As Crônicas de Kat - 2ª Fase - Capítulo X

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“Foi como o ardor de um amante que me abraçou. Foi odioso e ainda assim, dominador.” 
(Sheridan Le Fanu – Carmilla) 
As Crônicas de Kat:
Written in My Own Heart
s
Blood
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As Crônicas de Kat:

Written in My Own Heart’s Blood

14 de maio de 2017 
Graz, Áustria 
Diário de Kat 
A carta de Olívia chegou esta manhã. Foi a primeira vez que recebi uma carta dela e eu me diverti em notar o esforço que ela fez em redigir à mão palavra por palavra. Olívia é uma escritora particularmente boa, mas o esforço de ser obrigada a escrever um longo relato à mão fazia com que uma película de superficialidade tomasse suas palavras. Não foi surpresa ela ter implorado que eu saísse da reclusão e voltasse para a vida real várias vezes no decorrer da carta. Ela não foi a primeira das Sobreviventes a fazer isso e nem será a última, mas não é esse o pedido dela que eu sigo. 
Olívia pediu que eu relatasse os últimos meses do Exército, antes que começássemos a viver separadas. Ela aprendeu a maior parte das línguas que sabe hoje traduzindo meus diários, escritos nas línguas de cada país em que eu estive. Por isso, ela me escreve em alemão e implora para que eu escreva em alguma língua que ela não sabe. Ela disse que sente falta de meus relatos, das minhas histórias e que só eu poderia colocar em palavras o que aconteceu naqueles últimos dias de Exército. “E já que você não conversa com a gente e nem participa mais das nossas longas vídeo conferências no Skype, você poderia ao menos voltar a escrever e compartilhar seu diário conosco.”, são as palavras dela. 
Eu não estou reclusa. Ao menos não me sinto assim. Não estou evitando ninguém e não é minha culpa que todo o Exército tenha desenvolvido uma aversão natural pela Áustria. Também não sinto vontade de sair daqui ou de instalar uma rede de internet na cabana das minhas antepassadas. Estou descansando, lembrando de quem sou e me readaptando o mundo real. Ou evitando ele. O problema com conquistar o mundo em uma guerra é a percepção repentina de quão vasto e perigoso o mundo é. 
Quando eu escrevo respostas aos pedidos de que eu volte à presença das minhas irmãs, digo sempre a mesma coisa: Não sairei de Graz até ter certeza do que aconteceu com Naomi. Não chega a ser mentira, mas também não é uma verdade absoluta. Me prendo à crença de que Naomi está viva e na Áustria e à certeza de que conseguirei encontra-la, pela fraca ilusão de ainda ter um propósito. Quando todo preço foi pago e todo sacrifício foi feito o que resta para a heroína da história? 
Olívia me pediu pelos últimos meses do Exército enquanto Exército e não como Sobreviventes de Guerra. Depois dos eventos aos quais nos referimos como a Batalha Final, o Memorial e a Retomada, o Inferno pediu que fechássemos a ruptura e a Morte se aproximava para a sua própria batalha. 
- O que ele quis dizer com “a liberdade de Pierre”? – Olívia perguntou, enquanto nós encarávamos o corpo caído sem saber o que fazer com ele. 
Em resposta, Juliana deu um suspiro alto e Ellie deu de ombros. Kaylee se levantou repentinamente e prosseguiu para tentar arrumar a porta caída. Eu me perguntei o que as outras pessoas na casa deveriam estar pensando que aconteceu. 
- Nós não precisamos do Inferno para isso, precisamos? – Olívia insistiu. – Quer dizer, eu... – Ela se interrompeu e olhou para mim. 
Eu sorri. 
- Nós não precisamos do Inferno para absolutamente nada, Livi. – respondi. – Somos poderosas demais ou amaldiçoadas demais para isso. 
- Mas...? – Ellie incitou. 
Olhei para ela como quem ia dizer “sem mas”, mas ela ergueu a sobrancelha e eu fui forçada a dizer a verdade: 
Eles não estão sendo completamente estúpidos em propor uma saída fácil. E oferecer tudo que possamos querer é tentador demais. – Dei de ombros. 
- Mas se eles precisam de algo de nós, isso significa que nós temos a vantagem. – Sophie insistiu. 
- Exatamente. – confirmei. 
- Então, nós não vamos dar o que eles querem até termos certeza de que é o certo a fazer. – Kaylee disse, saindo da porta que ela realmente tinha arrumado apenas com seus poderes. 
O Exército pareceu ter chegado a um consenso silencioso naquele momento, mas eu olhei para Ellie. Era ela quem tinha mais a receber em um acordo com o Inferno. Ela não parecia desejar colocar isso às claras e muito menos debater uma decisão geral, mas também não se arriscou a olhar em minha direção. 
Neste momento, Pierre acordou, engasgando com sangue. Quando viu o Exército espalhado pelo quarto de Olívia, o encarando, soltou um bufo. 
Abadom? – Perguntou, olhando para mim. Concordei com a cabeça e ele respirou fundo: - Veio me cobrar? 
- Pierre, não. – Eu disse, revirando os olhos. – Quantas vezes eu devo dizer que você não pertence ao Inferno? 
Juliana explicou a ele a proposta de Abadom e o Exército entrou em uma discussão tranquila sobre a proposta em questão. O único consenso que chegamos era o de que não era a hora certa de tomar decisão nenhuma. Faltavam quase três semanas até a Lua Sangrenta e o Inferno não era a maior de nossas preocupações até lá. Por isso, a conversa naturalmente se dirigiu para a batalha contra a Morte. 
- Amelie não disse nada de importante? – Ellie perguntou para Kaylee, não pela primeira vez. 
Àquela altura, ela estava sentada no chão ao lado de Pierre, os dois espalhados sobre o tapete de Olívia com as pernas esticadas e a mesma curiosidade fez no olhar. Estavam tão parecidos que se eu dissesse isso a Ellie ela me daria um beliscão. 
- Não é como se ela soubesse de muito. – Kaylee explicou. - Ela é apenas um soldado. 
- Com a única missão de atrair você para sua força tarefa... – Sophie zombou, recebendo de volta um chute nas canelas merecido. 
Ninguém disse nada por algum tempo, pensando no que fazer. Amelie havia dito que a batalha contra a Morte seria para descobrir qual entre nós era a mais fraca e quais mereciam a vida eterna. Como se nós não tivéssemos passado literalmente pelo Inferno para conseguir essa vida eterna. 
- Talvez... – Tatiana começou. – E isso é só uma ideia maluca... Kaylee devesse fingir que aceita o chamado da Morte e descobrir que diabos ela quer. 
- Não! – Foi Anika a dizer, surpreendendo todo mundo. A encaramos por alguns segundos, esperando uma explicação, mas tudo que ela disse foi: - Não é uma boa ideia. 
Eu, Ellie e Sophie nos entreolhamos, mas eu dei de ombros. 
- A Morte vê o futuro através de intenções. Seria complicado demais. – Eu disse, livrando Anika da berlinda por um instante. – Além disso, nós não damos à Morte o que ela quer. Nunca. – insisti. 
Pierre riu enquanto o Exército respirou fundo. 
- Já que não vamos a chegar lugar nenhum, será que podemos descansar? – Juliana pediu. – Vou precisar de tempo para me acostumar a Romênia outra vez. 
Ignoramos o fato de que ela passou menos de um mês fora e resolvemos nos dispersar, cada uma para o quarto que havia sido instalada, exceto por Ellie, Sophie, Anika e eu. 
- Annie, nos mostre seu quarto! – Ellie disse, assim que chegamos ao corredor, em uma falsa animação que fez Anika bufar. 
