As Crônicas de Kat - 2ª fase - Capítulo III

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“Quando sangue jovem escapa, promessas quebradas voam embora.”
Zella Day (Sweet Ophelia)

As Crônicas de Kat:
Stregoica

Bucareste, Romênia
14 de dezembro de 2015
Olívia
- Ceea ce aduce o astfel de fată frumoasă pentru că mică bucată de lume uitată de Dumnezeu? - O taxista pergunta, quando viramos a esquina em uma rua poeirenta no subúrbio da cidade.
Eu estava olhando para a janela, vendo as ruas bonitas e exóticas da capital da Romênia. Eu sou muito mais nova do que os restos das meninas do clã. Eu não estava com elas durante a busca pela 13ª vampira e não conheci diversos lugares do mundo, tentando encontrar alguém. Nasci no novo milênio e estou no Exército há 2 anos. Viagens para lugares como a Romênia ainda fazem meu coração morto disparar e meus olhos brilharem como uma garotinha boba.
- Desculpe? - Digo, tentando prestar atenção na conversa, mesmo sem vontade.
Temos regras: A cada país em que estamos nos comunicamos apenas no idioma local - a menos que seja necessário esconder o que estamos conversando em uma emergência. Eu tenho certa facilidade em aprender idiomas novos, mas não com tanta rapidez quando Kat. O inglês, aprendi por osmose nos dois anos que moramos nos Estados Unidos. O romeno foi ensinado para mim em aulas intensivas proporcionadas por Kat, mas ele não vem naturalmente. Se eu não prestar atenção suficiente em cada palavra em meio aos sotaques carregados eu acabo me perdendo. Kat garante que uma hora todo idioma fluirá e me lembra que aprendeu a maioria dos que sabe quando ainda era humana, em 10 anos de vida.
- Eu perguntei o que traz uma menina tão bonita para esse pedacinho de mundo esquecido por Deus. - Ele repete, animadamente.
- Ah, viagem de família. Vim me encontrar com parentes. - Me surpreendo com como a mentira sai fácil. Coisas que a gente aprende com o Exército: distorcer a verdade de uma forma tão complexa, que a mentira se torna parte dela.
- Eles estão no endereço que você me deu?
Eu sei que ele está perguntando por educação, mas eu não gosto de como ele é enxerido. Eu pareço ter 13 anos (Mas na verdade tenho 15, grande diferença) e sou uma estrangeira em um país estranho. E ele é um homem desconhecido e sabe para onde quero ir. Eu sei me defender, mas ele não sabe disso. Será que não tem como se calar e parar de ser chato?
- Sim. - Digo, simplesmente, voltando observar a cidade pela janela.
Algo no meu tom faz com que ele se cale. Viajamos por mais dez minutos na estrada maltratada que levava até o endereço que Kat me entregou. Quando paramos na frente, o motorista anuncia o preço da viagem com um sorriso no rosto. Entrego uma nota maior e digo que fique com o troco. Assim que desço do carro e espero que ele saia, me dou conta de que falei em inglês. Mas mesmo que ele tenha notado o erro não faz nada a respeito, a língua do dinheiro fala mais alto.
Encaro o prédio malconservado antes de entrar. Tem três andares e a tinta desbotadas com palavras em russo mostra que ele foi usado como comércio anteriormente. Graças às minhas irmãs, as 10 janelas da parte da frente estão abertas, assim como a porta, de onde vez uma risada tranquila que reconheço como a de Sophie. Este foi o único lugar a venda que Kat considerou seguro o suficiente para que nós morássemos, depois de quase dois meses divididas em quatro hotéis em diversos pontos da cidade. Foi uma tática para procurar pela família de Anika e de Deyah mais amplamente, mas até o momento não chegamos nem perto de uma pista. Já esperávamos por isso, na verdade, foi até surpreendente o fato do feitiço de localização de Sophie ter dado certo de primeira. Foi fácil demais e nada nunca vem assim tão fácil. É quase como se tivéssemos vindo para a Romênia em uma espécie de armadilha. Balanço a cabeça, tentando não atrair as sombras à espreita e entro no prédio que quase parece abandonado.
- Liv! Você demorou. - Sophie exclama me puxando pelo braço para dentro de casa. - Teremos um quarto cada uma outra vez. Vem! Vou te mostrar o seu.
Tenho que ignorar o erro dela ao não se dar conta de que eu nunca tive um quarto só para mim desde que entrei no Exército, porque sou obrigada a segui-la até o primeiro andar. Mesmo que Sophie sempre pareça ser a mais cheia de vida do Exército (possivelmente porque ela é), eu me surpreendo com toda essa animação.
O interior da casa não é o que eu esperava. De alguma forma, as vampiras que chegaram primeiro conseguiram transformar o prédio decadente em algo mesmo que minimamente elegante. A sala por onde entrei tinha recebido uma camada de tinta branca e as duas janelas que ficavam viradas para os fundos da casa ganharam cortinas pesadas. Os corredores e as escadas não foram pintados ou reformados, mas não estavam tão decadentes quanto a fachada. Os dois andares de cima são formados de corredores com portas dos dois lados. Sophie me conduz até o terceiro e último andar e ao encontrar outro corredor, finalmente me dou conta de que o lugar era usado como um hotel antigamente. Imagino que tenha pelo menos 20 quartos. No último andar, passo pelas portas abertas de Miranda, Valentina, Anika e finalmente paramos no meu quarto. Existem mais duas portas abertas que pela lógica deduzo Kat e Charlottie. Há grandes chances de que Pierre fique por aqui também, mas as outras portas do andar ficam fechadas.
- Aqui estamos. - Sophie diz, abrindo a porta. - Espero que você goste e se sinta confortável. Se quiser comprar qualquer coisa para deixar ainda mais confortável, eu e algumas das meninas vamos à cidade amanhã. Vou deixar você em paz.
E antes que eu diga qualquer coisa, ela se vira e sai quase saltitante pelo corredor. Levando em consideração que a última cidade que deixou Sophie feliz foi Nova Orleans, eu imagino o que tem de tão animador em Bucareste para deixar a vampira com alma tão animada. Suspiro e entro no quarto que foi separado para mim.
As malas que enviei para a casa no dia anterior estão no chão, próximas a um armário de carvalho antigo. Uma porta aberta à minha direita revela um banheiro, sem nenhum cheiro gritante (ao contrário da maior parte dos banheiros das casas que alugamos anteriormente). Existe uma mesa de leitura, com o bocal de uma luminária de parede se sobressaindo. Também há um espaço chamativo com um suporte de TV. Finalmente, uma cama de dossel com cortinas em tom pastel de rosa fica no meio do quarto, se juntando com uma tapeçaria antiga para dar uma impressão mais clássica ao quarto. A cama parece o lugar mais confortável do mundo, então tiro os sapatos e me jogo sobre ela.
Descubro que o dossel é decorado com pequenas imagens bordadas, como uma tapeçaria. Posso perceber que essas gravuras contam uma história, mas estou cansada demais para tentar entender o que ela diz. Eu sinto como se tivesse viajado durante todos esses dois meses em que estamos na Romênia e agora finalmente tivesse chegado ao destino final. Mas ao contrário das outras vezes em que nos instalamos em uma cidade, dessa vez não existirá o tédio que se instalava após algumas semanas. Estamos em guerra e é um verdadeiro milagre que nenhum ataque além da maldição de Ellie tenha acontecido. Precisamos encontrar a bruxa herdeira da família de Deyah o mais rápido possível e lançarmos ofensiva o quanto antes. Suspiro outra vez e fecho os olhos:
- Que comece a decida até o Inferno.

25 de dezembro
Naomi
Bato a pá contra a cova recém-coberta uma última vez e respiro fundo. Era de se esperar que a atividade física me deixasse mais aquecida, mas assim que deixo a pá cair, aperto o casaco com mais força em volta da pele. Não é o maior frio que já enfrentei, mas é frio suficiente para que eu repense o plano que desenvolvi para celebrar o Natal. Logo em seguida, me convenço a dar prosseguimento à ideia. O frio, depois de um começo de inverno tão fraco é uma vantagem, poucas pessoas na rua... Poucas testemunhas. É perfeito para o presente que queria dar a Olivia.
Volto ao prédio onde moramos. A porta está entreaberta e uma cálida luz amarela vem da entrada. Charlottie e Tatiana conversam distraidamente sentadas no sofá da sala e eu descubro que a luz vem da lareira. De novo, o clima acolhedor faz com que eu sinta vontade de não deixar a casa outra vez e apenas me deitar na frente do fogo com um dos livros que ganhei de aniversário. Me belisco, eu preciso fazer isso. Deixo o casaco na entrada e vou pulando até o andar mais alto. Passo por diversas decorações de Natal, colocadas por Sophie e Ellie e ouço risadas vindas dos corredores.
Todo Natal desde 97 é a mesma coisa: Dividimos 2 vítimas quentes que foram vigiadas por semanas e que temos certeza de que o desaparecimento não causaria grande comoção. Depois do sangue quente da ceia de Natal, trocamos presentes que em pouco tempo vão para os cofres, a menos que sejam úteis o suficiente para continuar conosco. É fraco e chato. Nós não costumávamos ter limites de vítimas em dezembro e eu já me cansei de ganhar joias que vou guardar o tempo todo. Ter nascido em dezembro dobra os presentes entediantes. Você pega uns números em um computador, transforma em coisas brilhantes e devolve para um cofre depois de um tempo. Sou muito menos vaidosa que isso. Muito menos cerimonial também. Eu quero emoção, sinto falta do perigo. Por isso tive a ideia de fazer um pequeno passeio por Bucareste hoje à noite, buscar pelo que Kat chamou de diversão a la strigoi. Mas não sou louca o suficiente para procurar por confusão sozinha, preciso de alguém comigo. E claro, escolhi a única pessoa que em 2 anos no exército ainda não sentiu o gostinho de correr riscos ou de matar alguém sozinha.
Bato na porta de Olívia e ela responde com um “entra” abafado. Quando abro a porta, minha animação quase murcha, porque Anika está com ela, as duas debruçadas sobre um computador que Kat comprou para a dona do quarto. Depois me dou conta de que é Anika. Se for para convencer mais alguém a procurar perigo que seja uma vampira de Ellie.
- Ah, oi, Naomi. - Olívia diz tirando os olhos do computador, por meio segundo antes de voltar a digitar.
