Como contar uma piada e ter que esperar três anos para alguém começar a rir, uma resenha de Além-mundos por Scott Westerfeld

by - 19:28

Eu posso contar um monte de sinais, casos e coincidências malucas que provam que Além-mundos é um livro maravilhoso. Um deles é que eu comecei a escrever a resenha no meio do shopping depois do almoço, enquanto lia um pedaço do livro sobre uma festa de escritores - antes da página 100 ou das coisas realmente começarem a acontecer. Outro é o fato do final ter me levado às lágrimas pelo simples fato de ser o final. Também existe a questão de ser um livro que foge de tropes, mas entrega clichês suficientes para causar identificação e mexer com desejos profundos que você não quer admitir nem a si mesma. Ou como ele é feito de duas histórias completas, com dois universos bem trabalhados e como as duas conseguem te deixar doido da cabeça. É claro, também existe o fato de eu ter lido ele rápido, mesmo em meio a ressacas literárias e a edição do meu próprio livro, que anda fluindo de uma forma incrível. Além-mundos, um livro sobre um lugar frio dentro de personagens, aquecido por forças exteriores (geralmente o amor), aqueceu partes de mim que estavam intocadas há um tempão.

Dá pra notar o quanto eu amo minha estante?
Além-mundos é sobre Darcy, que tem 18 anos e depois de escrever um livro inteiro no NaNoWriMo conseguiu ser aceita por uma agência literária e assinou um contrato de publicação de 300 mil dólares por uma grande editora do país. Acreditando que tudo foi um golpe de sorte, Darcy resolve usar a oportunidade para se mudar para Nova Iorque e começar uma vida nova em meio à comunidade literária mágica da cidade. Mas o livro também é sobre Lizzie, personagem de Darcy, que ao fazer uma escala no aeroporto de Dallas encontra um ataque terrorista e acredita com tanta força que está morta que acaba atravessando as fronteiras entre o mundo superior e o mundo inferior. A experiência a deixa com, digamos, olhos que podem enxergar os dois mundos e a possibilita conhecer pessoas e se ligar a elas de formas inesperadas. Com capítulos intercalados, você conhece as duas personagens e viaja pela construção de um livro e pela história dele ao mesmo tempo.
A primeira vez que eu ouvi falar sobre Além-mundos foi quando eu me inscrevi no Camp NaNoWriMo de julho de 2014. O livro sairia 2 meses depois e é óbvio que toda comunidade Wrimo só sabia falar sobre o livro escrito no NaNoWriMo sobre uma escritora jovem que conseguiu um contrato de publicação para um livro que escreveu no NaNoWriMo. Na época, eu havia lido Feios e Perfeitos, os dois primeiros livros da série Feios do mesmo autor (eu descobri essa série vendo críticas negativas e por algum motivo, isso me fez ter certeza de que eu ia gostar). Eu adorei a série inteira e sinceramente ela está entre minhas sagas preferidas. Então Além-mundos já tinha um apelo duplo para mim: Era sobre o NaNoWriMo e era de um autor que eu gostava. O livro levou 20 meses (dos quais eu passei quase todos enchendo o saco da editora) para sair no Brasil e eu só pude começar a lê-lo um pouco depois do seu aniversário de 2 anos de publicação, mas eu evitei ler muito sobre ele depois da publicação. Por causa disso, eu só fui descobrir que a história da Lizzie é contada na íntegra quando o livro chegou ao Brasil, o que acabou se tornando uma tortura quando eu passei meses sem poder comprar e ler o livro por causa do combo preço + tempo. Eu  não sei se já disse isso aqui, mas eu definitivamente já disse isso em algum lugar: Todo livro que tem um personagem escritor me deixa louca para ler o que ele está escrevendo. É por isso que O Bicho-da-Seda de Robert Galbraith me deixou frustrada (mesmo que tenha sido um dos melhores livros que eu li em 2015), é por isso que eu estou tão animada para começar Carry On da Rainbow Rowell e é por isso que eu provavelmente (eu disse provavelmente) escreverei um spin-off de A Linha de Rumo com o livro que a Leigh escreve no hospital.