Ela conhecia nossos pequenos truques, tendo passado vinte anos presa em uma cabana com nós três. Mesmo assim, ela concordou com a cabeça e delicadamente nos conduziu até seu quarto, no fim do corredor. 
A casa de Anika é completamente de Anika. Dois andares amplos e lotados de janelas. Todas as paredes de ambientes comuns são de tons de rosa, do salmão ao pêssego e deixam a sensação do mais confortável e limpo ambiente. As janelas são tomadas de cristais coloridos e bem trabalhados que lançam luzes e arco-íris pela casa inteira, como um vitral de igreja. Existe algo de intrinsecamente bonito e acolhedor ali dentro, como um lar de verdade, mais do que a minha casa. 
quarto dela, assim como o de Olívia, é pintado de rosa bebê e tem móveis confortáveis em todo canto. Poltronas de veludo, uma cama de dossel confortável, uma cadeira de escritório cor de rosa ao lado de uma mesa tomada de bibelôs e cristais. Em uma das paredes, um mural de fotos tem mais fotos do que deveria e eu não consegui não notar que a maioria delas era foto dela com as gêmeas. 
- Desembuche. – Sophie ordenou para Anika, se atirando na cama dela assim que ela fechou a porta. 
Anika soltou um longo suspiro e protelou sua resposta indo até a mesa e pegando um caderno de brochura lilás que eu reconheci como um grimório. Enquanto isso, Ellie e eu nos sentamos cada uma em uma poltrona e observamos todos os passos da dona do quarto. Anika se sentou na cama, mas não abriu o caderno. 
- Eu tive minha primeira visão. – Anika disse, sem olhar para ninguém especificamente. – Não que visão seja a palavra certa, porque eu não vi nada. Apenas senti com uma clareza nauseante. 
Ellie deslizou os dedos pela costura da poltrona quando perguntou. 
- Sobre o que foi? 
- A última de nós a morrer. – Anika respondeu, mesmo sendo óbvio. 
Kaylee? – perguntei, fracamente. 
Anika concordou com a cabeça. 
- Ela vai se matar, Kat. É isso que quer dizer não ser merecedora. Ela vai se sentir tão mal que... – a voz falhou. 
Ficamos as quatro em silêncio. Meus olhos viajaram pelo quarto inteiro antes de ver o que queriam ver no quadro de fotos, as fotos felizes de Anika, Valentina e Miranda. Os pedaços em que eu podia ver Naomi e Louise. Charlottie não precisava aparecer em fotos – sua presença estava no semblante de Sophie o tempo inteiro, especialmente quando morte e Destino eram trazidos à tona. 
- Deveríamos dizer a ela? – Sophie perguntou, o rosto sobre um travesseiro de Anika e o rosto escondido por uma cortina dourada de cabelos. 
- Eu não sei. – Anika disse. – Não acho uma boa ideia, mas ao mesmo tempo é o destino dela e só ela poderia fazer algo a respeito, não? 
Ellie balançou a cabeça, discordando completamente. 
- Ela vai se sentir fraca e muito pior. – explicou. – Se ela não está bem, vai ser como atrair o Destino diretamente para ela. 
Kaylee merece o direito de lutar contra isso, Ellie. – eu disse. 
- Então a dê razões para isso, Kat. – Ellie atirou, me olhando com intensidade - Ela já está travando uma batalha interna, precisamos dar apoio para que ela a vença ou continue tentando, não avisar que a guerra já foi perdida. 
Ela estava certa e eu percebi na hora. Ela também estava falando sobre muitas outras coisas além de Kaylee. Me calei e concordei com a cabeça, em silêncio. 
- Então, não diremos nada a Kaylee. - Anika interveio. - E às outras? 
- Nos diga você, é sua visão. - Sophie pediu. 
Ao invés de responder, Anika lançou um olhar longo para cada uma de nós. Nós quarto, as Sobreviventes mais velhas do Exército. Aquelas que ainda se lembravam como era o mundo no século XIX, que haviam conhecido aquele mundo antigo e diferente. E as únicas que conhecemos Kaylee desse o começo, desde que ela era uma garotinha de dois anos assistindo à morte da mãe. As únicas que fizeram parte da horda que foi enfeitiçada a torturar Kaylee continuamente, responsáveis pelas cicatrizes que ela carregou até a primavera daquele ano. 
Kaylee não havia sido transformada com nosso sangue, mas o sangue dela estava em nós quatro. 
Ninguém mais precisava saber, porque ninguém entenderia da forma como nós entendíamos. 
E, é claro, quem acabaria vencendo a batalha contra o Destino estava entre nós. 

15 de maio 
Eu não pretendia voltar ao diário hoje, mas a chegada da carta de Anika me convenceu a fazer isso. Ao contrário de Olívia, Anika escreve cartas curtas, mas com todas as informações necessárias. Talvez porque ame escrever cartas e seja a única de nós que o faz por prazer. Ela não precisa ir além do conjunto de frases que me informa que: Persephone continua tão bem quanto poderia estar, dadas as circunstancias, Selene deve pular uma série no começo do próximo ano letivo, Olívia está resignada a não voltar para a casa dela independente do que ela implore e que seu novo papel na cidade é ajudar em partos de crianças que cada vez mais recebem seu nome ou o nome de nós treze – para escrever uma boa carta. 
Eu me peguei sentindo uma falta tremenda de Anika e de sua pequena corte em Piatra Neamnţ ao terminar a carta. O tipo de saudade que me faria sair correndo de Graz e pegar um trem ou um avião em Viena para voltar para o conforto da casa dela. Eu sei que não poderia fazer isso – não fosse por como me sinto, seria pela fúria que eu sei que despertaria em todas as outras que tentaram me convencer a deixar Graz e não conseguiram – e por isso volto a escrever sobre os dias passados naquela casa. Uma pausa muito desejada entre uma batalha e outra, onde os maiores problemas eram tediosamente normais. 
Seis dias depois da aparição de Abadom, Anika resolveu dar uma festa de aniversário a Tatiana. O aniversário dela coincidiu com o dia seguinte ao aniversário de um mês da Batalha Final com o Inferno. Os humores eram diversos e o clima geral beirava o depressivo, por isso, Anika resolveu que Tatiana merecia a festa de aniversário mais incrível que desejasse e envolveu todo mundo nos preparativos no dia necessário. 
Nós rodamos a cidade inteira naquele dia recolhendo o necessário e um número surpreendente de coisas saiu de graça por serem para nós. Era como Nova Orleans, mas diferente ao mesmo tempo: Em Nova Orleans nos adoravam como deusas por nos considerarem aquilo de mais belo que a alta sociedade tinha a oferecer. Pessoas que tinham tudo nos ofereciam parcelas disso. Em Piatra Neamnţ, cada presente era um agradecimento e mesmo vindo de quem não tinha nada, a recusa era uma afronta. 
Tendo acompanhado Anika em várias missões durante aqueles seis primeiros dias, eu conhecia boa parte da cidade. Todas nós tínhamos algo a oferecer àquelas pessoas. Do Réquiem ao Fogo, todas nós tínhamos um toque, um poder que podia ajudar alguém. Nós não o fazíamos movidas por uma bondade ou pelo desejo de ajudar, mas pela necessidade de nossos poderes em serem úteis e na vontade de ter um propósito. Quando as ações eram respondidas com gentileza, uma culpa cristã tomava conta de nós e nós nos víamos desejosas de fazer mais e recobrar aquilo, apenas porque podíamos. 