Anika, por outro lado, não tira os olhos de mim enquanto fecho a porta às minhas costas e vou até a beirada da cama espiar o que elas estão fazendo.
- Algum sucesso na busca online? - Pergunto protelando a ideia ao máximo.
- Nada. - Anika responde. - Encontramos 540 famílias Litting e nenhuma delas é a de Bianka e de Adelina. Não declarada pelo menos, algumas árvores genealógicas não chegam até lá.
Ergo a sobrancelha e aponto para a tela.
- Vocês acham que uma família de bruxas registraria a árvore genealógica em um site?
- A família de Anika? Definitivamente. - Olívia diz, fazendo Anika concordar com a cabeça. Eu rio e Olívia começa a desligar o computador. - Mas você veio até aqui apenas para descobrir o que estamos fazendo?
Suspiro.
- Não, na verdade eu vim aqui por causa de uma ideia que eu tive enquanto enterrava os restos da ceia de Natal. - Faço uma pausa para avaliar a audiência. Anika ajeita a postura. Liv desconecta o celular do notebook e começa a brincar com a ponta do cabo. - Eu estava pensando no Natal de 1958, Annie.
Os olhos de Anika faíscam.
- O ataque à prefeitura.
- Cinquenta membros do governo mortos na frente de seguranças armados e hipnotizados. - Explico para Olívia. - Nós iriamos mata-los também, mas preferimos deixá-los vivos e sem certeza do que aconteceu. Eles foram julgados pelos assassinatos, é claro.
- Aquilo sim, foi uma festa de Natal. - A lembrança é tão vívida que Anika chega a lamber os lábios.
- Então você também acha que essas festas de Natal têm sido patéticas?
- É claro. Comedimento é a coisa menos Kat do mundo. Quase me faz querer que não tivéssemos nos unido.
- Ela está nos protegendo. - Olívia diz, defendendo a criadora - Garantindo que não morramos de uma forma ridícula, antes do objetivo ser alcançado.
- Mas somos vampiras! - Exclamo - Qual o sentido de estar viva se a vida é entediante?
- Nós estamos em guerra.
- Mas só Sophie, Ellie e Kat tem tido algum tipo de ação na guerra até agora. O resto de nós está sufocando no próprio tédio. Eu tenho quase desejado que o Inferno me mate agora.
Anika e Olívia se entreolham quando eu termino minha frase em um suspiro.
- Onde você está querendo chegar, Naomi? - Anika pergunta, franzindo a testa delicada.
Deixo a cabeça pender para um lado.
- É Natal, estamos na Romênia e sentimos falta de comemorações de Natal reais, Anika. Por que simplesmente não saímos e aproveitamos? Só por esta noite.
- É perigoso, Naomi.
- É isso que faz de tudo interessante. E é por isso que eu vim convidar Olívia. Em 2 anos no Exército, ela só matou quando foi transformada. Ela precisa de ao menos um momento como o que nós tínhamos. - Faço uma pausa, mas nenhuma das duas respondem, então continuo: - Não estou falando em um massacre, estava pensando em um ataque a algumas pessoas que se aventurarem a sair da rua nesse frio. É a Romênia, eles sabem sobre vampiros e sabem que isso acontece.
- E se o Inferno lançar o primeiro ataque? - Olívia solta. Ela está quase convencida, mas hesita por puro instinto de autoproteção.
- O que eles vão fazer? Não é como se um demônio pudesse se materializar e nos atacar fisicamente. E enquanto estivermos matando e destruindo, estamos vivendo sob as regras deles, então eles não iriam destruir nossas almas.
Uma última troca de olhares acontece à minha frente. Então as duas se colocam de pé.
- Onde iremos? - Olívia pergunta.
Sorrio.
- Esperaremos a casa cair no sono e saímos de casa o mais sorrateiramente possível. Escolhemos uma rua, em qualquer parte da cidade que pareça segura, quem passar pela rua é presa voluntária.
- Sophie não tem um feitiço protegendo a casa? - Olívia pergunta sendo irritantemente lógica.
- Só vai ser um problema quando nós voltarmos para casa. - Digo, dando de ombros - Você não pode possivelmente estar com medo de receber uma bronca de Kat.
- Não é medo. Mas também não considero broncas de Kat uma das coisas mais agradáveis do mundo.
- Se pensarmos bem, Kat provavelmente está esperando por isso há um tempinho. - Anika diz, olhando para nós duas.
É verdade. A tensão causada pelo tédio e pelos segredos de Kat já pode ser notada há algum tempo. Vampiros e autocontrole não combinam e Kat sabe muito bem disso. Até mesmo os laços que nos mantém leais se afrouxam quando nossos instintos precisam ser controlados com tanta força de vontade. Quando Sophie se voltou contra Ellie, algumas de nós tínhamos certeza de que o Exército não sobreviveria ao baque. Mas elas logo voltaram ao velho companheirismo e aos antigos segredos. Agora as vampiras mais velhas estão mais ligadas do que nunca e o resto de nós observa isso nada satisfeitas. É claro que Kat sabe que em algum momento alguém se revoltará contra suas regras.
- Não é como se nós estivéssemos desertando. - Digo, esperando que agora esteja tudo certo. - Combinado então? Assim que a casa ficar completamente silenciosa.
Olívia solta um suspiro longo.
- Pode contar comigo. - Diz, delicadamente.
Anika sorri.
- Comigo também.

Anika
Nunca fui boa em esperar. E depois de me tornar vampira - um ser com uma propensão a se obcecar por qualquer coisa, por menor que seja - piorei muito. Depois que deixo o quarto de Olívia, nem estou mais pensando nas diversas árvores genealógicas que consultei ao seu lado. Queria que existisse uma forma mais simples de encontrar minha família, mas aparentemente não existe. Mas afasto o passamento antes que ele se instale e quando chego ao meu quarto, deito na cama e espero fixamente encarando o teto enquanto a casa começa a ficar silênciosa.
Horas se passam e eu não me distraio. Pintei o quarto logo depois de me mudar e meus olhos se focam na tinta rosa das paredes, iluminadas apenas pela luz da lua. Consigo ouvir cada quarto sendo tomado por um silêncio sepulcral. Se prestar atenção suficiente, descubro até mesmo qual dos quartos está ficando quieto agora. O de Sophie é o mais fácil de perceber - a risada dela vai diminuindo até desaparecer. O de cada uma das gêmeas também, elas sempre fazem muito barulho e quando dormem, o silêncio parece dominar a casa a partir delas. Aos poucos, tudo que se ouve são os rangidos da casa e o vento corrente lá fora. Deixo um bom tempo passar antes de ter coragem de me levantar da cama e deixar o quarto.
Não ousamos sequer enviar mensagens uma para as outras, por medo de permitir que qualquer ruído ou luz chame atenção. Olívia me espera na beira da escada e encontramos Naomi no andar abaixo do nosso. Nenhum sinal é necessário para que nos sigamos até o térreo. Nos atentamos a cada sombra e prestamos atenção no som das respirações de nossas companheiras, vindos do quarto de cima. Quando alcançamos a sala, Naomi para e checa o lugar por medo de que alguém tenha ficado para trás ou caído no sono no sofá, mas além da fumaça que sai da lareira recentemente apagada, nada parece se mexer. Finalmente andamos até saída e durante o momento de última hesitação antes de abrir a porta barulhenta é que parece que todos os nossos planos estão prestes a desmoronar:
- Vocês três acham que eu sou estúpida? - A voz de Kat surge bem do nosso lado, alcançando um dos casacos para cobrir a metamorfose recém revertida.
- Kat, nós... - Olívia começa.
Mas Naomi a interrompe.
- Foi minha ideia. E sinceramente não vejo qual o grande problema nela.
- Eu sei disso, meu quarto é ao lado do de Olívia. Só estou decepcionada por vocês não terem dito nada sobre o plano para mim.
Naomi bufa.
- Eu não costumo fazer propostas que eu sei que serão recusadas.
- Não faça suposições, Naomi. Você não tem como saber o que eu diria.
- Eu sei o que suas regras dizem.
- As regras do Exército tiveram diversas exceções em Nova Orleans, não entendo porque não teriam agora.
- Você está dizendo...? - Digo, olhando com cuidado.
Kat pisca os olhos verdes e termina de abotoar o casaco.
- Estou dizendo que ninguém precisa saber. - Diz e abre a porta, saindo para a ventania.
Nós três que ficamos para trás nos entreolhamos, duvidando que Kat simplesmente tenha querido fazer parte do plano assim, sem condições. Naomi dá de ombros e sai. A verdade é que de uma forma ou de outra, não há nada que possamos fazer sobre o que quer que Kat queira. Ela é dona de si. Olívia morde o lábio e segue Naomi. Eu vou em seguida e fecho a porta atrás de mim.
Em pouco tempo estamos na estrada de terra iluminada pela lua cheia. À exceção de Kat, que usa apenas um casaco felpudo que chega a seus pés, todas nós esquecemos de pegar casacos no cabideiro. Mas o frio cortante não me faz tremer ou hesitar. Pelo contrário, me traz uma sensação de confiança, lembranças antigas começam a aflorar. A calça jeans colada a meu corpo não lembra em nada os vestidos costurados por Ellie com tecidos roubados, mas o frio atravessa o tecido dela, como faria com eles e me faz desejar sangue quente mais do que nunca.
- Sabe o que é estranho? - Kat diz, após um tempo. São os passos lentos dela que atrasam nossa viagem até Bucareste e ela parece protelar de propósito. - Eu tenho certas lembranças dessa estrada nos limites de Bucareste, mas não consigo me lembrar do que exatamente fiz aqui.
- Você provavelmente cometeu algum tipo de festim de sangue aqui, em uma das festinhas do clã romeno. - Naomi resmunga, esfregando os braços. - Ou escapou de uma delas por aqui.
- Não, acho que não. Eu me lembro de todo mundo que matei, Naomi.
- Quer dizer que você pode me dizer o número? - Naomi pergunta, com um sorriso sarcástico.
Kat sorri e por um instante as presas, apenas um pouco mais claras que a pele pálida, brilham sobre a boca de botão cor de rosa.
