável e tem tudo que eu preciso e quero. Até cuidar de Pierre se tornou mais fácil depois do primeiro dia. E essa nem é a casa em que eu vi as coisas mais estranhas. (Frase que, aliás, eu pareço não parar de repetir a mim mesma, como se quisesse acreditar). Mas é justamente por isso que eu me sinto tão estranha aqui dentro: nada pode ser tão bom sem condições, nada pode ser tão perfeito sem alguma coisa por trás. O problema é: que coisa? O que de tão maligno as irmãs mais queridas de Nova Orleans escondem? Me dei conta de que a única pessoa que podia me ajudar a descobrir isso era Louise.
Esperei cerca de quarenta minutos após o último convidado chegar para pegar uma bandeja de salgados e levar até a biblioteca. Pierre estava dormindo e acordou assustado quando eu acendi a luz.
- Relaxe, sou só eu. – Eu disse. – Vim trazer comida.
Ele resmungou e se sentou.
- Achei que fosse Sophie vindo me pegar para a ceia de natal. – Ele disse quando me sentei ao seu lado, atacando a bandeja de comida logo em seguida.
- Não, hoje ainda é dia 21.
- De dezembro? – Ele perguntou, com a boca cheia.
Tentei pegar um pouco da comida dele, mas me dei conta de que estava sem fome.
- Sim. – Respondi.
- De que ano?
- 1997. Meu Deus, Pierre, você perdeu tão totalmente a noção de tempo?
- Há vários anos. Tempo demais.
- Não vou nem perguntar do que você está falando.
Suspirei e fiquei em silêncio, quase querendo desligar a luz. Demônio ou não, a companhia de Pierre era confortante. Ele é o tipo de pessoa com quem se pode ficar em silêncio por horas, se sentindo tranquila simplesmente por não estar sozinha.
- Às vezes... – Disse Pierre, engolindo um monte de comida. – Às vezes eu acordo e sinto o cheiro delas e por um momento me vejo com um garoto outra vez. Como eu era antes de traí-las.
Levantei. Eu não queria ouvir nada daquilo.
- Sente-se. – Pierre resmungou. – Eu só preciso desabafar, Juliana. Estou cansado. E mais importante, eu sei que você sabe o que eu sou.
- Não sei do que você está falando. – Me defendi, ainda de pé.
- Não se faça de sonsa. Não comigo. Não sei como descobriu, mas eu sei que você sabe.
- E como sabe disso?
- Porque você não se apaixonou por mim. E olha que eu venho jogado charme todos esses meses, mas não aconteceu. Você merece todos os méritos por isso.
Mordi o lábio inferior, indecisa sobre o que deveria fazer. Pierre enfiou uma dezena de canapés na boca e engoliu depois de duas mastigadas.
- Só não sei se você sabe o que elas são. – Ele disse, erguendo os dedos na direção do salão de baile. – Não, não sabe, posso ver em seu rosto. É uma pena de verdade, pois na minha condição de prisioneiro eu não posso contar para você. Se você deixasse a casa, Sophie me torturaria por semanas, tentando descobrir o que houve.
Me sentei outra vez e olhei suplicante para ele.
- E se eu não for embora ao descobrir? – Pedi.
Ele sorriu, os dentes sujos da massa dos salgados.
- Pode ter certeza, quando você souber você sairá correndo daqui, para o mais longe possível. A menos que... – Seus olhos perderam o foco e ele começou a falar consigo próprio - Oh Deus, ela irá. Eu deveria saber desde o começo. Kat estava feliz demais com a ideia de permanecer em Nova Orleans. – Ele olhou para mim - E se você está destinada a ser como elas, ao descobrir o que elas são, você ficará mais fascinada do que assustada.
- Destinada?
Ele me olhou com olhos examinadores agora. Parecia procurar alguma coisa em mim.
- Katerina tem uma intuição impecável. – Ele disse, baixinho.
- Você está me deixando mais confusa do que eu estava quando entrei, Pierre. – Reclamei, me levantando outra vez.
Ele me entregou a bandeja, agora vazia.
- Você saberá. Em tempo. Como eu disse, na posição de prisioneiro, não há nada que eu possa fazer para ajudá-la.
Ele sorriu e deu de ombros ao dizer isso. Saí frustrada da biblioteca, apagando a luz antes de trancar a porta. Fui para o meu quarto sem comer e tentei ler para me distrair. Infelizmente, Louise estava tentando me fazer ler mais autores de Nova Orleans e o Anne Rice que me emprestara me fez imaginar criaturas gigantescas que nasciam andando, o que não ajudava em nada minha tentativa de não pensar em bruxas, demônios e o que quer que as irmãs Hass sejam...
Acordei com batidas insistentes à minha porta. Surpresa, abri a porta para me dar de cara com Louise. O relógio em minha mesa de cabeceira acusava 00h20.
- A porta está trancada. – Ela reclamou, invadindo meu quarto sem pedir licença. - Elas realmente não querem ninguém em casa depois a hora da festa. Arranquei dos meus empregados que elas sequer deixaram alguém servir. Será que amanhã farão isso outra vez? É a primeira vez que elas fazem? Bem, nem faz tanta diferença, porque isso não foi o mais estranho. Eu coloquei a orelha na porta do salão de bailes e você não pode imaginar o que eu ouvi: gemidos! O que será que essa festa é? Algum tipo de orgia?
Eu estava chocada.
- Claro que não! As mais novas têm cerca de onze anos! Dez, se você estiver certa sobre a idade de Katerina. – A idade da irmã Hass havia se tornado motivo de apostas entre nós.
- Isso pode não querer dizer nada. Não se alguns boatos que eu ouvi forem verdade. Mas cá entre nós: você não teria a lista de convidados da festa de hoje por aqui não, não é?