- Às vezes eu estou ajudando alguém e penso: Eu poderia matar você. Em outra vida, eu teria matado você tão facilmente. – Anika me disse enquanto passávamos por um supermercado naquele dia das bruxas. – Então eu penso: essa pessoa não tem nada para me dar, não está me tomando nada e sua morte não me traria vantagem alguma. E não faço. Mas ainda sei que posso. 
Isso resumia como nós nos sentíamos. Em algum lugar dentro de nós, ainda éramos máquinas letais. Criaturas que matariam com prazer e por prazer e sem hesitar. Só que ao mesmo tempo, se não houvesse um bom motivo para matar, por que faríamos isso? 
A altura em que chegamos em casa, ela estava fervilhando de atividades. Todas estavam espalhadas por algum canto da casa, pendurando decorações, embalando presentes, movendo móveis para abrir espaço para uma pista de dança e organizando o sistema de som, entre outras coisas. A festa improvisada seria muito melhor do que festas que fizemos por vários dos anos anteriores e uma boa parte da cidade, a família mais próxima de Anika, estava convidada. A única pessoa que não estava autorizada a fazer coisa alguma, era a própria Tatiana, que aceitava esse papel de bom grado, largada em um sofá na sala com o celular na mão. 
Eu fiquei na cozinha ajudando Sophie a preparar comida para os convidados que comiam. Volta e meia algumas das outras entravam no lugar, sempre em grupo, e eu percebi que a casa estava se comunicando em línguas diferentes. Rubí e Siena só se comunicavam em espanhol e um inglês enrolado, então qualquer pessoa – normalmente, Ellie – que estivesse com elas se comunicava em sua língua natal. Juliana estava na cola de Amelie desde que chegara, tentando arrancar tudo sobre os Apreciadores, para garantir que o grupo não voltasse a se unir depois da morte de sua mãe, e elas sempre conversavam em inglês, como uma forma de distração. O resto da casa se comunicava em romeno. 
Em algum momento, Persephone entrou na cozinha e tentou beliscar um pouco do peru que Sophie fazia – levando uma bronca revoltada que a fez rir. Ela parecia mais calma e ciente dos seus arredores, o que ficava cada vez mais raro naquela época. Quanto mais o ano novo se aproximava, menos de Persephone ainda era Persephone e mais ia se transformando em uma espécie de vegetal, mas naquela noite, ela parecia completamente ela mesma. 
- É Samhain e eu tenho tramazeira no sistema o suficiente para me transformar em uma fruta. – Ela explicou, notando minha surpresa. 
- Isso ainda não explica porque você está nos tratando tão bem. – rebati. 
Persephone suspirou e tomou de Sophie a panela na qual ela tinha feito a cobertura do bolo, para comer as sobras. 
- A guerra acabou. – Persephone disse, depois de um tempo. - Nós lutamos juntas, eu vi o Inferno e agora isso vai me mudar para sempre. Não faz sentido ficar chateada a essa altura. 
- E você teve sua vingança. – Sophie comentou. 
- Eu não estou feliz sobre a morte de Valentina, Sophie. – Persephone rebateu. 
- Mas você não está chateada com isso também. 
Persephone fez um barulho irritante raspando a colher na panela e o prolongou pelo máximo de tempo possível antes de dizer: 
- Eu não sou cruel o suficiente para achar que roubar ossos de bruxa merece a punição de morrer no Inferno. Mas todas nós sabíamos que Valentina ia morrer e ao contrário de vocês, eu sei que o Destino é inevitável. E ela foi embora salvando centenas de almas, então foi por todos os motivos certos. 
Eu não conseguia me sentir do mesmo jeito, mas sabia o que ela queria dizer. De uma forma ou de outra, nós nos envolvemos em trabalho até a hora da festa e eu não precisei dizer mais nada. A festa de Tatiana foi maravilhosa, com tudo que uma festa de aniversário normal teria direito. Era como se ela estivesse completando 18 anos, não 78. 
Comer tem algo de entediante nesse estado estranho de ser imortal em que nos encontramos, então as comidas foram reservadas para os visitantes, mas nós bebemos e dançamos como se a vida dependesse disso. Em algum momento, eu me senti cansada o suficiente para precisar sentar e acabei em uma mesa, ao lado de Ellie e Rubí. Eu tinha visto Siena dançando com Sophie havia alguns minutos. 
- Eu mal conheço meus poderes completamente. – Rubí resmungava para Ellie. - Não saberia dizer o que o Inferno mudou em mim. 
Você não pode ir ao Inferno e voltar a mesma. Quando Tatiana foi acidentalmente carregada para lá durante o chamado do Inferno, ela voltou com a sensibilidade ao fogo. Todas nós saímos da guerra com algo novo, mesmo as que não eram bruxas, voltaram com algum poder. E é claro que todos os vampiros voltaram receberam sua alma de volta com algo novo. 
- Você viu fantasmas nas últimas semanas? – Ellie perguntou. Rubí discordou com a cabeça. – Você tentou mover algo com a mente? Testou sua força? Tentou ler a mente de alguém? 
- Ellie. – Rubí reclamou, revirando os olhos. 
Ellie abriu um sorriso reluzente e cheio de ironia que imediatamente atraiu toda a minha atenção para a cena. Observei as duas com cuidado. Ellie descansava completamente reclinada na cadeira, mas seu antebraço descansava inconscientemente sobre a coxa de Rubíque por sua vez estava completamente inclinada na direção dela. Era mais do que o tipo de conforto que duas pessoas que se conectaram através de uma maldição em comum tinham uma com a outra. 
Eu controlei um sorriso e desviei o olhar, mas foi tarde demais – Ellie notou que eu estava olhando e se retesou no mesmo segundo. Rubí ficou tensa - ela não era burra e sabia o que estava acontecendo. Eu fui forçada a puxar um assunto e envolver as duas em uma conversa longa para garantir o mínimo de normalidade pelo resto da noite. Depois de ter decidido voltar para a pista de dança, perdi as duas de vista até a manhã seguinte. 
Ellie e eu nunca conversamos sobre o que sentíamos. Nós apenas sabíamos. Duas almas nunca estiveram tão literal e figurativamente ligadas quanto as nossas. E apesar de nos amarmos de formas diferentes, nós sempre seremos a pessoa que ama à outra com mais intensidade. 
Na manhã seguinte, eu estava indo do meu quarto para o andar de baixo e passei pela porta do quarto de Ellie na hora em que ela estava saindo do quarto. Eu notei algo de diferente nela tão rapidamente que me escondi atrás de uma cortina antes de me dar conta do que estava fazendo. Ellie usava um robe de seda branco tão fracamente amarrado que as pernas claras estavam quase completamente descobertas. Elas foram as primeiras coisas que eu notei e elas deixaram claro a intimidade da situação que eu presenciava. 
De onde eu estava, tudo que vi foi Ellie olhar de volta para o quarto abrir um sorriso reluzente e dizer algo em voz baixa antes de fechar a porta com alguém lá dentro. Assim que fez isso, ela fechou os olhos, respirou fundo e os cantos da boca se ergueram lentamente. 
Deus, ela era tão linda. E estava em um momento de felicidade tão plena que assistir envolvia meu coração em quase magia. 
Me peguei sorrindo. Eu sabia que ela não ia me contar que tinha dormido com Rubí, então eu estava descobrindo da única forma que poderia. Era a prova final de que o que eu sentia por Ellie não tinha o mesmo fervor romântico do que ela sentia por mim. 
Esperei ela ir para o andar de baixo, antes de eu mesma sair das sombras. Fiz o caminho de volta até o meu quarto e me escondi lá até o fim do dia. Me ver a faria se sentir culpada e eu preferia que ela fosse feliz pelo tempo que pudesse. 

