As Crônicas de Kat - Capítulo VII

by - 20:09

Acordei com um gotejar insistente na cabeça. Isso me distraiu por um instante e, incialmente, não pensei em abrir os olhos. Lembrei que quando eu morri estava chovendo muito e... Espera, quando eu o quê?
Abri os olhos quando me dei conta do que havia acontecido. O gotejar atingiu meus olhos diretamente. Praguejei ao me sentar e esfregar os olhos para limpá-los. O liquido que respingara neles era quente e metálico. Sangue. Por algum motivo eu parecia saber disso antes mesmo de olhar.
Suspirei. O cheiro de sangue me distraía, mas eu tentava ser prática. Eu havia morrido. Estava certa de que havia morrido. Então como era possível que eu ainda estivesse ali? Em casa? Será que eu sempre estive no inferno? Até que faria sentido.
Eu estava sentada no chão duro, encarando minhas calças sujas de sangue e meus dedos machucados. Percebi naquele momento que não tinha visto de onde vinha o sangue que pingara em meus olhos.
Levantei a cabeça e dei de cara com um furo no forro que respingava sangue sem parar. Engoli em seco. Isso só podia significar que mais gente morrera comigo.
Consegui me lembrar aos poucos do que acontecera naquela tarde. A invasão da polícia, os tiros, a sensação de que meu corpo estava pesado demais para minha alma... E estava chovendo, chovendo muito.
Mas ali estava eu outra vez.
Vivíssima.
Ou pelo menos parecia estar.
Antes que eu pudesse me perguntar pela milionésima vez que diabos estava acontecendo, alguém colocou a cabeça pela fresta da janela, atraindo minha atenção. Olhos verde-escuro me encararam, curiosos. Então a garotinha pôs seu corpo para dentro.
- Ah, você acordou. Pensei que eu fosse ter que levar um corpo lá para fora. Odeio quando destroem o coração, demora tanto.
Levantei a mão para pedir que ela se calasse. Se eu deixasse ela falaria para sempre.
- Kat, de que diabos você está falando?
- Certo. – Ela balançou o corpo para frente e para trás, como se precisasse aliviar a tensão. – Você é uma vampira agora. Mas eu fiz isso para salvar sua vida, então, por favor, não fique brava.
Ergui a sobrancelha, achando que ela estava maluca.
- O que?
- Isso mesmo que você ouviu. Eu sou uma vampira e transformei você em uma. Ora, vamos, você desconfiava.
- Eu desconfiava de qualquer coisa, eu não sabia nada sobre você.
- Bem, agora você sabe. E precisa saber sobre mais algumas coisas. Eu tinha prometido ao Exército que não transformaria ninguém por impulso e também não queria transformar ninguém sem que antes ela soubesse onde poderia se meter, mas eu não contava com uma invasão da polícia russa à sua casa. Nem com o seu assassinato antes da hora... Deyah me disse que eu saberia quando alguém tivesse sido feita para o Exército e eu sei que você foi, Tatiana, eu sei.
O desespero e a falação dela me fizeram bufar.
- Meu Deus, Kat, calma. Me explique tudo. Depois se desespere.
Ela sorriu.
- Certo, por que não faço isso no caminho até a minha casa? Preciso apresentar mais algumas pessoas a você.

As Crônicas de Kat:
My wild heart bleeds with yours

O encontro com Bianka trouxe novas perspectivas ao Exército, agora com mais uma vampira - que aceitara entrar e fora aceita quase sem hesitações. Todas estavam dispostas a fazer o possível e o impossível para que o plano de Deyah desse certo e resolveram que depois que tudo estivesse normalizado em relação à alma de Sophie, iriam viajar pelo mundo todo procurando pelas vampiras certas.
Quando foram embora de Berlim, o primeiro diário de Kat, que havia sido atualizado quase sem interrupções por duas semanas, já não tinha nenhuma página em branco. Kat passou alguns anos sem fazer anotações e só voltou a escrever quando Ellie lhe deu um diário novo de presente de Natal.

Genebra, Suíça
27 de dezembro de 1942
Novo diário de Kat
Há males que vem para o bem. Eu realmente não sei de onde essa frase surgiu.
Estávamos em uma sala lotada de homens feridos. Era um hospital improvisado na Suíça que fora criado às pressas para receber feridos da Segunda Guerra. Havíamos ido para a Suíça justamente para escapar da guerra por alguns anos.
As gêmeas ensinavam Anika e Naomi a fazer malabarismos com bisturis. Ellie, Sophie, Charlottie e eu estávamos sentadas no chão ao lado de uma maca vazia, conversando sobre o passado de Charlottie. Kaylee não era vista em lugar nenhum, mas nenhuma de nós parecia se importar.
Kaylee evoluiu bastante depois do primeiro ano de transformação. Na verdade, eu acho que as vampiras de Ellie (Anika e as gêmeas) a convenceram de que todo o sangue que ela beberia e todas as pessoas que ela mataria seriam para o bem maior, para a salvação de todos os vampiros ou algo do tipo. Elas sabem ser convincentes quando querem.
- Uma das minhas coisas favoritas era passar algum tempo em uma cidade agindo como uma moradora normal. – Charlottie dizia sorrindo, enquanto Sophie fazia uma trança complicada em seu cabelo – Eu hipnotizava alguém a acreditar que era meu pai ou mãe e o levava para uma cidade nova. Fazia com que a cidade toda me conhecesse, causava pânico por algumas semanas e depois matava todos é claro. Acho que fiz isso quatro vezes em um espaço de 10 anos. Foi interessante.
Esse relato me fez pensar em como minha vida seria se eu não tivesse sido forçada a ir para Paris e encontrado Ellie - esse encontro foi direta ou indiretamente responsável por todas as coisas que aconteceram depois. Provavelmente eu ainda estaria em algum lugar da Ucrânia com alguns amigos destruindo vilas e matando pessoas. Minha mãe ainda estaria viva. Eu seria uma vampira normal. Fiz uma careta. Estava mais do que satisfeita com o destino que levei.
Sophie terminou a trança de Charlottie e se levantou para esticar as pernas. Eu prestei atenção em seus movimentos, quase surpresa em perceber que ela não parecia tão diferente do que sempre fora. Depois que começou a aceitar as, assim chamadas, alucinações, levou menos de dois anos para que a alma de Sophie voltasse ao controle de seu corpo. Tecnicamente ela sempre esteve no controle, mas agora não estava mais em agonia no Inferno. E também não está em seu corpo. É complicado entende ou explicar, mas ela está em algum lugar por aí, controlando o corpo de longe e deixando-o indestrutível.
Sophie não mudou muito depois de ter a alma de volta, exceto por duas razões: agora ela sente e não precisa mais de sangue ou qualquer outro tipo de nutrição. Sentir não fez dela sentimental. E não precisar de sangue não fez dela menos cruel. Sophie passou por muita coisa, em vida e depois dela e optou por não ser frágil e a lutar pelo que acha ser correto. É uma das meninas de quem eu mais tenho orgulho, junto com Ellie.
E falando em Ellie, ela é a causadora de um mal completamente sem sentido. Quando saímos do hospital onde nos alimentamos, e íamos até o acampamento achar algum lugar para dormir, ela me puxou pelo braço para que eu andasse atrás do resto do grupo animado.
- Eu acho que você já sabe, mas não custa nada confirmar seus temores. Eu fui responsável pela morte de Bianka.
Suspirei. É claro que eu sabia.
- Posso ao menos saber por quê?
- Não, você sabe que não. – Ela mordeu o lábio inferior - Mas é só isso? Não está brava por eu ter feito algo totalmente egoísta e contra o bem maior?
Torci a boca.
- Acho que você está passando muito tempo com Annie e as gêmeas, Ellie. Eu não me importo com o bem maior. Só quero fazer isso tudo porque quero ser um dos seres mais poderosos do mundo. Mas eu detesto quando conhecimento é jogado fora por nada. Bianka repassaria uma espécie de conhecimento para suas descentes que nenhum clã nesse mundo teria. E eu valorizava Deyah o suficiente para querer um futuro assim para os descendentes dela, mesmo que o bem maior não fosse alcançado. Tudo que eu queria saber é: Valeu a pena? Matar Bianka foi realmente a única solução lógica?
Ellie tirou os olhos azuis de mim.
- Saber demais também é perigoso, Kat.