Eu nunca conseguia acompanhar a linha de raciocínio de Louise. E infelizmente, eu tinha a lista de convidados, a qual Louise levou alguns minutos estudando.
- Que estranho! Todas as famílias de bruxas da cidade foram convidadas, mas é óbvio que nenhuma delas veio por causa da tradição. Além delas, nenhuma das outras pessoas são minhas conhecidas e eu conheço toda a elite de Nova Orleans. Esses outros convidados são totalmente anônimos e não tem aparentemente nada em comum. Será que eu posso levar isso aqui para casa e fazer uma pesquisa mais detalhada? – Antes que eu pudesse responder, a matraca continuou – Meu Deus, Ju! Só percebi agora que essa seria a noite perfeita para que você me apresentasse Pierre. Será que ainda dá?
- Não, esta noite não. - Respondi, decidida - Não quero mais olhar para ele.
Então comecei a narrar meu último encontro com Pierre.



1º de janeiro de 1998
Diário de Kat
Deuses, acabou! Finalmente! Nunca me senti tão cansada quanto no momento e estou completamente louca para sair desta escrivaninha e me aconchegar em meus cobertores, talvez por dois ou três dias. Mas preciso registrar tudo que aconteceu nestas festas, porque talvez ao acordar eu acredite que tudo não passou de um sonho, o que seria perigoso demais.
O primeiro circuito de festas saiu como o planejado. A festa de solstício foi uma perfeita demonstração de nossa herança vitoriana, que começou com um coquetel e conversas sobre tudo que vivemos – bem, não tudo, tuuudo... Qualquer coisa sobre o século passado que disséssemos os deixavam tão fascinados que ao fim nada muito importante precisou ser dito - e terminou com um banho de sangue delicioso, onde ninguém morreu, mas todos brigaram para virar jantar, competiram uns com os outros para saber quem tinha o sangue mais apetitoso e ainda saíram implorando por mais festas do tipo. Sophie declinou o sangue educadamente, insinuando que seu “noivo” já fornecia sangue o suficiente para ela. Prometemos que toda semana pelo menos duas de nós iriamos a reunião de cada grupo, falar mais e nos alimentar, exatamente como planejávamos fazer desde o princípio.
A festa de aniversário de Naomi foi extremamente fascinante. É inacreditável o que as pessoas fazem para presentear alguém que “tem tudo”. Os presentes variaram de cachorrinhos (aliás, acabo de perceber que não faço a mínima ideia de onde aquele cachorrinho foi parar depois da festa) a diversas fazendas no interior do país, passando pelas mais diversas joias exclusivas e apresentações musicais das promissoras herdeiras das famílias que mandam em Nova Orleans. Saíram todos incrivelmente satisfeitos e implorando que contássemos nossos aniversários para que mesmo quem não quisesse comemorar acabasse cheia de presentes.
Então começaram os bailes de Natal. O primeiro foi o de caridade, onde todos podiam fazer as mais diversas doações para um fundo de caridade do país de onde nos originamos - também conhecido como uma conta na Suíça que está no nome de Sophie e Charlottie que não é mexida há tanto tempo que o dinheiro apenas se multiplica devagarzinho. Nossa, é completamente inacreditável tudo que as pessoas fazem por nós nessa cidade. Até abrir mão de seu próprio dinheiro sem sequer checar para onde ele está indo, apenas porque nos acham tão encantadoras e doces que conseguir nosso carinho e devoção se torna uma competição não dita, como se de alguma forma ter nosso favor fosse levar alguém a algum lugar.
O segundo baile foi o de máscaras, na véspera de Natal. Ao contrário do que houve no solstício, quase todas as famílias de Nova Orleans abriram mão da ceia de Natal em casa para perder a noite fantasiados em nossa casa e então aproveitar uma ceia de natal no dia 25. Aproveitamos as máscaras para ouvir tudo que não tinham coragem de dizer para nós livremente. As mais novas até inventaram de usar perucas para que ninguém as reconhecesse, mas ainda assim só ouvimos os mais enjoados elogios e os mais desesperados desejos de fazer parte de nossa família.
Foi naquela noite que eu flagrei Juliana conversando com Louise, a filha da tal empregadora que emprestou seus criados e a garota que ela sempre visitava quando saía de casa.
- Uma coisa é certa: elas sabem como fazer festas maravilhosas. – Louise dizia, segurando da forma que apenas os nascidos ricos seguravam, uma taça de champanhe. – Não que isso estivesse em dúvida, naturalmente. Só estou dizendo que ninguém normal conseguiria organizar festas assim em dias consecutivos.
- Elas têm trabalhado nisso o mês inteiro. – Juliana disse, olhando nervosa para os lados. Tinha a aparência de alguém pego pelo chefe vadiando.
- Ainda assim, Ju. – Ela dizia, olhando em volta com a mais pura admiração - Olhe esses detalhes dourados nas cortinas, essas máscaras penduradas. Nada disso estava ali ontem e levaria no mínimo dois dias para limpar tudo e arrumar tudo com tanta perfeição.
- Ok, Louise, você já está ficando paranoica. Não é só porque elas dão festas maravilhosas que são criaturas do demônio.
- Eu não disse isso. – Louise reclamou colocando a taça de lado. Juliana a alcançou lançando um olhar raivoso. – Me desculpe. Eu ia dizendo que elas não são criaturas do demônio, porque você sabe muito bem que se as dez tivessem qualquer coisa a ver com o Inferno, eu saberia.
- Certo, então quais são suas teorias? – Juliana perguntou levemente interessada.