- Não, eu não saberia dizer o número. Mas eu me lembro de seu rosto, de onde vieram, como os matei. Se soubesse alguma coisa sobre eles, me lembro disso também. Eu posso ouvir seus gritos... Eu evoco seus gritos à noite quando não consigo dormir. Ah, eu posso sentir o cheiro de sangue - o vigor dessa existência vigília. O prazer em destruir. O poder de roubar vidas para manter a vida eterna. Vocês já pararam para pensar que agimos como deuses? Cada pessoa é um universo inteiro, mesmo que dentro de um ser tão frágil. Uma vida construída a partir de conexões. Uma criatura única no universo que nunca existiu e que nunca voltará a existir. Um ser cujas palavras são capazes de construir um mundo e cujas ações são capazes de destruí-lo. E nós, com uma mordida e alguns segundos, somos capazes de destruir e apagar tudo isso. É por isso que gosto de transformar assassinatos em arte... Sophie é a única que parece me compreender. Eu sei a importância do que mato, o significado do que destruo. E me sinto tão poderosa ao saber dessas mortes, ao saber do meu poder sobre criaturas tão magníficas. Da minha superioridade sobre alguns seres. AAh, se eu sentisse poderia me sentir grata à minha mãe. Mas eu me pergunto como irei me sentir quando tudo terminar. Quando minha alma voltar e eu me tornar um ser consciente. Quando não existir mais prazer em destruir.
Nós estávamos ouvindo o discurso de Kat como se ela estivesse recitando um feitiço longo e encantador - então quando ela faz essa pausa abrupta, nós paramos até de andar. Kat, que estava andando em nossa frente e tinha as costas observadas por mim, se vira assim que deixa de ouvir o som dos nossos passos e nos observa. Por um instante estamos presas em suas palavras, a necessidade de destruir maior que nunca, a vontade de sair dali e transformar Bucareste em cidade fantasma nos queimando. Mas Naomi sai do encanto e deixa as frases finais tomarem conta da perspectiva que teve sobre o que Kat disse:
- Onde você quer chegar, Kat? - Pergunta, fazendo com que eu e Olívia a encaremos.
O rosto de Kat escurece e seu olhar assume o tom mais sombrio que poderia ter:
- Os 3 mandamentos do Inferno: Multiplicar. Destruir. Manter-se longe. Nossa necessidade de destruir não é natural, não é parte de quem deveríamos ser. É um prazer cruel. É um prazer viciante. Mas foi uma ordem da força contra a qual estamos lutando. Não destruir, não matar, é nossa primeira forma de revolta. Nos conter. Sobreviver por nós mesmas é nossa primeira forma de ataque. Não são regras, meninas. Foi uma ordem de guerra.
Assim que a boca de Kat se fecha, a luz da lua desaparece. Olhando para cima, vejo que uma nuvem gigantesca e tão escura quanto petróleo passou na frente da lua cheia. Agora, só as estrelas iluminam à noite. Consigo enxergar os rostos das meninas que estão comigo, mas não consigo ver seus olhos com a mesma clareza. Kat ergue o olhar para onde eu acabo de olhar e pragueja em alemão. Naomi, que até então se mantinha nos limites da firmeza, estremece.
- Nós deveríamos voltar para casa? - Ela pergunta, com um fiapo de voz.
Kat não responde até que a nuvem comece a se dissipar e a luz da lua volte a iluminar a estrada. Quando seu olhar volta a Naomi, eu consigo ver seus olhos faiscarem.
- Não seja boba. É Natal e se eu disse que nós iriamos, nós iremos. Mas nunca mais desobedeça uma ordem cuja razão você desconhece. Se eu mantenho vocês no escuro, é para a sua própria proteção e se eu digo que deveriam fazer algo é porque eu quero manter vocês por perto. - Ela se vira e aponta para a estrada - Agora vamos. Se demorarmos mais estará tarde demais para que alguém apareça na rua.
Ela toma a dianteira e com os ânimos afetados de todas as formas possíveis a seguimos. Acho que rebeldia tem mais efeitos em vampiros do que a necessidade de sangue. No momento. Se a situação fosse diferente, se não tivéssemos consumido sangue quente no dia anterior, talvez o discurso de Kat não nos afetasse tão profundamente, mas a verdade é que o plano de Naomi era uma espécie de rebelião que foi frustrada por uma lógica tão simples que deveríamos ter percebido. Parece que o Exército esqueceu quem é o verdadeiro inimigo.
Chegamos a Bucareste cerca de meia hora depois e logo escolhemos uma rua deserta onde ficar esperando. Kat volta a se transformar em um gatinho e começa a andar para cima e para baixo procurando por possíveis presas. Naomi pega o casaco felpudo e coloca sobre os próprios ombros. Parece derrotada.
- Desculpa ter enfiado vocês nessa. - Solta.
- Bem, você não se sente realmente culpada. - Digo, criando vapor no ar com a respiração - Além disso, você só nos convenceu porque nós duvidamos de Kat e do fato de ela ter intenções positivas. Sucumbimos à necessidade de destruir, como os pequenos monstros que somos. E esquecemos que lutar contra imposições do Inferno é justamente nosso objetivo.
Naomi concorda com a cabeça, mas não diz mais nada para não ser forçada a concordar com Kat. Bom saber que ela ainda tem algum orgulho.
Alguns minutos de silêncio depois, justo quando Olívia está prestes a cair no sono, um pequeno miado anuncia que tem alguém se aproximando. Kat volta até nós e se esgueira para dentro do casaco entregue por Naomi, antes que três sombras tomem a rua. Aos poucos notamos os vultos entrarem na rua vazia: um homem, uma mulher e um bolo de casacos que parece uma garotinha.
- Vão em frente - Kat diz com a voz rouca - Eu fico com um próximo passante.
Assentimos. O ataque é rápido e sem muitas propagações. Exceto quando tento me aproximar da garotinha. Ao ver os pais sendo atacados ela grita e com medo de que ela acorde toda a vizinhança eu vou até ela, sussurrando uma canção de ninar. Quando tiro seu capuz, porém, sou surpreendida. O choque é tão grande que enquanto encaro as bochechas rosadas e os olhos castanhos escuros e enormes, eu acabo afrouxando a mão em seu braço o que a faz fugir de mim e correr até o fim da rua. Sou pega de surpresa e não a persigo, mas me viro para Kat para saber se ela viu o que eu vi.
- VAI ATRÁS DELA! - Kat berra com os olhos arregalados.
É como se minha mente tivesse um estalo e eu começo a correr, atrás do vulto que se movimenta como se suas pernas fossem 3 vezes mais longas do que são. Eu preciso alcança-la, preciso pegá-la de volta e leva-la até o covil do Exército. Essa garota seria a única forma de nos redimir das escolhas feitas precipitadamente e de encontrar uma justificativa plausível para esta noite. Porque seu rosto é igualzinho ao meu.

7 de janeiro de 2016
Juliana
- Como uma criança pequena desaparece no ar da noite? - Louise diz com um bufo, se jogando contra o meu colchão.
Eu abro as cortinas e permito que o sol invada o quarto.
- Ela pode ser uma bruxa poderosa. - Digo dando de ombros.
Louise se senta na cama e eu a empurro para me sentar ao seu lado.
- Pode ser? - Ela pergunta erguendo uma sobrancelha - Quais são as chances de uma garota descrita como igual a Anika não ser a bruxa herdeira da linhagem de Deyah?
Suspiro e pego o braço dela para brincar com a pulseirinha de prata.
- Não sei. - Digo, quando ela começa a rir ao sentir cócegas - Mas espero que ela tenha uma irmã mais velha. Imagina quão ferradas estaremos se uma garota de cerca de 8 anos for responsável por nossa entrada no Inferno?
- Pensei que Kat tivesse ensinado você a não duvidar de garotinhas.
Eu rio.
- Kat não é uma garotinha. Ela foi transformada quando era uma, mas deixou de ser há muito tempo.
- Ainda assim, não quero subestimar essa garota. - Louise diz, decidida - Até porque se ela desapareceu na frente dos olhos de Anika e ainda não foi encontrada depois de 2 semanas, ela com certeza tem algum tipo de poder agindo a seu favor.
Solto seu braço e ela mesma começa a brincar com a pulseirinha. Cruzo as pernas sobre a cama.
- Você provavelmente está certa. - Digo - Mas eu ainda não acredito que Naomi, Anika e Olívia realmente fizeram o que fizeram.
- Por que não? Todo mundo aqui tinha um desejo secreto do tipo.
Olho no fundo dos olhos dela.
- Nós somos um Exército, Lou. Estamos ligadas por muito mais que uma transformação ou lealdade normal. Nós compramos uma briga muito séria, da qual até os vencedores podem sair perdendo. A ação de uma afeta o grupo inteiro. Elas não foram corajosas ou ousadas - elas foram terrivelmente imprudentes e sem consideração.
- Elas são vampiras.
- E qual será a desculpa delas quando recuperarmos nossas almas? Não é sobre ser indiferente. É sobre ser burra. A própria Anika admitiu que não valeu a pena. Ou melhor, só valeu por encontrarem a garotinha, que ainda assim perderam. - Suspiro - Se elas ao menos tivessem deixado os pais da menina vivos.
Mas Louise continua tentando defende-las.
- Elas só souberam quem estavam matando tarde demais.
- E assim acabaram com a nossa provável única chance de vencer a guerra. As chances de que uma garotinha ajude as pessoas que mataram seus pais são... - Um grito no andar inferior me cala.
Desde que Kat convocou todas nós para uma conversa, na manhã depois do dia de Natal, a casa inteira assumiu um silêncio respeitoso. É como se o fato de Kat ter sido sincera sobre suas regras e ter falado sobre o que Naomi, Olívia e Anika fizeram, tivesse feito com que cada uma de nós assumisse a solenidade de um soldado. O clima de guerra tivesse tomou conta de nossos ossos e da fundação da casa. Agora estamos de olho na missão e nada além dela.
Eu e Louise nos entreolhamos e descemos juntas até a direção do grito. Pareceu de certa forma inumano, e só quando chegamos à entrada da casa é que descobrimos que ele vinha de Pierre. Ele grita repetidamente, como se estivesse sendo apunhalado diversas vezes. E apesar de estar na soleira da porta e não ter ninguém a menos de cinco passos de onde ele está, sua blusa azul está empapada com uma mancha de sangue que não para de crescer e se cola contra a pele.
- O que aconteceu? - Ouço Louise perguntar a alguém à sua direita.
- Não sei, ele veio pela estrada gritando e chegou até aqui em lágrimas e sangue. - Ouço Sophie responder.