"- Eu entendo o que você quer dizer. Lembra quando a gente estava no colégio, quando você ia numa festa, e se não falasse com aquela pessoa de quem você gostava, nem valia a pena ir? Como se todas as outras pessoas nem fossem de verdade. O que é uma coisa bem horrível para se fazer com os outros, mas era como a gente se sentia, né?
Darcy sabia muito bem, mas só assentiu vagamente, como se aqueles dias fossem uma lembrança distante.
- Ou às vezes é com comida - continuou Imogem, com a chuva caindo mais forte - Como às vezes a única comida que serve é um montão de batatas fritas e você tem que sair no meio da noite para comprar senão acha que vai morrer. - Ela estava com os punhos cerrados agora - Para mim, escrever é a única coisa que é sempre de verdade. Eu nunca me arrependi de um dia em que escrevi uma cena legal, não importa o que mais eu tivesse ferrado naquele dia. Isso é que é real de verdade.
Darcy havia parado de respirar de tanto que concordava. Ela queria poder voltar no tempo e roubar as palavra de Imogem, só para poder ouvi-las na própria voz." (p. 112 e 113)
Me identificar com a Darcy foi fácil até demais. Quanto mais os capítulos dela passavam, mas eu via as semelhanças e coincidências se desenrolando. E como um dia disse um sábio, a parte ruim de se identificar demais com uma personagem é que eventualmente você começa a odiar ela. O fato de eu ter 18 anos, de ser escritora e de sempre ter sonhado com me mudar pra New York são o mais básico, mas quanto mais o livro passava, mais eu me aproximava da Darcy. O que ia me deixando frustrada por perceber as coisas que ela conseguiu com a minha idade e que eu ainda não tenho. Como um contrato de publicação duplo de 150 mil dólares por livro, um apartamento em Manhattan, uma amiga escritora que com duas semanas virou nam... QUEM DISSE ISSO? A parte boa é que muita coisa do livro é sobre como a Darcy ter conseguido isso tudo tão nova é assustador e louco. Os erros dela vão ficando óbvios e até frustrantes depois de um tempo, aí você é lembrado de que ela é nova demais para aquilo. A Darcy se acredita sortuda demais, o que muitas vezes é como eu me sinto também. Os sentimentos dela pareciam tão próximos dos meus que a vontade era de colocar o livro embaixo do meu travesseiro e de colocar fogo nele ao mesmo tempo.
Estranhamente, eu comecei o livro quase ao mesmo tempo que entrei na fase mais densa e complicada da edição do meu próprio livro. Nesse recesso de 3 semanas da faculdade eu virei uma workaholic maluca que trabalhava de meio dia às três da manhã e que não tirava a história da cabeça em nenhum momento. Eu ainda estou meio nesse ritmo, me recusando a aceitar que a faculdade voltou e mantendo minha 5ª deadline deste ano. Dias ruins ultimamente têm significado duas mil palavras novas no arquivo final. Então faz todo sentido que um livro em que a personagem estava passando pelo mesmo processo (ok, o processo dela era melhor porque envolvia um contrato de 300 mil dólares e uma editora. Na verdade, eu ainda vou ter que passar pelo que a Darcy passou se MUV for pego por uma editora. Mas eu não tenho medo. Eu acho.) tenha sido basicamente consumido por mim. Eu conseguia gritar "AMÉM, IRMÃ" e "MEU DEUS SIM" em tantas partes do livro que juntando eles a meus momentos fangirl-pelo-OTP eu devo ter causado algum dano às minhas cordas vocais. Quando uma autora publicada que a Darcy adora pede para ler o primeiro rascunho do livro dela para encontrar coisas para reclamar, eu quase tive um piripaque. Minhas amigas vão betar Mais Uma Vez para mim e eu já vou explodir de ansiedade e paranoia, não sei como ficaria se fosse alguém que eu idolatro.