- Não tenho nenhuma. Criei várias, mas sempre existe algo que desmente tudo que eu acredito. Eu pesquisei aquela lista de convidados e sabe qual é a única coisa que todas aquelas pessoas têm em comum? Eles fazem partes de clubes de misticismo na cidade.  Misticismo!! Eu estou falando daqueles que todas as bruxas da cidade odeiam porque vivem descobrindo e divulgando coisas que ninguém deveria saber. Se elas convidaram todas as bruxas da cidade e todos os membros de grupos de misticismo, inimigos ferrenhos, ou elas são muito inocentes, o que eu duvido ou elas sabiam que nenhuma das bruxas viria.
Eu estava totalmente fascinada pelo que estava ouvindo. A garota parecia obcecada por nós, não da forma doentia como as pessoas geralmente ficavam, mas de uma forma totalmente profissional como se sua curiosidade fosse grande demais para aguentar o mistério que são as irmãs Hass. Me dei conta de que estava correspondendo seus sentimentos na mesma intensidade: precisava descobrir tudo sobre ela. Antes que eu pudesse ouvir o que Juliana respondeu ouvi meu nome pronunciado por alguém e precisei sair dali o quanto antes, para que minha observação não fosse descoberta.
Na tarde seguinte, enquanto trocávamos as cortinas brancas de seda da sala de jantar por cortinas vermelhas de veludo eu contei para as meninas sobre Louise.
- Então foi assim que Juliana descobriu sobre Pierre. – Ellie disse entre um berro (MAIS PARA A DIREITA) para Anika e Charlottie, que arrumavam uma das cortinas com cuidado - Sua melhor amiga é uma bruxa.
- Sim. – Respondi, subindo os degraus da escada de madeira com outra cortina na mão - Uma interessante e poderosa bruxa.
- Interessante. – Ellie resmungou - Nunca é um bom sinal quando você usa essa palavra.
Os olhares da sala se viraram para mim.
- Mais uma, Kat? – Valentina perguntou, com uma risadinha presa.
- Do que estão reclamando? Ainda precisamos de três vampiras até onde eu sei.
- Não é uma reclamação, só estou surpresa. – Valentina defendeu-se, descendo da escada.
Eu suspirei.
- Não gosto da forma como vocês andam agindo a respeito de eu ter uma nova vampira para o Exército. Não faz nem tanto tempo o “bem maior” era a prioridade de todas nós.
Puxei o veludo da cortina com cuidado e deixei o tecido escorrer pelos meus dedos. Antes que Sophie falasse, eu já sabia porque o bem maior havia deixado de ser prioridade:
- É fácil pensar em vencer uma batalha, em fazer sacrifícios, em salvar as almas de toda uma população demoníaca quando até o mundo humano está em guerra. - Ela observou, cuidadosamente - Agora é diferente, nós vivemos no máximo do conforto, em uma vida de festas, de elegância e depois da festa de solstício até mesmo de sangue ao bel prazer. É difícil demais pensar em criar um Exército quando a vida é descansar em chaise longues à luz de lareiras durante o dia e festejar até não aguentar mais à noite.
Sophie estava certa. Certa demais. Era fácil pensar no Exército quando o máximo de nossa vida era andar por florestas escuras na Europa, invadindo casas. Todas essas festas, esse dinheiro, esse conforto, era bom demais para abandonar. Pensei em abrir uma discussão sobre nosso futuro, mas naquele momento a campainha tocou: era mais um motorista trazendo dez caixas de presente, cada um com uma surpresa diferente, para cada uma das irmãs Hass.
A ceia à noite também foi como o esperado. Servimos os mais deliciosos pratos típicos, embalados por jazz e bebidas finas. Pierre foi tirado de sua cela segura para servir de noivo de Sophie e mesmo depois de diversos avisos de Ellie, comeu como um condenado no corredor da morte. Dormimos por quase um dia inteiro depois dessa festa.
Passamos os primeiros dias depois disso separando nossos presentes. Aquilo que guardaríamos, aquilo que penhoraríamos e aquilo que doaríamos. Ellie sugeriu com toda sabedoria que abríssemos um cofre onde deixaríamos guardadas todas as joias que não usamos com frequência, só por garantia. Kaylee e Tatiana foram para Nova York por dois dias providenciar isso.
Tiramos um dia para compras e, finalmente, passamos todo o dia 30 trabalhando na festa de ano novo. Essa última festa não teria nada de tradicional ou sério. Foi literalmente uma balada, com tudo que tínhamos direito. Convidamos todos os jovens de Nova Orleans com idades entre 13 e 27 anos. Vários colunistas de jornais que se encaixavam nessa faixa etária fizeram questão de ir e cobrir cada detalhe. Foi uma festa totalmente diferente de todas as que demos antes, mas tão maravilhosa quanto.
Pela primeira vez nós não usamos vestidos por obrigação, cada uma usaria o que quisesse. Foi assim que acabamos todas de calça jeans. Nos aventuramos a usar maquiagem também, mas foi com toda felicidade do mundo que percebemos que nenhum pigmento melhoraria nada em nós, que já somos perfeitas, todos os detalhes milhares de vezes embelezados pela imortalidade infernal. A noite foi um vislumbre de como o Exército pareceria no novo milênio, tão incrivelmente próximo.
Descemos juntas para o salão de bailes, todas mais do que animadas pela noite diferente que teríamos. Luzes coloridas em pontos estratégicos vinham de baixo para cima, brilhando pelo salão. As conversas animadas tomavam conta da sala, junto com a música poderosa tão desesperadoramente intensa que nos envolvia mesmo que sem querer. Junto da mesa do DJ estava um relógio gigante que contava horas, minutos e segundos, avisando quando a meia noite viria. Entramos quando ainda eram 20h. Menos de dez minutos depois nós já estamos separadas, cada uma envolvida com um grupo de sua idade, rindo e conversando.