Noto que Kat, que acabou de se enfiar no meio do grupo de vampiras que observam o ataque a Pierre atônitas, olha para Sophie quando ela diz isso. Em seguida segue até Pierre e rasga sua camiseta, a arrancando de uma vez só. Com um último grito de dor que reverbera pela sala, Pierre para de gritar. Kat usa a blusa rasgada como pano, correndo para esfregar o sangue que gruda no peito de Pierre, como se impedisse a ferida de fechar. Por um segundo não entendemos o que está acontecendo, mas de repente o sangue fica mais claro na pele e a letra N aparece no canto esquerdo. A letra E surge em seguida, de repente um 7 sangrento começa a aparecer no meio da barriga de Pierre. Sophie reage antes do resto e corre até a cozinha, voltando com um jarro de água nas mãos que atira em Pierre quando Kat dá um passo para trás. O sangue escuro escorre pelo tronco de Pierre, sujando suas calças de um tom quase marrom. Sua pele já começou a cicatrizar, mas conseguimos ver claramente a mensagem antes que ela desapareça por definitivo:

Ne întâlnim la ora 7 în piața principal

Nos encontramos às 7h na praça principal.

Eleanor
- Como você sabia que o tinha uma mensagem escrita no peito dele? - Pergunto, seguindo Kat com os olhos.
Ela anda pela sala dramaticamente, enquanto espera que todas as meninas fiquem prontas. Não está nervosa, mas está impaciente. Eu estou apenas aliviada que a busca esteja chegando ao fim.
- Não sabia. - Kat responde. - Mas eu sabia que aquilo não era trabalho do Inferno. Era muito mal feito e muito bem executado ao mesmo tempo. Então eu fui em frente e tentei descobrir o que aquilo significava e de onde o machucado vinha.
- Certo.
Kat para de andar e encara o corpo estirado no sofá ao meu lado.
- Eu queria que ele acordasse antes que precisássemos sair. - Diz, suspirando. - Duvido que ele saiba dizer quem fez isso com ele, mas se ao menos houvesse alguma pista.
- Você não acha que foi a bruxa herdeira de Deyah?
- A dedução geral é de que foi ela, mas não posso ter certeza absoluta de que foi. Mas mesmo que tenha sido ela, ela não precisava atacar o garoto que não tem nada a ver com isso de uma forma tão nojenta e bizarra.
- Pierre é meio demônio e imortal. Nós matamos os pais dela!
- Se ela se importa com isso tanto assim, talvez não esteja tão pronta para nos ajudar. - Ela diz, dando de ombros.
- Kat!
Uma risada reverbera pelo corpo dela, fazendo o vestido balançar. Sophie aparece no corredor, seguida por Tatiana e Charlottie.
- Ah, droga, Kat está dando outra daquelas estranhas risadas nervosas - Solta, revirando os olhos - Isso não vai acabar nada bem.
- Cadê o resto de vocês? - Kat pergunta, ficado séria.
- Descendo - Tatiana responde - Em breve estarão todas aqui.
- Já são quase 18 horas. Se não estiverem todas aqui em breve nós nos atrasaremos para chegar à piata e eu tenho quase certeza de que a pessoa que fez aquilo no corpo de Pierre não vai ficar nada feliz com atrasos.
- Pelo amor de Deus, Katerina. Fique calma. - Sophie diz. - E falando em Pierre, esse saco de ossos ainda não acordou? Ele não consegue ser de ajuda nem quando é o único que pode fazer isso. Posso? - Quando ela pergunta isso, está parada ao lado de Pierre, com o dedo ameaçadoramente próximo do rosto dele.
- Não, você só vai atrasar o processo de cura. - Kat responde, fazendo um sinal com a mão.
Sophie suspira e se senta no canto do sofá, permitindo que a perna toque o pé de Pierre, fazendo um chiado. Tatiana e Charlottie permanecem de pé, cada uma em um celular. O relógio cuco que Kat comprou no natal toca as 18 horas fazendo com que eu dê um salto no sofá.
- SEIS HORAS! EU QUERO VOCÊS OITO AQUI EMBAIXO IMEDIATAMENTE OU EU MANDO VOCÊS DE PRESENTE PARA O INFERNO.
- E você é a dramática do Exército. - Sophie ri, olhando para mim.
- Ela vai ser uma bela vaca quando receber a alma de volta.
- Eu sei, mal vejo a hora.
Eu rio e ficamos caladas até que o resto das meninas chegue. Estão todas solenemente silenciosas, mas eu consigo notar que estão bastante inquietas por dentro. Todas nós temos as pedras no pescoço. Kat conta com os olhos quantas somos e aponta para a porta.
- Nós vamos andando. Todas nós precisamos de um pouco de tempo para pensar.
Com um resmungo geral, deixamos a casa aos poucos e começamos a longa caminhada pela estrada de terra. Valentina e Miranda vão à frete, despreocupadas. Naomi, Anika e Olívia vão em seguida, com a mesma expressão desolada que vem carregando há dias. Charlottie, Sophie e Louise conversam baixinho sobre algo que não consigo ouvir. Juliana, Tatiana e Kaylee seguem atrás, em silêncio. E finalmente, eu e Kat, na retaguarda, olhando cada uma delas em um silêncio pensativo.
- Você acha que o dia é hoje? - Kat pergunta depois de um tempo.
- Dia de quê?
- Não se faça de desentendida, Ellie.
Existe um tom de insolência na voz dela, que me faz segurar um sorriso. Mas além disso, não identifico nada. Sua voz soa firme como uma porta se fechando. Não tem medo ou está ansiosa. Ela apenas quer que aconteça logo, ela quer fazer alguma coisa.
- Queria acreditar que sim. - Respondo - Mas eu duvido muito.
- Você notou algum sinal ultimamente? - Ela continua, desta vez mordendo o lábio inferior.
Eu a observo com ainda mais afinco. Ela está usando um vestido creme e longo até os pés. Ele é sem silhueta e as alças são de metal, deixando os braços nus. Ela só usa uma sandália porque saiu de casa. Quando percebe que eu estou encarando, levanta os olhos até os meus e o verde da esmeralda em seu colo faz seus olhos parecerem estar pegando fogo.
- Não. - Respondo, tentando ser tão firme quanto ela - Não desde o ano novo.
Mas Kat nota a mudança em meu tom.
- O que houve, Ellie? - Ela pergunta sem parar de andar ou de olhar para mim.
Suspiro.
- Eu só estava pensando em como é 2016 e como é impossível ser exatamente como eu era em vida, graças a tudo que aconteceu nos últimos 151 anos.
- E isso é bom ou ruim? - Ela pergunta, distraidamente.
- Você é uma praga, Kat. Desde que cruzou meu caminho não trouxe nada para mim além de morte, destruição e sangue.
Ela ergue a sobrancelha.
- Isso não responde minha pergunta.
- Porque eu não sei, Katerina. Eu ainda não decidi.
Ela ri, mas não diz mais nada. O sol já está quase completamente posto, apenas um feixe de luz de amarela corta o céu. Isso tem nos colocado para a cama cedo ultimamente - mesmo que para mim isso signifique ficar embaixo das cobertas, encarando rachaduras no teto e falando com fantasmas, sejam eles reais ou imaginários.
Não sei bem o porquê, mas diversos deles tem me procurado ultimamente. Imagino que vivam uma vida solitária, já que pouquíssimas pessoas no mundo inteiro podem ver e se comunicar com eles. Eles sequer podem ver uns aos outros, exceto em algumas situações específicas. Depois de estar no Inferno e conseguir escapar, eles estão prontos para muita conversa e os que conhecem a lenda do Réquiem costumam me achar facilmente. Nas últimas semanas apenas fantasmas desconhecidos me procuram. Eles normalmente querem saber algo sobre mim, mas a necessidade deles de falar sobre si mesmos sempre se sobrepõe. Eu costumo procurar por informações que possam me ajudar, mas é tudo tão pessoal que eu tenho tendência a quase sentir pena deles - até me lembrar de que eles escaparam do Inferno. Enquanto isso, Deyah geralmente está distante. Quando aparece, fica próxima à minha janela, abrindo e fechando a boca por alguns minutos e desistindo de dizer qualquer coisa. Eu e Sophie gostamos tanto do fato dela ter se calado que nem queremos saber o porquê.
Nas noites em que nem o espectro de Deyah, nem desconhecidos aparecem (geralmente noites de lua cheia ou lua nova, quando os fantasmas costumam tentar uma chance de conversar com a Morte), eu fico sozinha com meus próprios pensamentos. Em uma tentativa desesperada de fugir de lembranças perturbadoras que me levariam à loucura, eu tento me comunicar com minha alma. Depois de arder em agonia, ela está se recuperando. Ainda existem diversas cicatrizes que podem abrir em uma ferida sangrenta a qualquer minuto, mas eu as vejo como um mapa. Elas significam alguma coisa, elas estão prontas para me ensinar algo, mas não importa o quanto eu pense eu não consigo descobrir o que é. O conhecimento parece estar guardado dentro de mim, esperando o momento certo para ser usado, como todo o resto dele sempre esteve.
Quando atingimos os limites de Bucareste, Kat olha o relógio do celular. Faltam 15 minutos para as 19 horas e ela suspira. Chegaremos à praça principal a tempo, mas apenas se apressarmos o passo. Com um suspiro, ela toma a dianteira e faz com que o Exército inteiro ande mais rápido, quase em marcha. Quanto mais nos aproximamos, mais solene o Exército fica. Algumas pessoas nos observam caminhar, estranhando a formação com que seguimos. As formas da piata começam a ser notadas: Bucareste tem dezenas de praças, mas definimos a praça principal como a maior praça próxima ao lugar onde os pais da garotinha foram mortos. Sophie olha para trás no momento em que pisamos no círculo em que consiste a praça. Ela não precisa dizer nada para que eu concorde com a cabeça e a siga até a frente do Exército: somos as mais fortes aqui. Somos nós quem devemos proteger as outras onze.
Paramos de andar e esperamos. Dois minutos para as 19h. Diversas pessoas correm de volta para casa e optam por ignorar completamente as treze figuras assustadas, em sua maioria com aparência de garotinhas. Algumas pessoas olham, mas não dizem nada ou parecem perceber algo estranho. A bolha de proteção de Sophie está ativa, mas ninguém diz nada. Um minuto. Estamos esperando que alguém nos ataque. Esperando um feitiço direto ou um ataque físico. Estamos esperando que uma de nós caia, que alguém se perca. Estamos esperando que um grito cortante rasgue o céu e faça com que cada pessoa circulando a nossa volta morra. O que quer que esperemos, esperamos algo grande, desesperado, assombroso.
