As Crônicas de Kat - 2ª fase - Capítulo IV (Parte 2)

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Bucareste, Romênia
9 de fevereiro
Juliana
O que você leva para uma cidade à qual você nunca foi e que não faz ideia do clima que tem para uma busca que você não sabe como vai acontecer? Suspiro e enfio duas calças jeans e quatro camisetas em uma bolsa de mão. O que quer que eu precise além disso eu compro no processo. Coloco também dois pares de sapato, roupas íntimas e outras coisas básicas, sem me preocupar com organização nenhuma, já que a mala enorme vai quase vazia. Estou acostumada a ir de uma cidade para a outra deixando tudo para trás ou destruindo todo vestígio de mim no lugar. Estar viajando apenas por alguns dias - eu espero - em uma missão e ter “um lar” para retornar é um conceito estranho, mesmo que nós tenhamos diversas casas em vários lugares do mundo.
Sophie, Charlottie, as gêmeas, Olívia, Kaylee e Amelie foram até o lugar onde o celular de Ellie foi perdido e começaram a rastrear o grupo que as sequestrou, com certa dificuldade. Eles já voltaram para a Romênia, mas é estranho como um país pequeno se torna gigante quando você precisa encontrar um pequeno grupo de pessoas. Sophie disse que o clã costumava se concentrar nos Cárpatos e Persephone sugeriu deixar Bucareste e seguir para o norte. A família dela é de Piatra Neamț, uma cidade completamente bruxa e de solo sagrado; mas Persephone tem uma casa de campo nos arredores e ela pareceu o quartel general mais lógico. Além disso, você nunca subestima a importância de ter mais bruxas do seu lado.
Fecho meu quarto com chave e vou para o andar de baixo, onde marcamos de esperar enquanto Sophie pega o carro. Na sala estão apenas Pierre e Anika, a segunda no sofá com um livro sobre as pernas e os pés sobre uma mala lilás, enquanto o primeiro está sentado no balcão da cozinha, com uma mala do lado, parecendo entediado com o celular na mão. Me sento ao lado dele fazendo-o erguer os olhos e colocar o celular de lado. Quando ele olha para mim eu já sei que me tornarei seu novo joguinho.
- Você tem falado com Alex ultimamente? - Ele pergunta, me surpreendendo com o tema da pergunta.
- Não, por que? Ela tem tentado falar com você?
- Não, não. Eu só não achava que ela é do tipo que fica quieta por muito tempo.
- Ela me mandou várias mensagens nos primeiros dias, mas depois que encontramos Persephone, foi parando aos poucos, até desistir por completo.
- Não acredito que você está desconsiderando sua irmã desse jeito, Juliana Mayfair.
Reviro os olhos. Alexandra me encheu o suficiente para que eu desistisse da minha firmeza e a apresentasse a Pierre como um presente de despedida, dois dias antes de virmos para a Romênia. Àquela altura ela só tinha conhecido Louise e Kat, que ficou tão curiosa quanto Alex é ao saber da existência da minha irmã mais nova. Pierre adorou conhecer Alex especialmente porque ela provavelmente foi a pessoa mais sensível aos charmes dele que já existiu. Ela só não se apaixonou no exato momento em que ele sorriu para ela, porque sabia sobre ele ser um demônio sexual e estava pronta para aquilo. Ainda assim, toda vez que ele falava ela abaixava os olhos com timidez e só se atrevia a olhar para ele quando ele estava olhando para mim. Mas ela observava nossa conversa com a mesma atenção que eu observava suas reações. E agora sempre que conversamos o tema da conversa se torna Pierre. É bom que tenhamos nos falado pouco nas últimas semanas.
- É uma forma de mantê-la em segurança. - Respondo.
O semblante de Pierre escurece.
- Não existe segurança para quem tem sangue em comum com vocês, Juliana. Não existe salvação.
- Você acha?
- Eu sei. O ataque a Kat e Ellie foi influenciado pelo Inferno. Foi bem calculado demais para ter sido planejado por um clã tão selvagem quanto o romeno.
Me ajeito na cadeira.
- O que você sabe?
- De nada. Se eu soubesse não estaria falando sobre tão abertamente. Ao contrário de vocês, que recuperaram seu livre arbítrio quando Kat se associou com a Morte, eu continuo sendo uma criatura do Inferno e obrigada a seguir as ordens deles. Mas eu desconfio dos planos deles. Conheço o Inferno melhor do que gostaria.
- Toda vez que você diz algo assim eu me pergunto porque Kat ainda te mantem aqui. Até onde a gente sabe o Inferno pode estar usando você para descobrir nossos planos e planejando um ataque violento para breve.
- Eles não podem me usar sem que eu saiba e Kat é arrogante demais para se livrar de mim. Ela não me considera um risco, mesmo que o resto de vocês considere.
- Kat é louca, essa é a verdade. - Suspiro - Mas nós a escutamos por acreditar que ela sabe mais do que nós sabemos, o que, de certa forma, é verdade. Ainda não vi Kat errar nas decisões que tomou, então tenho que confiar na escolha dela, mesmo que envolva você.
Pierre bufa.
- Não vou me ofender por você confiar em Kat, mas não confiar em mim.
- Pierre, ninguém em sã consciência confiaria em você.
- À primeira vista não, mas você me conhece de perto, Juliana.
- Mais um motivo para eu não confiar em você.
- Não acredita na minha lealdade?
- Sei que ela tem dois lados. Que você está aqui como prisioneiro. E que sabe guardar ressentimentos como ninguém.
Ele suspira.
- Pois saiba que mesmo que as coisas não tenham acontecido como eu gostaria, existe uma parte de mim que aprendeu a gostar de vocês e a desejar que vocês fiquem bem e sejam bem-sucedidas.
