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Aparentemente, eu não escrevo um post no estilo "É só uma fase..." desde que eu tinha 24 anos. O que é irônico, já que eles são alguns dos posts mais populares aqui do blog, mas eles também são os mais difíceis de escrever. Talvez seja a maturidade dos 28 anos, que chegaram à meia noite, mas eu estou em uma fase muito escritora no momento, então tomem o que quer que isso seja. E que fique claro que eu estou ciente de que ultimamente a internet está cheia de reflexões pessoais escritas como se fossem verdades universais e não é isso que este post é. Este post é sobre mim, como a maioria das coisas deveriam ser hoje.

Sempre que alguém me pergunta como eu me sinto sobre fazer 28 anos, eu respondo com uma referência a essa piada da comediante Olga Koch: 28 é o mais velho que um pessoa pode ser. Mais velho que 30 e eu diria até que mais velho que 35 ou 40. Isso acontece porque a proximidade dos 30 cria um senso de responsabilidade muito profundo, você quer colocar a sua vida no lugar, tomar decisões importantes, encontrar seu lugar no mundo. Até os 30 chegarem e você perceber que nada mudou e que não tinha motivo para tanto desespero.

A ideia inteira, da piada e do conceito, é que os 28 anos criam uma sensação de torschlusspanik¹ que te envelhecem mais do que qualquer outra idade. O medo de que você está ficando para trás, seja em comparação aos seus próprios planos e metas ou em comparação ao que as outras pessoas da sua idade estão fazendo. Os 29 podem até ser o pico do pânico, mas os 28 são quando esse pânico começa. Meu problema, querido leitor, é que eu não sinto essa sensação de que o tempo está acabando. É mais como se eu estivesse presa em um loop do tempo.

Uma parte rebelde de mim acha re-vo-lu-cio-ná-rio o fato de eu não estar onde ninguém achava que eu estaria nessa idade. Nem eu, nem minha família, nem meus amigos. Quem me ama e quem me odeia. Quem me deseja mal ou quem me deseja bem: ninguém acertou. Eu não estou triste, mas eu não estou feliz. Eu nem estou entediada. Estou presa em um ciclo infinito de satisfação e decepção, onde todos os dias parecem os mesmos e todos os marcos me encontram no mesmo lugar. E sim, eu tenho crescido, mas de forma introspectiva e pessoal. Pensar diferente não é mudança suficiente quando todo o resto continua o mesmo. Ainda mais quando o resto do mundo se recusa a pensar diferente.

Eu sei que isso tudo tá soando muito deprimente de se escrever no próprio aniversário, mas não é isso. Acho que o efeito da proximidade dos 30 em mim foi olhar para a minha vida todinha. Eu sempre soube o que eu queria fazer e quem queria ser. E eu considero isso uma sorte. Nos últimos anos, quando eu vejo todo mundo que eu conheço ter crises sobre ter escolhido a profissão certa, eu continuo não vendo nenhuma outra opção (novamente, minhas crises são mais pessoais e introspectivas e têm a ver principalmente com dinheiro). Eu também já fiz a maioria das coisas que queria fazer quando era criança. Todos os grandes sonhos que eu tinha se tornaram realidade quando eu tinha 21 anos e desde então os sonhos novos têm sido pequenos e controlados. Não é justo comigo mesma, mas eu nem consigo sonhar um sonho inteiro.

Eu já me acostumei ao conceito das coisas não serem como a gente espera que elas sejam, mas eu acho que o problema atual é mais direcional. Geográfico, literal e metaforicamente. Eu estou presa, no mesmo lugar. E eu não acho que esse sentimento vai embora até eu começar a me mover. E sem essa de pequenos movimentos na direção certa, porque nem Netuno se move tão devagar. Movimentos decisivos, grandes saltos na direção certa. 

Se é para eu me sentir velha, eu também tenho que acreditar que eu sou velha o bastante para saber o que eu estou fazendo. E se é para me sentir imatura, que eu ainda possa cometer um erro ou duzentos. Se é para me sentir miserável, que eu encontre novas misérias. E eu não posso continuar tendo os mesmos problemas, preciso sair pelo mundo e encontrar problemas novos. No auge dos meus 28, a maior idade que uma pessoa pode ter, eu preciso conseguir me jogar em alguns abismos.

Espero que isso tenha feito sentido. Mas nem precisava fazer.
Feliz aniversário para mim,
Giulia.

¹Torschlusspanik: palavra alemã que significa medo de que o tempo está acabando, ou literalmente, "medo do portão fechar". A expressão vem da Idade Média, quando os portões das cidades muradas eram fechados ao anoitecer, os atrasados ficavam do lado de fora, expostos a bandidos, animais selvagens e ao frio.