Ao invés disso, quando o relógio de uma igreja próxima começa a badalar as sete horas, uma figura em vermelho e jeans que estava parada ao lado de uma estátua desde que chegamos, anda até nós bem devagar. A garota para a cinco passos de nós e nos observa em silêncio por um instante. Seu rosto é cortado pelas mais diversas expressões. Me controlo para não estremecer quando Deyah surge ao meu lado, mas percebo que ela estremece no mesmo instante. Finalmente, ela fala:
- Vejo que o garoto entregou meu recado.
- Vejo que os corpos entregaram o nosso. - Kat diz.
Controlo o grito surpreso de “Kat!” quando a dor corta o rosto da menina. Ela é uma menina, mas não a garotinha que as meninas viram. A semelhança com Anika está lá, mas não é tão óbvia quanto foi descrito. Ela tem os cabelos e a pele da parente distante. Seus olhos também tem a mesma forma de amêndoa, mas são de um lilás tão profundo que são intensos mesmo sob a luz amarela dos postes da praça. Ela parece ter algo entre 16 e 18 anos e é da altura de Sophie. Ela é a irmã mais velha da garotinha que vimos. Ela é a herdeira que torcíamos para existir.
- Meu nome é Persephone. - Diz, parecendo ouvir meus pensamentos sobre sua aparência - E se vocês querem qualquer chance de vencer essa guerra ridícula, precisam vir comigo.

Miranda
Seguimos Persephone em silêncio até algumas quadras dali. Ela nos leva até uma casa grande e antiga, de dois andares. Abre o portão delicadamente e espera que todas nós estejamos lá dentro até entrar. Não gosto disso, Cianne me deixou com certa insegurança sobe entrar em terreno desconhecido.
A porta da frente da casa se abre para um salão amplo e de um dourado brilhante, decorado de pinturas antigas. A garota fecha a porta atrás de nós e tira o casaco. Faz um sinal para que a sigamos. Deixamos o salão largo por um corredor e caminhamos em silêncio por uma série de portas. Em um momento, Persephone para em frente a uma porta e dá três batidas delicadas:
- Selene? - Chama, com a voz meio embargada. - Elas estão aqui.
Nós treze nos entreolhamos. Noto que Sophie e Ellie se movem para mais perto de Persephone, de uma forma quase imperceptível. Kat não para de encarar a garota como se pudesse arrancar a cabeça dela do pescoço a qualquer momento. Depois de um minuto de um suspense desolador, a porta se abre. A garotinha sobre quem Anika e Kat tanto falaram sai do quarto. Ela é um espelho fiel de Anika, nem mesmo uma filha se pareceria tanto. Naturalmente, Selene tem um aspecto mais infantil, olhos menos marcados, uma inocência aparente. Mas em alguns anos, elas terão o mesmo rosto.
Selene nos observa com os olhos inchados e se encolhe em um casaco felpudo, antes de grudar em Persephone. Persephone beija os cabelos da garotinha, antes de fazer outro sinal para que continuemos a segui-la. A vontade de sussurrar algo a Valentina me consome. Uma quantidade enlouquecedora de perguntas toma minha mente e manter a solenidade que a situação parece exigir me toma mais energia do que o que eu esperava.
Finalmente, atingimos uma porta dupla, ao fim do corredor. Persephone a abre sem a menor cerimônia. Lá dentro, o ambiente é completamente diferente do luxo do resto da casa: parece o que seria uma sala de estudos, cinzenta, tomada de armários e de carteiras. O que quebra o clima solene são as plantas rasteiras e flores que tomam as paredes. As janelas amplas parecem concentrar a luz da lua em uma série de carteiras específicas. A lua, inclusive, é completamente visível através dessas janelas, mesmo sendo apenas no fiapo no céu. Para finalizar o clima místico da sala, uma combinação de cristais está pendurada na entrada da porta. Não se parece em nada com a cabana de Kat em Graz, mas é a comparação mais próxima que meu cérebro faz.
Selene se solta da irmã e entra na sala, respirando fundo o ar lá de dentro antes de correr até um armário no fundo. Persephone observa a entrada da sala, parecendo esperar por algo. Quando um clique silencioso parece atingi-la, ela dá um passo à frente e respira fundo da mesma forma que Selene fez. É só depois que ela se vira e diz que podemos entrar (deixando claro que precisamos de permissão para entrar) e nós entramos na sala com cuidado que percebo porque as duas respiraram fundo: O ar na sala é mais leve. Parece mágico, toma nossos pulmões como se pudéssemos voar. A última de nós - Olívia - atravessa a soleira da porta e Persephone a fecha com um sinal com as mãos.
- Sentem-se no chão. - Ela diz, andando em direção a um dos armários. - Embaixo da janela, mas sem se banharem pela luz da lua.
Obedecemos sem muita opção porque a voz dela soa firme. Persephone não parece mais tão miserável ou circunspecta quanto estava no caminho até aqui. Ela está em seu elemento agora. Ela é tão dona de si quanto Bianka foi um dia. Nos sentamos em um semicírculo, exatamente onde ela mandou e esperamos que ela volte. Sentadas no chão é impossível ver onde Persephone está, mas posso ouvir sussurros e risadinhas vindas de Selene. A espera mais uma vez me exaure. Quero falar, gritar, fazer perguntas, fuçar cada canto dessa sala. Mas um olhar para nossa líder, que balança a cabeça quando Ellie lhe sussurra algo, deixa claro que a última coisa que devo fazer é me mexer. Estamos em formação. Não sou mais Miranda. Sou a sexta vampira.
Persephone finalmente volta. Agora está com um vestido negro que chega ao seus pés e um colar cujo pingente forma um crucifixo com 12 pedras, encrustadas em uma estrutura de prata. Nem preciso observar com muita atenção: são nossas pedras. Seus braços estão nus e a tatuagem de uma lua crescente toma metade do antebraço esquerdo. Ela se senta no espaço que deixamos para ela e Selene - agora sem o casaco felpudo, mas sem vestes nobres como as da irmã - se senta ao seu lado. Persephone e Kat se encaram por um instante. Estão se avaliando e comparando expectativas, já que cada uma estava esperando para conhecer a outra há muito tempo.
- Não vou fingir que esta é uma reunião normal ou que eu estou completamente animada e ansiosa para ajudar vocês. - Persephone começa, avaliando sua audiência - Afinal, nós começamos nossas comunicações com o assassinato dos meus pais. Gosto de pensar que sou alguém que sabe muito, mas infelizmente ainda não desenvolvi a habilidade de ler mentes então preciso ouvir da boca de vocês o que preciso: O que vocês sabem sobre a descida até o Inferno?
Todas nós olhamos para Ellie, que estremece. Kat resolve tomar o controle da situação, é claro:
- Eu sei que a passagem acontece através de um evento celestial. Normalmente algo grande, como um eclipse lunar que acontece uma vez a cada 70 anos, mas muitas vezes pode ser algo costumeiro e frequente, como as auroras polares ou uma lua minguante.
Mas os olhos de Persephone repousaram em Ellie. Ela está mais interessada em nossas reações do que em nossas palavras.
- Você é Ellie, certo? - Pergunta. Seu olhar e sua voz se aprofundam ao mesmo tempo - O Réquiem? - Ellie concorda com a cabeça, tentando controlar a si mesma - Como vai a questão dos sentimentos?
- O que você quer dizer? - Ellie pergunta, delicadamente. Sua voz vibra um pouco, no limite da falha.
- Você foi amaldiçoada certo? Condenada a ser controlada pelo que sente? Já matou alguém com as próprias mãos porque se irritou um pouco? Ou caio no choro depois de uma discussão simples? Já se apaixonou perdidamente por alguém que viu uma vez só?
Ellie não se atreve a olhar para ela.
- Não é tão sério assim.
- Ah, mas é sim. É isso que o Inferno queria e eles não deixam trabalho algum pela metade. Não tente fingir que consegue suportar mais do que realmente suporta só porque o Exército despreza sentimentos. Ouça de alguém que sente: É melhor escolher os sentimentos mais inofensivos. Prenda-se a eles e permita ser dominada pelos sentimentos bons. Você não é mais uma criatura infernal.
O olhar de Ellie finalmente recai sobre Persephone. Por falta do que dizer, ela não diz absolutamente nada. Persephone dá de ombros, olha em volta e continua:
- Mas Kat está certa, é exatamente da forma que ela disse. Os grandes eventos celestiais se chamam “janelas” e são abertas quando o Inferno quer ou com certa raridade. Geralmente elas possibilitam a saída de almas, por qualquer questão que o Inferno queira. Os pequenos e regulares se chamam “frestas” e são mais para a entrada e saída dos próprios demônios, mas se você souber o que fazer, pode usar delas também. No rumo oposto da Danse Macabre, as frestas geralmente se abrem no quarto minguante ou crescente. São os momentos mais propícios para possessões ou maldições infernais. Também existe, é claro, a entrada automática que acontece com a morte. Mortais são um pouco diferentes: a alma vai para onde deveria ir, sem precisar de janelas ou frestas. Espíritos não conseguem ficar no plano terreno por muito tempo, não sem enlouquecer.
De repente, Sophie engasga tentando prender uma risada e a atenção de todas vai até ela.
- Desculpa. - Ela diz ainda com uma risadinha. - O reflexo da matriarca da sua família acaba de fazer uma careta na janela.
Persephone e Selene se viram para olhar para a janela. Tenho vontade de bufar. Queria poder falar com Deyah, tenho tantas coisas a perguntar para ela. Mas claro, isso só vai acontecer quando eu receber minha alma de volta e ainda assim, existem chances de que eu não possa falar com espíritos. E aparentemente de que Deyah fique louca.
- Se você continuar aqui vai ouvir uma série de coisas que não te agradam. - Persephone diz, para o reflexo. Selene se encolhe ao seu lado. - Não é do jeito que você queria que fosse, Deyah. Nada é. Kat aceitou seu plano, mas fez mudanças o suficiente para que fosse exclusivamente dela. Você queria ser uma deusa e ter controle sobre a vida e a morte. Toda sua jornada é povoada pelas consequências disso.
Quando ela termina de falar todo mundo caiu em um silencio absoluto. No segundo seguinte, Kat se remexe.
- O que você quer dizer com fiz mudanças o suficiente? - Pergunta.
Persephone a encara.