18 de maio 
Alguém encontrou a cabana hoje. A casa de minhas antepassadas fica afastada da estrada que leva no sentido a Graz, em uma clareira cercada de árvores tão entrelaçadas que não era possível ver o casebre até se enfiar embaixo de um galho e chegar à clareira em si. Percebi a pessoa se aproximando quando estava sentada na porta dos fundos, fazendo sombras com um cristal. Me enfiei na sala secreta e tranquei a porta. 
Como esperado, o jovem se aproximou da casa, sem saber se ela estava habitada ou não e com a confiança que somente um homem branco austríaco teria, entrou em todos os cômodos, buscando alguma coisa. A casa parece habitada – está limpa, aberta e organizada-, mas não por nada humano e nem por nada nesse século – não tem comida, energia elétrica ou água encanada. Eu notei a confusão do homem que fuçava minha casa através da energia dele. Também notei a energia das bruxas enterradas abaixo de nós e em meu jardim completamente revoltada pela invasão. 
Eu não pretendia fazer nada a respeito. Não era como se ele fosse dormir ali e eu estava segura na sala secreta – que é completamente encantada -, era só esperar que ele fosse embora e eu ficaria bem. O problema é que ele foi embora e assim que eu voltei à minha rotina normal, retornou, com três outros homens e a intenção de tomar a cabana. Mesmo se eu não fosse forçada a mata-los, a cabana era protegida por um bando de bruxas mortas e a Morte viria busca-los na lua cheia seguinte. 
Eles foram as primeiras pessoas que eu matei desde que voltei a ser bruxa – eu fui a última a fazer isso, todas as Sobreviventes já mataram ou foram responsáveis por Mortes antes de mim, pelo que me contaramOs assassinatos não me incomodaram ou me deixaram deprimida, porque eu sabia que precisava fazer isso, mas eu tinha esquecido o quanto era irritante teque esconder corpos depois do ato. Me fez sentir falta de ter um Exército para fazer isso comigo. 

Novembro do ano passado chegou deixando todo o Exército na ponta dos pés. Tínhamos duas semanas até a lua sangrenta. A Morte vinha cobrar uma de nós e o Inferno queria nossa ajuda. Precisávamos decidir o que fazer e por isso passávamos todas as noites em longas reuniões, onde debates chegavam próximos do não-civilizado. Amelie, Persephone e Rowan às vezes faziam parte dessa reunião, mas elas estavam quase tanto às escuras quanto nós oito. A única coisa que as videntes podiam dizer era que no fim, haveria sete de nós e que a profecia previa isso e Amelie não dizia quase nada, lembrando que só estava ali porque a Morte a trouxera de volta. 
Anika, Ellie, Sophie e eu ainda estávamos escondendo o que sabíamos sobre a batalha com a Morte, mas aquilo não faria diferença nenhuma. Sabíamos que não tínhamos como nos preparar, além de ler e reler a profecia milhares de vezes e tentar fazer de tudo para que Kaylee se sentisse bem e o mais próximo do feliz possível. Não sei se ela notou o fato de que era a única que Anika não enchia de tarefas durante o dia e a que ganhava o direito de decidir o que faríamos em todos os momentos livres. Conversas sobre temas tensos eram terminantemente proibidas fora das reuniões. 
Uma semana antes da lua sangrenta, Ellie, Sophie e eu ficamos na sala de estudo e atendimento de Anika a tarde inteira, ajudando ela a cuidar de algumas crianças que desenvolveram crises alérgicas algumas semanas antes do inverno. Todas as vezes que a sala ficava vazia, Anika soltava alguma frase sobre algo que ela tinha aprendido com o Destino agora que “entendia sua língua”. 
- Eu não sei, mas nenhuma força é imbatível. – ela disse, já no fim da tarde. – Existe equilíbrio neste universo e em todos os outros e isso significa que tudo pode ser subjugado. 
- Então como o Destino nunca foi vencido? – perguntei. – Em milênios? 
- Não acho que ele nunca foi vencido, apenas que não existe documentação disso. – Anika respondeu. 
Uma outra criança entrou na sala e nos distraímos encontrando uma forma de ajuda-la com a brotoeja. Depois que ela saiu, Ellie se sentou sobre a mesa e cruzou os braços sobre o peito, dizendo: 
- Vencer o Destino é reescrevê-lo. Talvez não exista nada documentado, porque quando as coisas mudaram, foi como se elas sempre tivessem sido daquele jeito. 
- Isso faz sentido, mas não nos ajuda nem um pouco. – eu disse. – Nós tentamos mudar as coisas e não adiantou nada. 
- Nós não mudamos de verdade, apenas encontramos nossos destinos de braços abertos. – Anika corrigiu. – Nós sabíamos o que ia acontecer graças à profecia, e não tentamos fazer algo diferente acontecer, apenas tentamos evitar que o que ia acontecer acontecesse, mesmo que não tivéssemos como saber como aconteceria. 
- Anika, você está fazendo minha cabeça doer. – Sophie reclamou. 
Anika riu, mas foi interrompida de novo antes de explicar. Não tivemos tempo de voltar à nossa conversa até o fim do dia, quando a lua já estava alta no céu e a sala de estudos sem energia iluminada apenas pela luz das velas. 
- Nós não tentamos fazer com que outra coisa acontecesse. – Anika disse, assim que pode. Ela não precisou explicar do que estava falando, porque as palavras dela tinham ficado em nossas cabeças durante todo aquele tempo.  O Destino disse: “Isso vai acontecer”. E ao invés de responder com: “Na verdade, isso vai acontecer.”, respondemos com “Isso não vai acontecer” e o Destino, é claro, riu de nós e de todos que tentaram o mesmo antes. 
- Mas como nós fazemos outra coisa acontecer, se não sabemos exatamente como vai acontecer? – perguntei. 
Anika deu de ombros. 
- Não fazemos. Você precisa conhecer as regras para poder quebrá-las. Se você não conhece palavra por palavra do que foi escrito em pedra, nunca vai encontrar a brecha, e o Destino é mais esperto do que simplesmente contar tudo. 
No escuro da sala, eu notei uma faísca de compreensão tomar o olhar de Sophie, tão intenso e azul quanto o olhar dela conseguia ser. Ele foi embora tão rápido quanto veio, mas eu sei que esse lampejo estava lá. 
Queria poder dizer que naquele momento eu sabia que algo não estava certo, mesmo que não soubesse o que fosse. Queria dizer que sabia que ela tinha tomado uma decisão e que uma ideia surgia nela, guardada o suficiente para que ela não corresse o risco de ser descoberta pela Morte. Mas eu só noto isso agora, olhando para trás e sabendo de tudo que aconteceu. Eu não sabia tudo, como não sei agora, mas o que eu sei é que eu nunca poderia impedir uma força tão poderosa quanto Sophie de fazer o que fez e de destruir o que destruiu. 

20 de maio 
A carta a chegar hoje foi de Juliana. De alguma forma, ela demonstrou uma irritação ainda maior que a de Olívia em ter que escrever uma carta à mão, mesmo que eu tivesse dito que ela não precisava ser tão literal. Só porque eu me recusava a usar celular ou computador na cabana, não queria dizer que eu não ia a Graz ver meus e-mails de vez em quando ou que eu não leria cartas digitadas em computador e impressas. Mas para o Exército, qualquer retorno ao passado é absoluto. Não consigo culpa-las por isso. 