1º de janeiro de 1943
Diário de Kat
- Às vezes eu acho que essa guerra vai durar para sempre. – Naomi disse, suspirando. – E se não durar, uma próxima virá e outra e outra e mais outra até o mundo acabar.
Ela estava deitada no chão com os pés na parede, a luz fraca do sol coberto por nuvens entrando pela janela acima de suas pernas. Todas nós estávamos de calças e com mais casacos do que jamais usáramos antes. Era o inverno na Suíça, implacável.
- Não sei por que vocês detestam tanto a guerra. – Charlottie disse embaralhando cartas para ensinar às garotas alguns jogos - Banhos de sangue são sempre interessantes.
- Correr o risco de ter a cabeça explodida mesmo dentro de casa. Sentir esse cheiro de morte e de doença em todo canto tendo faro apurado. Saber que milhões de pessoas que poderiam ser ótimas vampiras estão morrendo. Isso não tem nada de interessante.- Rebati, lendo um livro próxima a lareira.
Quando saímos de Berlim, fomos para a Áustria. A cabana em Graz era o melhor lugar para que Sophie descansasse enquanto sua alma voltava. Passamos esses quase dois anos lá. Aproveitei esse tempo para mostrar a Naomi o legado de nossa família e de forma surpreendente até para mim, disse a ela que podia usar qualquer coisa ali a seu bel-prazer. Ela ficou satisfeita em ler o máximo daquilo.
Kaylee e Ellie estavam mais do que satisfeitas em ficar reclusas na cabana por aquele período. Passavam dias cuidando dos jardins. Fizeram um novo guarda-roupa inteiro para todas as nove, já que vivíamos nos desfazendo dos nossos. Charlottie passava o tempo todo com a irmã. As duas tinham muito a colocar em dia e Sophie às vezes ficava tão fraca que precisava do humor ácido de Charlottie para fazê-la rir. Enquanto isso, Anika e as gêmeas – que naquela época ganharam o título de “vampiras de Ellie” já que as “três mais novas” não fazia mais sentido – serviam de leva e traz para as notícias de Viena sobre a guerra. Elas viajavam de trem uma vez por mês e passavam uma semana na cidade. Quando a guerra acabou, a Áustria se tornou república e a família real foi exilada, Anika se recusou a voltar a capital por meses. Só voltou a Viena quando as gêmeas convenceram Kaylee a se esbaldar em um pouco de sangue.
Ao fim de 1920 nós já estávamos com tudo organizado e prontas para viajar pelo mundo a procura de vampiras em potencial, começando pela Europa, é claro. O problema: A Europa não estava pronta para nós. Ou para qualquer outra coisa. A guerra destruíra grande parte do território do país. Riqueza era algo raro, quase impossível de se encontrar naqueles dias. O valor de todo dinheiro europeu entrara em queda, ou melhor, em depressão, com uma rapidez vertiginosa.
Passamos alguns anos pulando entre um país e outro, procurando alguém ou alguma coisa que valesse a pena. Já havíamos rodado mais de metade da Europa quando 1934 chegou e as meninas resolveram que com outra guerra se aproximando (o que já era óbvio) era melhor parar um pouco e tirar aquele ano para comemorar meu aniversário de 100 anos.
A ideia era bater o recorde de assassinatos que tínhamos cometido. Nenhuma de nós sabia o número exato de pessoas que havíamos matado – exceto Anika que nunca parou de contar – então acabamos matando enlouquecidamente por dias. Eu achava aquilo contra os princípios nos quais Deyah havia criado os vampiros e o que queria que nós fizéssemos, mas concordei com a ideia maluca pelo número de lembranças agradáveis dos meus primeiros anos que aquilo me trazia. E concordei que fazer 100 anos com rosto de 10 e corpo de 14 é uma ocasião especial demais para não ser comemorada. Por isso, 34 foi um ano completamente perdido. Apenas depois dele voltamos a andar por países passando um determinado período de tempo em cada cidade para ver se encontrávamos alguém que servisse para nossos ideais.
Em 39, a Segunda Guerra explodiu. Viemos então para a Suíça que não luta em uma guerra desde antes de eu nascer. Deveria ser um lugar seguro.