- Um número sagrado e um número maldito. Todas ligadas a você por laços de sangue. Charlottie? Kaylee? Louise? - Cada uma se mexe onde está ao ter seu nome chamado.
- Elas apenas não estão ligadas a mim pelo sangue literalmente. Elas ainda estão ligadas a mim pelo sangue que derramaram e pelo sangue de seus parentes.
- Ainda assim você inclinou as regras, transformou em algo próprio.
- E isso atrapalha os planos finais?
- Os que Deyah tinha planejado, sim. Mas você quer ter controle sobre a vida e a morte como se fosse uma deusa?
Kat dá de ombros.
- Não ia doer.
- Você não sabe o que diz, Katerina.
Tenho a impressão de que Persephone queria implicar muito mais desprezo na voz do que realmente consegue. Persephone é um pilar de segurança, parada ali onde está. É fácil ter a sensação de que ela é superior a todas nós e se permitir ser controlada por suas palavras. Mas sua voz ao dizer o nome inteiro de Kat deixa trair o fato de que a admira. O que quer que saiba sobre a vampirinha causa esse efeito nela.
Kat ri.
- Nosso objetivo é libertar almas e tirar do Inferno o poder sobre toda uma classe de criaturas. Como exatamente isso não faria de mim uma deusa no processo?
Os olhos lilases de Persephone se fecham em uma linha.
- Você já fez o suficiente se convencendo de seu próprio poder e do poder de quem se tornará depois disso. Antes de começar com isso tudo eu definitivamente preciso mostrar porque você não será metade do que espera ser.
Kat ajeita a postura. Não acredito que Persephone quer mexer justamente com o desejo de grandeza de nossa líder.
- E o que exatamente você sabe que pode me levar a acreditar isso?

Katerina
Persephone não ri apenas porque rir quebraria a imagem de si mesma que criava para nós. Selene, porém, precisa de esforço para prender a risada.
- Assim como Ellie, eu tenho minha própria maldição. Eu Sei. Não exatamente de tudo, mas eu tenho consciência de todo conhecimento que vou adquirir enquanto viver, porque eu sei tudo que vai acontecer em cada momento de minha existência. Sei o que significa cada marca em minha linha da vida. Eu recebi o nome da Deusa das Estações. A esposa de Hades e Rainha do Submundo. Eu conhecia meu destino desde que o ar tomou meus pulmões pela primeira vez.
- Como isso é possível? - Pergunto.
- É a Romênia. Existe todo tipo de criatura poderosa aqui. Bruxas brancas, bruxas negras, pessoas possuídas, vampiros, fantasmas e também videntes. Eu sou filha de uma bruxa com um vidente. Há algumas gerações, outra vidente viu que a responsável pela libertação teria olhos lilases. Quando eu nasci e abri os olhos, o clã teve 3 meses de festas.
- O clã? - Anika pergunta, subitamente interessada.
Persephone encara a parente distante.
- Nossa família é grande. Nós crescemos aqui, nos tornamos um clã e protegemos nossa terra e uns aos outros. Também nos misturamos, para nos tornarmos mais poderosas. Normalmente vivemos ao norte, mas meus pais trouxeram a mim e a Selene para estudar em Bucareste.
- Foi por isso que a família veio para a Romênia? - Pergunto. - Todo tipo de criaturas?
Ela dá de ombros.
- É uma das razões. Mas você é esperta, vai descobrir quais fora as outras muito em breve. - Ela faz um movimento de desprezo com a mão e eu posso jurar que uma corrente de vento atravessa a sala - Não é sobre minha família que eu quero falar agora, é sobre vocês. Vocês embarcaram de cabeça numa missão da qual não sabiam nem a metade e agora é tarde demais para voltar atrás. Quando Kat disse sim a Deyah, ela concordou com qualquer que fosse o plano dela desde que isso a trouxesse grandeza e a derrota do Inferno, ela nunca pensou nas consequências que isso traria para ela mesma.
- Ou talvez ela não se importasse. - Digo, falando sobre eu mesma na terceira pessoa.
- Você não se importaria com nada agora, mesmo se tentasse. A questão é que você não permanecerá assim para sempre. Você quer sua alma de volta e junto com ela todos os sentimentos, todas as cicatrizes, a solidão e a dor que você não sentiu pelos últimos quase 182 anos.
- Isso é uma desvantagem suportável para se ter poderes capazes de fazer o Inferno estremecer.
- Primeiro, você considera esses poderes muito mais do que eles realmente são. Segundo, você acha isso mesmo? Tenho certeza de que Ellie discorda de você.
Queria conseguir manter o olhar de Persephone, mas a menção a Ellie faz com que meus olhos corram até ela rapidamente. Ellie tem as pernas esticadas à sua frente e a cabeça baixa enquanto brinca com a corrente do colar distraidamente. Quando ouve seu nome, ergue os olhos até os meus. Ela nem precisa dizer nada, porque eu sei. Ellie tomaria a opção egoísta de trocar o conhecimento do Réquiem pela capacidade de não sentir outra vez sem pensar duas vezes. Ela detesta sentir e mais ainda ser dominada pelo que sente.
- Ellie é uma exceção. Ela foi amaldiçoada. - Pontuo. - Sophie tem a alma de volta há quase 100 anos e nunca teve motivos para se arrepender.
- Pois eu digo que Sophie é uma exceção. - Persephone rebate. - Ela nunca sentiu como o resto de nós sente. Sophie é efetivamente a única pessoa do Exército que matou alguém em vida.
- Eu fui abusada durante toda minha infância. Matei para me proteger. - Sophie se defende, mas com toda monotonia possível na voz.
- Ainda assim matou e sem se arrepender. Também foi a responsável por arquitetar o massacre de Mardi Gras em 98. Você é a única no grupo que aparenta ter tendências psicopatas pré e pós-vampirismo. Considere isso um elogio.
Sophie sorri.
- Não poderia ser nada além disso.
- A questão é que entre uma alma amaldiçoada e uma psicótica vocês ainda não viram de verdade como é receber uma alma maltratada e despedaçada de volta das mãos do Inferno. Mas o mais próximo que já chegaram disso foi com Ellie. - Persephone olha nos olhos de cada uma de nós antes de continuar: - Deixem-me dizer algo que vocês deveriam ter sabido antes de aceitar os planos de Deyah: Nem todo vampiro suportaria receber a alma de volta. Nem todo mundo está apto a ter uma alma, quanto mais ficar sem e recebe-la outra vez. Nem todo mundo pode suportar o que significa sentir outra vez depois de tanto tempo. Sua alma volta para você com o peso de cada pessoa que você matou, cada vida que destruiu. A maioria dos assassinatos cometidos por vampiro são no automático, para acabar com a sede, vocês sequer percebem quem estão matando. Mas receber a alma de volta e se lembrar dos olhos daquela garotinha que implorava que você não a machucasse, ou lembrar do homem que estava voltando para os filhos depois de um dia de trabalho ou da jovem apaixonada que tinha muita esperança do que estava por vir... Isso pode ser demais para uma pessoa suportar de uma vez só.
Noto Ellie empalidecer. É como se isso partisse algo dentro dela.
- Além disso, você se lembra de que todo mundo que você amou em vida morreu e que cada mortal de quem você se aproximar morrerá também. A alma te tira o direito de transformar. Uma alma pesa. Isso é algo que ninguém gosta de comentar. Eu sei que pesar ou amor não significa nada para vocês agora, mas isso só deixa tudo pior. Vocês não conhecem esses sentimentos e podem não saber o que fazer com eles quando eles surgirem.
As meninas estão em um silêncio profundo, como se as palavras de Persephone tivessem penetrado seus ossos e levado todo medo e toda escuridão que estavam tentando segurar para dentro delas. Mas eu bufo.
- Você realmente acha que eu escolhi garotas fracas? Realmente acha que eu coloquei em meu Exército garotas que eu não acreditava que fossem capazes de suportar o que está por vir? Você me ofende, Persephone. Me afronta. Cada uma de nós, somos garotas abusadas, perseguidas, abandonadas. Tivemos uma independência forçada a nós e uma força que nos foi imputada em uma idade tenra demais para que pudéssemos recusá-la. Eu escolhi a maioria das minhas garotas com cuidado e as outras foram um presente que eu não merecia. Todas elas são capazes de sobreviver e de suportar coisas que você que viveu toda sua vida em uma casa confortável, temendo perspectivas que ainda não chegaram, jamais poderia. Da garota que nasceu para morrer até aquela que foi morta por uma guerra à qual não pertencia, cada uma de nós teve sua alma massacrada em vida. Todas nós, mesmo jovens, conhecemos a dor antes de morrer. E cada uma de nós merecia ser mais do que o destino nos encarregou de ser. Por isso estamos aqui. Eu prometi às meninas liberdade e não foi o que as dei ao transformá-las em vampiras, então pretendo reparar isso. Elas serão livres. Mesmo que eu precise carregar o peso de suas almas em minhas costas e curar seus machucados com minhas próprias mãos.
Não é apenas a impressão agora: Uma corrente de ar realmente atravessa a sala e abre a janela atrás de Persephone. A luz da lua, que por sinal não passa de um fiapo no céu, toma mais espaço na sala e atinge as pernas esticadas de Ellie. Rapidamente, ela recolhe as pernas, obedecendo a ordem de Persephone de se manter longe da luz da lua. Mas a herdeira simplesmente faz um sinal com as mãos e fecha a janela.
- Já entendi, você é determinada e tem um Exército. Apenas não irrite o Inferno mais do que já irritou antes da hora se não quiser que seu Exército caia sem luta. Sua mania de grandeza e a crença de que nasceu para grandes coisas será a sua destruição, Katerina.
- Isso é uma ameaça, um conselho ou uma interpretação do futuro, óh, grande vidente?
Persephone sorri. É a primeira vez que ela faz isso desde que chegamos e eu percebo que é porque finalmente entendeu com quem está lidando. Ela está tentando tomar controle de algo que é meu por direito e isso não vai acontecer.
- Um conselho. O que quer que vá acontecer com você no futuro não tem nada a ver comigo.
- Então porque diabos estamos aqui? - Rosno.
- Por causa delas. - Ela diz, sem tirar os olhos dos meus. - Eu sou a única que pode ajudar você a cumprir o que prometeu para elas e alcançar o que você acredita querer para si mesma. Então, eu não serei idiota o suficiente para tentar conduzir seu Exército a ser o que eu quero que elas sejam ou a desejar o que eu quero que desejem. Mas se você tiver o mínimo conceito de autopreservação, vai jogar com as minhas regras, sim. E vai fazer exatamente o que eu acredito que precisa fazer.