Juliana me conta que Alex deve começar a faculdade em setembro, com bolsa de estudos completa. Conta também das festas que tem dado, dos resultados das reformas das casas que ela herdou da mãe e de Louise, conta de todos os novos feitiços que aprendeu com bruxas da cidade e com os livros das Delacrois, além de me pedir que mande alguns dos livros que eram das bruxas de Cianneque Kaylee disse a ela que poderiam ajudá-la. Finalmente, Juliana assinou a carta com Delacrois-Mayfair e colocou em um pequeno “P.S.” que tinha conseguido oficialmente mudar seu nome para aquele. 
A carta inteira aqueceu meu coração e fez com que eu sentisse uma pontada de saudades de Nova Orleans. Eu sei que nunca poderia montar pousada lá, como algumas das meninas fizeram, mas eu também sei que eu sempre retornarei, acompanhando a evolução da cidade, de década em década, de século em século, de milênio em milênio. O maior motivo para voltar sempre será o pequeno buraco em meu coração. 
Na última semana antes da lua sangrenta, Ellie começou a falar sobre Porto Williams em nossas reuniões. 
- Estamos falando de centenas de almas, presas à mesma maldição que eu carrego, mesmo sem ter nada a ver comigo. 
- Você disse que eu poderia ajudar. – Olívia disse. 
- A salvar a alma das Caídas, depois que eu me livrasse da maldição. – Ellie resmungou. – Essa maldição vem diretamente do Inferno e para todos os efeitos, só eles poderiam revoga-la. 
- Sem chance disso ser verdade. – Sophie rebateu. – Nosso Exército é conhecido por achar brechas quando o assunto são maldições. 
Eu estava deitada na cama de Anika, de barriga para cima, olhando as ilustrações na tapeçaria do dossel enquanto as ouvia falar, mas eu podia sentir os olhos de todas se virando na minha direção. Me ergui com os cotovelos e olhei diretamente para Ellie. 
- O que você acha? – perguntei. - Nos livramos da maldição na lua sangrenta fazendo um pequeno favor para o Inferno, ou procuramos a forma mais complicada e independente de fazer isso, prolongando seu sofrimento? 
Ellie me olhou nos olhos. 
- Você sabe que não é comigo que eu estou preocupada. 
- Você nunca nem esteve em Porto Williams, então eu duvido que seja com a cidade. – eu continuei. 
- Claro que não, é com Rubí. – Sophie zombou, de onde estava. 
Ellie tirou os olhos do meu para chicotear Sophie com o olhar mais gélido que ela já deu em anos. Vi suas mãos tremerem de leve e eu sabia que ela mataria Sophie por dizer aquela frase, se isso fosse possível. Ninguém teve coragem de reagir a isso e o quarto ficou em um silêncio absoluto enquanto Ellie se recuperava. 
- Valentina. – ela rosnou, quando conseguiu. - Essa foi a palavra que Anika disse que mandou a criatura de volta ao Inferno, e nós sabemos o porquê. - O quarto continuou quieto, mas agora por outros motivos. - Valentina morreu tirando aquelas almas do Inferno pela ruptura. Ela se sacrificou salvando cada vampiro na Terra e agora está presa em uma cidade amaldiçoada, ao invés de conseguir paz. Eu tenho um corpo, química para me manter no lugar quando necessário. Se eu me canso de sentir, um choque forte o suficiente me faz desmaiar. As almas presas em Porto Williams, apenas sentem. Vocês podem imaginar? – Ela olhou para Kaylee, o que foi cruel. - Só sentir. Não poder fugir do sentir. – Em seguida, olhou para Sophie. – Charlottie está lá. – Para Juliana. – Louise foi poupada de qualquer maldição, mas poderia estar lá também. – E para Anika. – Valentina e Miranda. São nelas que deveríamos estar pensando, não no que é certo ou errado, porque isso nunca importou. 
Ellie estava chorando quando terminou. Todas tinham os olhos presos nela. Eu me sentei confortavelmente e cruzei minhas pernas sobre a cama antes de dizer: 
- Nós temos conversado há quase duas semanas sobre fazer ou não um favor para o Inferno, mas esquecemos do que precisamos fazer. – eu disse. – Nós precisamos fechar a ruptura. Precisamos mandar de volta criaturas como o parasita que esteve em Alexandra e matou Charlottie. Se o Inferno quer nos dar algo em retorno, isso é com eles e não significa que nós devemos nada a eles. Mas Valentina não se sacrificou para que eu, Ellie e Anika tivéssemos controle sobre a ruptura e uma parte do Inferno, mas para que a guerra acabasse e todas as coisas ruins que ela trouxe se fossem com ela. 
Eu vi algumas cabeças se movendo ao redor da sala e partimos para votar se faríamos ou não. A votação foi unanime. Depois dela, Sophie pontuou que já que apenas as que tinham sangue de Valentina poderiam fechar a ruptura no Inferno, as outras precisavam de preparação para a batalha contra a Morte, mas Anika decidiu que essa discussão poderia esperar outro dia. Aos poucos, todas deixaram o quarto, as quatro que sabiam sobre Kaylee e ela própria restando no quarto. 
- Posso perguntar algo a vocês? – Kaylee disse, quando percebeu que nós queríamos ficar por lá. 
- Claro, Kay. – Ellie disse, apesar de engolir em seco, temendo qual fosse a pergunta. 
Que paz vocês podem dar às almas que estão em Porto Williams? 
Ellie quase suspirou de alívio, cedo demais, naturalmente. 
- Podemos manda-las para uma dimensão espiritual segura. – Ellie explicou - Uma onde as almas existem apenas como almas. Digo, Olívia pode. 
Os poderes que Olívia ganhou de presente um pouco antes de descermos ao Inferno, no meu aniversário, são chamados de Toque do Céu. Em teoria, ela ganhou os três poderes que reservam a Deus: onipresença, onisciência e a tão completa onipotência. Na prática, ela não se tornou o próprio Todo Poderoso, mas ganhou acesso a coisas que não tinha antes – ela pode desejar estar em um lugar e realmente estar lá, de forma corpórea ou não. Quando ela vê ou descobre algo, ela realmente Vê e realmente Entende, todos os processos que levaram àquilo, todos os componentes da coisa em si. E é claro, ela também foi garantida todos os poderes terrenos, da magia de uma bruxa, a cura de vampiro ao acesso a outras dimensões do Réquiem. 
Dizem que o Céu confere esses poderes a pessoas que possuem uma missão específica na Terra ou a pessoas que merecem ser abençoadas em seu caminho. O título de “A Freira” de Olívia foi justificado naquela noite. 
- Você acha que poderíamos fazer isso com qualquer alma? – Kaylee perguntou, colocando os cabelos atrás da orelha. 
Por um milésimo de segundo, eu vi as cicatrizes que não existiam mais em seus braços. 
- Eu acho que sim. – Ellie disse, em um tom de confusão, como se não entendesse por completo. 
Eu entendia. 
- Você não pode fazer isso com uma alma que está controlando um corpo e mantendo ele eternoKaylee. – eu disse. – Não de forma definitiva. Quebrar sua ligação terrena por completo destruiria a alma e a levaria ao nada infinito. 
Kaylee olhou para mim, os olhos escuros deixando claro que ela sabia que eu sabia. Fiz o máximo para implorar que ela não fizesse isso, mas ela não conseguia ver isso. 
- Obrigada, Kat. – disse, saindo do quarto de Anika e deixando nós quatro sozinhas, com um aperto no coração. 