Eu rio tão alto que Anika olha para nós dois, antes de decidir que prefere seu livro.
- E demônios podem ter sentimentos positivos?
- Eu só sou meio demônio, Juliana. Sinceramente, agora eu vou guardar ressentimento de você, com sua descrença.
Reviro os olhos mais uma vez.
- Oh, eu sinto muito por não me importar com seus sentimentos enquanto uma guerra está acontecendo. Pelo amor de Deus, Pierre.
- Tenha certeza de que eu ajudaria vocês de alguma forma, se não estivesse com as mãos atadas. Meu lado na guerra foi definido muito antes de eu nascer.
- Ou isso é o que eles querem que você pense. - Resmungo.
- Como?
- Você simplesmente aceita que não pode nos ajudar e que vai continuar do nosso lado apenas como um apêndice inflamado, Pierre. Se você usasse todo seu tempo livre para pensar em formas de nos ajudar, talvez já tivesse encontrado alguma coisa. E aí sim, eu acreditaria que você - Faço aspas no ar - Gosta de nós. Confiaria na sua lealdade com a minha própria vida. É confortável demais dizer que deseja que sejamos bem-sucedidas quando tudo que você faz é observar a luta de longe com cara de tédio.
Pierre nem se atreve a responder a isso, porque sabe que eu estou certa. Imaginando que ele não dirá mais nada, eu me coloco de pé para ir atrás de Louise, mas ele me segura pelo braço antes que eu possa dar um passo.
- Você acha que elas ainda estão vivas? 
- Eu acho que nós saberíamos de alguma forma se elas não estivessem.
- As duas?
- Ellie não deixaria Kat morrer. E o oposto também é verdadeiro.
- Você acha que elas têm alguma chance contra um grupo de vampiros muito mais fortes que elas?
- Ellie é basicamente indestrutível, Pierre. Se eles conhecem algo sobre a lenda do Réquiem, sabem disso. Além disso, se Kat não soubesse se salvar com muito mais que apenas o físico dela, ela não teria sobrevivido até hoje.
Ele pondera.
- Justo. E qual você acha que será o próximo passo do clã?
Eu já pensei muito nisso então não demoro a responder:
- Agora eles vão levá-las a um lugar seguro. Protegido de qualquer tipo de magia e bloqueador de energia infernal. Um clã tão antigo definitivamente tem um desses. Com elas lá, eles vão poder dedicar toda energia a descobrir como matar o Réquiem. Fazendo isso, as duas estão mortas. E depois, é claro, eles vêm atrás da gente para acabar com tudo de uma vez.
- E você fala disso com toda tranquilidade do mundo!
- Eu tenho me preparado para essa guerra há anos, Pierre. Lidar com um monte de vampiros insanos obcecados pelo poder que eles nunca irão conseguir no Inferno é a parte fácil da coisa.
- Não planejo esperar acordado pela parte difícil.
- Que bom que você tem essa escolha.

Arad, Romênia
Eleanor
Depois de nos enfiar em um dos cinco carros que os levaram até a Hungria e dirigir por algumas horas de volta para seu país de origem, o clã romeno está parado em Arad há mais de um dia. Montaram acampamento nos limites da cidade e saem para se alimentar em grupos pequenos de duas em duas horas. Eles não querem ficar por aqui, apenas deixar rastros suficientes para serem seguidos até aqui e aí se dispersarem.
Imaginando que eu e Kat não temos como nos comunicar com o Exército, eles discutiram os planos em nossa frente: Irão se dividir em três grupos, dois deixando rastros a leste e a sul, enquanto o terceiro, formado apenas dos vampiros mais fortes, nos levará para um abrigo protegido de magia nos arredores de Vatra Dornei. Quando estivermos lá, todo o clã vai poder se dedicar ao que os dois primeiros grupos já farão enquanto despistam quem busca por nós: Procurar formas de me matar.
Kat ficou completamente calada durante o tempo em que os planos foram anunciados. Mal me dirigiu a palavra desde que fomos sequestradas, quando o fez foi para perguntar se eu estava bem. Apenas observa, com a mente funcionando em silêncio, provavelmente planejando algum tipo de ataque ou um plano complexo de fuga. Quando a noite cai e nós somos ordenadas a entrar em um carro diferente do que viemos, eu já com os nervos em frangalhos, ela finalmente fala comigo, com a voz quase em um sussurro.
- Você acha que o plano deles enganará às meninas?
- Não. Ou pelo menos não engará a Sophie. - Respondo, o mais baixo que consigo. Estamos sozinhas no carro enquanto os nossos motoristas são definidos do lado de fora, mas ainda assim não é seguro. - Ela sabe que o clã costuma se firmar no Norte e é para lá que ela vai seguir.
Ela concorda com a cabeça.
- Também acho isso. O que me faz pensar em que tipo de armadilha eles pretendem colocar lá. Eles planejaram isso em detalhes e devem imaginar que um rastro de corpos é óbvio demais.
- Você acha que elas nos encontrarão, mesmo sem ter como nos localizar com magia ou tecnologia?
Ela não está olhando para mim. Estamos sentadas no banco de trás do carro, tão livres quanto poderíamos dadas as circunstâncias e ela está olhando para além do banco em sua frente, para a estrada que se abre em frente ao para-brisas.
- Eu não subestimo minhas vampiras, Ellie. O problema é o que acontecerá depois que elas nos encontrarem, porque eu também não subestimo o primeiro clã ao qual pertenci.
Não tenho como responder a isso, mas também não preciso porque dois vampiros enormes e musculosos assumem os bancos dianteiros, o motorista fazendo com que o banco pressione minhas pernas.
