853km

by - 21:10

OLÁ! Vocês estão sentados? Com suas caixas de lenço na mão? Chocolate por perto só para garantir? Porque hoje é o dia da última participação especial do Mês Literário de 2016 e o conto de hoje foi escrito por alguém que consegue destruir sua vida facinho em poucas palavras: Helena Guimarães. Os dois últimos contos que eu li dela acabaram com meu emocional de forma definitiva (Um deles é este aqui e o outro é Quarto Minguante, disponível no Watpad). Esse mês inteiro de participações especiais foi muito muito incrível. Quando eu pedi a algumas amigas que me ajudassem com o conteúdo daqui eu não esperava que tantas fossem aceitar o desafio e ainda fossem apresentar contos tão maravilhosos e que me fizessem fangirlar tanto (Sempre soube como elas são talentosas, mas este blog foi abençoado muito mais do que merece este mês). Eu acho que o conto da Lena é uma forma maravilhosa de terminar este mês e de resumir bem como ele foi incrível. Agora deixa ela falar:

Eu estava "viajando" com meus dois amigos e a ideia para essa história apareceu. Eu também estava sentindo demais naqueles dias - acho que a estrada faz isso comigo - e quando vi, tinha um caderno em mãos e escrevia a primeira cena! 
853km é uma história sobre querer estar perto e sobre como a vida foge do nosso controle e dificulta as coisas para que possamos fazer isso. É uma história de amor, pretensiosamente falando.
Espero que aproveitem a leitura!