27 de maio 
A carta de Tatiana foi da simplicidade mais tomada de carinho que poderia ser. Ela me contou que tinha acabado de chegar ao Quênia e ido direto a uma ilha na costa norte, onde ficaria por tempo indeterminado. Disse que tinha espaço para mim e que quando se cansasse de lá queria que eu mostrasse a ela lugares que eu tinha visitado e que ainda não tive como mostra-la. Não sei porque me surpreendia que Tatiana estivesse vivendo da forma mais plena possível entre nós sete. Conhecendo o mundo, os lugares que ela não conheceu durante nossa busca pela décima terceira vampira. Depois de nascer meses antes da segunda guerra mundial e viver em guerra por quase 100 anos, ela finalmente estava livre. 
A lua sangrenta chegou devagar como uma cobra que se prepara para o bote e de repente nos atingiu. Em 13 de novembro, nenhuma de nós dormiu. A lua já estava vermelha, como se tomada por um véu rubro, mas ainda não estava cheia o suficiente para significar uma Danse Macabre. Ficamos pela sala da casa de Anika, andando sem rumo de camisola como fantasmas. Pierre também estava entre nós, nos encarando, com o olhar grave. Amelie dormia tranquilamente deitada no sofá, como se estivesse lá apenas para lembrar que a Morte estava chegando. 
Quando o sol estava prestes a nascer, Sophie perdeu a paciência, perguntou se éramos ou não a merda de um Exército e começou a organizar nossas estratégias de guerra. Apenas eu, Ellie e Anika poderíamos fechar a ruptura, então era melhor que nós três ficássemos longes da ação com a Morte. A Morte também faria de tudo para levar uma de nós três, em especial, eu então era melhor que fosse como fosse. Pierre ficaria conosco, para garantir que o fechamento da ruptura tiraria dele sua parte demônio. As cinco que iriam para a batalha precisavam repassar o que sabiam sobre Danse Macabre. Anika ameaçou lançar sobre todas um feitiço da verdade para ter certeza de que nenhuma delas tinha intenção de se unir à Morte. Claro que ela sabia que Kaylee se mataria, não se uniria à Morte, então, quando Kaylee jurou que não tinha a mínima intenção de se juntar à Morte, mesmo que Amelie fosse levada com ela, nós sabíamos que ela não estava mentindo. 
Kaylee parecia miserável naqueles dias, mas de uma forma mais obsessa e menos completamente depressiva. Depois de todo tempo que passou catatônica e triste pelo que fez com Amelie, ela finalmente estava deixando a garota de volta sob a guarda dela – e isso a estava enlouquecendo. A batalha com a Morte significava o fim da ligação de Amelie com a mesma e como Kaylee não tinha intenção nenhuma de se unir à Morte, Amelie provavelmente estaria morta até o fim da noite. Devastando Kaylee mais uma vez. 
As preparações de guerra nos deixaram mais calmas, mais graves. Agora, era só esperar até a noite. Enquanto ela chegava, nós nos movemos pela casa, organizando as últimas coisas. Depois disso, voltamos à sala e esperamos, ninguém com coragem de fazer mais do que passar as páginas de um livro, abrir e fechar aplicativos no celular ou distraidamente brincar com a corrente do colar, pensando aquele seria seu último dia de vida – neste plano ou em qualquer um outro. Ellie estava nervosa demais para se mover e eu fiquei descansando a cabeça no ombro de Ellie, cochilando. 
Estava quase pegando no sono, quando Sophie se sentou no braço do sofá e esticou as pernas sobre nós duas. Não me movi ou abri os olhos. 
- Sabe o que é estranho? – Sophie perguntou, para Ellie. – Quantas de nós queremos um final feliz romântico. 
- Sophie. – Ellie gemeu, como se dissesse “Kat pode estar ouvindo”. 
Eu estava, mas elas não tinham como ter certeza e Sophie não se importou. 
- Nós desprezamos o amor com tanta vontade, por tanto tempo. E agora Juliana está caindo de amores por Pierre e com medo de morrer apenas para não acabar perdendo a chance de beijá-lo. Kaylee pensa em se matar por Amelie. E você... 
Dessa vez, Ellie deu um tapa em Sophie, tão forte que a bruxa quase caiu do sofá e soltou um grito de dor. Apenas Ellie poderia bater em Sophie daquele jeito e sair incólume. Fiz muito esforço para continuar fingindo que ainda estava dormindo. 
- É sério, Eleanor Pleurer. – Sophie disse, se recuperando do tapa. – Você merece seu final feliz romântico. 
Ellie soltou uma risada cruel e carregada de ironia. 
- Você sabe qual foi meu maior erro em todos os meus anos de vida? – Ela perguntou e respondeu a si mesma: - Eu me apaixonei por um Petry. Se não fosse por meu relacionamento com Alec, eu não teria sido atacada, eu não teria sido encontrada por Kat, eu não teria dado a luz a Pierre e voltado como uma vampira. Eu me apaixonei por um Petry e me tornei o Réquiem. Um século e meio depois eu continuo cometendo os mesmos erros. 
Sophie chutou a perna de Ellie, quase me empurrando junto. 
- E quanto a Rubí? 
- Sophie, ninguém nunca vai ser Kat. Não interessa quantos relacionamentos eu tenha ou quantas pessoas me façam feliz, eu vou ser assombrada pelo que sinto por ela para sempre. 
- E isso é uma coisa ruim, por que...? Ela não a ama do jeito que você a ama, mas ama você mais do que o suficiente. Não deixe o que você quer dela ficar do caminho do que ela pode dar a você, Ellie. 
Ellie não respondeu. Eu esperei um minuto antes de me mostrar acordada e assim que o fiz, engoli em seco, torcendo para que não notassem o motivo. 
Um pouco antes da meia noite, todo mundo voltou para o seu quarto para se trocar e se vestir o mais confortavelmente possível. Estava relativamente frio e Sophie apareceu com um casaco de gola alta que Ellie tricotou para ela, arrancando um sorriso de Ellie. O resto de nós estava tranquilamente vestida de jeans e camiseta, algumas de jaqueta, as que ficariam em casa com os braços livres. 
Tivemos um grande momento de despedida no andar de baixo, pois a maioria de nós não sabia quem voltaria naquela noite e quem não. Sophie era a única das quatro mais velhas que veria a Morte naquela noite e ela nos puxou de lado para garantir que cuidaria de Kaylee o quanto pudesse. 
- Não vou deixar que ela faça nada estúpido. Nem nenhuma delas, para falar a verdade. – Ela disse, olhando para todas nós. – Eu preciso que vocês façam algo por mim. 
- É claro. – eu disse, sem pensar. 
Sophie tirou uma bolsinha de veludo do bolso e nos mostrou com a palma da mão aberta. 
- Isso é uma relíquia de família. – Ela disse, agora olhando para a bolsinha. – Preciso que vocês a mantenham por perto durante toda a noite. Quanto fecharem a ruptura, abram a bolsa e olhem seu conteúdo. Vocês saberão se a alma de alguma bruxa Hass está perto de vocês. Eu preciso saber. 
Não entendemos naquele momento, mas não importava. Nós confiávamos em Sophie. Ellie tomou a bolsinha de suas mãos e a pendurou ao lado de seu pingente de safira. Sophie a abraçou, seus olhos se enchendo de lágrimas rapidamente, antes que ela se afastasse. Abraçou Anika em seguida, a chamando de “Aquilo” e dizendo que estava orgulhosa dela. Em seguida, foi minha vez. 
- Eu sei que você estava ouvindo tudo. – ela sussurrou em meio aos meus cabelos. - Cuide de Ellie, Kat. Tenha certeza de que todo mundo terá seu final feliz romântico. 
- Não existe final, Sophie. – eu respondi, ecoando as palavras de Pierre. – Apenas ciclos. 
- Se você acredita nisso, acredita que fins são necessários para que outros começos aconteçam, certo? Não esqueça disso esta noite. 