23 de fevereiro
Diário de Kat
A última coisa que eu esperava, aconteceu.
Ellie agora está trabalhando como voluntária no hospital da Cruz Vermelha. Eles têm convocado todas as mulheres mais ou menos da idade em que ela foi transformada. Nós tínhamos como nos esconder disso, até porque Sophie e Kaylee conseguiram, mas Ellie resolveu que queria trabalhar por um tempo só para sair do ócio e descobrir novidades sobre a guerra. Ontem, depois do seu terceiro dia de trabalho, ela voltou para o nosso apartamento trazendo pela gola da camisa um homem que arfava de dor.
As outras oito de nós estávamos sentadas no tapete da sala, como sempre, próximas a lareira, conversando. Ellie atirou o corpo entre nós e um gemido escapou dos lábios dele, denunciando sua vida.
- Ellie, mas que m...? – Me interrompi quando o homem levantou o rosto e focou os olhos nos meus.
Eu e Sophie ofegamos ao mesmo tempo.
- PIERRE??
Todas nós nos levantamos. Um lampejo de vida passou por seus olhos, mas logo em seguida ele os fechou, desmaiando.
- Ele mesmo! – Ellie grunhiu com o rosto ainda mais duro do que o normal - Esse... Esse...
Não conseguiu completar a frase de tão transtornada que estava. Olhei para Sophie, que estava tão preocupada quanto eu. As outras seis nos encaravam com expectativa, esperando uma explicação. Delas, Anika era a única que realmente entendia nossa tensão.
- Sophie, leve-o para o quarto. – Eu disse, tentando ser razoável. – Nós três precisamos arrancar algumas informações dele e depois decidir seu fim. E quero Annie conosco também. Ellie, você precisa explicar exatamente como o encontrou.
Sophie suspirou e puxou o corpo desmaiado de Pierre, pela gola da camisa surrada, como Ellie fizera. Nem pensei em dizer para ela não fazer isso. Nós três tínhamos o direito de torturar Pierre o quanto quiséssemos.
Ellie se sentou e nos encarou. Nós continuamos de pé.
- Esta tarde um caminhão cheio de soltados alemães feridos chegou ao hospital. - Começou - Foi um caos porque todos pareciam gemer juntos em uma sinfonia desafinada. Também havia aquele cheiro de sangue fresco em todos os lugares o que me deixava desconcentrada. Resolvi que não aguentaria ficar mais um minuto naquele lugar e me dirigi até a saída, camuflada pelo caos.
“Foi quando ouvi meu nome dito em meio a uma tosse alta. Me virei por reflexo. Os olhos dele chamaram minha atenção mesmo em meio a sala bagunçada. Claro que chamaram, meu Deus, com aquele brilho doentio, é claro que chamaram.” Ellie suspirou e colocou o rosto entre as mãos. “O que ele está fazendo aqui? Por que ele foi surgir justo agora?”
A essa altura Sophie já havia voltado e olhava em silêncio para Ellie. Nós duas estávamos surpresas. A Ellie de sempre teria matado ou pelo menos tentado matar Pierre sem nem pensar duas vezes. Pensar nisso me atentou para os motivos de Ellie. Andei até ela e parei à sua frente com as mãos sobre seus joelhos.
- Você precisa descansar. – Disse, olhando em seus olhos, quando ela tirou as mãos do rosto. – Precisa de um banho quente, relaxar e não pensar nisso até de manhã. A volta de Pierre causava mais efeitos em você do que em qualquer uma de nós. Precisaremos de você acordada e bem quando formos tratar de Pierre.
Quando Ellie, em seu habitual silêncio frio, concordou e saiu da sala, eu pedi que Sophie e Anika ficassem para trás para conversar comigo e mandei todas as outras para a cama.
- O que vocês acham? – Perguntei, me sentando no braço do sofá.
- Eu acho extremamente bizarro um demônio lutando no exército alemão. – Anika disse, sendo óbvia.
Sophie sorriu.
- Ele é só meio demônio e, se você pensar, até que faz sentido.
- Não foi isso que eu quis dizer. – Reclamei, impaciente.
Elas se entreolharam antes de voltar a falar comigo.
- Bem, eu duvido muito que ele estivesse procurando por nós. – Anika disse, séria - Ele apenas deu azar de se machucar e ir parar no hospital em que Ellie estava trabalhando. A questão é só uma: Ele não se regenera? Por que está tão machucado?
- É, foi o que eu pensei também. – Sophie completou. – Ele tinha muitos ferimentos superficiais que se curariam muito fácil. Só se...
Ela parou no meio da frase, aparentando pensar.
- Se...? – Perguntei, pedindo a conclusão.
- Se ele estivesse em uma explosão ele provavelmente estaria cheio de ferimentos internos. – Sophie colocou, cuidadosa - Esses levam mais tempo para curar e provavelmente quando aconteceu, ele estaria fraco demais para evitar ser carregado para o hospital. Se ele tivesse tomado banho, comido e sido bem cuidado no hospital provavelmente ele já estaria curado e pronto para a outra, mas chamar o nome Ellie foi o maior erro dele.
- Faz sentido. – Concordei, com um suspiro. – O que faremos com ele?
Elas ficaram em silêncio. Eu também não fazia ideia do que faria.
- Não sabemos quão forte ele está. – Eu disse em voz alta para organizar meus pensamentos – Também não sabemos se seria possível mata-lo ou tortura-lo sem ter a fúria do Inferno virada contra nós. Todas nós temos nossa alma no inferno o que significa que ela provavelmente pode ser destruída em um piscar de olhos. Quer dizer, todas nós, menos uma.
Sophie sorriu, mostrando que entendia.

