A faculdade pública a gente paga com a alma

Meus informantes me avisaram que hoje é Dia do Blogueiro? Nem foi de propósito, mas depois de 4 semanas sem posts, hoje é o dia perfeito para voltar, especialmente para falar sobre esse assunto. Feliz dia para todos os criadores de conteúdo por aí, seus blogueirinhos.

Quase dois anos de formada, mas aqui estou eu trazendo de volta a tradição de usar os maiores memes sobre a faculdade como título das publicações sobre a faculdade. Não que este post seja necessariamente sobre a faculdade, ela vai muito além disso, mas precisamos falar sobre as partes da minha alma que a faculdade destruiu, então eu não consegui pensar em título melhor.

"Eu parei de me importar um tempão atrás."

Quando eu comecei a terapia com a minha psicóloga atual, 3 anos atrás, eu trouxe um conceito pra ela, que eu tinha discutido aqui no blog anteriormente: Existem dois tipos de cansaço, o cansaço bom e o cansaço ruim. O cansaço bom vem de coisas que possibilitam seu crescimento e bem-estar. Depois de um dia produtivo e eficiente, onde você fez coisas que alimentam sua alma. O cansaço bom também é aquele cansaço depois de um dia de praia, um show ou uma Bienal do Livro (cries in meu governo é genocida). O cansaço bom vem até mesmo depois de uma boa faxina em casa, quando você toma um bom banho e depois não consegue fazer mais nada. E então, o cansaço ruim. O cansaço ruim vem quando você está preso fazendo algo que você não quer está fazendo e realizando tarefas que você sabe que não vão te levar a lugar nenhum. Quando você está fazendo muita coisa, mas nenhuma das coisas que você faz está trazendo retorno pessoal. O cansaço ruim é o cansaço depois de um dia inteiro de crises de pânico — o que acontece com frequência ultimamente nessa pandemia.

Anos depois, esse simples conceito de cansaço bom x cansaço ruim se desenvolveu em vários processos e várias metas terapêuticas. Minha psicóloga sempre pontuou como falar sobre alguns aspectos da minha carreira fazia com que meus olhos brilhassem e eu me movimentasse muito e outros faziam com que eu me afundasse na poltrona e ficasse desanimada. Nosso objetivo sempre foi usar as coisas que me deixavam animada para energizar as coisas que me destruíam por dentro, mas que eu precisava fazer.

Vocês já sabem que depois de deixar meu primeiro emprego em 2018, um estágio 2 em 1, eu acabei embarcando naquele que seria o melhor ano da minha vida na perspectiva profissional. Eu publiquei meu primeiro livro e comecei a escrever para um portal de música que eu sonhava em escrever desde que era caloura, eu entrevistei minha pessoa preferida várias vezes, me aproximei mais dela e me tornei a jornalista responsável pelo Kira's Official Updates. Eu finalmente estava fazendo algo que me preenchia, me satisfazia, que me deixava com o tipo bom de cansaço.

Isso foi três anos atrás. Hoje em dia, eu já me formei, já passei por vários outros empregos, sabendo ou não se aquilo era o que eu queria fazer ou se só estava tomando espaço e me rendendo dinheiro até que eu encontrasse algo que realmente era o que eu queria fazer. Eu fiquei furiosa por trabalhar tanto e receber tão pouco em retorno e desesperada pelo fato de que não queriam me pagar pela minha escrita. Eu só conhecia frustração e ódio. No meio de uma pandemia, jornais iam fechando, jornalistas morrendo, jornalistas sendo profissionais essenciais e perdendo emprego o tempo todo, ao mesmo tempo.

Eu fiz o que precisava para sobreviver, começando a trabalhar minhas outras habilidades. No começo, qualquer coisa servia e foi como eu fui parar no Itaú, organizando filas. Mas foi uma coisa que minha psiquiatra me disse nessa época que me fez me agarrar a outras coisas, coisas que refletiam melhor minhas habilidades reais: Ela disse que eu tinha coragem o bastante para aceitar um trabalho que muita gente recusaria por medo. Algo que nem tinha passado pela minha cabeça, por causa da visão de túnel da sobrevivência. E eu resolvi dedicar essa energia, essa coragem cega, às minhas reais habilidades e colocar meu currículo na linha de frente. Assim, eu descobri que meu currículo é fodão. Algumas entrevistas de emprego e oportunidades que eu pude decidir não eram para mim, me fizeram perceber que meu currículo é foda demais. E foi percebendo isso, trabalhando com base nele e fechando oportunidades com ele em mente que lenta, mas decididamente, a criação de conteúdo se tornou mais e mais uma profissão e o jornalismo se tornou mais e mais um hobby.