- Coloque as cartas sobre mesa, Persephone. A guerra não deixa tempo para tantos rodeios.

Kaylee
Persephone sorri discretamente. Cada vez que ela faz isso é mais perturbador. Seu rosto não é do tipo que foi feito para sorrir. Ela tem uma armadura no lugar de feições. Seus sorrisos são uma forma de ataque, não de rendição.
- É aqui que cada segredo cai. Este é o lugar onde cada parte de vocês é revelada por inteiro. Se eu não estiver conectada com a essência mais profunda de quem vocês são é muito mais fácil perder vocês no Inferno e não encontrar o caminho de volta até seu corpo.
- Isso soa como uma versão mais violenta dos desejos de Bianka. - Sophie diz, distraidamente, com os dedos brincando pela borda da área iluminada pela luz da lua.
- Bem, minha tatataravó tinha razão em desejar segredos e a verdade é que ela não conseguiu nem a metade dos segredos de vocês.
- Sua o quê? - Ellie solta, junto com uma respiração alta.
Persephone ergue a cabeça para observar Ellie com superioridade.
- Você realmente acreditou que ela morreu naquela manhã, não foi? Acha mesmo que ela não sabia que você tentaria matar qualquer um que soubesse que você estava a meio passo de se tornar o Réquiem? Ela nunca deixou a escola, mas soube como se proteger. Ela não pretendia ficar na Alemanha por muito tempo e depois que foi declarada como morta pelas autoridades, foi fácil ir embora. Você só deixou a fuga dela mais fácil, Ellie. É a você que devemos agradecer o fato do clã de Deyah estar na Romênia.
Percebo que Ellie precisa de toda energia que possui no corpo para não estremecer.
- Eu estava me perguntando como ela não fugiu do Inferno e veio atrás de mim.
- Ela era mais esperta que Deyah. Preferia se associar com o diabo do que escapar de suas mãos para enlouquecer. Ninguém escolheria insanidade no lugar do poder. Apenas a insanidade que vem junto com ele. Além disso, qualquer pessoa com olhos pode ver que tem algo de muito errado com as portas do Inferno no momento. - Ellie se ergue, como se para ouvir melhor. O que quer que estivesse sentindo pelos novos fatos sobre Bianka, o sentimento foi embora com a mesma rapidez que chegou. - Continua acontecendo. - Persephone continua -  As janelas. Não pararam. No ano novo uma lua gigante não prevista me impediu de ter uma noite de sono tranquila. O Inferno abriu as janelas para a saída de Ellie, mas eu duvido que tenham mantido abertas agora que a alma dela se normalizou. Tem algo de errado. Houve uma ruptura. Aparentemente, isso é vantagem para nós, é claro, mas a questão é que não só almas torturadas habitam o Inferno. Tudo que existe de maldito vem de lá. E se alguma coisa sair sem a permissão... Bem.
- Como assim “Bem”? - Sophie reclama - Eu pensei que você tivesse dito que era uma vidente. Onde está sua vidência agora?
- Eu sei sobre o meu destino. Não o do mundo inteiro. Coisas continuarão acontecendo depois que eu for incapaz de fazer algo a respeito...
- Escolha interessante de palavras. - Kat diz, apertando os olhos. - Seu destino não é a morte é? Você teria menos medo se fosse.
- Não tenho medo.
- Você é constituída de nada além de medo, Persephone. Graças a algum tipo de força de vontade sobrenatural você é o tipo de pessoa que sabe gastar suas energias em outras coisas e não se concentrar no que sente. Mas você tem medo. De quem é. Do que sabe. Do que precisa fazer. Cada parte do seu poder é abastecido e consumido pelo medo desolador que você tem. Você é uma criatura admirável, mas não pense que me ameaça mesmo que por um instante.
- Isso tudo não é sobre mim.
- Mas ainda assim você não me desmente.
Persephone suspira. Kat jogou baixo, mas ainda assim a garota passa longe de apresentar qualquer proximidade da perda de seu brilhante autocontrole. A cada momento ela parece mais perturbadoramente interessante. Como algo que você não quer ver e não pode deixar de olhar ao mesmo tempo.
- Eu disse que era uma maldição. - Ela diz, finalmente - Saber de seu destino e saber que absolutamente nada do que você faça vai mudar isso. Eu não posso me afastar da linha do tempo que foi criada para mim porque existe um cabo invisível que me puxa de volta. É mais forte que eu e é inevitável. Eu sabia que meus pais morreriam uma semana antes que eu completasse 18 anos e os mantive presos em casa durante todo o Natal. Meu pai desapareceu por volta das 19h e ligou para minha mãe dizendo que não sabia como tinha ido parar na casa de um amigo e precisava que ela fosse busca-lo. Selene foi junto porque eu sabia que ela não morreria agora e talvez ela pudesse cuidar deles. O que aconteceu aquela noite não tem explicação nenhuma. Aconteceu porque precisava acontecer. Você tem alguma ideia de como é enlouquecedor o conhecimento sem o poder?
É um debate estranho. As participantes querem ter certeza de que suas rivais estão colocando todas as cartas na mesa antes de revelar o que precisam. Elas se admiram e se temem ao mesmo tempo. Tentam saber qual das duas é a mais poderosa e ao mesmo tempo não querem descobrir a resposta.
- Você está brincando, certo? - Ellie diz, a voz subindo algumas oitavas. Ela balança a cabeça e cruza as pernas em sua frente. - Persephone, conhecimento só é uma maldição se você não souber como usá-lo. Seu destino pode ser o pior dos destinos, mas é o seu destino e “é fraqueza e tolice dizer que não suportaria algo que seu destino dita que é preciso ser suportado.”. Algumas pessoas não foram feitas para a felicidade e talvez você seja uma delas, mas não significa que você não pode aproveitar sua própria desgraça.
Persephone não responde. Coloca o cabelo atrás da orelha e sussurra algo para Selene que se levanta e vai para a parte de trás da sala. O Exército fica em silêncio novamente. Eu posso sentir a mente de cada uma das pessoas próximas a mim disparando com dezenas de pensamentos e tentativas de entender o que está acontecendo e o que está para acontecer. Eu não ouso tentar entrar na confusão dos meus pensamentos. Sou melhor observando do que refletindo. Selene volta com um caderno de couro que obviamente é um grimório e o entrega para Persephone, que agradece antes de abri-lo em seu colo.
- Aqui está o que vai acontecer: - Persephone começa de olhos no caderno. - Dentro das próximas semanas, eu quero entrar na alma figurativa de vocês. Eu quero saber de cada segredo, por mais obscuro que seja. Eu quero deixar vocês tão próximas de qualquer espectro de sentimento que tenham que sentirão sua alma queimar no Inferno como se estivessem de frente a uma fornalha. Preciso saber quem são enquanto descubro sobre a ruptura antes de leva-las ao Inferno. Vocês serão pessoas completamente diferentes quando atravessarem a janela. Bem, as que sobrarem de vocês.
Kat quase salta.
- O que você quer dizer?
- Eu quero dizer que assim como pessoas terão que morrer, vampiros, possivelmente animais e até plantas também terão. Acontece. E não tente fingir que não sabe que é isso que acontece em guerras. Fortaleça seu Exército, Katerina. Prepare-as para a luta. Mostre a que elas vieram. Vocês só precisam do número sagrado e do número maldito para o juramento que faremos hoje. Depois disso, a perda de uma ou de outra não implica na perda da batalha.
Ao ouvir isso, Selene se coloca de pé novamente e sai de cena.
- Juramento? - Kat pergunta, ainda afrontada.
- Você disse que vocês estão ligadas pelo sangue que derramaram mais do que pelo sangue que as transformou. Se isso é verdade, o processo que faremos hoje não vai afetar nenhuma de vocês. Quero ter certeza de que o sangue derramado de qualquer uma de vocês sejam em prol das outras. É o Inferno, não a esquina. Precisamos do máximo de poder possível e sangue de vampiro acontece de ser bem poderoso. Não posso deixar ele se perder.
- Então você sabe que algumas de nós vão morrer. - É Miranda quem pergunta, falando pela primeira vez.
Persephone bufa enquanto Selena chega com algumas vasilhas de madeira e um estojo grande demais para o bracinho.
- Eu sei que vocês não terminarão com o mesmo número que têm agora. O que vai acontecer com as outras eu não poderia dizer com exatidão.
- Mas você sabe quais de nós...?
Selene interrompe ao deixar o estojo cair, fazendo com que diversos punhais escapem de dentro dele e atinjam o chão com um baque. Persephone mexe as mãos e de repente cada um dos punhais está na frente de cada uma de nós treze.
- Não, Miranda. Eu não sei. - Persephone responde, pegando as tigelas de madeira da mão de Selene e atirando para nós pelo chão. - Vocês sabem o que fazer. - Diz, simplesmente, quando termina.
- Você realmente espera que a gente se corte sem ter como nos regenerar imediatamente?
- Bem, se cortem de uma forma que não faça uma bagunça e depois ataquem alguém na rua. Pelo amor de Deus. E eu também preciso do sangue de Ellie e Sophie, nem ousem questionar isso.
Algumas de nós resmungam, mas ninguém diz nada. Encaro o punhal cuja ponta toca minha perna e suspiro antes de pegá-lo. Ao contrário das outras vampiras do Exército, eu tenho um mapa formado por cicatrizes de lugares onde posso cortar sem que o sangramento se agrave. Escolho um ponto um pouco abaixo da parte interior do cotovelo. A ferida arde, o punhal entra mais profundamente do que eu planejava, mas eu não chio ou reclamo. Permito que o sangue escorra lentamente até a vasilha de madeira, observando concentradamente o liquido escuro como terra molhada. Eu tenho uma espécie de obsessão por como meu sangue se parece em comparação com sangue humano. A diferença mais importante não é a física, até mesmo o cheiro diferente só é perceptivo por vampiros e outras criaturas mágicas. Mas eu poderia jurar que nosso sangue é o mais escuro do que o sangue humano. Ou talvez eu só tenha encarado ele por muito tempo.
