Então, finalmente aconteceu

01:09

Eu quero escrever sobre depressão e sobre como eu tenho me sentido de verdade há um bom tempo. Talvez 13 ou 14 meses? Depois de ter perdido a minha mãe em 2014 e de ter me obrigado a me sentir melhor, ela voltou sorrateia em setembro do ano passado, em uma série de crises sobre as quais eu tive pouco controle. Eu sabia que eventualmente postaria algo direto demais aqui. Porque eu tenho escrito posts e mais posts durante todos esses meses, só para deletá-los no dia seguinte, quando eu me sentia uma completa idiota por ter me sentido tão mal. Alguns dos meus posts preferidos aqui são justamente sobre isso, sobre estar doente e sobre a dor, todos eles escrito às lágrimas. Talvez esse post também se torne um dos meus preferidos, ou talvez eu me arrependa de ter postado ele. Mas eu sei que preciso fazer isso agora porque, como a maioria dos posts do blog em 2017, este é um post que foi trabalhado por meses - mesmo que ele seja o mais caótico já escrito. A única coisa que eu peço é o que eu sempre peço toda vez que posto algo assim: Por favor, não comente para dizer que espera que eu fique bem ou me dar algum conselho. Eu sei de todas as pessoas que esperam que eu fique bem. Apenas não é assim que funciona. E eu não estou escrevendo isso para que alguém sinta pena de mim ou que comece a me tratar diferente ou para que em cada momento as pessoas ao meu redor pensem muito antes de falar comigo. As pessoas vivem pedindo para que eu fale. Aqui eu estou pedindo que vocês ouçam. Não tentem me consertar ou consertar o que está acontecendo, porque algumas coisas não podem ser consertadas.

Você tem voado tão alto, evitado a estrada. Fingindo não se sentir sozinho.
Eu tenho pensado muito no que significa ter depressão, ansiedade e síndrome do pânico durante a maior parte da minha vida. Eu tinha 9 anos quando minha primeira crise de pânico aconteceu e quando eu percebi que conseguia limpar meu vômito sozinha e me fazer me acalmar também. Dez anos se passaram depois disso e eu sou a maior especialista que você vai conhecer em disfarçar cara de choro e em esconder o som do meu vômito com a toneira do banheiro aberta. Eu saio de casa sem comer e enfio sacolas plásticas na minha mochila porque eu simplesmente sei quando eu vou vomitar. Eu sei diferenciar a dor no estômago por causa da gastrite nervosa, da dor no estômago por causa da ansiedade. Eu sei quando eu estou sendo preguiçosa e quando estou me sentindo deprimida. Eu percebo quando eu passo dez horas seguidas na cama porque não quero sair das cobertas, eu também digo a mim mesma que sou um lixo quando eu não quero sequer tenho vontade de tomar banho e eu sei que eu sou a pessoa mais distraída que já pisou nessa Terra. Eu não culpo ninguém por ser crítico comigo porque eu sou a maior crítica de mim mesma.
Quando eu recebo uma crítica pessoal, minha resposta é "Eu sei". Eu não posso dizer que "eu vou fazer melhor" porque amanhã eu posso acordar sentindo que eu não mereço nem estar viva e não conseguir me concentrar em nada. E eu não estou dizendo a você para ficar do meu lado e dizer que nunca vai me abandonar porque você não merece isso. Cada frase já escrita sobre se afastar de pessoas tóxicas ou pessoas que não conseguem melhorar é real. Eu não culpo as pessoas que se afastam de mim, até porque eu já me afastei de algumas pessoas. Eu sou responsável pelo meu próprio destino e pelo meu próprio eu e eu tenho plena consciência disso. Quando eu te digo que você pode ir embora se quiser, eu não estou desistindo de você ou não fazendo o mínimo esforço possível. Eu estou dizendo que eu não mereço você e que a única pessoa castigada a enfrentar meus problemas sou eu mesma.