Avistei Louise em um canto, segurando uma taça de champanhe e procurando por alguém. Resolvi me aproximar, sem muita delicadeza.
- Olá! – Disse, assustando-a com a aparição repentina – Se divertindo?
Ela engoliu em seco, então pensou melhor e bebeu um pouco de champanhe.
- Oi, claro! – Respondeu, sorrindo com cuidado. – Katerina, não é? – Concordei, o rosto com a mais fingida surpresa - Você sabe, seu rosto é bem conhecido.
- E o seu nome é Louise. Desculpe, não sei o sobrenome. Conheço seu rosto pela organização da mesa da ceia de natal.
- Delacrois. É fácil de aprender porque é um sobrenome clichê francês.
Sorri com delicadeza.
- Então, Louise, você realmente veio para todas as festas.
- É claro. Nenhum convidado perderia uma festa das irmãs Hass. Vocês dão as melhores festas e fazer parte de suas celebrações, é uma das maiores honras para qualquer um aqui.
- Às vezes eu me pergunto por quê...
- Eu também. – Ela soltou, com a voz mais baixa, sem querer.
Dei uma risadinha doce daquelas que encantam a todos e a tudo.
- Você não parece o tipo de pessoa que lutaria para conquistar favores de garotas que até alguns meses atrás eram meras desconhecidas.
Louise me encarou, os olhos azuis me estudando, indecisa por um momento. Percebi que ela tinha a mesma mania de morder a bochecha que Tatiana tem.
- Posso ser sincera com você, Katerina? – Perguntou.
- Claro, o quanto você quiser.
- Eu não faço ideia de porque todo mundo se apaixonou tão perdidamente por vocês, mas eu sei que quando algo assim acontece, existe algo muito sério e totalmente terrível escondido.
- E o que você acha que de muito sério e totalmente terrível está escondido em meio a minha família?
Louise corou, como se só então percebesse o que tinha dito.
- Eu não sei.
- Nem desconfia?
Ela balançou a cabeça.
- Eu sei que você é amiga de Juliana, então isso não é exatamente verdade.
Ela se empertigou, de repente nervosa.
- Juliana foi contratada para ser completamente discreta sobre seu trabalho.
- Mas eu sei que ela contaria a alguém que sabe como ser completamente discreta.
Louise se calou.  Eu sorri, tentando parecer confiável.
- Eu não sou Sophie, Louise. Não sou a líder de nós ou a garota responsável por manter a aparência impecável de nossa família em frente a sociedade. Você pode confiar em mim para me manter calada em frente a minhas irmãs. Não me importo com esse tipo de boato, mas se você acha que nós somos algum tipo de monstro eu estou interessada em saber qual.
- O que exatamente me garante que eu posso confiar em você?
Ela estava jogando. Era divertido.
- O que exatamente me impede de cortar suas ideias pela raiz? Destruir sua investigação? Acabar com suas perguntas? Preciso ser mais clara?
Ela sorriu. Não existia mais uma fagulha de medo em seu corpo. Ela é uma bruxa poderosa em todos os aspectos: quanto mais perigosa a situação, mais preparada ela está. Ela abriu a boca para dizer algo, mas nesse momento senti mãos firmes segurarem meu braço. Era Anika.
- Precisamos de você. Agora.
Lancei o um olhar grave para Anika, mas ela estava séria. Fosse o que fosse era importante.
- Depois. – Disse para Louise, enquanto seguia Anika.
Ela saiu do salão de baile e andou com firmeza até a sala de jantar. Ao entrar, encontrei as outras 8 vampiras lá dentro, de pé ao redor da mesa, todas com um olhar sério. Juliana também estava lá, mordendo o lábio delicado, como se torcesse para escapar dali o mais rápido possível. Eu não estava entendendo nada, mas percebi a forma estranha sobre a mesa. O cheiro da sala me carregou de volta para Verdant, 125 anos atrás. Pierre jazia ali, com um gigantesco corte no pescoço de onde sangue escorria, sujando a toalha de mesa branca. Morto, até onde eu sabia.
- Que diabos...? – Perguntei, em choque. Olhei para a única pessoa que parecia disposta a falar – Juliana?
- Encontrei-o assim, na biblioteca. – Juliana disse, se defendendo - Não sei o que houve com ele.
- Certo, será que você...
Eu ia pedir para que ela saísse, mas nesse momento aconteceu uma coisa bizarra, mas não a mais bizarra da noite. Pierre se levantou, tossindo, a ferida no pescoço totalmente curada. Lancei um olhar acusador para as meninas, pensando que talvez alguma delas havia dado sangue para Pierre e depois o matado, mas quando percebi que a voz que saiu da boca de Pierre não era dele, a ideia foi completamente descartada.
- Katerina. – Ele disse quando me localizou em meio a sala. As outras vampiras se afastaram, com um passo para trás ao mesmo tempo.
Sentir algo queimar minha garganta.
- Ah, pronto! – Reclamei, me aproximando obstinada - Estava mesmo demorando! 97 anos entre a última Danse Macabre e a primeira visita infernal. Pensei que só fosse ver vocês quando a guerra começasse.
- Sempre irônica. – Disse o demônio em Pierre. Mal acreditei que reconhecia aquela voz grave e doída.
- Abadom! Mandaram você outra vez!
Ele resmungou algo que soava como água respingando em ferro quente. Então saltou da mesa e veio se pôr a minha frente.
- Quantas vezes precisarei dizer a você para não usar meu nome de anjo?
- Ah, você sabe. – Dei de ombros - Eu gosto de lembrar ao Inferno o tempo todo que não importa quão poderosos vocês achem que são, sempre existe alguém que é mais.
Ele emitiu outro chiado e se aproximou, fazendo com que meu Exército se movesse e se pusesse em formação atrás de mim. Sophie olhou para Juliana.