25 de fevereiro
Diário de Kat
Resolvemos que alguém ficaria em guarda no quarto de Pierre e chamaria as outras quando ele acordasse ou fizesse algo. Anika aceitou o papel, dizendo que queria terminar o livro que estava lendo. Eu e Sophie fomos dormir.
Acordei com o barulho da cozinha sendo revirada, com panelas caindo e armários sendo abertos e fechados violentamente. Levantei da cama que dividia com as gêmeas e Ellie – o número de camas na casa fazia com que as camas de casal precisassem ser divididas. No corredor, encontrei Anika dormindo sobre o livro, o que não foi nada surpreendente. Corri até a cozinha e encontrei, é claro, a cabeça de Pierre enfiada dentro de um armário.
- Que diabos você pensa que está fazendo? – Gritei, entrando na cozinha.
Ele tirou a cara do armário e sorriu, com ironia.
- Procurando comida. – Respondeu. Sua voz estava mais grossa e séria - Mas é claro que aqui não tem.
- Comida virou artigo de luxo durante a guerra, Pierre. Definitivamente não compensa ter comida em casa quando não se consome isso.
- Nem Sophie?
Ergui a sobrancelha.
- Como você...? – Comecei, depois balancei a cabeça – Ah, não importa. Sim, nem Sophie. Sophie não precisa de nada para continuar vivendo.
Um brilho provocante passou por seus olhos.
- A menos que alguém roube a alma dela de volta, naturalmente.
Revirei os olhos.
- Boa tentativa. Por ter o corpo fechado a alma de Sophie só escapa do controle dela por livre e espontânea vontade. E nem sonhe em ameaçá-la em minha frente. – Me aproximei dele. – Até porque você tem várias coisas importantes para se preocupar no momento.
- Como o quê, por exemplo?
- O fato de você estar sendo mantido como prisioneiro em uma casa com nove vampiras loucas para se livrarem de você assim que arrancarmos todas as informações que precisamos.
Eu estava parada na frente dele. Ele é um pouco mais de 20 centímetros mais alto que eu.
- Nove? – Ele disse abaixando o tom de voz - Isso é surpreendente, anjo. Realmente surpreendente. Mas eu sei que vocês não sabem como me matar.
Dei de ombros.
- Para tudo se dá um jeito. Além disso, matar não é a pior coisa que se pode fazer com alguém. Pergunte para Kaylee, nossa especialista em torturas.
- A de Cianne?? Aliás, que derrota aquela hein, Kat? Como foi passar 17 anos presa, 10 deles desacordada?
- Não é da sua conta. E como foi para você? Fugir da única família que você conhecia e acabar quebrando a cara ao se dar conta de que não existe essa história de Príncipe do Inferno?
Ele bufou.
- A monarquia está fora de moda mesmo. Existem coisas mais importantes que você pode ser do que príncipe.
Ouvimos um pigarro que quebrou a tensão com que conversávamos. Sophie e Ellie aguardavam, de braço cruzados na soleira da porta da cozinha.
- Olá, Sophie. – Pierre disse, dando mais intensidade a seu sorriso sedutor. – Mamãe.
Ellie grunhiu e eu me juntei a elas.
- Então - Ele disse, nos observando enquanto ficávamos em silêncio - Onde está aquela especialista em torturas que você citou, Kat?
Antes que eu pudesse responder, Sophie andou até ele. Pierre a encarou, se perguntando que diabos ela estava fazendo. Sem expressão, ela tocou a testa dele. Ele começou a berrar imediatamente. O cheiro de carne queimada tomou conta da cozinha enquanto ele se abaixava gradativamente e caia no chão. Eu e Ellie nos entreolhamos e notei que ela tentava segurar um sorriso.
- Não ouse falar conosco como se você fosse igual a nós. - Sophie disse, deixando o dedo onde estava até que ele terminasse de cair - E não venha com perguntas agora. O seu destino está em nossas mãos e é bom que saiba disso. Se resolver cooperar conosco, ótimo, nós podemos facilitar as coisas para você. Se não, nós faremos o que for necessário com você e a culpa por sua dor vai ter sido apenas sua.
Ele rosnou com a mão na testa e não respondeu.
- Levante. – Sophie ordenou. – E vá até a sala. Permaneça sentado no sofá, enquanto acordamos as meninas. Você responderá todas as nossas perguntas, de uma forma ou de outra. Se você agradar todas as nove de nós o suficiente, talvez você coma hoje, caso contrário, veremos.
Ele rosnou de novo e se levantou fazendo o que Sophie havia mandado. Pedi que Ellie ficasse para trás vigiando ele e fui com Sophie acordar as meninas.
- Como você sabia que podia fazer aquilo? – Perguntei quando as gêmeas se sentaram, esfregando os olhos.
- Não sabia. Foi apenas uma intuição. – Sophie respondeu, sorrindo com crueldade. Suas presas ainda estavam ali, mesmo que não tivessem mais utilidade. – Perdi a chance de tentar ontem quando o segurei pela camisa. Hoje eu resolvi que não tinha nada a perder e estava certa. Acho que agora entendemos porque o Inferno nos mantem em guarda. A verdade sobre nós é muito perigosa para eles.
Concordei com a cabeça, mas completei:
- E talvez para nós também.
Acordamos Anika que pediu desculpa um milhão de vezes por ter dormido, mesmo eu tendo dito que estava tudo bem. As meninas pediram um momento para se lavarem e se arrumarem. Eu, Sophie e Ellie que resolvemos que isso não valia a pena, ficamos na sala observando um Pierre de expressão taciturna. Repassei mentalmente várias vezes as perguntas que faria para ele. Aos poucos a sala foi enchendo e quando a última de nós – Kaylee – se sentou no tapete, Sophie explicou tudo que havia acontecido aquela manhã.
- Agora, naturalmente, vamos nos organizar para esse interrogatório. – Ela anunciou, quando terminou. Pierre revirou os olhos achando aquilo tudo dramático. Sophie lançou a ele um olhar cruel que o fez balançar a cabeça. – Kat, eu e Ellie faremos as perguntas. Pierre tem que responder a verdade e fazer o máximo possível para prová-la. Vocês o observam e decidem se acham que ele disse a verdade ou não. Se tiverem alguma pergunta, basta levantar a mão. Caso haja uma discussão em relação a sinceridade dele, a mediadora será Anika, já que ela foi a única a ter uma chance de observar Pierre enquanto bruxa. Alguma dúvida ou opinião? - Todas ficamos em silêncio, aprovando tudo. Sophie é esperta, especialmente em relação a Pierre. – Certo. Ellie? Imagino que queira começar.
Ellie concordou com a cabeça. Pierre levantou os olhos para ela e eles pareciam esperando por algum tipo de piedade. Ele definitivamente estava fora havia tempo demais.
- Eu quero voltar ao início. - Ellie começou - Eu poderia fazer milhares de perguntas, mas nenhuma delas importaria de verdade. Quando começaram a falar com você?
Pierre suspirou, como se esperasse por aquilo.
- Quando fomos para Verdant. Na verdade, depois que tentei atacar Sophie e não consegui. Falaram comigo por sonho e foi quando a sementinha de discórdia foi plantada. Perguntaram se eu queria mesmo ser comandado e sobrepujado por um bando de vampiras, sabendo que eu era superior a elas. Eu era jovem demais e adorava Kat demais para poder entender o que queriam dizer.
- Mas depois mudou de ideia... – Eu disse.
- A culpa toda foi de Deyah. O Inferno não ficou nada feliz em saber que ela estava se aliando à Morte, a força que ela mais odiava, para poder desfazer o que eles haviam feito. Entendam, o Inferno considera os vampiros um dos seus maiores trunfos e se a Morte pudesse devolver a Deyah algum tipo de poder que tirasse esse trunfo deles, seria um problemão. E eles sabiam que o ódio dela pela Morte era tão profundo que só poderia ser algo desse tamanho para convencê-la a uma associação.
“Então ordenaram que eu matasse Deyah. Por algum motivo, eu não quis fazer isso. Até que fiquei sabendo que o Exército” Ele colocou desprezo na palavra “Só poderia ser formado por mulheres. Então a matei. Não sem que antes Kat já tivesse aceito a missão e o plano de Deyah para que transformasse uma descendente dela. Foi quando o Inferno mandou que eu matasse Ellie. O que eu não fiz e nem vou fazer.”
- E por quê? – Ellie perguntou, os olhos deixando a sala ainda mais fria.
- Eu sei que vocês me consideram um traidor nojento e maldito, mas não é isso que eu sou. - Pierre quase cuspiu. – Eu não vou matar você, Ellie, porque minha lealdade está em você quase tanto quanto está no Inferno.
- Interessante esse seu uso do “quase”. – Ela cuspiu de volta, nada convencida pelo discurso.
Pigarrei.
- Continue, Pierre. – Ordenei.
- Fomos para Viena e eu aceitei aquele plano imbecil de Kat. Claro, que era só um teste da minha fidelidade, ao mesmo tempo que testava se Anika era realmente poderosa. Ela era poderosa, mas eu não era fiel. Pelo menos não fiel o suficiente. Não ia ser feito de joguete nem de arma por Kat. Era melhor aceitar meu lado demônio. Antes é claro, eu deixei uma mensagem: Sabia que o segredo de Ellie também afetava a Morte e, ao mesmo tempo, que ela seria um sacrifício real para Kat. Eu conheço o relacionamento das duas melhor que ninguém. Por isso contei quem Kat devia sacrificar. Eu não mataria Ellie, mas isso não significa que outra pessoa não faria. Claramente, ninguém o fez.
Um burburinho se instalou enquanto as meninas decidiam se ele dizia a verdade ou não. Só eu permaneci olhando para Pierre. Ele notou meu olhar e sorriu torto. Eu não estava gostando nada das provocações dele. Ele parecia dizer “Eu não posso contar todos os meus segredos sem soltar alguns de vocês”.
Pierre havia mudado muito desde a última vez que eu o vira. É claro que tecnicamente ele permanecia aparentando 16 anos, mas ao invés de ser aquele garoto vitoriano bem portado, bem vestido e barbeado, agora ele era um soldado barbado, violento e maltrapilho. Seria até atraente... Se eu não tivesse trocado as fraldas dele quando ele era nada além de um bebê meio demônio. Fiz um sinal com as mãos para que o Exército se calasse.
- Para onde você foi depois que desertou?
Ele manteve o sorriso torto.
- Interessante escolha de palavras já que eu nunca fiz parte do Exército. Você me ensinou muito sobre viagens sem destino nenhum. Eu não ainda não sabia como contatar o Inferno, eles precisavam me contatar, então fui viajando enquanto tomavam uma decisão sobre mim. Matei alguns homens e assumi a identidade deles para poder viajar. Saí da Áustria com uma facilidade absurda e me instalei na França por uns anos. Assumi meu nome verdadeiro, com o sobrenome de meu pai. - Ouvi Ellie sussurrar um “Alec não era seu pai”, mas Pierre fingiu que não havia acontecido. - Criei uma vida lá, até namorei por um tempo, cheguei a noivar. Já estava quase esquecendo quem e o que era quando o Inferno voltou a contatar. Disseram que a Morte estava tentando atrair Kat para ela outra vez, através de uma prima. Queriam testar minha fidelidade trazendo você de volta para eles. Dá para entender porque eu estava cansado desse joguete de ‘testar a fidelidade’. Àquela altura eu acreditava que me casar e viver com Sabine era a melhor coisa que poderia fazer. Eu me sentia livre. Então não obedeci à ordem que recebi. É o mínimo dizer que foi um erro.”
Atrás de mim, ouvi Kaylee suspirar. Ele literalmente estava tentando seduzir as meninas e bancar o coitadinho. Foi quando me dei conta de que era tudo mentira.
- Boa tentativa. – Eu disse cruzando os braços. – A verdade, Pierre. Agora.
Ele ergueu a sobrancelha.
- Por que é tão difícil acreditar nisso?
- Porque as chances de você se conformar com uma vida tranquila e entediante, casado e feliz, são mais do que nulas, são negativas.
- Touché. Bem, a maior parte é realmente mentira. Eu sei como contatar o Inferno. Sou uma ponte, afinal de contas. Eles me disseram que eu não poderia ocupar o lugar de “príncipe do Inferno” porque como Kat disse, esse posto não existe. Também descobri que eu sou filho do que eles chamam de “demônio de baixo calão” e por isso o máximo que eu podia fazer aqui na Terra era reproduzir e conduzir mais almas para o Inferno...
- Se isso fosse verdade você não teria como saber tudo que sabe sobre nós. – Charlottie disse.
- Eu fiquei sabendo muito pouco sobre isso porque meu pai vivia me visitando em sonhos e me contando como Ellie estava.
Nos entreolhamos. Ellie parecia enjoada.
- Isso é verdade, ok? – Pierre resmungou conforme seu estomago roncava. – Eu não tenho muitos motivos para mentir.
- Muito pelo contrário. – Anika disse, sua voz doce tomando conta da sala. – Você tem todos os motivos do mundo para mentir, por isso duvido muito que sairia dizendo toda a verdade assim, no primeiro interrogatório.
O olhar que Ellie lançava para Anika era o extremo oposto do que Pierre recebia.
- O que você sugere?
- Que o interroguemos de novo daqui a alguns dias, quando ele estiver mais faminto e com mais a perder se mentir.
- Mas... – Ele começou, mas foi interrompido.
- Por você ter contado uma parte da história que eu acredito que seja verdade, - Anika continuou, séria - você pode tomar banho e conseguiremos roupas limpas para você. Mas nada de comida ou algo que possa te fortificar.
- E se eu resolver contar a verdade?
- Tarde demais. Ainda não podemos acreditar em você. E eu sugiro que vá para o banho logo ou essa oferta também estará suspensa. As gêmeas ficarão de vigia.
Pierre, Miranda e Valentina se levantaram de prontidão. As outras de nós permanecemos paradas em choque pela posição de comando que Anika assumiu. Em pelo menos uma coisa ela estava certa, Pierre Petrie tinha muitos motivos para mentir.