- Prontas para mais algumas horas de viagem? - O vampiro motorista fala. - Não pararemos de agora em diante, então apertem os cintos.
Kat revira os olhos e eu não respondo, tentando arranjar uma posição confortável para as minhas pernas. Depois que o vampiro no banco do passageiro (Eu não faço ideia do nome dele, já que nunca fomos apresentados) passa alguns minutos tentando escolher uma estação de rádio, o carro arranca e tomamos a estrada.
A música romena alta demais que toma o carro me impede de dormir por algumas horas, ao contrário de Kat, que pega no sono menos de meia hora de estrada depois. Ela definitivamente está mais cansada que eu e precisa de muitas mais horas de sono. Tudo que eu posso fazer é olhar a estrada passando e as estrelas que brilham, pedindo para serem admiradas, ofendidas pelo mundo aqui embaixo tirar a atenção que deveria ser delas. A lua ainda é nova, pequena demais para ser uma fresta, mesmo que esteja começando a aparecer.
Dou um salto com a aparição repentina, chamando a atenção do vampiro no banco do passageiro. Tento fingir que foi apenas um espasmo natural, mas minha expressão, em um misto de animação repentina com assombro, me trai.
- Tudo certo aí atrás? - O vampiro de olhos injetados e feições graves pergunta. Concordo com a cabeça, tentando me fingir de cansada - Você não teria algum tipo de comunicação que nós deixamos passar, teria?
- Meu celular ficou no meu carro destruído e vocês sabem que estamos protegidas de feitiços de localização. Existe algum tipo de comunicação além dessas?
- Vindo do Réquiem, eu não duvido de nada. Acho que você deveria vir aqui para a frente para que nós dois possamos ficar de olho.
- Qualquer coisa desde que eu possa abaixar essa maldita música.
Uma risada grave escapa dos lábios do motorista. O passageiro resmunga.
- Pode ficar quietinha aí atrás ou eu me enfio aí junto com vocês duas e iremos até Vatra com meu nariz na sua nuca.
Reviro os olhos e volto a olhar para a janela, como quem não quer nada. A centímetros do meu rosto, seguramente refletido no vidro, está um dos muitos fantasmas que vem me visitar quando quer falar sobre ele mesmo. Era um vampiro que morreu violentamente em uma briga de clãs em 1734, se não estou enganada. Depois que surgiu no carro, do nada, ele já começou a falar sobre si mesmo, após uma breve reclamação por não ter me encontrado onde sempre me procura, em casa. Ele começa a contar a mesma história de sempre, sobre a morte de sua irmã, e eu consigo saber o que ele está dizendo mesmo sem prestar atenção. O coitado já está beirando a insanidade, apenas por acreditar que ao me contar aquela história fará com que eu sinta compaixão o suficiente para achar um corpo para ele.
Ele não é alguém que notaria que algo está errado e sem poder abrir a boca ou fazer sinal algum, eu não posso pedir ajuda, mas a sua presença faz com que uma ideia começa a surgir no canto da minha mente. Se depois que nós formos devidamente presas, Deyah aparecer e eu puder informar a ela todos os planos do clã romeno, a enviando para Sophie, mesmo em troca de alguma coisa, o Exército estará um passo à frente. O problema é que Deyah pode não aparecer nunca mais e eu não sei como chama-la, pelo simples fato de que ela poderia estar em qualquer lugar do planeta agora, físico ou não. Ela aparece quando quer e recentemente só aparece quando estou com Persephone, observando tudo em silêncio. Eu acreditava que ela estava esperando pelo momento em que eu precisaria dela para dizer o que quer, mas eu preciso agora e não a vejo em lugar nenhum.
Praguejo contra o universo, por me dar o conhecimento sem poder. Qualquer bruxa que possa ver espíritos sabe exatamente como chamá-los, mas eu não. Eu dependo da boa vontade dos fantasmas - do desejo das almas insanas soltas no mundo após uma temporada de férias no Inferno. Para evitar bufar de frustração, concentro minha atenção no vampiro-fantasma falador. A história dele, como já fez outras vezes, me faz pegar no sono, com a cabeça virada para a janela. Só acordo quando o sol começa a nascer e uma luz irritante atinge meu rosto. Quando percebo que os dois vampiros nos bancos da frente estão conversando, não me movo, para poder ouvir distraidamente.
- Duvido que seja possível matá-la sem a ajuda de uma bruxa e vai ser bem difícil convencer qualquer bruxa a se aproximar da gente outra vez. - O vampiro no volante comenta.
- Serkan sabe ser diplomático quando quer. - O outro afirma - Essa “missão” é importante demais para ele.
- Não sei se estou confortável o suficiente com o Inferno nos mandando fazer o servicinho sujo deles.
- SHHHHHH. - O segundo sibila - Quem é você para questionar eles?
O vampiro motorista bufa.
- Eu só não entendo porque eles simplesmente não destruíram o Réquiem enquanto a alma dela ainda estava sob o domínio deles.
O outro parece ponderar por um instante, mas fala com cuidado.
- Se o Inferno fosse fã de aniquilação não estariam em guerra com a Morte há tanto tempo. Existem coisas muito piores que a morte e o Inferno é especialmente dedicado em relação ao sofrimento eterno. Se eles deram a ela alma de volta, ela provavelmente não a queria tanto quanto fez parecer. E ela foi amaldiçoada, é controlada pelos próprios sentimentos. Imagine o tipo de tortura que deve ser sentir tão profundamente depois de um século de vazio? Ela foi liberada do Inferno geral para ser presa no próprio.