- Você já pode ir, querida.
A garota saiu quase correndo, pálida e nervosa, a porta batendo em suas costas com um baque.
- Diga logo a mensagem que trouxe. – Anunciei, agora grave.
Eu sabia que por mais que eu conhecesse aquele demônio, um dos primeiros que conversou comigo quando o Inferno tentava me convencer a aceitar meu futuro como vampira, em um momento como aquele não poderia haver brincadeiras. O Inferno nunca tentou se comunicar comigo. Nem quando desfiz minha aliança com ele. Nem quando aceitei a missão de Deyah. Nem quando matei minha mãe. Nem quando me livrei da maldição. Nem quando Sophie recebeu sua alma de volta. Nem quando transformamos Pierre em nosso prisioneiro. Se eles escolheram justo essa noite para se comunicar, alguma coisa havia de muito errado.
- Ah, Katerina, querida. – Abadom respondeu, sorrindo. Seu rosto não tinha mais nada a ver com o de Pierre, os olhos ardendo com um tom que não tinha nada de humano - Você nunca entendeu, não é? Prestar ou não serviços para o Inferno não é uma opção. Pelo menos não quando se é uma criatura infernal, como vampiros. Sua aliança com a Morte levaria a você apenas ao mesmo fim que Deyah levou, mas felizmente, você desistiu de ajudar a Morte, o que a trouxe diretamente para os braços do Inferno outra vez.
- E você achava que eu não sabia disso? Por favor, Abadom. Não sou estúpida. Multiplique, destrua, mantenha-se longe. Tenho obedecido esses mandamentos nos últimos quase dois séculos, mesmo sem ser pelos motivos que o Inferno desejava.
Ele assumiu uma expressão séria, ou pelo menos tão séria quanto conseguia, com aqueles olhos.
- Suas pequenas rebeliões sem sentido, é claro. Mas você deve imaginar que o Inferno adora rebeliões. Nós começamos a existir com uma. Sabemos como lidar com uma sempre que acontece. E uma rebelião de prisioneiros apenas é bem-sucedida quando esses prisioneiros conseguem escapar, certo? Então você deve saber que a única rebelde bem-sucedida entre os presentes possui incríveis cabelos dourados e lindos olhos azul-violeta. – Ele olhou para Sophie com uma espécie de curiosidade admirada. – Frutos de incesto... A união maculada cheia de suas próprias regras, as quais nem mesmo nós entendemos. Você é dona de si mesma não é, querida? Sempre foi.
Pigarreei.
- Sim, Sophie é maravilhosa. Mas você ia dizendo...
Ele me encarou.
- Impaciente, minha bruxa Petry, como sempre. Certo. Eu vim até aqui para reafirmar sua situação e a de todas aqui como prisioneiras do Inferno. Mas, como eu disse, o Inferno adora rebeliões e a sua tem levado tanto tempo para acontecer que meus superiores resolveram apimentar um pouco a situação.
Suspirei, entediada.
- Vão fazer o que, mandar alguns demônios para nós os destruirmos?
- Claro que não, isso seria fácil demais. Brincar com sentimentos é mais divertido. Isso é algo com que vampiros não conseguem lidar, sabe? Sentimentos.
- Porque geralmente estamos muito ocupados com outras coisas para sentir.
- E você só descobriu isso depois que a Morte disse a você. É inacreditável a facilidade com a qual vampiros acreditam que não sentem. E é inacreditável o quanto é fácil comandar pessoas que acreditam que não sentem.
- Abadom, você está divagando outra vez.
- Certo, desculpe. Fiquei sabendo (me corrijam se eu estiver enganado) que Ellie descobriu há algumas décadas o papel que terá em sua rebelião, mas que nenhuma de vocês sabe qual é. A gélida e focada Eleanor Pleurer sempre pronta para fazer o servicinho sujo do Exército mesmo que ele seja contra de seus princípios, a vampira menos pronta a lidar com sentimentos por aqui, e, mais importante, a vampira mais adorada de Katerina, sua criação mais notável. Não seria doloroso se justo ela, justo Ellie, sofresse um ataque do Inferno agora?
Perdi toda a vontade de brigar com ele. Notei com o canto do olho Anika, as gêmeas e Tatiana se aproximarem de Ellie, automaticamente. E notei também que ela se afastava, nem um pouco satisfeita com aquilo.
- Depois de dedicado estudo do Exército, descobrimos que ironicamente, a maior punição possível para Ellie seria devolver sua alma! Mas não de qualquer jeito, naturalmente. Pedaço por pedaço e aos pouquinhos, até o momento considerado ideal para que sua batalha comece. Isso pode levar 2 meses ou 30 anos, eu não sei, não me deixariam saber.
“A partir da meia noite do dia 1º de janeiro de 1998, Ellie será seu relógio em uma contagem regressiva vertiginosa. Quando ela estiver totalmente dominada por seus sentimentos, quando as sensações que regem os mortais tomarem conta de sua preciosa arma, quando lágrimas de gelo forem vertidas de seus adorados olhos, você saberá que é a hora de se revoltar. E se então não existir em seu clã 13 vampiras dispostas a lutas e sacrifícios, será tarde demais para qualquer plano arquitetado por você ou por qualquer outra pessoa.”
- Vocês não podem! – Anika gritou, o ódio tomando seu rosto que sempre parecia inocente.
- Ah, querida, nós podemos e como podemos. - Ele disse, ainda sorrindo - Cada um faz o que quiser com seus prisioneiros. Vocês sabem disso, já torturaram Pierre de tantas formas. Aliás, ele voltará. No momento está no Inferno conversando com o pai. Trará ainda mais notícias. Parte de nós espera que isso sirva para acabar com seus planos estúpidos, mas como sabemos que nada irá impedir vocês, destruí-las será um prazer indescritível. Nos vemos... Talvez em breve. Katerina, querida, será que você pode...?