"E eu estou sendo otimista, porque todos os dias eu fico um pouco mais desesperado..."

Não foi uma conclusão que eu aceitei facilmente. Imagina só passar 4 anos em uma faculdade e decidir que você estudou para fazer é simplesmente um hobby? Mas a faculdade é uma grande responsável por isso. Eu escolhi jornalismo porque eu sabia que ajudaria na minha carreira como escritora e combinava com o que eu queria fazer no futuro. E enquanto eu estava na faculdade, eu sabia que não existia nenhum outro curso que eu queria fazer. Só que ao mesmo tempo a faculdade sempre foi o Plano B. Sempre foi o caminho mais seguro e trampolim de segurança onde eu poderia relaxar. Ser escritora de ficção era para ser a coisa mais difícil que eu precisava fazer. Só que aí o jornalismo se mostrou completamente inútil em sua função de segurança.

Não há vagas. Não há vagas que paguem o suficiente por 4 anos de faculdade e mais dezenas de cursos de aperfeiçoamento. Nós precisamos fazer o jornalismo por amor e acreditar na função social de cada passo que tomamos ao mesmo tempo que precisamos ouvir que "a mídia é culpada por assustar todo mundo" sobre um vírus que está matando 3 mil pessoas por dia. Jornalistas deixam de ser gente, mesmo para quem ama o jornalismo, porque é como se não houvesse contas para pagar, sonhos a realizar, vidas a construir. Nossa função é informar e precisamos servi-la com amor, sem esperar nada em retorno, sequer respeito. Eu amo ser jornalista, eu amo usar esse título como um crachá de honra. Mas eu não amo o jornalismo o suficiente para deixar que ele me destrua.

É fácil sentir que porque eu fiz faculdade, porque eu dei 4 anos da minha vida à área, eu preciso lutar pelo jornalismo, senão meus 4 anos teriam sido jogados fora. Eu superei esse bloqueio quando eu me dei conta de que eu posso ter estudado por 4 anos para me tornar jornalista, mas eu sou criadora de conteúdo há 10. Todo mundo já ouviu essa história, mas no segundo dia de aula da faculdade, depois das apresentações com nossos resumos pessoais, minha professora me isolou da sala de aula para falar sobre já que eu tinha 13 anos quando criei o blog, eu era prova de que "Qualquer um poderia ter um blog". Eu internalizei aquilo muito mais do que eu parei pra pensar. Aos poucos, jornalismo se tornou "minha profissão séria" e a criação de conteúdo era só o que eu fazia quando eu podia.

Até que eu saí da faculdade. De repente as habilidades que eu comecei a cultivar aos 13 anos se tornaram mais valorizadas do que o aprendizado que eu absorvi na faculdade. Eu nunca falei sobre isso porque foi só uma longa, longa semana, mas logo depois que eu voltei de LA eu fui contratada por um primo meu para cuidar da produção de textos rápidos com SEO para a criação de conteúdo da empresa do pai dele. Acabou não dando certo porque eles desistiram do projeto rápido, mas me fez perceber o que as pessoas querem no sentido da redação de textos na internet. Depois disso, foi a assessoria de imprensa da prefeitura onde eu trabalhei por um mês, onde o prefeito era obcecado pelos textos dos vídeos que ele ia postar na internet. Depois surgiram várias outras oportunidades na área de criação de conteúdo, algumas com as quais eu trabalho até hoje e por isso não quero nomear. Meus colegas que saíram da faculdade ao mesmo tempo também perceberam, o quanto as oportunidades muitas vezes se concentram em uma tela de celular. Aos poucos eu fui percebendo o quanto eu não era qualquer uma.

Perceber isso me permitiu fazer as pazes com vários aspectos da minha relação com o jornalismo. Me fez perceber o quanto a academia em si destruiu o meu amor pelo jornalismo e causou magoas no meu relacionamento com quem eu sempre soube que era. Eu penso o tempo todo sobre o dia que eu me tranquei no banheiro para tentar me concentrar em um texto acadêmico sem distrações e chorei o tempo inteiro. Cada crise de pânico, cada dia que eu saí chorando. Cada noite sem dormir. Cada briga de ego com professores e cada grito que eu levei e cada grito que dei.