Você precisa estar no aeroporto as 09:45, seu celular irá despertar as 04:10. Sabia que iria acordar cedo, mas ficamos conversando no escuro até pouco antes da meia noite. “Sou uma amiga para se sussurrar no escuro” dissera uma vez, agora também é uma amante.
O relógio no criado mudo ao seu lado marca 03:49 quando você começa a se mexer na cama. As 03:52 você já se virou duas vezes, mas ainda não despertou totalmente. Paro de me mexer para não te acordar e você se aquieta.
— Há quanto tempo você está acordado? – Sua voz rouca atravessa a escuridão.
— Desde as três e quarenta.
Você rola na cama e me abraça. Eu beijo o topo da sua cabeça, seu cabelo cheira ao meu shampoo. Você me aperta e meu coração dói.
— No que você está pensando?
— Tentando não pensar em nada.
— Eu te amo.
O meu mundo para um instante com as suas palavras.
— Vou no banheiro. — Avisa, mas não se mexe. Continua a me apertar e eu não quero que solte. — Quero ficar aqui... estou com preguiça – sua voz manhosa, ouço você sorrir e te faço um cafuné. Seu suspiro é alto.
Você senta na cama e se espreguiça. Observo o contorno do seu cabelo no escuro, a minha camiseta larga no seu corpo.
— Eu te amo tanto.
Você me olha daquela sua forma intensa, me dá um beijo e levanta.
Ouço os passos no corredor. A porta se fecha. A descarga no banheiro, a água no encanamento, a torneira sendo aberta. Quando você volta estou sentado na cama com a luz acessa. Seu rosto está molhado, os olhos vermelhos de sono de quem dormiu poucas horas, os cílios juntos por causa da água. Eu te acho a garota mais linda no mundo todo nesse momento, e é pequeno demais o instante que tenho para lhe apreciar, antes que você vire atrás da roupa que deixou separada na noite anterior.
— Vou no banheiro — não quero, mas você quer que eu saia.
Quando volto você colocou seus jeans gastados e ainda mais claros do que já eram quando você comprou. Não tirou minha camiseta. Está colocando suas meias, as rosas cintilantes.
— Você se importa? — Indica a camiseta. Eu reparo nos seus braços arrepiados por causa do frio.
— Pode levar o que quiser — inclusive eu.
Você veste seu moletom, o cinza com “wild” na frente e coloca seus tênis. Me encara. Quero me arrastar com você para debaixo das cobertas outra vez, e não te deixar me deixar, mas você diz que vai arrumar um copo de leite para gente e sai do quarto.
**
São vinte minutos até a rodoviária, mas você sempre gostou de usar as suas pernas para ir até os lugares. Carrego suas malas e você a minha mochila. O frio e a hora te fazem ficar quieta. É uma pena porque o som da sua voz me lembra porque eu gosto do mundo. Nós caminhamos no silêncio que parece encobrir todo o mundo e tudo que eu sinto é você.
As luzes do lugar deixam a sua pele com um tom amarelado. Deixa tudo assim, mas eu só reparo na sua pele. Você olha ao redor, está contente que há pouquíssimas pessoas aqui há essa hora. Foca seus olhos nos meus e pressiona os lábios no que deveria ser um sorriso. Olhar nos teus olhos é ser arrastado para sua imensidão profunda e escura, às vezes, não sei como emergir de volta.
— É tão cedo. Tudo é tão vazio e silencioso.
— O mundo está no mudo.
— Eu só escuto você.
Você segura a minha mão.
— Está preparado para mais de três horas de viagem?
— Para mim serão seis horas e vinte minutos.
Você me olha e parece que vai me dizer – outra vez – que não preciso ir. Mas não diz.
— Estou feliz por você estar aqui.
Você me abraça quando abro os braços para você. O seu corpo encaixa perfeitamente na curva do meu. Meu corpo esperou dezenove anos para encontrar o teu.
Seu ônibus sairá as 05:15, cinco minutos antes nós subimos. Você escolhe os assentos de número 15 e 16 no lado esquerdo. Guarda suas malas, mas continua com minha mochila, tem tudo que acha que pode precisar durante a viagem.
Deixo você com o assento da janela.
Quando o ônibus ganha a rodovia você vira-se para observar a linha do horizonte. Seus olhos só encontram a escuridão para olhar, mas sabe que isso mudará logo. Percebo que não vai dormir o que quer dizer que eu não irei dormir, para poder ver cada minuto que me resta com você passar até que um avião te leve para longe outra vez.
Você arranca seus tênis e coloca os pés em cima do banco, desdobra a coberta que trouxemos se cobre e me cobre no processo. Te trago para perto de mim, você apoia a cabeça no meu ombro e suspira. Beijo o topo da sua cabeça. Tudo é demasiado silencioso tão cedo.
— Quero ver o nascer do sol hoje. — Volta a olhar pela janela. — Quero ver com você. Não dorme, tá?
— Eu não ia.
Você acha minha mão debaixo das cobertas e começa a acaricia-la fazendo círculos lentos na pele do dorso.
Quantas vezes é possível que eu me apaixone por você?
O sol parece demorar tempo demais para nascer, mas você não parece notar ou se importar. Você continua encostada na lateral do meu corpo observando a linha do horizonte mudar de cor — da completa escuridão para o azul escuro para o azul claro para diferentes nuances de laranja e depois amarelo — só parando quando morros, montanhas ou serras escondem o horizonte, ou quando o ônibus atravessa uma cidade e as construções de cimento tomam conta de tudo que a vista alcança. O que quer dizer que você não fala direito comigo e toda conversa é apenas um ou dois comentários.
Hoje o teu silêncio me atormenta.