Sem que a frase fosse completa, andei até ele e quebrei seu pescoço levando o corpo de volta a sua morte temporária. Me virei para o Exército a tempo de ver a porta da sala de jantar bater outra vez. Era Ellie, abandonando o Exército silencioso para trás.

2 de janeiro
Diário de Juliana
- Um demônio foi possuído por um demônio? – Louise perguntava, aparentando confusão. – Você nem está dizendo coisa com coisa, Juliana. Precisa é de uma boa noite de sono.
Louise havia acabado de me contar sobre sua conversa com Katerina na noite de ano novo. Eu, com cuidado, contei o que aconteceu com Pierre naquela noite.
- Você não entende. Teria que ter estado lá para entender.
- Só estou dizendo que não faz sentido você ter presenciado isso tudo e elas não terem matado você.
- Por que não? Se todo mundo para quem eu desabafar tiver a mesma reação que você.
- Ok, ok. Faz sentido. Me conte de novo. O que exatamente aconteceu quando levaram o corpo de Pierre para a sala de jantar?
Contei a história novamente, descrevendo tudo que me lembrava. Louise pegou um bloco de notas e uma caneta.
- Certo. Então Pierre foi possuído por um demônio que acordou chamando Katerina pelo nome e a própria disse que já esperava uma visita do Inferno há 97 anos. Disso concluímos que: Katerina deve ter mais de 100 anos; Katerina tem contato com o Inferno e... Porcaria nenhuma. Elas não são criaturas demoníacas, como eu já disse. Eu teria percebido, mas a energia lá é perfeitamente normal, com exceção da presença de Pierre. A menos que...
Louise ficou em silêncio. O que me deixou impaciente.
- A menos que o que? – Perguntei, cansada.
- A menos que a energia pura de alguém lá dentro anule a energia demoníaca das outras. Elas têm outro prisioneiro?
- Que eu saiba não.
- E não é a sua... Então de quem será?

Diário de Kat
- Sophie, Sophie, Sooooooophieeeeeeeeeeeee... – Os gritos vinham de Charlottie e as gêmeas que desciam as escadas correndo.
Elas invadiram a sala de jantar onde eu e Sophie conversávamos e trocávamos a toalha de mesa, empurrando a porta com tanta força que ela atingiu a parede. Cada uma carregava um ramo de árvore com uma flor diferente na ponta.
- Calma! – Sophie gritou, mas estava sorrindo.
- Nós estávamos pensando sobre o que Abadom disse. – Valentina começou, ofegante.
- Ele disse que você era a única completamente livre do domínio do Inferno. – Miranda continuou, ainda respirando rápido.
- E nós sabemos que o plano de Deyah era deixar as pessoas exatamente iguais a como elas eram em vida, só que sem as fraquezas.
- Onde vocês querem chegar? – Sophie perguntou, intrigada.
As gêmeas abriram a boca, mas Charlottie ergueu os braços fazendo com que elas se calassem.
- Você já tentou fazer algum feitiço depois que sua alma voltou? – Perguntou a versão menor de Sophie olhando nos olhos da irmã.
- Não, acho que a natureza ainda não me reconhece. – Sophie respondeu, com o mesmo olhar frustrado que vi nela em Graz.
- Acha ou tem certeza?
Ela ergueu a sobrancelha.
- Ach...
Antes que ela terminasse de falar os três galhos foram apontados para ela.
- Você não saberia de verdade, não é? – Charlottie disse, mordendo o lábio. – A sensação de estar viva outra vez, de ter sua alma em liberdade é inebriante o suficiente para ser confundida com outras sensações. Você pode estar enferrujada, mas se lembra desse feitiço. Eu ensinei ele a você.
Nervosa, Sophie alcançou o primeiro galho onde um hibisco cor de rosa descansava. Depois de um tempo de hesitação, alcançou o segundo galho, onde estava uma margarida silvestre. Com um suspiro, pegou o último, um ramo de rosa.
- Só espero que não se decepcione caso isso dê errado. – Disse, antes de fechar os olhos.
Me peguei prendendo a respiração, fascinada pela ideia de Sophie ter voltado a ser bruxa. Miranda, Valentina e Charlottie estavam tão ansiosas quanto eu. Exatamente meio minuto depois, as flores nas mãos de Sophie se multiplicaram deixando o ramo completamente florido. Em seguida as cores começaram a mudar, uma flor ficando com a cor da outra até que uma flor se tornou a outra.
Charlottie foi a primeira a dar um gritinho de satisfação, que quando Sophie abriu os olhos se transformou em uma gargalhada maravilhada. As gêmeas as seguiram, quase saltitando pela sala ao se dar conta do que acontecia. Eu só soltei a respiração quando Sophie saiu da dança e me entregou os ramos.
- Para minha querida criadora. – Então cai na mesma gargalhada que tomara conta da sala.

Continuação da entrada de 2 de janeiro
Diário de Juliana
Finalizamos a conversa sem saber de nada e deixei uma Louise pensativa para trás, indo para casa com a desculpa de que precisava limpar a biblioteca. Louise ficou em choque quando eu disse que Pierre havia voltado, perfeitamente bem para a biblioteca na manhã de ontem. E com fome, inclusive.
Quando cheguei em casa risadas vindas da sala de jantar tomavam conta da sala. Eu entrei pela entrada principal e encontrei Naomi, Ellie e Tatiana, cada uma vestida em seu roupão branco, esfregavam os olhos enquanto desciam a escada.
- Que diabos é isso? – Ellie perguntou, quando chegou ao fim da escada.
- Não sei. Acabei de chegar. – Respondi, sem olhá-la diretamente.