28 de fevereiro
Diário de Kat
Comemoramos o aniversário das gêmeas com uma pequena festinha particular. Entregamos presentes para elas e depois saímos para caçar até o sol nascer. Quando chegamos em casa, encontramos Pierre desmaiado no chão da sala, de forma dramática. Sophie, que havia ido conosco só pela diversão, tirou os sapatos e chutou o peito sem camisa dele algumas vezes, até que ele acordasse.
- Resolveu dizer a verdade ou ainda vai passar alguns dias nessa enrolação? – Perguntei, enquanto ele tentava se sentar.
Eu entendi a ideia de Pierre no mesmo segundo. Ele sabia que era melhor para nós vivo do que morto, já que precisávamos dele para saber que diabos o Inferno estava armando. Por isso, com muita raiva de Anika, ele resolveu que não diria nada, pois acreditava que mais cedo ou mais tarde nós o alimentaríamos, com medo de perder nossa principal fonte de informações. É claro que ele não poderia estar mais enganado. Eu sei muito bem que ele não morreria de fome. Não seria fácil assim. O corpo físico dele provavelmente ficaria bastante fraco, mas sua alma continuaria nele em sofrimento, até que alguma coisa acontecesse.
Ele suspirou.
- Eu vou contar. – Disse, demonstrando fraqueza como sua mãe nunca faria. – E recomendo que vocês registrem tudo.
Nos organizamos na sala para ouvir o que ele tinha a dizer. As gêmeas resolveram ir providenciar a comida enquanto interrogávamos Pierre, deixando claro que se ele mentisse sobre qualquer coisa toda comida iria ser jogada descarga abaixo. Pierre revirou os olhos ouvindo isso, mostrando que a ironia era uma das últimas coisas que se apagaria nele.
- Depois que contatei meu pai, ele me disse que eu precisaria cumprir algumas missões. Não deixou claro na hora que aquela história de príncipe do Inferno era mentira. Pelo contrário, ele passou horas exaltando todas as minhas qualidades e todos os meus poderes. Listou todas as maravilhas que eu havia feito para ajudar o Inferno. Eu, mais do que feliz em finalmente ver minhas qualidades exaltadas por um ser tão poderoso, aceitei todas as missões que recebia. Elas iam desde roubar alguns artefatos poderosos até convencer algumas pessoas a se matarem ou a deixarem corpos livres para possessões.
“Me envergonha dizer que eu levei anos para me dar conta de que estava sendo enganado. Eu percebi lá pelo fim da década de 80 que eu só fazia os mesmos trabalhos sujos que vampiros deveriam fazer. Eu não tinha participação importante em nada que eu pudesse resultar em algo verdadeiramente grande e se morresse poderia ser facilmente substituído por qualquer humano possuído por aí. Pressionei meu pai para que ele fizesse algo por mim. Perguntei o que mais eu precisava fazer para conseguir o lugar que era meu por direito. Eu já desconfiava que aquilo tudo era apenas uma forma de me manter sobre controle, mas também não queria aceitar que teria um papel mais importante nesse mundo se tivesse continuado com Kat.
“Recebi uma mensagem alguns dias depois anunciando algo totalmente inesperado: Se eu quisesse ser príncipe teria que criar uma linhagem de humanos que tivessem partes demoníacas em seu sangue e, portanto, fossem mais suscetíveis a realizar trabalhos para o Inferno depois. Avisei que eu já sabia que aquela história de príncipe do Inferno era mentira e fui confrontado de volta com o anúncio de que independente disso, fazia parte das minhas obrigações como meio demônio disseminar meu sangue pela Terra. Rebati perguntando se ele achava que eu era um maldito vampiro. Ele respondeu usando uma tática que eu sei que a mãe de Kat usou com ela: listou as diversas formas como poderia me matar, já que era um ser mais poderoso que eu e ainda disse que era melhor eu me contentar em ser quase um vampiro, já que havia sido educado por vampiras, afinal ele poderia fazer de mim menos que isso. Aceitei a ideia resignado, até porque não tinha muitas opções.
“Parti para a Rússia. Preciso dizer que escolhi minha esposa pelo nome: Katerina. Ela era uma condessa e estava em condições muito superiores às minhas, mas também havia sido criada apenas com mulheres e era facilmente influenciada pela beleza masculina. Acabou se casando comigo contra o que toda família desejava na época.”
Pierre lançou um olhar para todas nós, esperando que sua história oferecesse alguma comoção. Todas nós continuávamos sérias.
- Isso fez de tudo mais divertido, é claro, era emocionante ascender daquela forma. Minha Katerina era linda, mas de uma beleza totalmente diferente de qualquer uma de vocês. Não saberia explicar tal beleza, mas ela tinha pele e cabelos claros e olhos escuros. Extremamente escuros. Do tipo que sugavam a luz de qualquer sala e atraíam a atenção só para eles. Nosso casamento durou apenas 5 anos. Duraria mais, mas fui ameaçado a ter logo um bebê e ela, é claro, morreu ao dar à luz.
“Tive uma filha que chamei de Alenka. Ella, apelido de minha criança, foi tirada de mim quando meu luto acabou e me expulsaram da corte. Era 1896. Recebi um aviso de que agora poderia fazer o que quisesse da vida, esperando receber novos avisos quando precisassem de mim, o que deveria demorar a acontecer. Como prêmio pelos meus serviços eu recebi um jornal mental: A cada dois anos tenho um sonho que mostra onde vocês estão e o que estão fazendo, por isso sei de alguns detalhes e desconheço outros.
“A questão é que pela primeira vez na minha vida eu não tinha nada a fazer. Ellie me ensinou um ditado que dizia que cabeça vazia é oficina do diabo. Ironicamente, no momento em que deixei de prestar serviços ao dito cujo, fiquei com a cabeça vazia e me prestei aos prazeres da vida. O clichê sabe? Me entreguei as bebidas e as mulheres. Não tive outros filhos pois sabia como evita-los. Acompanhava minha Alenka à distância. Eu tinha um certo orgulho em tê-la feito e ela cresceu para ser o tipo de mulher que qualquer um podia ver que tinha uma pitada demoníaca no sangue. Ela se casou e teve filhos, alguns legítimos, outros não. Era uma condessa perigosa que todos temiam de alguma forma.
“Quando as guerras civis na Rússia começaram foi que eu percebi que tinha passado muito tempo ali. Voltei para a Áustria. Eu era uma espécie de sombra de homem na época, mais animal demoníaco do que humano meio demônio e por isso não queria me encontrar com nenhuma de vocês. Mas eu sabia que vocês estavam presas em Cianne então isso não seria um problema.
“Quando a primeira guerra explodiu, lutar foi uma espécie de instinto básico. Me alistei e lutei pela Alemanha. Ao fim da guerra fiquei sabendo que minha linhagem perdera seu título, o que era um fim menos pior do que o que acontecera com a coroa russa. Voltei ao país natal de minha Alenka, mas fiquei sabendo que ela havia morrido de uma doença sexual qualquer e que seus diversos filhos haviam se perdido. Frustrado, passei mais alguns anos na mesma rotina que tivera antes da grande guerra. Esperei receber alguma mensagem do Inferno. Depois desisti e tentei contata-los. Sem resposta. Mais alguns anos à deriva. Segunda guerra. Uma bomba. E o resto é história.”
Um silêncio quase macabro recaiu sobre a sala quando a história acabou. Nos entreolhamos, conversando com olhares.
- Satisfeitas? – Pierre perguntou, cansado. Poderia matar qualquer uma com o olhar que lançou. – Pois é, Ellie, a essa altura você já deve ser tataravó.
A frase dele fez uma luz acender em minha cabeça, como uma ideia que acabara de brotar.
- Por enquanto, está tudo certo. – Tomei a dianteira, pensando em explicar minha ideia depois. – Mas depois que você comer e tomar outro banho, eu preciso de mais detalhes sobre essa tal condessa Katerina.