Cansada de ouvir essa conversa, espero um pouco e me viro para o outro lado, deixando claro que estou acordada. Mas assim que faço isso, sou recebida por Kat acordada, com um olhar pacífico de condescendência.

Piatra Neamț, Romênia
13 de fevereiro
Miranda
Apesar de eu desejar muito e de Persephone dizer que consideraria, nós não pudemos realmente entrar em Piatra Neam . O solo sagrado é poderoso demais. Considerando eventuais problemas relacionados a isso, a família de Persephone construiu uma casa nos arredores que perturbadoramente me lembra a casa dos Cullen em Crepúsculo. Construída em meio a diversas árvores altas, tem três cômodos no andar térreo com a maioria das paredes de vidro (exceto as do banheiro), enquanto o andar superior é apenas um espaço aberto com sacos de dormir e uma vista que inclui a cidade inteira. O teto é de vidro. Dormimos sob a luz das estrelas, com a imensidão do universo nos esmagando, exatamente como a família que criou o primeiro vampiro planejou.
Não que tenhamos dormido muito ultimamente. Passamos dias e noites tentando descobrir qual o lugar seguro para o qual o clã romeno levou Kat e Ellie. Sophie e o pequeno grupo que juntou acabou perdendo rastro delas no meio da Romênia porque vários grupos diferentes saíram do último ponto em que elas viram alguma coisa. Nós assumimos que eles vieram para o norte, porque é onde eles costumavam se concentrar até o século XIX, o que quer dizer que provavelmente estamos perto deles, mas ainda não temos como saber quão perto ou aonde ir para achar as duas. Persephone visitou a família e anunciou para as bruxas do norte que se algum vampiro procurar por elas pedindo ajuda, elas devem entrar em contato com ela imediatamente.
Além disso, nós simplesmente esperamos. Buscando por qualquer pista, sobrenatural ou não, da localização delas. É frustrante que os feitiços que nos ligam não sirvam para nos localizar e que a magia de localização esteja bloqueada. Por questões de segurança, ficou definido que fizéssemos o bloqueio dos feitiços de localização, mas assim como a maioria das precauções, ela tem dois sentidos. Uma fé sem muita base de que Ellie e Kat ainda estão vivas é o que nos mantém em sentimento. Ellie não morreria com facilidade, mas a fragilidade de Kat é algo que sempre passa por minha cabeça. Mesmo que eu nunca diga em voz alta.
Esses pensamentos me distraem do livro que estava lendo e balanço a cabeça para tentar afastar os pensamentos e me focar outra vez. É um diário de um vampiro que viveu no século XV, que pelo que dizem se meteu a desafiar o Inferno e morreu sem nenhum motivo específico durante um eclipse. Ninguém sabe dizer o que exatamente ele fez para desafiar o Inferno, mas a história dele é uma das muitas que usam para forçar obediência aos vampiros. Não sei se acredito nela; se as coisas fossem tão fáceis para a entidade lá de baixo, todas nós já estaríamos mortas. Não que eu entenda como é possível que ainda não estejamos mortas. O sequestro de Kat e Ellie parece ter sido o único ataque que aconteceu até agora e isso parece suspeito. Ainda assim, eu leio o suposto diário do tal Caius. Kat disse ter lido muitos diários assim quando era viva, para se preparar para ser uma vampira poderosa e respeitada no Inferno. Traduzindo: Uma vampira obediente e que temesse o Inferno.
E eu estou divagando de novo. Fecho o livro e resolvo descer. Ninguém está dentro da casa, mas Persephone e Sophie estão sentadas na varanda com cristais à sua frente sussurrando feitiços de olhos fechados. Não posso incomodar, mas fico parada na soleira da porta tentando entender o que elas estão dizendo com tanta concentração. Enquanto era viva eu tinha pouquíssimas aspirações, então ser vampira e viver até o ano de 2016 era algo que superava todos os meus maiores sonhos. Mas o maior problema da imortalidade é o tédio e depois que descobrimos que ter a alma de volta faz de Sophie uma bruxa imortal, eu fui tomada de uma inveja absurda. O que eu mais queria na vida era ter nascido uma bruxa e fiquei obcecada com a ideia do que eu poderia ter feito se tivesse poderes enquanto morava no circo. Sei que é um sonho sem fundamentos, mas isso não significa que eu não esteja me esforçando ao máximo para estar em contato com cada parte mística do meu ser. O poder de Ellie reside no conhecimento, assim como o de Kat e o de Deyah enquanto ela foi vampira. Eu também posso ser uma das pessoas mais poderosas do mundo se recolher conhecimento suficiente.
- Nada? - Sophie pergunta abrindo os olhos.
- Absolutamente nada. - Persephone suspira - Não tem como cancelar o bloqueio, Sophie. Se fosse possível, todas vocês estariam correndo risco.
- Eu não posso ficar sentada aqui torcendo para que elas consigam fugir e voltem, Persephone. A chance de que o clã descubra uma forma de destruir o Réquiem é muito maior do que de duas garotas em corpos de adolescentes fugirem de um clã cuja importância baseia-se na força física. E nas crueldades que cometem.
- Por isso o treinamento físico.
- Você acha mesmo que menos de um mês de treinamento físico serviria para alguma coisa nesse caso? A única coisa protegendo aquelas duas é Ellie não poder morrer. Não significa que elas não estejam passando por todo tipo de tortura. - Sophie balança a cabeça tentando apagar a imagem mental. Volta a olhar para os cristais. - Todo feitiço tem uma brecha. Garanto que esse tem um buraco grande o suficiente para que eu enfie minha mão lá dentro.
- Não é um feitiço. - Eu digo, fazendo com que as duas se assustarem - É a ausência dele. Você não pode enfiar a mão no vácuo.
