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Ano passado, eu tive a deprimente constatação de que meu emprego atual é o que roteiristas de série dão a "personagens criativos que não têm a capacidade, o tempo ou a coragem de realizar os próprios sonhos". Na 9ª temporada de FRIENDS, depois de mais de uma década em um trabalho que odeia, Chandler pede demissão e começa uma carreira nova. Não como escritor de comédia, como ele tinha demonstrado sonhar anteriormente. A única carreira realista para um cara criativo e engraçado é a de redator em uma agência de publicidade. A mesma coisa acontece com a Penny em The Big Bang Theory, que quer ser atriz, mas eventualmente precisa aceitar que as coisas não estão dando certo. Quando desiste, Penny assume um emprego que odeia como representante farmacêutica, antes de ser promovida e se encontrar... como líder do time de marketing na mesma empresa.
Talvez uma série desta década não enveredasse por este caminho. O marketing pós-pandemia não é lucrativo: lucrativo é vender cursos que prometem ensinar como lucrar com marketing (ou vender cursos que ensinam a vender cursos que prometem ensinar como lucrar com marketing) (sim, é um esquema de pirâmide). Mas o negócio é que nenhuma carreira criativa é lucrativa. Com o atual cenário das coisas, você pode estudar muito e trabalhar mais da metade do seu dia: você sempre vai se vender por menos do que você vale, gerando um prejuízo. Porque as pessoas compram qualquer coisa, aceitam qualquer coisa. Então, quando elas querem comprar sua criatividade, sua capacidade de vender os produtos delas, os serviços delas ou elas mesmas, você vende. E nesse mundo que se move como um ovo em corda bamba, prestes a se desequilibrar e eclodir em merda, as pessoas já olham para você se perguntando o que você tem em si mesma que possa ser vendido com desconto.
Ultimamente, eu me vejo incapaz de começar um post nesse blog sem uma grande reflexão sobre quem sou e onde estou. Em minha defesa, estamos a meros dias do meu aniversário, neste mês que eu decidi que será inteiro sobre mim e eu estou tendo grandes sentimentos sobre tudo. Sem falar que este texto aqui é sobre o aniversário do blog. 15 anos de blog. Que número assustador. A Giulia que escreveu aquele primeiro post em 2011 não tinha grandes reflexões sobre a escrita como uma arma de autodestruição capitalista. Eu só queria escrever, sobre o mundo ou sobre mim mesma, e compartilhar em algum lugar. Eu penso sobre a Giulia de 12, quase 13 e me dou conta de que escrevo isso aqui desejando as mesmas coisas.
Porque, meu Deus, eu estou com tanta raiva, tão cansada e tão vazia. Como eu falei para uma amiga, viver e lidar com pessoas ultimamente é tipo nadar contra a correnteza por horas, dizendo a mim mesma que tem um banco de areia a algumas braçadas de distância, mas sabendo muito bem que se eu tentar ficar em pé eu vou afundar. Todo mundo tá sempre falando e ninguém nunca está ouvindo; na maioria das vezes porque todo mundo também está com raiva, cansado e vazio. E aparentemente a pior coisa que você pode fazer é ser honesta ou literal porque ninguém mais é honesto ou literal, e as pessoas vão ficar bravas quando perceberem que você estava sendo honesta e literal.
Eu sempre soube que ainda teria um blog depois de 15 anos. Eu sonhava acordada com os marcos que comemoraria: 1, 2, 5, 10, 15, 20 anos de blog. O plano era sempre ter um lugar para escrever e compartilhar. O problema é que ao 12 anos, eu não fazia ideia do que são 15 anos. E eu definitivamente não achava que com 15 anos de blog minha vida seria assim tão... confusa. Eu deveria ser uma escritora famosa a essa altura, mas nem isso mais eu quero. Eu olho para as vidas das pessoas que começaram a criar conteúdo ao mesmo tempo que eu (ou até muitos anos depois) e eu percebo que não quero ter que viver a vida que elas vivem. Eu anseio pelas experiências, pelos espaços, pelos lugares, mas não pelo que é necessário para estar ali. Não vale um pedaço da minha alma.
Sem querer ser o clichê da mulher de quase 28 anos que cita Clarice Lispector: o que eu quero ainda não tem nome. Com certeza eu vou encontrar as respostas um dia. É parte do motivo pelo qual eu escrevo, para organizar desejos em palavras e moldá-los até algo que faça sentido. O tempo que vai levar até eu me tornar fluente na língua do meu destino é inescrutável pra mim. Eu só posso viver o meu próprio tempo, amar do meu próprio jeito, vender as ideias para pagar o que me mantém viva, continuar me perdendo nos motivos para querer viver.
E escrever. Escrever, escrever, escrever, escrever, escrever. E depois escrever de novo. Até quando minhas palavras forem o único lugar onde é possível me encontrar.
Até lá, me encontrem aqui por mais 30, 40, 50 anos ou 100 anos.
Giulia
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