1º de março
Diário de Kat
- Você não vai fazer o que eu acho que você quer fazer, Katerina. – Ellie reclamou aquela noite quando fomos dormir.
As gêmeas ainda não haviam ido para a cama, estavam animadas demais discutindo noite a dentro a história que Pierre contara. O dito cujo dormia trancado no quarto ao nosso lado.  Eu revirei os olhos. É claro que Ellie foi a única a entender.
- Pensei que fosse ficar feliz em ter mais alguém que fosse sangue do seu sangue no Exército.
- O meu sangue é o de menos. É o sangue de demônio que me preocupa. Todas nós sabemos que da última vez que confiamos em alguém assim acabou dando tudo extremamente errado.
- Acho que já podemos parar com os eufemismos para falar sobre Pierre, Ellie. Ele está aqui e não pretendo mandar embora por um bom tempo.
Ela suspirou, como se não fosse dizer mais nada. Peguei as mãos dela entre as minhas e apertei com carinho. Ellie sempre se perguntou por que eu a matinha no Exército. Eu sempre quis saber por que ela continuava leal a mim.
- Me conte seus temores e eu juro que os levarei em consideração, sempre.
Ela olhou em meus olhos e foi como se a janela do quarto fosse aberta.
- Eu não tenho medo de coisa alguma. Só não quero Pierre de volta. Por um certo tempo eu confiei àquele garoto todas as coisas que eu mais prezava nesse mundo. Ele me deixou em agonia por exatos nove dias e depois me levou a uma morte terrível. Eu tinha todos os motivos para desprezá-lo e faria isso, não fosse o que você disse sobre ele não ter culpa de sua origem. Ele realmente não tinha, mas que diferença fez? Ele acabou nos traindo do mesmo jeito, aceitando um pai que ele nem conhecera ao invés de ficar do lado das pessoas que haviam se dedicado a dar uma criação mais do que excelente a ele. Eu realmente achava que ele faria alguma diferença na missão de Deyah, mesmo sendo homem. Que ele seria a diferença que eu faria. E não ache que eu comprei aquela história de que mandaram que ele me matasse e ele disse não, não acho que ele hesitaria em me matar se assim fosse ordenado... Mas, bem, minhas conclusões sobre ele geralmente não estão certas, então o que eu sei?
As mãos de Ellie estavam geladas nas minhas. Ellie parecia feita de gelo. Não que isso fosse ruim. Esfreguei suas mãos com cuidado, olhando para elas ao invés de olhar em seus olhos, levando um tempo extra para responder.
- Eu queria saber qual segredo Bianka mostrou a você só para poder atirá-lo em sua cara agora, Ellie. Pare de se subestimar ou de subestimar sua capacidade de julgamento.
- Mais cedo ou mais tarde você vai acabar sabendo. Mas isso não tem nada a ver com o que está acontecendo agora.
- Não mesmo? Não mesmo, doce Lenore? – Eu só a chamava assim quando queria alguma coisa dela. Não que funcionasse com frequência, ou que ela se negasse a fazer algo para mim com frequência. – Que eu saiba Bianka disse com todas as letras que “Quando você estava grávida, cada sangramento a carregava para o Inferno”.
Ellie fechou a cara.
- E que eu saiba Sophie viu Pierre da última vez que vislumbrou o Inferno e ele ainda não foi indagado sobre o assunto. Aliás, esse clã visita o Inferno com frequência demais.
- “Sua alma conseguia ver além da tortura, além da dor.” – Continuei citando Bianka – “Você sabe de algo, Ellie, algo que nem mesmo sabe que é importante, mas que você tem guardado todos esses anos.”
- Sabe qual minha frase preferida em Lenore, Kat? Deixe os mortos em paz.
Ela parecia tão séria que eu desisti da brincadeira. Eu não ia arrancar aquele segredo dela a força.
- Certo, certo. Já que você quer tanto arrancar todas as informações de Pierre antes de decidir se vamos ou não transformar sua tataraneta, eu vou fazer isso.
- Chame essa garota de minha tataraneta outra vez e a resposta será negativa eternamente. E eu sei como conduzir minha maioria a dizer concordar comigo.
Com um calafrio me dei conta de que Ellie tinha razão. Ela tem controle sobre três de vampiras do Exército, uma amizade intensa com Kaylee e um voto tendencioso de Sophie que carregaria sua irmã consigo independente do que escolhesse. Só me restava Naomi que raramente parecia ter uma opinião forte em relação a qualquer coisa. Em resumo: eu estava sozinha naquele jogo e tinha nada além de lealdade para me apoiar.





