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Até bem recentemente, eu não tinha certeza se iria escrever uma resenha de Barbie. Depois, pensei em escrever uma só para despejar todos os spoilers que não queria comentar nas outras redes sociais nos primeiros dias. Aí resolvi escrever este texto como uma carta para a Giulia que passou os últimos meses contando os segundos para Barbie — até porque é isso que o filme é, uma carta de amor para as mulheres que você é, foi e será. Essa versão de mim merece não receber spoiler algum, até porque ela lutou muito para assistir este filme com o mínimo de Discurso™ possível.

E não foi fácil. Nas últimas semanas, o Discurso™ sobre Barbie tomou conta das redes sociais, e não sem propósito. Margot Robbie e sua produtora (LuckyChap Entertainment) lutaram muito para que o marketing de Barbie tivesse o impacto cultural que teve. O que começou como algumas pessoas que acompanham cultura pop obcecados pelo conceito de um filme da Barbie dirigido pela mesma diretora de Lady Bird (2017) e Little Women (2019), acabou como um movimento cultural que fez com que o cor-de-rosa tomasse conta das ruas, invadindo até mesmo pratos de comida. Como é impossível sair de casa sem ser lembrado da existência do filme, é seguro dizer que todo mundo tem opiniões sobre o filme e é difícil simplesmente tapar os ouvidos e sair correndo.

Eu também não esperava que este filme fosse se tornar tão importante para mim. Apesar de ter interesse em assistir desde que o filme foi anunciado e saber desde que anunciaram a data de estreia que eu estaria naquela sala de cinema no dia 20 de julho, foi só depois de assistir muitas entrevistas com a Margot sobre a LuckyChap quando eu estava obcecada (não se deixem enganar pelo tempo do verbo, nada mudou) por outro filme que ela produziu, Bela Vingança, que a minha fé em Barbie se tornou forte o suficiente para mover montanhas.

Quer dizer, a mulher convenceu a Mattel a deixar que ela se aprofundasse em uma das maiores propriedades intelectuais que a empresa possui, finalmente admitindo falhas e respondendo a críticas, com a admissão de que estiveram errados em vários momentos da história. Alguém com esse poder de persuasão precisa de muito pouco para me convencer de alguma coisa. Eu tinha certeza de que o filme seria incrível — não só pelo meu padrão, mas pelo padrão de gente que leva cinema a sério de verdade. Eu tinha certeza de que seria potencial para o Oscar. Eu tinha certeza que falaria sobre ser mulher e ser menina de uma forma que pouquíssimos filmes falaram antes. E quando a Margot disse que o filme tinha o melhor roteiro do mundo, eu também acreditei nela. Sem precisar questionar.

Essa me trouxe para momentos onde eu senti e precisei controlar minha necessidade de defender o filme. Apesar de não ler críticas na íntegra para evitar Discurso™, eu precisei ver a nota do Rotten Tomatoes assim que saiu, não para me convencer, mas para convencer aos outros. Quando trechos e tweets chegavam até mim, a vontade de brigar e defender era mais forte que eu. Até hoje, eu preciso responder todo mundo que diz "Imagina se a Amy Schumer fosse a Barbie mesmo" com "Não era o mesmo projeto. A Margot só apresentou o projeto dela, depois do da Amy Schummer ser cancelado pela Mattel". Ainda sinto a necessidade de lembrar todo mundo de que a Margot, como produtora, tomou a maior parte das decisões relacionadas ao filme, inclusive a escolha da Greta. Ainda sinto a vontade de descer a porrada em que chama a Greta de vendida por fazer um filme sobre a Barbie para a Warner Bros ao invés de fazer filmes indie para sempre, como se pessoas tão extraordinárias quanto elas não merecessem orçamentos infinitos para fazerem o que quiserem pelo resto da vida todinha.

Mas como dizem na Bíblia "Boas coisas vem para aqueles que têm fé" e Barbie simplesmente é tudo que eu esperava e mais um pouco. E nem precisava ser. No momento em que eu sentei na sala de cinema e o logo cor-de-rosa da Warner Bros entrou na tela, este filme já tinha me dado tudo que eu queria dele. Cercada dos meus amigos, com glitter e lágrimas nos olhos, vestida de rosa e branco com o nome de uma das atrizes do filme no peito, eu já tinha tudo que eu queria. Barbie trouxe mais do que aquelas simples duas horas na sala escura do cinema. Um senso de comunidade, de felicidade, de diversão e de leveza que poucas coisas da vida também. Eu posso passar — e já passei — meses obcecada por coisas negativas, por medo e depressão. Depois de meses obcecada por algo colorido, divertido e tão simples, eu não precisava de mais nada.

Mas ainda assim ganhei tudo. Barbie traz a mesma sensação de chegar em casa depois de passar o dia com as suas amigas. A mesma sensação de viver algo que você sonhou e perceber que vale a pena viver. De cair na gargalhada por causa de algo que você fez. A sensação de perceber que você é o tipo de pessoa que você gostaria de ter como amiga, que você gosta de si mesma, mesmo que seja de uma forma bem abstrata. Ele te lembra que não tem nada de errado em querer mais para si mesma e ao mesmo tempo não se exigir a perfeição, porque é impossível ser perfeita e porque o resto do mundo já cobra o suficiente. O mote do filme, escondido no popular discurso da Gloria (personagem da America Ferrera), é justamente este: se até uma boneca, vista como uma mulher perfeita, não consegue ser perfeita o suficiente e é ao mesmo tempo perfeita demais para o mundo real, qual a esperança para o resto de nós? Uma mensagem que soa sem esperança, mas é, na verdade, libertadora.



O coração e alma do filme está no amor mútuo que compartilhamos com as mulheres ao nosso redor, ao mesmo tempo que ignoramos as coisas que amamos sobre nós mesmas. Ele nos instiga a celebrar nossa beleza, inteligência e mesmo as coisas que a sociedade diz que devemos odiar. E ouvir as necessidades dos outros e as nossas próprias. Um filme sobre a beleza da humanidade e suas criações. Sobre a simplicidade de ideias e a profundidade do impacto que elas podem ter. Quando eu (e várias outras mulheres que eu acompanhei) disse que Barbie mudou minha vida, não foi um exagero. Eu não sou a mesma pessoa que era antes do filme, talvez pela simplicidade devastadora com a qual ele me tocou. Como aquele amigo com quem você quase nunca fala, mas toda vez que fala se dá conta de que é uma das pessoas mais importantes da sua vida.

Analogias à parte, é assim que eu espero que a maioria das pessoas se sinta sobre Barbie, mas eu já decidi que não me importo se nem todo mundo pensar do mesmo jeito. Não por causa de máximas como "a arte é subjetiva", mas porque quando eu penso "O Que Greta Gerwig Faria?" eu sei que ela sabe que fez o que precisava fazer e porque toda crítica negativa que eu vi até agora já foi, de alguma forma, coberta pelo próprio roteiro do filme. Então, ao invés de corrigir perspectivas diferentes, eu vou continuar ampliando a minha própria. Criando e expandindo. Como eu disse, não sou a mesma pessoa depois desse filme.