Me enlouquece que as pessoas não estejam percebendo como cada aspecto da minha vida tem me deixado maluca ultimamente. Como eu tenho vivido em função da faculdade e do trabalho e como eu odeio isso mais do que eu poderia odiar qualquer coisa. Eu odeio meu estágio - não as pessoas com as quais eu trabalho ou o local, mas o trabalho e a área, que não é a minha. Eu odeio cada vez mais o jornalismo. E eu continuo me comprometendo a fazer coisas porque eu quero provar algo para alguém. Para as dezenas de pessoas que diziam que "queriam um estágio como o meu" porque eu não precisava cumprir horas todos os dias, eu agora estou estagiando em dois setores. Dois setores com os quais eu odeio trabalhar. Para as pessoas que diziam que eu passava 14 horas por dia na frente de um computador "então não estava fazendo nada", eu estou em uma rotina de seis reuniões semanais em grupos diferentes dos quais eu faço parte - em muitos dias eu nem ligo o computador, muito menos escrevo e por pior que eu me sinta sobre isso, eu simplesmente estou cansada demais. E eu ainda sinto que eu não estou me envolvendo em coisas o bastante porque todo mundo que eu conheço está envolvido em mais. E eu odeio cada parte do processo. E eu tenho gritado com as pessoas sem motivo e eu tenho chorado em pontos de ônibus. E eu sei que as pessoas sempre serão críticas de mim, mas eu só quero provar que eu sou boa o suficiente para estar aqui. Para ser uma adulta. Eu quero provar que eu tenho direito de ainda estar viva. E eu estou tão perto de não me matricular na faculdade semestre que vem e tentar encontrar um emprego de 30 horas que não me faça ter pensamentos suicidas como o meu de 20 faz - e absolutamente ninguém percebe isso. Quando eu digo que vou tentar outro estágio, a reação é choque. E quando eu perco uma aula, as pessoas assumem que é porque eu sou preguiçosa e desorganizada. E eu sei que eu sou boa em fingir, fingir é o que eu mais faço, mas eu sou tão boa assim?? 
E eu sei que os últimos parágrafos soam como vitimismo, mas como você conversa com alguém sobre depressão sem soar como uma vítima? Como você faz que elas entendam que quando você diz que não conseguiu fazer algo porque teve uma crise só de pensar na coisa é a mesma coisa de dizer que você ficou presa num quarto escuro porque tinha enxaqueca? A única coisa que eu desejava que as outras pessoas entendessem é que eu estou doente. Eu nunca estive curada. Eu preciso tentar todos os dias. E isso significa ter dias ruins. Eu faço terapia há cinco anos e a essa atura, eu desenvolvi a habilidade de me analisar completamente. Eu converso comigo mesma da mesma forma que a minha psiquiatra fala comigo. Eu digo: "Giulia, você tem cinco livros escritos. Você passou no vestibular e tem ido relativamente bem na faculdade. Giulia, você está estagiando. Você cuida da sua irmã. Você avançou tanto. Você está indo bem." e eu sei que a minha vida é incrível. Eu conheço tantos lugares, eu não preciso me preocupar com dinheiro ainda, eu estou segura. Todas as vezes que eu tenho um pensamento cruel, eu tenho imediatamente uma correção. Eu sei que eu não posso ser a pior pessoa do mundo se eu tenho amigas que são pessoas incríveis. Eu sei que existem pessoas lá fora que se sentem muito mais perdidas que eu e pessoas que não vivem com o mínimo conforto necessário para manter a humanidade. Mas saber de todas essas coisas não impedem os dias ruins. É como saber como um câncer funciona ou todos os sintomas da gripe. Não faz com que nada vá embora.
Alguns meses atrás eu ouvi como eu sempre estou passando mal. A pessoa não falava por mal, foi só um comentário e eu sei que a pessoa se importa comigo, mas isso não saiu da minha cabeça. Eu passo mal o tempo todo. E recentemente eu tenho estado doente o suficiente para que as pessoas percebam. Minhas faltas, meus ainda maiores atrasos, o quão mal eu tenho ido no que eu faço. E de repente vem uma gripe e ela dura semanas porque eu não tenho comido direito. E uma faringite porque eu usei o ventilador no rosto por muito tempo para abaixar minha temperatura. Eu perco peso e ganho peso e eu tenho parecido estranha nas minhas roupas. Isso tem incomodado as pessoas, mas eu não quero incomodar ninguém. Quando eu fico doente, não estou pedindo para que você cuide de mim. Ou quando eu vomito em público, que você me leve num hospital. E quando eu me atraso todos os dias durante um mês inteiro, eu sei que preocupo você, mas você não precisa ficar preocupado. No fim, eu volto a funcionar. Eu fico bem. Eu sei cuidar de mim mesma, eu tenho feito isso sozinha por tanto tempo. Eu não estou tentando empurrar o peso de mim sobre você. É isso que eu preciso que você entenda. Cobre de mim o quanto quiser. Exija de mim o quanto achar necessário. Mas toda vez que eu falhar, não ache que eu faço de propósito ou que quero atrapalhar você. Eu só estou tentando sobreviver.