São Petersburgo, Rússia
15 de junho de 1953
Diário de Kat
Se existe uma coisa que é fácil de encontrar é um detetive particular na Rússia. Eles estão em todos os lugares, nesses dias incertos onde ninguém sabe em quem pode confiar, prontos para pesquisar antecedentes de todas as pessoas, inclusive de crianças. Contratei um e pedi para que encontrasse a herdeira de Alenka Matrikov oferecendo muito dinheiro caso ela fosse encontrada e deixando claro que se não fosse ela, eu saberia. A verdade é que quando isso tudo estiver acabado, eu pretendo matá-lo.
Enquanto espero, acredito que eu deva escrever sobre o que aconteceu nos últimos anos. Pierre voltou a ser uma parte do grupo: Só que agora como prisioneiro. Não que faça muita diferença para ele. Nos atazanar se tornou seu objetivo de vida, ele que então não tinha nada para o que viver. A pessoa que ele mais tira do sério, é claro, é Ellie. Eu tive que deixá-la a cargo dos cuidados de Pierre, que nos últimos dez anos tem comido uma vez a cada três dias.
É claro que ele tentou encantar algumas das vampiras mais novas. Anika, que nutria um desprezo por Pierre desde que era humana e que tinha os sentimentos retribuídos pelo demônio, convenceu as gêmeas a não se aproximarem. Kaylee teria sido uma das maiores partidárias do bem-estar de Pierre, se Ellie não tivesse o envenenado para a amiga. Naomi tinha certo temor em ir contra os desejos de Ellie. Charlottie não tinha interesse algum em se aproximar.
Quando arrancamos tudo que podíamos de Pierre e organizamos como a prisão dele funcionaria, discuti com as meninas a ideia de transformar a descendente dele. Todas concordaram que era uma boa ideia, mesmo que tenham hesitado com a contrariedade de Ellie. Levei semanas para convencê-la das vantagens de ter a garota no nosso grupo e precisei da ajuda das vampiras dela. Pierre apenas suspirou quando ouviu o plano que tínhamos para transformar sua bisneta. Eu acreditava que não estivesse exatamente feliz em testar o Inferno outra vez, ajudando a destruir a linhagem que ele mesmo criara.
Resolvemos esperar o fim da guerra para organizar a viagem à Rússia. Isso durou dois anos e como se sabe, quando isso aconteceu, as viagens entre países da Europa se tornaram um pouco mais difíceis do que eram quando eu nasci. Pela primeira vez, nós realmente precisamos de dinheiro. Dinheiro de verdade, em notas. Foi-se a época em que o poder estava em títulos ou em concessões. Agora sem dinheiro não se faz mais nada.
Nossos pequenos golpes tomaram algum tempo. Hipnose ajudou é claro, mas queríamos fazer aquilo sem deixar muitos rastros. Roubamos como especialistas nos primeiros anos e usamos todo o dinheiro como investimento para conseguimos documentos de diversos países, com diversas datas de nascimento. Nesse período de fim de guerra, é fácil encontrar formas de falsificar diversos documentos com tudo que precisávamos para criar uma vida para nós.  Abrimos três contas em bancos suíços que estavam mais do que satisfeitos em receber nosso dinheiro: uma no nome de Ellie, uma no nome de Sophie e uma no nome de Kaylee – as três de nós que podíamos passar por adultas. Ninguém faz perguntas quando você mostra muito dinheiro em dólares. E se fizerem, para tudo se dá um jeito.
Conseguimos uma pequena fortuna nos cinco anos que tiramos para isso. Aquilo era excitante como pouquíssimas coisas para nós. Agir como pequenas empresárias descobrindo o mistério do dinheiro deixava tudo tão emocionante que quase nos esquecemos que ainda precisamos de quatro vampiras para completar o Exército e cumprir uma missão.
Foi nessa época que criamos uma nova forma de nos distinguir como grupo. Resolvemos usar pedras preciosas em correntes de ouro no pescoço: eu escolhi uma esmeralda, Ellie uma safira azul, Sophie lápis-lazúli que foi copiada em tamanho menor no pescoço de Charlottie, as gêmeas escolheram cada uma um diamante, um rosa e outro azul, Anika uma ametista, Kaylee um rubi e Naomi um topázio amarelo.
Quando nós estávamos com dinheiro suficiente para comprar um pequeno país e as aplicações fantasmas começaram a se tornar entediantes, planejamos nossa viagem para a Rússia. Isso foi complicado. Não era uma boa ideia ir para a Rússia aparentando ser rica. Passamos um bom tempo pensamos em como entraríamos no país sem chamar mais atenção que o necessário. O trem era a melhor opção. Pegaríamos um até Budapeste e dois dias depois, outro até São Petersburgo. A família da esposa de Pierre era de lá e a cidade também era menos óbvia que Moscou. Ellie nos liderou nesse processo. Contávamos com o russo dela, que treinou comigo por semanas, para responder a qualquer pergunta que precisássemos responder. Os documentos que portávamos não pareciam nada falsos, pelo contrário, eram mais realistas que o esperado.
Mas nenhuma dessas preparações evitou que nós ficássemos ansiosas para o momento da viagem. O mundo era um lugar diferente, perigoso. Nós que éramos as caçadoras desde sempre, agora nos escondíamos da caça, porque sua mente se mostrou mais perigosa do que qualquer força que pudéssemos ter.
De uma forma ou de outra, acabamos chegando a São Petersburgo vivas. Certo, vivOs. Pierre veio junto apesar de Ellie ter sido contra isso com todas as forças. Não tínhamos como deixar ele para trás e muito menos deixaríamos algumas de nós para trás para servir de babá de demônio. Além disso, ele teria mais serventia conosco e isso até Ellie teve de admitir.
Nos alojamos em uma casa pequena, no meio de uma vila de operários. As meninas detestaram. Não que a riqueza tenha subido a cabeça, mas somos dez e sempre dá uma confusão danada dividir dois quartos. Especialmente quando ninguém quer ficar no mesmo quarto que Pierre, que também não pode ficar na sala, porque representaria perigo. O passatempo preferido em nosso novo abrigo era imaginar as casas em que viveríamos quando pudéssemos usufruir de nossa riqueza sem restrições.
A animação pelo “bem maior” já era passado.

18 de junho
Diário de Kat
- Isso demorou. – Reclamei quando o vigarista detetive que contratara apareceu ontem de madrugada com as informações que eu pedira.
- Você não faz ideia de quanto é difícil encontrar uma ex-família rica na Rússia de hoje? Todas as famílias espertas estão dando um jeito de aparecer do mapa. Você sabe bem disso já que está enfurnada em uma casa dessas quando poderia estar em qualquer lugar.
Cruzei os braços. Estávamos na soleira da porta. Qualquer um poderia ouvir aquilo, sendo noite alta ou não.
- Que tal calar a boca e me dar os documentos?
Ele me entregou o envelope de papel com cuidado. Abri e vislumbrei uma foto e cópias de alguns documentos importantes. Dediquei os segundos seguintes a decidir se mataria aquele homem ou não. Resolvi que estava com sede. Dois minutos depois voltei para dentro da casa, onde o Exército se amontoava esperando por minhas boas notícias.
- Meu Deus, Kat, tem sangue escorrendo por seu queixo. – Anika reclamou, brincando com seu pingente.
Esfreguei o rosto.
- Desculpem. Eu tive que fazer tudo muito rápido. Esse toque de recolher é um grande problema para os negócios.
- Tá, tá, tanto faz. – Naomi disse, revirando os olhos. – Ele trouxe o que você queria?
- Ele encontrou uma garota. – Enfatizei - Aparentemente descendente de Alenka. Mas só saberemos quando a encontramos, certo?
Uma batida foi ouvida vinda da porta do quarto de Pierre.
- Eu saberia dizer se pudesse ver isso, não? Afinal, ela é minha bisneta.
Apertei o envelope contra o peito ao ouvir a voz dele. O mesmo foi arrancado de minhas mãos sem cerimônia.
- Vamos acabar logo com isso. – Ellie chiou enquanto retirava os papéis do envelope. Encarou o que via e depois atirou os papéis no chão com um suspiro. – É ela.
Nos aproximamos do papel com cuidado. É claro que era ela. Exceto pelos olhos, ela era idêntica a tataravó.