Nada disso pareceu estranho. Não tinha porque nada disso parecer estranho. Todas nós estávamos emotivas e preocupadas e sabíamos que independente do que acontecesse, o fim definitivo de uma de nós se aproximava e o resto ficaria para trás com dor no coração. 
Nossa despedida de Kaylee foi tão dramática quanto nossa despedida de Sophie. Eu quis gravar o rosto dela em pedra e pedi um milhão de vezes que ela não fizesse nada estúpido. Ela respondia com: 
- Eu não faço promessas até considerar as consequências. Bruxas não são conhecidas pelos seus atos, mas pelos resultados deles. 
No fim, todas foram embora. Restando Ellie, Anika, Pierre e eu. Ficamos em silêncio, olhando uns para os outros por muito, muito tempo. 
- Como faremos isso? – Pierre perguntou. 
Eu sorri, mas Ellie me cortou. 
- Teoricamente, você não vai fazer nada. 
- Mas na prática, farei sim. – ele avisou. – Minha liberdade será conquistada da mesma forma que vocês conquistaram a de vocês. 
Ellie se calou, surpresa pela reação dele. De repente, eu sabia exatamente o que precisava fazer. Contei a eles meu plano e por mais louco que fosse, ele fazia sentido demais para ser questionado. 
Fomos andando até o monte no redor de Piatra Neamnţ onde costumava ficar a casa de vidro. O metal retorcido pelo fogo era tudo que restava ali, além de uma marca profunda de fogo no chão. Eu tinha uma consciência mínima de que o corpo de Charlottie também estava no meio daqueles destroços quando me enfiei no meio do ferro e fui até onde Rowan havia me mostrado o céu aberto meses antes e me explicado onde era a ruptura. 
A lua me encarava, enorme e vermelha. A maior lua sangrenta do século. O céu pareia estar sangrando novamente, não o vermelho brilhante da aurora austral e do sangue mamífero, mas um vermelho escuro e profundo, quase negro. Sangue de vampiro. 
Anika e Ellie pararam ao meu redor. Pierre se ergueu em nossa frente e me encarou com atenção antes que fizéssemos o que tínhamos que fazer. 
- Você está fazendo isso por quem? – perguntei. 
- Por mim mesmo. – Ele respondeu. - Por vocês. Por Juliana. 
- Você já quebrou tantas promessas, Pierre. 
- Não essa, Kat. Tem coisas demais em jogo. 
- Resposta certa. – Ellie disse, de onde estava. 
Dei as mãos às minhas vampiras ao meu redor. À minha vampira e a vampira de Ellie. Não éramos mais vampiras, mas era nosso sangue vampiro que nos levava até ali. Éramos a linhagem de Valentina. A nós pertencia o sangue derramado na ruptura do Inferno. 
Fechamos os olhos, mas eu ainda podia ver o vermelho da lua. O vento parou por um segundo e nele nós sussurramos a única palavra que tinha força o suficiente para abrir a ruptura com clareza: 
- Valentina. 
O som do corpo de Pierre caindo no chão nos fez abrir os olhos e quebrar nossa ligação. O céu estava vermelho vivo. De onde a lua estava até onde nós estávamos, nuvens tinham se afastado e uma luz vermelha e brilhante aparecia, como se o sol estivesse nascendo à meia noite. 
Pierre deveria entrar, convocar cada Sombra que não foi invocada ou que não deveria sair do Inferno de volta para casa, garantir que as promessas do Inferno fossem cumpridas e voltar, sem a sua parte demoníaca, imortal apenas porque foi ao Inferno e voltou. Ele tinha dez minutos. Tentaríamos chama-lo de volta nesse tempo, mas não poderíamos garantir coisa alguma se ele não fizesse o que precisava. 
Nós três não nos movemos durante esse tempo. Embaixo e acima de nós, era como se o tempo tivesse parado. O vento não soprava, as árvores estavam congeladas no lugar, nenhum animal ou pessoa fazia som algum. A energia elétrica havia caído em Piatra, provavelmente efeito dos dois eventos poderosos acontecendo na cidade, um de cada lado, os dois tentando ser mais forte que o outro. Era como se tivéssemos cortado e congelado o espaço-tempo. Minha cabeça volta e meia ia até a Danse Macabre acontecendo a quilômetros dali, mas mesmo que eu tentasse, não conseguiria saber o que estava acontecendo lá. 
Quando Pierre voltou, foi completamente óbvio. O vento voltou a cortar o ambiente e uma rufada de energia tremeu o chão sobre nossos pés. Não tivemos tempo de vê-lo acordar e se levantar, porque precisávamos fechar a ruptura. De olhos bem abertos e novamente de mãos dadas, nós três não dissemos coisa alguma. Ao invés disso, concentramos nossas energias em negar a entrada ou a saída de qualquer criatura, corpórea, energética, sobrenatural ou humana. Ao proibir o passeio pelo solo sagrado – mesmo que não fosse solo de verdade e ficasse no Inferno – fechamos a ruptura aos poucos. A abertura vermelha foi desaparecendo com cada vez maior velocidade, sendo tomada de nuvens escuras, tão negras quanto a cidade abaixo de nós. Quando ela se fechou e as nuvens tomaram conta do céu, começou a chover levemente. A lua não podia mais ser vista e eu me perguntei se isso significava que a Danse também tinha acabado. 
Pierre estava parado diante de nós mais uma vez, esfregando manchas de lama do braço. 
- Funcionou? – Ellie perguntou, ansiosa. 
A chuva já estava deixando o cabelo dela preso diante de seus olhos e eu mesma não conseguia enxergar direito. 
- Não sei, me diga você. – Pierre disse e andou até Ellie para lhe dar um tapa na cara, como fez quando a alma dela voltou. 
As mãos de Pierre não queimaram. Tudo que Ellie fez foi devolver o tapa em uma intensidade maior, deixando o rosto de Pierre vermelho o suficiente para ser notável no escuro. Mas ele não queimou. 
- Funcionou. – Anika disse, rindo. 
Todos nós rimos, quase maniacamente. Rimos até nossos estômagos doerem e por tempo demais. Em seguida, começamos a chorar. Chorando e rindo nós continuamos até que todos os sentimentos e toda energia fosse colocada para fora. Quando fizemos isso, tudo estava bem e era hora de voltar para casa e encontrar as outras. Ver os designíos do Destino cumpridos mais uma vez. 
- Esperem. – Ellie disse, antes que começássemos a decida de volta à cidade. – Sophie pediu que abríssemos a bolsinha depois que a ruptura fosse fechada. 
Ellie tirou a bolsinha de veludo do colar com todo cuidado e virou o conteúdo em suas mãos. Um grito horrorizado saiu de seus lábios quando ela viu o que estava lá dentro, eu comecei a tremer quando fiz o mesmo. 
- Sophie, não. – sussurrei, entredentes. 
Tomei a mão de Ellie e a aproximei de meus olhos. A luz vermelha da lua voltou a se derramar sobre onde estávamos. As lágrimas me impediram de enxergar o que estava nas mãos de Ellie, até que eu as colocasse nas minhas. Pedrinhas. Pequenos pedaços de lápis-lazúli. 

1º de junho 
Kaylee me contou exatamente como aconteceu depois. 
Como Sophie convenceu ela a negociar com a Morte, garantir que Amelie viveria por completo desde que um sacrifício fosse feito. Sophie convenceu Kaylee que entendia sua necessidade de morrer, de dar um fim a tudo que ela estava sentindo. Ela convenceu Kaylee de que sacrifícios precisavam ser feitos em nome da felicidade de quem ela amava. 
E então, se sacrificou. 