Outra coisa que aconteceu foi como a Darcy fala sobre começar uma vida nova em NY onde as pessoas a conhecem pelo seu trabalho e nada mais que a defina. Como ela pode se definir tranquilamente sem medo de pessoas a prenderem em quem ela costumava ser ou na versão dela que eles conheciam. Isso me fez pensar bastante sobre minhas razões para querer me mudar para Nova Iorque e para dizer que nunca quero morar em um lugar por tempo suficiente para que as pessoas se cansem de mim. Eventualmente, pensar tanto assim resultou no último post, que foi mais uma coincidência de tema que algo planejado para coincidir com uma mudança considerável do blog. O que eu posso fazer se eu tenho sorte?
"- Mas fantasmas já estão mortos. E aquele homem que me seguiu até em casa, ele disse que fantasmas são só histórias que contam a si mesmas.
- Assim como os vivos.
Fiquei olhando para o oceano, me perguntando se aquilo era verdade. Alguns de nós, viventes, éramos feitos de histórias que não contávamos. Eu tinha guardado segredo do que acontecera em Dallas, criando mentiras e meias-verdades para todos que eu amava. E minha mãe não tinha me contado sobre a morte de Mindy, mesmo tendo-a assombrado durantes todos aqueles anos.
Por outro lado, talvez ela tenha feito isso, só que sem palavras. Seu medo de viagens de carro, sua necessidade de saber sobre onde eu estava a cada cinco minutos. Ela estava me contando a história do desaparecimento de Mindy cada dia da vida dela.
- Certo, claro. Todos somos feitos de histórias. Mas você e eu, nós somos de carne e osso de uma maneira que os fantasmas não são.
- Isso não tem nada a ver com o que os fantasmas realmente são, Lizzie. Isso tem a ver com o que você e eu decidimos fazer de nós mesmos." (p. 289 e 290)
Finalmente, mas nem de longe menos importante: Precisamos falar sobre representação queer feminina em Além-mundos. Eu disse pra uma amiga que em 2016 um casal lésbico bem desenvolvido e que não morre é tipo crack. E eu não tava brincando. É fácil demais ficar viciada em qualquer coisa com boa representação queer feminina a essa altura e difícil demais abandonar. Eu estou perto assim de ir atrás de fanfic da Darcy e da Imogen. Mais perto ainda de ir ao Tumblr e passar 12 horas reblogando fanarts. (Quando eu comecei o livro eu achei uma tão fofinha que a imagem das meninas - que quase não têm descrição pra falar a verdade - se transformou naquela o livro inteirinho). Não é o livro mais quebrador de barreiras da história da humanidade, mas a história pareceu tão certa. Tem todos os clichês de amor jovem certos e existe algo sobre duas escritoras apaixonadas que passam as noites escrevendo e os dias rodando Nova Iorque atrás de comida que é perfeito demais.
Tudo que eu tenho a dizer é que terei a pior ressaca literária da história nos próximos dias. Ou talvez não. O próximo livro é um Rainbow Rowell.
G.

P.S.: O título desse post é uma referência à citação mais popular de Além-mundos: "Ser escritor é muito estranho né? É como contar uma piada e ter que esperar dois anos até alguém começar a rir." (p. 93). Eu fiz a alteração para "três anos" porque eu terminei de escrever Mais Uma Vez há três anos, mas só em breve alguém vai lê-lo e isso é estressante para caramba.
P.P.S.: FELIZ DIA MUNDIAL DO ESCRITOR. Eu quase esqueci disso duas vezes e coincidentemente esse acabou sendo o Dia Mundial do Escritor mais fraco dos últimos anos. Mas o Dia Nacional do Escritor foi tão maravilhoso que compensa.

You May Also Like

0 comentários