Sophie franze o cenho e me avalia.
- Desde quando você se tornou especialista no assunto?
- Eu praticamente desenhei o encanto para Persephone. - Resmungo.
- Isso faz com que você tenha alguma ideia de como desfazê-lo?
Balanço a cabeça.
- É impossível.
Sophie bufa e começa a recolher os cristais.
- Você tem passado tempo demais com Persephone, Miranda. Nada é impossível e acreditar que algo seja vai completamente contra tudo que estamos tentando fazer em primeiro lugar. Eu não vou desistir porque Kat não desistiria, mesmo que uma de nós já estivesse morta! - Ela exclama antes de se colocar de pé e deixar a casa, em direção à floresta.
- Nossa. - Persephone diz, erguendo sobrancelha - Para um grupo que odeia sentimentos vocês conseguem ser bem passionais, às vezes.
- Sophie está frustrada. - Justifico, mesmo sem vontade - Foi você que disse que ela é uma das criaturas mais poderosas do mundo, agora não pode simplesmente dizer que ela não pode fazer algo.
- Anotado! - Persephone responde, sorrindo. - Como foi a leitura?
- Terrível. Apenas me convenceu mais de que tudo é invenção do Inferno. Eles não simplesmente destruiriam alguém que foi contra eles. Eles vivem na crença de que são invencíveis, insuperáveis, uma ou outra revolta apenas reforça o universo de ódio no qual se sustentam. Matar para mandar uma mensagem não é a coisa mais infernal a se fazer. Mentir, porém.
- Faz sentido. Mas só porque eles não fizeram isso, não quer dizer que eles não possam.
- Não mesmo? - Pergunto, cruzando os braços - Se o Inferno pudesse destruir uma alma sem a permissão do dono, por que precisaria do corpo vazio para uma possessão?
Um raio cruza o céu e é acompanhado por um trovão imediato. Só isso já seria estranho o suficiente, mas o dia é o primeiro dia claro e ensolarado do ano. É claramente um sinal.
- É diferente quando a alma está em posse deles, Miranda. - Persephone responde, as mãos indo ao crucifixo com as 12 pedras instintivamente.
- Não se ela tem um link na Terra, Persie. Uma ligação com o mundo físico pode mudar tudo.

Vatra Dornei, Romênia
14 de fevereiro
Eleanor
Kat é jogada de volta no barracão com um empurrão nas costas que a derruba no chão perto de meus pés. Está pálida como a morte, mas não está suja de sangue.
- Vocês sabem que isso me deixa com raiva quase tanto quando matá-la, não é? - Rosno para os dois monstros que a buscaram mais cedo e a atiraram lá dentro.
- E que diferença isso faz com você aí dentro? - Um deles responde. O sol às suas costas me impede de ver seu rosto, mas não aperto os olhos para tentar enxerga-lo melhor.
- Não vou ficar aqui para sempre. E quando eu sair, terei nomes e rostos marcados no cérebro.
O homem parece prestes a dizer alguma coisa, mas o outro o cutuca e ele se interrompe. Com uma risada do fundo da garganta ele bate a porta do barracão e me deixa sozinha com uma Kat ofegante. Me aproximo da vampirinha e descanso sua cabeça em meu colo, afastando o cabelo da testa suada.
- Adoro quão intensa sua raiva soa. - Kat sussurra, quase em um sopro rouco - Como se você realmente pudesse destruí-los com suas palavras.
- Não duvide que farei isso. - Respondo, checando por ferimentos no corpo dela - O que eles fizeram?
- Ah, você sabe. A boa e velha sessão de espancamento com chutes na barriga, peito e cabeça. - Ela engasga e leva um bom tempo para que sua respiração volte ao normal - Mas eu devo dar os devidos créditos ao clã. Eles desenvolveram método. Sequer um osso quebrado, nenhuma ferida externa. Exceto por alguns hematomas na barriga.
Puxo o vestido em frangalhos que ela usa para ver os tais machucados. Todo o torso claro de Kat está repleto de hematomas roxos e azuis até perto do pescoço. Um deles tem formato de pé. No outro eu consigo enxergar marcas de dedo. Preciso respirar fundo para segurar as lágrimas.
- O que eles estão tentando fazer?
Kat precisa de um momento para responder e responde com os olhos fechados:
- Estão apelando para meu senso de autopreservação. Acreditam que eventualmente eu vou preferir me manter viva do que manter você viva. Não importa quantas vezes eu diga que eu não sei como matar você, então eu simplesmente não poderia ajudá-los nem se quisesse.
Ela tenta se mexer e acaba gritando de dor.
- Kat, fica quieta e descansa, por favor. É perigoso. - Minha voz soa cheia de pesar e eu me dou conta de que comecei a chorar.
É simplesmente assim: Eu sou tomada por um sentimento com toda vontade e ele escapa por meus olhos ou por outras reações antes que eu consiga pensar em alguma forma de controlá-lo. Dessa vez algumas lágrimas acabam caindo em Kat, o que faz com que ela abra os olhos.
- Ellie, não. - Ela sussurra, parecendo exausta. A última coisa que ela precisa lidar agora é com sentimentos. - Não precisa se preocupar. Nunca se ouviu falar de nenhuma vampira que tenha morrido por baço rompido.
Esfrego o nariz.
- Viver com dor é tão ruim quanto. Estamos há cinco dias em um buraco ridículo presas pelo clã que queria te destruir completamente e você tem sido torturada em cada um desses dias.
- Não me importo. Sei que iremos sair daqui e estou dolorida demais para me importar com coisas tão grandes. - Ela responde, fechando os olhos outa vez. - Tudo que importa é que está quentinho e confortável aqui e desde que você me mantenha onde eu estou, pegarei no sono em breve e vou acordar melhor. Tenho certeza. Eles não pretendem me matar e eventualmente vão se dar conta de que eu realmente não sei como matar você e desistir de me machucar.