Sophie Hass fez uma nova escolha quando a Morte veio convocar uma de nós novamente. Sophie era indestrutível, subjugável apenas por ela mesma. Mas ela não queria ser indestrutível, ela queria destruir cada força que considerava culpada por sua dor e iria junto se fosse necessário. Em uma noite, Sophie venceu o Destino, enganou a Morte, e garantiu que todas as sombras infernais estivessem de volta onde deveriam. 
Ela venceu. Venceu a guerra que tomou a maior parte das nossas vidas e tomou dela Nova Orleans, sua irmã e todas as outras coisas que amou. 
Sophie venceu. E o fato de que a saudades e a falta dela corta nosso peito de forma tão profunda é culpa apenas nossa. 
Sua alma foi destruída em tantos pedaços quanto seu pingente de lápis-lazúli foi, mas cada uma de nós agora carrega pedaços da pedra em relicários, que ficam juntos a nossas próprias pedras. Assim como cada uma de nós ainda tem um pedaço da alma de Sophie em algum lugar. 
Falar sobre a morte dela ainda me machuca – me levou cinco dias para conseguir escrever sobre isso - e decididamente foi um dos motivos para o Exército ter se separado de forma definitiva e eu ter me enfiado na cabana para me reorganizar. Um mundo sem Sophie não parece certo, mas foi a decisão dela e não se poderia lutar contra isso. 
Sophie acabou sendo a única força imbatível neste universo e em todos os outros. 

18 de junho 
A última carta a chegar é a de Kaylee – e chega no 100º aniversário de sua transformação, datada de seu 117º aniversário. A carta foi tão curta quanto a de Anika e tão cheia de carinho quanto a de Tatiana. Ela perguntou se poderia passar alguns dias aqui durante suas férias de inverno, em julho. Disse que viria sozinha, pois Amelie quer passar todo tempo possível em Nova Orleans. 
Kaylee está fazendo faculdade na Argentina. Não sei porque escolheu esse país, mas sei que não foi uma escolha repentina. Está estudando medicina e pretende se especializar em psiquiatria. Estranhamente, fazer faculdade depois da guerra era o plano de Louise e eu jurava que seria Juliana a seguir com ele. 
As escolhas de Kaylee completam quatro de nós nas Américas, três na América do Sul – supondo que Ellie seguiu com Rubí de volta ao Chile. Olívia voltou ao Brasil, apesar de estar longe de Petrópolis, em São Luís do Maranhão, envolvida em algum tipo de férias glamorosas ou penitência criada por ela mesma. Seu plano de transformar meus textos e nossas histórias e relatar com clareza pela primeira vez, o Destino sendo superado por uma garota, está a todo vapor. Juliana está em Nova Orleans, reinando sobre a cidade com punhos de ferro – ao lado de seu Príncipe Consorte. 
Eu e Anika permanecemos na Europa, Anika em sua casa em Piatra Neamnţ e eu em minha cabana em Graz, até segunda ordem. E Tatiana, está viajando pelo mundo, no momento na África, daqui a alguns meses, quem sabe? 
Olívia não teve muita dificuldade em mandar todas as almas para a paz. Naquela mesma noite, ela deslizou até Porto Williams e tirou todas as almas da fenda, as enviando para a segurança. Aproveitou para fazer o mesmo com a alma de Deyah, por mais insana que ela pudesse estar àquela altura. Depois disso, estava acabado. Nada mais de missões para o Exército. Nada mais de batalhas para vencer. 
Começamos a deixar a Romênia logo depois do ano novo. O Natal foi o mais silencioso e desconfortável que tivemos, mesmo nos anos em que passamos presas em Cianne. Era como se não soubéssemos mais ser felizes, como se não achássemos certo ter um pouco de felicidade. A rotina assumiu nossos dias, mas ela não estava certa. Não era nossa rotina, estávamos invadindo a rotina de Anika, como convidadas que não entendem os limites do convite. 
No fundo disso tudo, Persephone perdia a cabeça. Eu estava esperando surtos psicóticos, crises violentas, todo tipo de coisa que já tinha visto anteriormente de pessoas que enlouqueceram ou deixavam de ser quem era. Com Persephone foi completamente diferente. Ela apenas deixou de ser quem era. Ou de se qualquer pessoa. No Natal, ela não dizia mais nada, quase palavra nenhuma, apenas olhava vegetalmente pela janela. Ela só tinha pequenos momentos de lucidez, em que ela queria conversar apenas com Selene – que às vezes ela confundia com Anika. 
No dia 1º de janeiro, as bruxas Sobreviventes resolveram fazer um presente para Persephone e no dia em que a lua voltou para o mesmo lugar – seu aniversário de 19 anos – a mente de Persephone se mudou para um paraíso criado por nós. Uma realidade estática onde ela vive o melhor dia de sua vida, todos os dias. Aquele feitiço foi o mínimo que pudemos fazer por ela – ela, que foi a única que voltou do Inferno amaldiçoada, ao invés de abençoada -, mas foi demais para nós. A falta de Sophie se tornou tão óbvia no feitiço grupal, que nós nem conseguimos olhar uma para as outras no resto do dia. 
Kaylee foi embora primeiro. Disse que queria pesquisar sobre como continuar os estudos em alguma faculdade longe e que precisava de Amelie para isso. Elas começaram voltando para os Estados Unidos para acabar com os rastros humanos de Amelie e começar uma nova vida. 
Juliana precisava voltar para casa de uma forma ou de outra e tudo que ela quis foi eu e Ellie déssemos a benção para que Pierre a seguisse. Nossa resposta foi revirar os olhos e dizer que eles ficarem juntos, depois de tudo que a gente passou, era o mínimo. 
Em seguida, Tatiana. Começou como uma viagem simples de férias e continuou como uma missão de vida, de conhecer cada canto da Terra e começar de novo no século seguinte. Olívia adorou a ideia e a imitou, mas queria começar pelo Brasil. Na verdade, Olívia estava querendo fugir de todas as tarefas que Anika arranjava para ela, como se ela fosse sua assistente particular Toda-Poderosa. 
No fim, restamos eu e Ellie. E Rubí e Siena. 
Àquela altura, nós tínhamos conferências semanais via Skype com as meninas que estavam em outros países e era absurda a diferença que a distância tinha feito em nós. Nós precisávamos descansar, mesmo que fosse longe de nós mesmas. 
No começo de fevereiro, eu disse a Ellie que ela deveria ir com Rubí e Siena e conhecer a cidade que estava ligada a ela tão profundamente. Ellie queria ir, eu conseguia ver isso, mas ela também não queria me deixar para trás. Eu a convenci a ir prometendo que estaríamos no mesmo lugar no meu aniversário. Ela prometeu de volta que aquilo era apenas temporário e que ela me chamaria até lá se fosse necessário. 
Nós duas sabíamos que eram promessas vazias e que muito poderia acontecer até lá, mas nós éramos tudo de mais intenso que a outra tinha na Terra, não podíamos simplesmente dizer adeus. 
Na manhã do dia 18, eu falei com Ellie pela última vez. Ela foi a última a sair da casa, arrastando uma mala com tudo que tinha levado até o táxi. Eu fiquei parada no corredor, a alguns metros da porta, enquanto todo mundo estava lá fora, ajudando a carregar o carro. 
- Ellie. – Eu chamei, quando ela estava prestes a atravessar a porta. Ela se virou com expectativa, me encarou com os olhos gelo profundos nos meus e mordeu o lábio inferior, as presas surgindo, tão ameaçadoras quanto poderiam ser. Eu coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha e lancei a ela o olhar mais intenso que poderia. – Eu amo você. 




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