As três foram direto para o lugar de onde o som vinha e eu com cuidado fui até meu quarto. Tomei meu café da manhã e quando me dei conta de que nem havia dado 9 horas ainda (eu geralmente saio da casa bem cedo para conversar com Louise enquanto ela se arruma para ir para escola, e, mesmo que ela não esteja sem aulas essa semana, acorda no mesmo horário, antes da mãe, então vou visita-la de qualquer jeito) voltei para minha cama confortável, onde dormi por cerca de duas horas. Só quando acordei é que fiz o café da manhã de Pierre e levei para a biblioteca, junto com uma vassoura.
Encontrei o prisioneiro das Hass acordado, com um olhar assombrado para o nada. Coloquei a bandeja com o café e os ovos mexidos em sua frente e comecei meu trabalho para o outro lado da sala. Levou quase dois minutos para que Pierre começasse a comer. Eu me deixei absorver pelo trabalho de limpar tudo.
- Você tem medo de mim agora. – Depois de muito tempo ele resmungou de boca cheia, me dando um susto.
- Teria medo de qualquer um que eu tivesse encontrado morto em uma noite e na manhã seguinte aparecesse tão vivo quanto eu.
Pierre gargalhou.
- Vejo que apesar dos avisos, as garotas ainda não embarcaram na longa trajetória de transformação de Juliana.
- Lá vem você...
- Ju, eu adoro você. Acredito que saiba disso. Nos últimos meses você foi senão uma companhia agradabilíssima, pelo menos uma companhia melhor do que aquelas dez. Só digo isso para que você se lembre quando se tornar uma delas.
Me virei, com a vassoura em uma mão e a outra descansando na cintura. Pensei em perguntar, em gritar com ele, em confrontar as irmãs Hass no mesmo momento e até em sair correndo dali e me esconder outra vez em meu quarto. Por fim tudo que eu disse foi:
- Já acabou? – Apontei para a bandeja em sua frente.
Ele olhou para a bandeja de comida, como se a visse ali pela primeira vez. Então acenou com a cabeça. Peguei a bandeja de comida no chão e saí o mais rápido que pude a tempo apenas de ouvir Pierre murmurar:
- Que garota... Que garota.

15 de janeiro
Diário de Kat
Nós evitamos o assunto durante duas semanas. Primeiro, usamos nossa nova descoberta a respeito de Sophie como desculpa. Depois, quando o assunto foi perdendo o interesse, nós magicamente nunca estávamos ao mesmo tempo em casa e quando estávamos criávamos um acordo silencioso a respeito de não tocar em assuntos desagradáveis. Finalmente, aniversário de Ellie nos deixou todas em casas e todas focadas na pessoa que regeria o futuro de nosso Exército: Ellie.
- Pelo menos Kat já tem duas vampiras em potencial. – Naomi disse, quando o assunto finalmente surgiu.
Estávamos juntas na sala comum outra vez. Ellie abrindo seus presentes enquanto Sophie brincava com fogo e o resto de nós descansava no calor, preguiçosas.
- Só não tenho ainda um plano de como transformá-las. – Eu disse, suspirando.
Durante os dias de nossa procrastinação, eu fui convidada à casa de Louise algumas vezes, mas sempre que lá chegava era impedida por sua mãe de ficar a sós com ela, conversando sobre suas descobertas. No fim, acabei invadindo o quarto de Juliana e lendo seu diário, descobrindo deliciada o parentesco entre as duas, sua proximidade, detalhes de suas personalidades e o quanto elas conversam sobre nós. Estava mais certa do que nunca que as duas se tornariam vampiras do Exército, mas ainda não sabia como.
- Não sei por que você persiste em não transformar ninguém a força. – Tatiana disse, cruzando os braços. - Eu não tive opção e sou muito feliz com a escolha que você tomou.
- Você foi um caso especial, Ta. Eu só repetiria aquilo se alguma das garotas estivesse à beira da morte.
- Eu me pergunto o que você faria se elas não quiserem virar vampiras. – Anika disse, quase fechando os olhos.
- Meu trabalho todo é para convencê-las, Annie.
Quando Charlottie se levantou, percebi que as gêmeas ao seu lado dormiam, abraçadas.
- Você tem que pensar em algo logo, Kat. – Ela disse. – É como Abadom disse, pode demorar 2 meses ou 30 anos.
Sem querer, olhamos ao mesmo tempo para Ellie, que levantou os olhos de seus presentes e nos encarou, o frio tomando conta da sala, como sempre fazia.
- Acho que deve demorar mais um pouco. – Respondi, sorrindo.
- De qualquer forma, - Naomi continuou - Não podemos ficar em Nova Orleans depois que as duas se transformarem.
Sophie saiu de seu torpor e sem querer fez a chama aumentar e tomar conta da lareira.
- Não, não, não! – Ela exclamou com os olhos brilhando - Nós acabamos de conseguir formas de ficarmos em Nova Orleans por mais tempo! Nem faz um ano que estamos aqui! Kat, por favor!
Suspirei.
- Soph... – Comecei. - Você sabe, não podemos ficar aqui por tanto tempo quanto gostaríamos. Agora viveremos em contagem regressiva para nossa revolta. A menos que você queira desistir, o que eu entenderia.
Seus olhos violeta demonstraram toda a sua indecisão sobre o assunto.
- Mas Kat...
Eu não sabia o que sua voz demonstrava. Tudo que sabia era que não estava nada satisfeita em saber que teria que começar a fazer planos para ir embora. Ficamos em silêncio por alguns minutos, enquanto ela se decidia.
- Tudo bem. – Disse, obstinada - Nós iremos. Mas não ainda... E não de qualquer jeito. Iremos depois das celebrações do Mardi Gras, depois de nosso último baile.