Eu sorrio com sarcasmo entre as lágrimas que ainda não pararam de cair.
- Kat, eles não estão torturando você para que você diga a eles como me matar. - Digo, agora tirando o cabelo dela do pescoço - Eles estão tentando fazer com que eu me mate.

Piatra Neamț, Romênia
15 de fevereiro
Anika
Eu levo um tempinho para notar Selene me observando, de tão concentrada que estou em tentar abrir a caixa que encontrei no andar de cima. Está trancado com algum tipo de feitiço e eu percebo logo que força física não vai adiantar de nada. Quando bufo em frustração, vejo a garotinha, com as feições tão incrivelmente parecidas com as minhas, me observando na porta da escada, com o rosto meio escondido nas sombras.
- Isso é da minha família. - Ela reclama quando encontra coragem para falar.
- Eu também sou. - Devolvo. - Isso aqui era da minha avó e quando minha mãe morreu, se tornou meu por direito.
- Exceto pelo fato de que você também morreu, então se tornou da minha linhagem.
- Eu pareço morta para você?
Ela balança a cabeça em negativa.
- Mas também não parece viva.
Aperto os olhos, olhando para ela com toda a atenção. Selene é jovem demais para participar de muitos dos rituais que nos envolvendo e absolutamente nunca está presente nos momentos em que falamos abertamente sobre o Inferno, mas Persephone ainda deixa que ela participe de diversos feitiços pequenos e sempre treina com ela, levando-a onde quer que vá. Ela é uma bruxa poderosa. Jovem, mas surpreendentemente poderosa. Persephone deixou escapar algo sobre tudo ser dela um dia e como Persephone conhece o futuro e não dá indicações de que terá herdeiras, ela é automaticamente uma bruxa herdeira. Me pergunto o que mais sobre essa família eu ainda estou para descobrir.
- Certo, é seu então. - Pondero - Mas me responda uma coisa: Isso significa que vocês já descobriram o que foi guardado aqui dentro.
- Sim. - Ela responde.
- E...?
- Por que eu diria a você?
- Ah, não sei, Selene. Porque eu poderia te matar em 5 segundos, é um bom motivo?
Ela engasga, mas em seguida sorri.
- Boa tentativa. Eu sei quando vou morrer e não é pelas mãos de ninguém.
- De acordo com as suas previsões. Meus planos podem ser um pouquinho diferentes.
- Você não me assusta.
- Não é isso que estou sentindo daqui. - Respiro fundo, deslizando a língua pelos lábios com delicadeza - Seu coração está disparando e seu rosto está cada vez mais vermelho. Você cheira a medo. E a sangue. Doce, suave e inocente sangue que é particularmente atraente para alguém que não se alimenta direito há tanto tempo. Eu teria te matado no natal, sabe. Você era minha. E seu coração batia tão forte, tão desesperado para ser parado...
- PERSEPHONE! - Ela grita, com a voz várias oitavas mais alta do que a altivez que ela tinha antes.
Eu explodo em uma gargalhada que faz com que minha barriga doa, mas estou feliz por ela ter reagido. Meu próprio discurso estava me deixando terrivelmente próxima de seguir com minha ameaça vazia. Não pretendia matar uma criança de 8 anos e definitivamente não a irmã mais nova da nossa maior aliada, mas toda a conversa sobre o sangue e o coração dela fez com que minhas veias começassem a doer. Sinto falta do sangue quente. Espero poder experimentá-lo uma última vez.

Vatra Dornei, Romênia
18 de fevereiro
Eleanor
Acordo de repente com a luz que entra entre as madeiras que formam o barracão. A manhã chegou de repente e parece quente. Quente demais. Assim que me sento e esfrego os olhos vejo a palha remexida e a ausência de Kat. Eles a levaram antes de amanhecer de novo e desta vez eu estava exausta demais para acordar com o movimento. Enfio as unhas nas mãos para não explodir de raiva. Se eu pudesse eu já teria derrubado cada pedaço de madeira desse barracão e destruído qualquer um que tentasse tocar em Kat com as minhas próprias mãos, mas é claro que eu não posso. Só vampiros podem entrar e sair daqui sem serem conduzidos, o que é outro dos motivos pelos quais eles costumam deixar Kat machucada demais para sair.
Fico de pé e começo a andar pelo barracão para esticar as pernas. Chuto o chão enquanto ando fazendo buracos maiores do que o esperado que resultam em uma poeira absurda. Me imagino chutado a cara de cada dos membros do clã romeno. Me imagino destroçando eles de dentro para fora, arrancando cada órgão não vital, antes de arrancar o coração e entregar para os lobos que eles sempre mantem por perto. Assim que penso neles, ouço um uivo. Cada pelo do meu corpo se arrepia. Nenhum lobo uiva de dia, mesmo que ainda seja muito cedo. No mesmo instante sinto minhas veias ferverem.
A pedra de safira sobre meu coração esquenta e eu puxo a corrente para olhá-la. Não que eu precise olhar para ela para ver o que minhas veias já acusam e meu pescoço já clama: Está negra. Kat está sangrando. Minha visão fica vermelho escuro e eu corro até a porta do barracão, mesmo sabendo que não vai levar a lugar nenhum. Rosnado desesperados escapam dos meus lábios conforme minhas mãos arranham uma parede invisível que recobre as paredes de madeira. É infrutífero, não tem como eu alcançar a porta real abri-la e sair. Mas eu não paro. Continuo arranhando pelo que parece horas e gritando até minha garganta doer. Eu ouço pessoas se aproximando, risadas de desdém e amaldiçoo toda sua existência e cada respiração que eles dão. Meus pulsos doem e eu desejo que eles quebrem, mas não paro. Não posso parar. Chega ao ponto de eu não saber mais porque estou fazendo aquilo, só sei que preciso.