Sabia que até hoje eu não fui pegar as fotos da minha formatura? Enquanto eu organizava minhas fotos no computador umas duas semanas atrás, eu parei para pensar sobre isso e me dei conta de que eu simplesmente não tenho tanta vontade de reviver aquele momento. Eu sonhei tanto com a minha formatura, planejei cada momento dela. Eu lutei pela minha formatura com unhas e dentes. Eu marquei a primeira reunião para formar a comissão e acabei me tornando a comissão quando eu era a única que não trabalhava à tarde. Eu visitei a maior parte dos promotores de venda, eu fiz todos os orçamentos, eu lutei pelas cores até o final. Eu briguei e briguei e briguei. Eu fui chamada de insolente, barulhenta, desrespeitosa, eu fui longe demais. Na semana da formatura, eu estive na universidade todo santo dia, ajudando quem precisava completar suas carga horárias, perseguindo o secretário do colegiado. 

Nós não sabíamos se cada um dos 17 formandos iam conseguir se formar no dia 19 de julho até a hora da formatura. Até os certificados chegarem, às 19h. Eu respirei com alívio na hora que isso aconteceu, mas foi só por um segundo. Em seguida, eu passei, a hora seguinte tentando organizar todo mundo porque a fotógrafa não estava lá, só o time dela, e eu conhecia todos os formandos. Eu passei a próxima hora organizando todo mundo e colocando todo mundo no lugar certo. E aí era a hora da formatura. Eu cometi o erro de pedir que o primeiro da fila permanecesse na fila para que a formatura começasse e levei meu último grito da minha vida acadêmica. Eu não me lembro da sensação de descer pelo corredor a caminho do palco, diante de pessoas que me amavam e estavam felizes por mim. Eu me lembro de um homem com o dobro do meu tamanho colocando o dedo na minha cara e me mandando ficar quieta e não gritar com ele, porque eu não mandava nele. Eu me lembro de tremer e estar envergonhada enquanto caminhava para pegar meu canudo. Quem caralhos quer uma série de lembranças disso?

""Se isso fosse a minha carreira, eu teria que me jogar na frente de um trem."

Parte do motivo pelo qual eu não consegui escrever sobre meu último semestre e minha formatura antes de hoje foi isso tudo. Eu escrevi aqui no blog sobre quase todos os momentos da faculdade, mas o último semestre foi uma escalada no Monte Everest. Chegou ao ponto de eu ter sido ameaçada de um processo por criticar um professor que encerrou o programa de estágio do qual eu fiz parte e transformou ele em estágio voluntário. Honestamente, eu acho que o número de pessoas que apareceu no meu Twitter defendendo o direito do estagiário de jornalismo de trabalhar de graça, também afetou a minha decisão de aceitar o jornalismo como hobby. E o tanto que eu lutei pela minha formatura resultar em gritos, ao invés de agradecimentos fez com desistir de lutar pelo jornalismo fosse uma decisão muito mais fácil. Eu não amo o jornalismo com força o bastante para ser socada toda vez que eu olho para um jornalista como pessoa. O jornalismo nunca vai cuidar de mim e me ver como alguém que precisa de estabilidade, de segurança, de comida na mesa e um teto sobre a minha cabeça. Então, eu preciso cuidar de mim.

Eis a ironia: ter decidido desvalorizar o jornalismo entre as minhas prioridades profissionais resultou no meu primeiro texto pago em jornalismo musical. Depois de 2 anos trabalhando no site. E eu acho que o fato de eu não me importar mais tanto assim, fez com que as oportunidades me encontrassem com mais facilidade. Eu também tive mais confiança em me apresentar para a proposta do texto porque eu não me importava com o resultado. Eu não precisava dessa oportunidade dessa chance para viver, porque meus outros trabalhos estão pagando o bastante para que eu possa fazer um trabalho ou outro de jornalismo quando eu quiser.

Meus trabalhos principais no momento são de criação e gerência de conteúdo em redes sociais. Em resumo, eu comando 7 páginas do Instagram no momento, quase 8. Eu preciso pensar em pautas semanais, criar cards simples e produzir os textos das legendas e em algumas das contas pensar em distribuição e engajamento também. Isso enquanto eu tento crescer o meu Instagram e criar o meu próprio conteúdo, porque a maior vitrine da minha produção é o meu Instagram. Ou melhor, os meus Instagrams: O pessoal, o do QaMdE e o Kira's Official Updates. O KOU conta como trabalho e eu amo o fato de que eu ajudei o Songbird a chegar a 1 milhão de streams em 7 semanas. O time da Kira me ofereceu dinheiro ano passado, mas eu recusei porque eu queria a liberdade de oferecer textos sobre ela para revistas sem que fosse RP. Escrever sobre ela me mantém viva e eu quero mais e mais chances de fazer isso profissionalmente (inclusive, vão ler a entrevista que ela me deu ano passado e que foi publicada em português no portal 4UExpo). E enquanto isso, ela me indica para outros freelas e me oferece outras oportunidades. O Set List não seria o Set List sem ela.