Eu falei mais de uma vez sobre suicídio essa semana e como pensar sobre isso dessa vez é diferente de na última. Não me lembro de ter contato isso a ninguém porque a verdade é que eu neguei até à minha psicóloga, mas quando eu tinha 15 anos eu realmente senti que poderia me jogar da janela do prédio onde eu morava. Eu senti que minha vida não fazia sentido e que desde antes de eu nascer eu vinha atrapalhando todo mundo, especialmente minha mãe. Quer dizer, se eu não tivesse nascido ela não teria tido brigas com a família ou ter sido obrigada a se casar. E a única razão pela qual eu não fiz isso, pela qual eu apenas fiquei encarando a janela por horas e mais horas é porque eu tinha um pânico completo da morte. É assim que isso é diferente. Hoje em dia, eu consigo lidar com a morte. Eu a entendo com mais clareza. Eu poderia aceitá-la mais facilmente. Mas eu não quero ninguém preocupado, eu prometo por tudo no mundo que eu não vou me matar. O motivo pelo qual minha mãe estava tão estressada que teve um ataque cardíaco é porque ela queria que a gente estivesse segura e bem. Ela passou os últimos 16 anos da vida dela garantindo que eu estivesse bem e crescesse bem e eu não vou jogar nenhum segundo disso fora. Eu vou ter a vida que ela desejava para mim.
Mas eu não posso te olhar nos olhos e dizer "eu vou melhorar" ou "isso é apenas passageiro". Porque em 2013 eu achei que estava melhor e em 2014 eu jurava que tudo tinha ido embora e em 2015 eu achava que não ia mais precisar de antidepressivos e em 2016 eu pensei que eu só me sentisse mal nos meses próximos a datas que lembravam à minha mãe e no meio deste ano eu jurei que tinha chegado ao fundo do poço e que agora era só subir, mas eu não assisto aulas há duas semanas porque eu fico tendo insônia seguida de vontade de não acordar. Eu não posso dizer que vou melhorar porque a verdade é que eu já não acredito mais nisso. E eu sei que sou um peso porque quando uma pessoa te diz uma vez que não se sente bem, é preocupante, mas quando a pessoa diz isso 14 vezes no mesmo mês, não dá nem para acreditar. Então eu não estou pedindo que você fique, ou que acredite em mim, mas estou dizendo que talvez eu fique melhor sozinha e talvez eu seja a única pessoa no universo que pode entender o que eu sinto. E que isso é outra coisa à qual eu já me resignei.
Uma coisa que eu ouvi de mais de um psicólogo é que uma das coisas mais difíceis que alguém com depressão faz é pedir ajuda. Quando eu estou mal, eu não peço ajuda. Porque eu odeio me sentir um peso e porque eu odeio sentir que a outra pessoa está tentando consertar coisas que não podem ser consertadas. Quando eu estou mal, eu chego em casa, evito minhas obrigações e assisto três episódios seguidos de The Thundermans. Eu tomo o ônibus que roda mais porque eu quero ouvir música por alguns minutos. Eu abro e fecho o Instagram da Mandy Lee mesmo que eu já tenha visto e curtido todas as fotos um milhão de vezes. Quando eu estou mal, eu tento ficar bem das formas que eu conheço. E eu não me importo com quantas pessoas revirem os olhos por isso, mas a pessoa que mais tem me ajudado das formas como pode é a Kira. Porque as vezes eu digo para ela muito mais do que eu deveria dizer e ela só curte os tweets, para semanas depois fazer um comentário que mostra que ela se lembra. E nós não somos "melhores amigas que dividem tudo", mas ela faz com que eu me sinta menos sozinha. Porque me mandando DMs sobre meu nome no Twitter ser "Giulia está tendo um colapso nervoso", ela faz com que eu sinta que alguém está prestando atenção aos meus silêncios. A pessoa que está perto que mais me ajudou nos últimos tempos, não tinha obrigação nenhuma de me ajudar. E eu sabia disso, então quando ela se sentou do meu lado e nós ficamos falando sobre o quão ridículo era o que eu estava sentindo porque a sociedade molda a gente assim e sobre todas as outras coisas que não eram isso, eu me senti validada. Eu não me senti melhor e, na verdade, eu chorei várias outras vezes naquele dia, mas eu senti que tinha o direito de me sentir assim. Eu senti que meus sentimentos eram reais. Às vezes - e isso é a maior parte do tempo para alguém que tem depressão - não existe nada que você possa fazer para fazer com que alguém se sinta melhor, mas você pode fazer algo para que a pessoa se sinta menos sozinha. Ou menos louca.