30 de junho
Diário de Kat
- Deixa eu adivinhar, seus pais a mandaram para cá? – Perguntei, com a voz quase abafada sob o som das máquinas.
Tatiana era uma garota calada. A mais calada que eu já vira em toda a minha vida. Nos primeiros dias eu achei que ela sequer sabia falar. “Ah, ótimo, dez anos inteiros de preparação perdidos.” Foi o que pensei, antes que ela murmurasse um “Olá” envergonhado e voltasse ao trabalho com cuidado.
Aos poucos e por meio de uma observação descarada e sem escrúpulos, percebi exatamente como ela era: tímida, mas curiosa. Feita para observar tudo e todos à distância. Fora criada em um lugar onde era melhor para a sua segurança que não visse, não ouvisse e principalmente não falasse. Mas isso não quer dizer que não fosse sagaz. Isso era óbvio em seus olhos “Extremamente escuros. Do tipo que sugavam a luz de qualquer sala e atraíam a atenção só para eles.”. Tudo que eu precisava fazer era quebrar a barreira que ela havia criado ao redor de si, aos poucos.
Os documentos que o detetive conseguira tinha as seguintes informações: nome: Tatiana Matrikov, data de nascimento: 31/10/1938, local de nascimento: São Petersburgo e nome da mãe: Elizaveta Matrikov - O nome do pai não constava nos registros. Junto com isso vinha uma ficha com as informações do trabalho dela: ter só 14 anos não a impediu de ter que ajudar em uma fábrica de vestimentas (não necessariamente roupas) aqui mesmo, em São Petersburgo.
Por isso eu dei um jeito de ir parar na fábrica. Trouxe Anika, as gêmeas e Naomi comigo, como se fossemos irmãs. Sabia que eu correspondia ao tipo de garota que eles queriam que trabalhasse na fábrica e bastou que eu dissesse que queria ajudar em casa para que eles arrumassem trabalho para mim. Dei um jeito de ficar próxima a Tatiana, que desde o primeiro dia transmitia uma espécie de aura que envolvia o lugar, chamando atenção mesmo quando tentava não fazer isso.
- Eu vim porque quis. – Ela respondeu, claramente mentindo. – Assim como você. – Insinuou como uma professora dando uma bronca.
Revirei os olhos.
- Eu quis dizer que você veio para ajudar sua casa. Como todas as garotas aqui. Bem, a maioria delas.
Eu vi suas sobrancelhas se franzirem por um momento, pensando no que eu disse, mas logo depois desistiu do que pensava. Ela parece ser o tipo de garota que cumpre ordens com convicção e sem questionamentos – uma qualidade que parece ter aprimorado de Ellie.
- Sim. – Ela respondeu com calma - Vim ajudar em casa.
- Quantos irmãos você tem?
Ela olhou bem para mim. Eu podia ver as engrenagens de seu cérebro tentando descobrir porque diabos eu estava fazendo perguntas. Esse mundo onde responder perguntas era perigoso me deixava cansada.
- Eu só queria conhecer você melhor. – Disse suspirando e voltando ao trabalho. - Não precisa responder se não quiser.
Por um instante, ela não voltou a usar sua máquina de costura para terminar o vestido que fazia. Senti o olhar dela em mim e precisei conter o sorriso que mostrava que eu estava satisfeita por causar fascinação.
 - Não tenho irmãos. – Ela respondeu, antes de voltar ao trabalho. Notei que dessa vez ela queria que o som da máquina ocultasse sua voz. – Em casa somos só eu e a minha mãe.
Balancei a cabeça, mostrando que havia entendido, mas sem tirar os olhos do trabalho.
Depois disso, ela começou a confiar em mim.

13 de julho
Diário de Kat
Começando do fim de forma a dar um nó na cabeça de qualquer um: Tatiana é uma vampira agora.
Depois que o gelo quebrou as coisas nunca mais voltaram a ser as mesmas. Não fiz mais perguntas pessoais para ela e nós começamos a conversar sobre livros, música, arte e discutir nossos gostos. Ela me fez uma ou duas perguntas sobre mim, especialmente sobre minha origem, mas eu não quis responder e ela não insistiu. Depois brincamos de adivinhar as verdades uma sobre a outra, mas ela não conseguiu acertar nada sobre mim. Aos poucos, acredito, fui cativando-a, apesar de não ter certeza, já que ela não mantinha um diário como as outras.
O processo que levou a sua morte começou aos pouquinhos. Uma vez ela me disse sem querer sua opinião sobre o governo, mas desconversou assim que eu insisti na história. De outra vez ela me disse que sua mãe detestava ter que viver naquelas condições, justo ela que poderia ser uma condessa, não fosse aquela maldita revolução. Fiquei sabendo depois sobre o gênio de sua mãe e o quanto ela lutaria para conseguir o que queria.
Acordei na manhã de ontem com a notícia de que a casa de Tatiana havia sido invadida e que todos que moravam ali – Tatiana, sua mãe e alguns inquilinos, no andar de cima – haviam sido assassinados. A notícia estava correndo na rua, mesmo que ninguém falasse sobre abertamente, por medo. Na forma de gato, eu fui correndo até a casa dela, torcendo para que desse tempo de fazer alguma coisa.
Encontrei seu corpo sozinho na sala. Ela ainda respirava, mas estava desacordada e perdera tanto sangue que seria uma questão de tempo até ir embora de uma vez por todas. Me transformei para a forma normal outra vez e cortando meu pulso, forcei um pouco de sangue entre os lábios dela. Com um suspiro vi seu corpo aceitando o sangue e me dei conta de que havia muito tempo que eu não trocava sangue com ninguém.
Saí da casa com cuidado e fui até a minha me trocar. Depois voltaria para a casa de Tatiana e esperaria que acordasse. Enquanto esperava, me perguntava como explicaria para as meninas o que tinha acontecido, e se havia alguma forma de elas aceitarem aquilo. Eu havia jurado que nunca transformaria alguém que não tivesse escolhido ser vampira, o que não era o caso de Tatiana. Foi um ato desesperado, porque eu não podia perdê-la, principalmente não para algo tão sem sentido quanto um governo autoritário. Eu precisei transformá-la, para salvar uma peça importante do meu Exército.
Quando ouvi os sons na casa de Tatiana, entrei com cuidado. Encontrei-a de pé, atenta, mas meio atordoada. Expliquei de forma animada o que ela precisava entender. Falar demais, de jeito nervoso sempre faz com que o ouvinte relaxe e se torne protetor a meu respeito. Tatiana não surpreendeu nesse aspecto, tentou me acalmar e quando conseguiu, ouviu e acatou cada uma das coisas que eu disse. Quando chegamos até a frente de minha casa, eu estava explicando a ela sobre o Exército. Sophie abriu a porta antes que eu pudesse fazer isso.
- Você tem muito a explicar. – Ela disse com os braços cruzados. – Especialmente a Ellie.
- Sophie, Tatiana. Tatiana, Sophie. – Apresentei as duas com um suspiro, entrando em casa.
Antes de entrar, vi os olhos de Sophie crescerem e sua voz sussurrando:
- Nossa! Você realmente é parente dos dois.
Lá dentro fui recebida por uma comitiva. Até Pierre esperava fora de seu quarto, ansioso para receber sua bisneta.
- Ellie, eu... – Comecei, antes que Tatiana entrasse.
- Calada. – Ela interrompeu. Seus olhos faiscaram por um momento e eu me perguntei que diabos ela estava pensando. – Deixe-me vê-la.
Sophie abriu espaço com cuidado e Tatiana entrou junto com ela. Todos os olhos da sala se viraram dela para Ellie e de repente, todas nós prendemos a respiração. Com passos suaves Ellie andou até ela e os olhos de Tatiana reconheceram a antepassada. As duas pareciam estar frente a um espelho. Ellie então me surpreendeu com um gesto: sorriu.
- Acho que devemos começar com a escolha de uma pedra preciosa. – Ela disse, para todas nós. Então se virou outra vez para Tatiana. - Qual sua cor preferida?


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