**

— Quando eu vou te ver de novo? – O sol já nasceu quando pergunto.
— Provavelmente esse aqui é o momento mais longe da próxima vez que você vai me ver.
— Você não sabe?
— Não. E não quero falar disso.
— Por quê?
— Porque você está aqui agora. Não quero pensar em como vou sofrer quando não estiver mais do meu lado, porque sei que vou sofrer. Que vai doer. Que eu vou sentir sua falta com tudo e precisar de uma semana para acostumar que estou de volta a minha vida e que não vou te abraçar no fim do dia...
Você morde o lábio e seus olhos ficam marejados. Não te peço desculpas por ter perguntando. Não falo nada. Você se recupera, e depois de um tempo apoia a cabeça no meu ombro e suspira. Mas eu sinto muito. Eu sinto muito toda vez que faço você sofrer. E sinto demais por não poder estar lá para você me abraçar no fim do dia. E eu sinto tudo antes, e já sinto tua falta mesmo que você ainda esteja aqui. Porque acordar no meio da madrugada, caminhar nas ruas vazias, pegar o ônibus na aurora é lugar nenhum. É só uma preparação para que você me deixe. De novo e de novo. Já estivemos aqui antes, eu e você, e sinto tudo que vou sentir quando você se for antes mesmo de ter ido.
— É difícil demais dar tchau para você toda vez e não saber se você vai voltar daqui dois meses ou daqui quatro.
— Por quanto tempo vamos conseguir manter isso?
— Por tanto tempo quanto você conseguir.
— Você não está me respondendo.
— Não tenho uma data de validada para você. Eu...
— Ninguém acredita na gente.
— Eu só quero que você acredite.
— Eu acredito.
Você tem mais a dizer. Você vai quebrar meu coração.
— É que eu não sei até quando eu vou continuar acreditando. E em alguns momentos como hoje você está tão fechado dentro de si que eu me pergunto se você não está perdendo a vontade.
— Eu só estou triste porque você vai embora.
— Prometa que você vai esperar por mim?
— Eu não tenho outra escolha. Meu coração não me deixa outra escolha, eu só tenho paz quando você está por aqui.
Você acaricia o meu rosto com as suas mãos, toca minha face, meu cabelo, minha boca.
— Eu vou estar lá para você sempre que você precisar.
Você acha que estou mentindo, mas me abraça forte.
De quantas formas eu posso dizer que te amo sem usar essas palavras?
Você cochila por alguns minutos nos meus braços, e se você soubesse como eu sou feliz por isso, como sou teu, e sou um homem feliz toda vez que você sorri não duvidaria. Depois quando você acorda, não está mais triste. O castanho dos teus olhos brilha outra vez.

**

Você me pediu para não ir até o aeroporto. A rodoviária é o último lugar em que irei te ver. Te perguntei por quê e você disse que em aeroportos as despedidas são ainda mais difíceis. Eu não sei, elas são mesmo para você?
Você coloca sua mala na calçada em frente a rodoviária, enquanto espera o Uber que chamou. Tira a mochila das costas e a encosta na mala. Você está se preparando para dizer adeus.
Eu não estou pronto.
Você vai me abraçar, me mandar ir tomar café e não perder o horário do ônibus. Vai entrar no carro e sumir na próxima esquina. Você vai chorar, e eu vou te ligar. Nossos corações vão se partir. Você vai dizer que sente muito e a motorista do táxi vai te oferecer um lenço. Você vai secar as lágrimas e agradecer constrangida. Você vai engolir o choro. Eu vou engolir a falta que você já vai me fazer e não deixar alguma lágrima inoportuna escorrer.
Na minha frente você suspira e eu paro de antecipar tudo. Você se aconchega no meu abraço. Eu te aperto tão forte e tão perto que fica difícil saber o que sou eu e o que é você. Tento segurar todos os nossos pedaços que estão se bagunçando agora. Eu tento segurar os meus pedaços que sempre vão embora com você, mas é em vão. Eles já são seus. Tudo é seu.
Você ainda cheira a minha cama, e minha cama está cheirando a você. Tudo cheira a você, até eu cheiro a você. Você transborda em mim.
— Eu não quero que você vá embora.
— Eu não quero ir embora.
— Se você apenas não morasse tão longe...
— Não vai ficar no nosso caminho.
Você me olha duro quando seguro seu rosto entre minhas mãos.
— Não vai ficar, confie em mim.
— Eu confio.
As pessoas não deveriam ver a forma como sou seu quando você beija a minha boca.
Depois te digo incontáveis eu te amo enquanto te beijo e te abraço, ainda que não use as palavras, e enquanto você se despede e vai embora levando tudo de mim.

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6 comentários

  1. oi g! oi lena!
    vai parecer meio repetitivo mas a reação é autentica: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
    chorei aqui lendo isso e por ele estar em segunda(?) pessoa me fez ficar toda arrepiada, é um jeito maravilhoso de contar uma história e se sentir dentro dela em um nível totalmente novo.
    de verdade, eu to apaixonada!
    quero mais contos de menina lena!

    beijos,
    tatii

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    1. Oi, tatii!
      Eu tô muito feliz que você tenha gostado eu fiquei 'AAAAAAA' com suas reações ♥

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  2. Tão feliz de ver seu conto aqui ❤

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    1. Tão feliz de ver que você leu :') ♥

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