Então começou a contar o plano que havia acabado de formular.

Diário de Juliana
- VAMPIRAS?? – Só percebi que eu havia gritado quando o som ecoou corredor a fora através da porta aberta.
- Silêncio, Juliana! – Louise exclamou colocando a mão sobre minha boca.
Depois de um instante, andou até a porta e enfiou a cabeça na fresta, checando se ninguém estava lá. Então bateu a porta.
- Sim, vampiras. – Disse, direta. – Todas as dez. É a única explicação lógica, que vai de acordo com tudo que você me contou e que eu presenciei. Duvido que elas sequer tenham sido irmãs de sangue em vida (pelo menos não todas elas), mas agora o são pela ligação maldita.
- Vampiras não são criaturas do Inferno? – Perguntei me focando na lógica.
- Sim, mas eu ignorei isso para não ficar louca. Não podemos supor que sabemos tudo sobre elas, não é?
- Bem, é, mas... – Me interrompi quando percebi – E elas querem me transformar em uma delas!
- Eu sei! – Louise sorriu - Você é tão sortuda.
- Sortuda?
- É claro. Você terá a chance de viver para sempre, em um clã riquíssimo, viajando pelo mundo e encantando cidades a ponto de quase se tornar sua rainha, exatamente como elas fizeram em Nova Orleans. E sequer pediu por isso!
- Acho que você ignora a parte de me tornar também uma sugadora de sangue Infernal. – Rebati, mas as palavras que ela disse antes já haviam me convencido do que ela diria em seguida:
- Detalhes, minha querida, detalhes.
Não era a ideia de ser rica ou encantadora que me fascinava, mas a noção de clã. Fazer parte de um grupo tão grande de garotas, todas ligadas a mim pelo sangue. Isso me encantava. Isso me deixava animada para aceitar o convite assim que me fosse feito.

13 de fevereiro
Diário de Kat
Desci as escadas e andei até o quarto de Juliana, torcendo para que tudo saísse como o esperado. Bati à porta com expectativa.
- Entre. – Ouvi a voz doce dizer do outro lado.
Abri a porta.
- Ah, oi, senhorita Katerina. Eu estava lendo.
Ela colocou o livro de lado e se sentou. Me sentei a seu lado.
- Por favor, me chame só de Kat. Eu imaginava que a essa altura você já estaria chamando todas nós pelo apelido. – Disse, sorrindo. – Sabe Juliana...
- Ju. – Ela me interrompeu, também sorrindo.
Então o que eu li em seu diário era verdade.
- Ju. Eu sempre senti como se você fosse uma de nós. Sempre aqui... Sempre conosco.
- Verdade, não é?
- Sim. Graças a Deus, você pode ser uma de nós. – Eu disse, dissimuladamente.
Ela prendeu a respiração.
- Quando?
Me levantei, escondendo o sorriso.
- No baile de Mardi Gras. Quando a meia noite estiver chegando, talvez dez, quinze minutos antes. Na sala de jantar.
Me preparei para sair, mais do que feliz pelo rumo que as coisas tomavam, mas, quando cheguei à porta, dei meia volta.
- Diga a Louise que o convite também é válido para ela.         


- Venha conosco. – Sophie disse, deliciada, segurando a mão de Louise e a conduzindo para fora do salão de baile até a sala de jantar.
Sendo sincera, eu estava com sede. E muita. Assim como o resto de nós eu não bebia nada há duas semanas, me preparando para a noite de nosso banquete. Quando abri a porta da sala de jantar, Juliana e as outras oito vampiras do Exército esperavam, conversando animadas.
Quando Juliana viu Louise, seu rosto se iluminou.
- Lou, você veio! – Disse se levantando para ajudar a amiga.
- Não sei qual é a surpresa. – Louise disse, ofendida. – Eu estava mais animada para isso que você.
Juliana se afastou, feliz demais para discutir. Por um momento parecia que o coração das duas batia em meus ouvidos.
- Certo, certo. Chega de conversa. Faltam menos de dez minutos para a meia noite. Vamos transformar logo as duas. Eu transformarei Juliana e eu estou disposta a abrir mão de uma delas para que os laços entre outras vampiras do Exército seja reforçado e tudo o mais. Então... hãã... Kaylee, transforme a bruxa.
Ellie e Sophie caíram na gargalhada e até mesmo Kaylee precisou prender a risada enquanto vinha, as outras nos olhando em confusão. Olhei para Kaylee e mordemos o pulso ao mesmo tempo entregando para nossas futuras irmãs que, no momento seguinte, se tornaram presas e logo em seguida caíram no chão, meros corpos inanimados
- Até Kaylee tem uma vampira só dela, e eu não. – Anika disse em uma imitação perfeita da voz de Sophie, de quem recebeu um cascudo com força.
Rimos ao mesmo tempo da situação e eu me senti satisfeita. Um minuto depois as meninas se levantaram, confusas.
- Somos doze. – Eu disse.
- Ai, que sensação estranha. – Louise reclamou, balançando a cabeça.
- Vai passar. – Kaylee disse, suspirando.
Nesse momento os relógios de pulso que carregávamos avisaram a meia-noite. A sensação foi de que uma atmosfera de animação tomava conta da sala, como se fosse um organismo vivo respirando em nossas nucas.
- Primeiro, vocês precisam se alimentar. – As gêmeas disseram se aproximando e segurando, cada uma, uma das novas vampiras pelo braço.
O Exército seguiu em formação de volta para o salão de baile onde todo o sangue nos esperava. E foi assim que no dia 25 de fevereiro de 1998, 522 corpos foram encontrados banhados em sangue no salão de baile na mansão que um dia pertencera as irmãs Hass, antigas rainhas de Nova Orleans, agora desaparecidas.



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