E eu sei que não sou a melhor amiga nisso. Que às vezes eu sei que meus amigos não estão bem e que tento ajudar de formas que são completamente fracas. Que nem sempre eu ajudo nem que seja para ouvir ou que mando mensagens para o amigo que postou coisas autodestrutivas no Twitter. Eu sei que dizer que "eu estou aqui", não é a mesma coisa de estar aqui. E eu sei que sou toda pena e pouca compaixão. Mas se eu pudesse tirar a dor de cada um de vocês e colocar em mim, eu faria isso. E se você quiser vir à minha casa ou me mandar uma mensagem que simplesmente diga "Você pode me ouvir?", eu estou aqui. E eu vou fazer o meu melhor para prestar atenção aos silêncios de todo mundo. Isso, eu posso prometer.
Eu preciso que você acredite quando eu digo que eu estou bem. Mas eu preciso que você saiba que às vezes eu estou mentindo. Preciso que você entenda que eu sou muito mais sincera no Twitter do que eu sou com você, porque eu não sei falar. Eu não sei contar o que eu estou sentindo. Eu nunca aprendi. Eu nunca aprendi a sentir de verdade. E às vezes eu preciso contar tudo em threads no Twitter porque pelo menos lá eu organizo meus pensamentos e sei qual é o próximo passo a seguir. Eu posso prometer que vou atrás de você e contar sempre que eu não me sentir bem, mas às vezes não há nada a ser dito. Às vezes são só os dias que eu fico calada. E às vezes eu quero falar, e eu até falo, mas eu não acho que ninguém está ouvindo.
E eu não preciso que você pise em ovos comigo, ou que me trate diferente de como trata seus outros amigos. Qualquer crítica que você fizer ou coisa ruim que você disser a mim, eu já disse a mim mesma coisas dez vezes pior. Mas eu preciso que você entenda que às vezes eu vou ficar magoada com algo e eu vou precisar de mais tempo para lidar com isso do que os outros. Que a minha distração não é por mal e que se eu atrapalho você, eu pelo menos quero compensar de outras formas. Me diga como.
E eu preciso que você saiba que eu amo você. Eu nem sempre vou saber como demonstrar isso e às vezes vai parecer que eu não sei como amar. Mas eu preciso que você entenda que mesmo que eu não possa prometer que no ano que vem eu serei a melhor pessoa do mundo, eu posso prometer que eu estou tentando. Eu preciso aprender como amar, como sentir tristeza, como sentir felicidade, como perdoar e como compartilhar. E eu sei que isso vai levar meu próprio tempo e eu não estou pedindo para você esperar por mim.
Repito que isso não é um pedido de ajuda. É talvez uma autoanálise. E eu sei que vários de vocês ficarão preocupados comigo, mas eu repito: Eu vou ficar bem. Mesmo que a depressão fique voltando, eu aprendi a lidar comigo mesma. Eu sei ficar bem sozinha. Lembram dos truques? De disfarçar o som do vômito e de esconder as lágrimas? Eu sei que preciso abaixar a temperatura do meu corpo para parar de ter peristaltismos. Eu sei quando pedir licença para ir ao banheiro quando preciso de um momento para me recuperar. E eu sei que stalkear obsessivamente e teorizar sobre famosos desconhecidos faz com que eu me sinta melhor. Eu não quero que você venha para o meio do meu caos, porque ninguém além de mim tem a obrigação de lidar com a minha bagunça. Eu vou ficar bem. Eu preciso ficar.
Giulia

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