A razão me atinge quando outra parte do meu corpo começa a doer e eu percebo que machucaram Kat em outro lugar. Um grito aterrorizado sai de minhas entranhas, tão gutural que nem reconheço como meu, tão alto que faz com que os lobos voltem a uivar. Minha alma estúpida me prende aqui. A mesma alma que é a razão pela qual Kat está sendo torturada enquanto eu permaneço viva. Indestrutível. Deslizo pela parede e caio no chão com um baque. Minha raiva se transformou em lamento, meu corpo agora pertence a minha tristeza. Minha maldição se tornou quem eu sou. Por meio segundo, uma faísca dentro de mim, eu me permito imaginar o que aconteceria se eles vencessem. Se eu me permitisse morrer. Kat morreria no segundo seguinte, mas ela deixaria de sofrer. Eu poderia pensar em uma opção para que a alma dela fosse salva. Talvez... Talvez eu pudesse negociar sua alma, em troca da minha vida. Ela teria paz e o Inferno teria o fim da luta que estão tentando evitar. O fim do Réquiem.
O meio segundo vai embora em um instante. É de Kat que eu estou falando. Ela não quer paz. Ela não quer grandes atos em nome de sua felicidade. Ela quer grandiosidade, vitória. Ela tem orgulho do que fez e do que criou. E eu sou uma dessas coisas. Desistir não é uma opção. Deixar que eles vençam muito menos. Salvar Kat não é enviar sua alma para o céu. É mandar a alma de seus inimigos para o inferno. E eu farei isso não importa o que aconteça daqui em diante.
Esse pensamento parece acalmar algo dentro de mim. Alcanço a pedra em meu pescoço e respiro fundo. Sei que eles não vão matá-la. Eles querem que eu me mate antes e eu não vou deixar isso acontecer. Mesmo que ela esteja machucada e sangrando, em breve trarão ela de volta e a deixarão sofrer em paz. E então eu darei um jeito para que ela melhore. E pensaremos juntas em uma forma de sair daqui. Repito isso para mim mesma mil vezes, de olhos fechados e tentando ignorar a dor que percorre meu corpo indicando os lugares onde Kat sangra. Pescoço e barriga. Não sei o que fizeram com ela, mas algo dentro de mim indica que provavelmente tem algo a ver com os lobos.
Muito tempo se passa. Não vejo a sombra mudando, mas o facho de luz solar que incide sobre minha pele muda de posição. Não conto o tempo, conto minhas respirações e tento relaxar, meditar. Preciso controlar meus sentimentos e pensar o mais racionalmente possível. O que a Ellie, vampira sem alma que era o maior orgulho de Kat, faria? Como a garota que congelava uma sala inteira com um olhar se mostraria digna de adoração? No carro, pensei em pedir para os fantasmas que me perseguem que fossem atrás de Sophie e contassem a ela onde estávamos, mas cada um dos fantasmas que apareceu foi sem uso. Eles não conhecem Sophie e já estão tão loucos que simplesmente não teriam como entender a importância disso tudo. Só existe uma alma amaldiçoada na Terra que poderia me ajudar, mas Deyah desapareceu há semanas.
- Se ela aparecesse e me ajudasse eu provavelmente faria qualquer coisa que ela quisesse. - Digo em voz alta. Minha voz soa rouca após os minutos (Talvez horas) de grito seguidos de horas de silêncio.
Estou tensa, então meu corpo não relaxa ou se cura como deveria. Me coloco de pé outra vez e volto a andar para relaxar. Preciso ficar calma. Consciente. Racional. Por todo tempo que conseguir. Repasso lembranças e repito mantras internos. Procuro descobrir o que fazer, mas sem permitir que um fiapo do ódio que sinto tome conta de mim. Mais algumas horas parecem ter se passado quando eu me sento outra vez. Está quente e mesmo que não sinta nenhum sintoma de desidratação, não ia reclamar de ter um pouco de água.
Vou para o cantinho do barracão e me sento com as pernas apertadas contra mim. Invoco um silêncio interior intenso, que só está aqui agora por causa das horas de sentimentos extravasados e fico tão quieta que poderiam pensar que morri. É por causa desse silêncio completo, do fato de que eu poderia ouvir até os grãos de poeira caindo no chão, que eu ouço os passos se aproximando. Normalmente, Kat é devolvida aos empurrões, entre risadas cruéis e gritos de escárnio e seus carrascos evitam entrar no barracão. Hoje, as coisas seguem de forma diferente.
Ouço a porta abrir, mas não me movo. Meu coração dispara quando percebo que dois homens estão entrando no barracão. Provavelmente acreditam que eu esteja dormindo, ou melhor, que seu plano deu certo. Digo a meu corpo para ficar quieto, preciso ouvir Kat. Lá está ela. Os batimentos irregulares e a respiração alta de alguém que tem os pulmões machucados. O cheiro do sangue dela invade meu nariz e meu corpo arde em ódio outra vez. Repito que meu corpo se acalme, quase gritando para ele. Não adianta me permitir ser dominada pelo ódio agora, quando vou poder ter alguns frutos disso em alguns segundos. Kat é depositada no chão a alguns metros de mim e um gemido de dor escapa dela quando isso acontece. Os homens sussurram entre si, mas o esforço para me manter calma é demais para que eu me concentre no que eles estão falando. Como eu esperava, eles se aproximam. Um deles me chuta com a ponta do sapato. Ainda não, Ellie. Ainda não. Outro sussurro e um deles se abaixa para ficar mais perto de mim. Meus caninos surgem antes que eu possa pensar no que isso significa. Ele me toca e então se aproxima para me cheirar.