Aos poucos a sala é tomada pelo cheiro ferroso de sangue e quando as tigelas são empurradas de volta para a Persephone, elas deixam um rastro escuro no chão. Ao redor do círculo, eu posso ver cada uma apertando os pulsos e dedos para estancar os sangramentos. Exceto por Sophie e Ellie que cochicham algo uma para a outra. Da direção delas vem um cheiro cortante de sangue humano que desperta um clamor em meu corpo. É estranho, o sangue delas não carrega mais a maldição do vampirismo e de repente elas se tornaram presas em potencial. Eu não sei exatamente se seu sangue poderia ser consumido (bem, o de Sophie, não. O de Ellie, não tenho como saber), mas se pudesse deduzir, diria que não.
- Certo. - Persephone diz, enfiando os dedos nas tigelas para desenhar algo com sangue no chão - Tirem as pedras dos pescoços e coloquem à sua frente, mas sob a luz da lua. A partir de hoje, elas não podem estar em nenhum outro lugar além de seus pescoços. Não se preocupem, ninguém vai se arriscar a roubá-los e se o fizerem, trarão apenas desgraças para os si mesmos. Isso é magia representativa e cada uma dessas pedras representará a importância de vocês na batalha. - Ela desenha enquanto fala e enquanto todas nós fazemos o que ela ordena - A fidelidade e a confiabilidade da esmeralda. A sensibilidade e o poder de cura da safira. O autocontrole e a perceptividade da lápis-lazúli. A espiritualidade e a intuição da ametista. A honestidade e a clareza dos diamantes.  A paz e o bom humor do topázio. A pureza do rubi. A vitalidade e a ousadia da almandina. O alívio das aflições da água-marinha. A conexão com os estados espirituais do quartzo. E a harmonia entre o corpo e a alma trazido pelo ônix. Cada uma dessas coisas será o que vocês trarão para o Exército e se vocês não se consideram portadoras dessas qualidades, esse será o primeiro passo.
Ela se cala para continuar seus desenhos e nos deixar com nossos próprios pensamentos. A pureza do rubi? A pedra que escolhi para mim aumenta e destaca as qualidades, chamando pelo que há de melhor na pessoa que o carrega. Não tenho muito de bom restante em mim e definitivamente nada puro. Sou a única vampira do Exército transformada por assombração. Só me tornei vampira porque minha alma estava infectada pelo que Kat era, porque minha mente estava em seu estado mais doentio. Não sou pura, não me sinto limpa. Não estava pensando nisso quando escolhi o rubi: Queria a pedra mais escura possível, mas que não fosse negra. É essa a representação que tenho de mim, tomada pela escuridão, mesmo não tendo nascido dela.
Persephone termina o desenho e o que eu vejo é uma árvore sem folhas, com 13 galhos longos. O desenho é de um vermelho vivo já que a luz da lua banha ela por completo. Enquanto a bruxa herdeira alcança as pedras e posiciona uma em cada galho (a Esmeralda no ponto mais alto), vejo Louise se remexer.
- Isso é algo que eu chamo de feitiço pesado. - Ela diz, para ninguém especificamente - E geralmente é feito com o sangue de pessoas já mortas.
- Bem, teoricamente vocês estão mortas. De acordo com as regras humanas, seus corações pararam e seus corpos não tinham nenhum tipo de reação física. Seu sangue não é sangue comum.
- É magia mortal, Persephone. Profanação de corpos e acesso ao reino da Morte. Os mortos deveriam descansar em paz.
- Aqui não é Nova Orleans, Louise. - Essa frase me faz perceber que nenhuma de nós, em momento algum, dissemos nossos nomes ou de onde viemos. Sei que Persephone disse que sabe, mas eu sinto vontade de descobrir o quê. - Magia considerada obscura demais para o povo de sua cidade é de praxe por essas bandas. E eu não estou profanando corpo algum. Estou consagrando sangue para uma causa, na frente das donas dele. - Ela levanta os olhos para Louise quando enfim coloca a pedra de ônix num ponto no meio do desenho. - Você aceitou fazer parte disso. É uma luta que não tem mais um fim. Na vida ou na morte, você é parte disso agora. Não pode sequer cogitar desistir.
Louise não diz mais nada. Encara Persephone com delicadeza, observando com cuidado o rosto à sua frente, antes de balançar a cabeça com confiança. Persephone se senta no fim do tronco da árvore, com as pernas cruzadas na frente de si. Seu corpo forma sombra por cima da árvore, mas a luz envolve seus ombros e corpo por completo, formando uma aura. Seus dedos sujos de sangue alcançam o crucifixo cravejados de pedras em seu pescoço e ela fecha os olhos. Por um instante, palavras em latim são sussurradas com clareza. Não conheço esse feitiço e nenhuma outra além de Kat e Louise parece se conhecer. Olívia, porém, é fluente em latim e as palavras ditas por Persephone a fazem erguer a sobrancelha.
Durante um momento, nada acontece. Quando o silêncio se torna perturbador, o sangue no chão começa a se mexer. O desenho se parte: Primeiro os galhos se soltam do tronco com um audível crack. Em seguida ele se aproxima das pedras, se arrastando como pequenos animais rastejantes para dentro das correntes. Ouço um chiado, como se o sangue estivesse fervendo, e minhas veias começam a arder. Não como se estivessem queimando, mas uma coceira agonizante que me tira do sério. Da ferida ainda aberta, um líquido negro como petróleo começa a escorrer e faz barulho quando goteja no chão.
- Pelo amor de Deus, Persephone! - Ellie exclama, como se soubesse o que é aquilo e a ideia do que está fazendo parte a perturbasse.
Mas Persephone não responde. Permanece de olhos fechado sussurrando o feitiço. Selene observa todas nós de pé. Parece surpresa, mas não assustada. Não é a pior coisa que ela já viu.
- Sanguis lapso confirma reliqua. (Que o sangue caído reforce). - Persephone termina, abrindo os olhos.
Em um instante, a coceira desaparece. Assim como o sangue no chão, que parece ter entrado nas pedras, e a lua no céu. O pequeno fiapo de lua minguante foi tomado por uma nuvem gigantesca e só consigo enxergar o rosto das pessoas mais próximas de mim porque um relâmpago toma o céu e dura alguns segundos a mais do normal. Depois que o som do trovão corta a sala e parece partir o tempo em dois, Persephone volta a falar:
- Vocês conseguem achar suas pedras intuitivamente?
Não precisamos responder. Eu sinto como se a pedra fosse meu coração e meu sangue fosse bombeado diretamente de lá.  Não preciso sequer me inclinar muito para alcançar o rubi. Ele está muito mais pesado e parece pulsar quando o coloco sobre o peito. Quando todas fazem isso, ainda na escuridão estranha da tempestade sem água, Persephone estala os dedos e acende velas em torno da sala. É claro que este é um lugar sem energia elétrica.
- Isso não foi magia negra. - Ela diz, delicadamente - É magia de linhagem. Só funcionaria se houvesse algo ligando vocês e Kat estava certa, realmente tem. O sangue de vocês é como se fosse um só agora e quanto menos dividido ele for, se algumas de vocês morrerem, mais forte ele se torna. - Ela faz uma pausa, enfatizando as palavras. A gente já sabe disso, mas ela faz questão de reforçar que vamos perder algumas de nós. - A partir do dia 9, primeira lua nova do ano, começaremos uma espécie de treinamento. É quando, como eu falei, os segredos vão cair e vocês estarão em contato com tudo que são e o que fizeram. Não existe opção. Não existe desistência. Não existe retorno. E falando em linhagem e segredos, alguma de vocês já formou um vampiro? - Dessa vez, ela não faz pausa alguma porque quer nos pegar com a guarda baixa.
Funciona. Algumas de nós se remexem. Kat observa as que se movem, com o olhar opaco. Ela geralmente sabe de tudo, mas nesse caso ela só sabe que a maioria de nós não conta absolutamente tudo para ela. Eu só transformei Louise, porque ninguém se aproximou o suficiente de mim para que eu compartilhasse algo do tipo. Exceto por Amelie, mas ela já estava batizada quando nos conhecemos.
- Ótimo. Achem essas pessoas e matem-nas. Não quero saber de pontas soltas. Seu sangue é a parte mais importante e não podem pertencer a ninguém mais.
- Acho que seu desejo por sangue está tomando sua cabeça. - Kat diz, voltando a olhar para Persephone - Nós não deveríamos estar tomando conta da libertação dos vampiros? Como isso acontecerá se nós já começarmos matando eles?
Persephone suspira. Seus dedos deslizam por seus cabelos delicadamente. Como ela pode parecer tão desconfortável e nem um pouco vulnerável ao mesmo tempo? A explicação de Kat sobre seu poder vir do medo é a que mais faz sentido para mim.
- Certo. Continuemos achando pequenas brechas nas regras e evitando o que desagrada a vocês. - Ela diz, quase com um rosnado. - Mas eu preciso explicar uma coisa: Quero que fique claro que não iremos libertar todas as almas, não vamos assumir o controle do Inferno. O Inferno é uma dimensão eterna que existe desde muito antes que vocês tenham nascido e continuará existindo muito depois de deixarem de existir - mesmo que isso ainda leve milhões de milênios. O que queremos é recuperar o controle de algo que eles tiraram: O livre arbítrio. Na tentativa de criar seres que superariam à Morte, eles tiraram dos humanos o único poder que nos foi concedido - o de decidir. Não estamos tentando criar nossos próprios prisioneiros. Nós liberaremos a alma de cada vampiro que queira ser libertado e apenas de quem se sentir apto a enfrentar as consequências. Faremos um acordo e que quem quiser continuar prestando serviço ao Inferno, poderá fazer de livre e espontânea vontade e arcará com as consequências da eternidade na Terra. A magia de almas também acaba aqui: Os estudos de Deyah serão destruídos, meu conhecimento dissipado. Ellie será o último Réquiem. Nada disso é natural, as três maiores forças do universo são.
- Posso aceitar isso. Parece ser bom o suficiente. - Kat diz, dando de ombros. - E como anunciaremos nossos planos a cada vampiro existente?
Persephone balança as mãos como se desprezando a pergunta.
- É 2016. Notícias correm mais rápido do que acontecem. E com 182 anos nesse mundo, você provavelmente conhece algum tipo de rede de vampiros a quem possa recorrer para a notícia circular.
Kat concorda com a cabeça e olho para ela no mesmo momento em que ela olha para mim. Abro um sorriso discreto.
- Traga Amelie até aqui. - Kat movimenta os lábios, só para mim, sem precisar explicar mais nada.



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