Escrever ainda é o que me move. Mas eu percebi que a escrita está em absolutamente tudo que eu faço. Cada anotação, cada tweet, cada legenda de Instagram e cada carrossel. Eu consegui freelas de editoração, de criação de texto, de redação. Na plataforma do MEI, minha ocupação principal é o que eu sou: redatora. Eu nunca estive tão profissionalmente satisfeita, tão confortável, tão viva. Eu estou fazendo o que eu sei fazer e o que eu passei os últimos 10 anos fazendo. E eu sei fazer porque eu comecei 10 anos atrás. Porque eu parei e estudei cada aspecto do crescimento das redes sociais nos últimos anos por nada além do mais puro interesse pessoal. Eu aprendi com amor, ao invés de ser torturada a enfiar conhecimento no seu cérebro. Eu aprendi naturalmente ao invés de precisar lutar a cada nova etapa.

"Galera, eu sou muito inteligente agora, vocês nem sabem"

Eu costumava gostar de estudar e aprender, pelo menos alguns assuntos, anos atrás, muito antes da faculdade e do ensino médio e da depressão. Eu pensei que isso tudo tinha sido perdido com o tempo e a faculdade sepultou esse desejo de saber mais. Uma semana antes de eu me escrever na pós-graduação eu disse que não tinha interesse em sucesso acadêmico ou em fazer mestrado e doutorado. E eu ainda não tenho o mínimo interesse em voltar à academia. Tenho trabalhado com acadêmicos e toda hora a gente acaba batendo cabeça e eu percebo cada vez mais que não quero voltar a esse meio. Mas eu ainda quero aprender.

Me matriculei na pós-graduação em Influência Digital: Conteúdo e Estratégia no começo de fevereiro e ontem eu completei minha primeira disciplina. Vou ser pós-graduada lato sensu em um ano. E eu tenho aproveitado cada peça de conhecimento que me passam e ficado frustrada quando eu deixo algo passar. Fiz o mesmo teste 3 vezes até conseguir 80% de aproveitamento, com pausas para reler anotações apostilas e estudar. Eu quero mudar meu espaço de estudo para conseguir estudar mais e mais e aprender mais e mais. Eu decidi que não é o curso que faz o aluno, é o aluno que faz o curso e eu quero ser muito boa no que eu faço. Eu também fiz dois cursos de storytelling online nos últimos seis meses, incluindo o workshop do Ivan Mizanzuk. E foi completamente incrível. Eu até voltei a ler. Eu já terminei 3 livros este ano e estou no meio do 4º e eu tenho tentado aproveitar cada parte disso. (Em comparação, em todo o ano de 2020, eu li um livro). Eu ainda gosto de aprender, de estudar, de absorver conhecimento e ler sobre coisas que me interessam.

No fim do dia, eu ainda sou uma jornalista. Eu sempre vou ser uma jornalista e eu lutei por esse título. Mas eu não quero mais lutar. Eu quero entrevistar pessoas incríveis e escrever textos incríveis, mas eu não quero ter que lutar pelo direito de ver esses textos publicados até que as minhas juntas sangrem. Quando eu falo sobre Vozes, quando eu luto por Vozes, quando eu divulgo Vozes, eu sou jornalista e estou exercendo a função social do jornalismo, só que de uma forma mais eu. O jornalismo sempre vai fazer parte de quem eu sou, mas ele nunca mais vai quebrar as conexões entre quem eu sou e o que eu posso ser.

Até a próxima,

G.

P.S.: Antes de ir embora, quero só avisar que o QaMdE no Catarse foi tirado do ar porque eu estou pensando em outras plataformas para oferecer o mesmo serviço, que sejam mais simples e que paguem mais rápido.

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2 Comentários

  1. Texto incrivel!!! De uma jornalista para outra: mulher, voce é incrivel! Confie no seu potencial, confie no seu trabalho! Sempre!

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