Não leva nem um milésimo de segundo. Minhas mãos vão exatamente para seu pescoço, conhecendo exatamente onde eu preciso pressionar para que ele não tenha mais cabeça. Não preciso de treinamento físico; tenho o elemento surpresa e uma raiva que recebi de presente do Inferno. O vampiro acaba sem cabeça tão rápido que o outro sequer tem tempo de cogitar sair correndo. A briga com ele dura um pouco mais de tempo do que com seu colega, mas ele também não tem chances. Por mais fortes que possam ser seus braços e seu abdômen, a cabeça continua sendo uma parte frágil. Não a arranco, a estouro. Meu ódio por ele permite que eu o faça lenta e dolorosamente. Cuspo no chão sujo de miolos quando termino. Humanos comuns fazem coisas impossíveis quando recebem cargas de adrenalina e eu sou humana o suficiente para me incluir nisso.
Chuto os dois corpos para fora pela porta que deixaram aberta, pegando a cabeça decapitada pelos cabelos antes de atirá-la para longe. Assobio para os guardas que ficam mais distantes do barracão antes de fechar a porta com tudo. Só depois que faço isso é que me dou conta de que meus braços atravessaram a barreira invisível enquanto eu segurava a cabeça do vampiro morto. Não tenho tempo para me arrepender ou para considerar o que poderia ter feito, quando olho para Kat ela é tudo que importa.
- Isso foi... Incrível. - A frase soa entrecortada porque sua respiração é completamente irregular. - Não que eu esteja surpresa.
Neste ponto já estou sentada ao seu lado, observando os ferimentos. Kat foi mordida pelos lobos. Primeiro no pescoço e em seguida na barriga. Enquanto o pescoço só mostra marcas de mastigação, a barriga foi dilacerada. O vestido que ela usava, que já estava em frangalhos, agora está completamente rasgado do lado direito, com fios entrando em contato com os órgãos expostos pelas mordidas.
- Eles te deram aos lobos? - A pergunta sai engasgada.
Kat sorri, os dentes sujos pelo próprio sangue.
- Lobos incrivelmente bem treinados. Nem eu teria tanto autocontrole se tivesse uma presa pequena e desprotegida com sangue fresco perto de mim.
- Mas os lobos se agitaram horas atrás. Você não pode estar sangrando por todo esse tempo.
- Estou sim. Eles... - Ela engasga com o ar e cospe sangue. Se ela não fosse vampira seria impossível que ela estivesse viva, mas com a vida presa à alma no Inferno, ela segue assim até conseguir sangue. Ou até perder todo o seu. Alguns segundos de respirações fundas se passam antes que ela continue: - Eles estavam tentando provar a teoria de que um vampiro pode sangrar até morrer. Mas tempo demais se passou e eles resolveram que é melhor deixar você descobrir isso.
- Mas eles não querem matar você! Não podem, porque sabem o que meu ódio é capaz.
Os olhos claros de Kat se fixam nos meus. Ela está envolta em um manto de dor, mas sua mente está clara como a luz do sol. Ela não tem o medo para impedi-la, não tem todo um grupo de sentimentos para incapacita-la. É com uma clareza de voz quase completa e uma frieza absoluta que ela diz:
- Eles descobriram, Ellie. Ou acham que sim. Eles sabem como capturar sua alma e destruí-la com o auxílio de uma bruxa, mas sabem que antes disso eles precisam destruir cada ligação física que você tem na Terra.
- Que graças a Persephone significa cada uma de vocês. - Tremo com a realização tomando conta de mim por completo. - Eles estão indo atrás das garotas.
Kat fecha os olhos. É tudo que eu preciso para saber que estou certa. Eu poderia explodir por mil sentimentos diferentes, mas nenhum se fixa dentro de mim. Minha mente começa a trabalhar, indo em mil direções diferentes, buscando uma solução para aquilo.
- Eu não posso deixar isso acontecer. - Sussurro. - Não posso deixar que as matem por minha causa. Elas precisam ser avisadas, precisam fugir... Precisam. - Minha voz morre. Se elas estiverem sendo observadas como nós estávamos, elas estarão mortas antes que o dia termine. Se é que elas já não estão.
Mas elas não estão, certo? Se estivessem eu saberia, a ligação serve para isso. A pedra em meu peito continua negra, mas considerando que a vampira que está bem na minha frente tem uma poça de sangue onde seu corpo repousa, isso não quer dizer nada sobre as que não estão aqui.
- Precisamos fazer com que você pare de sangrar. - Digo, me aproximando de Kat. Tenho medo de tocá-la e fazer com que desmaie de dor.
- Seus truques de Réquiem envolvem uma forma de curar vampiros sem o uso de sangue humano? - Ela pergunta, sarcástica, abrindo os olhos. - Porque você já deveria ter falado sobre eles bem antes.
- Precisa existir uma forma, você não vai morrer assim.
Ela parece tentar dar de ombros, mas geme de dor antes de conseguir começar a se mover.
- Não é pior do que a última forma como eu morri. - Seu olhar se anuvia por um instante - E eu estou tão contente por você não ter cedido a pressão deles. Você será a última de pé, Ellie. Você e Sophie. E eu acredito que vocês vão conseguir terminar tudo.
- VOCÊ ESTÁ DESISTINDO? - Grito, querendo pegá-la pelo pescoço por isso.
Ela sorri outra vez.
- Eu perdi ao menos dois órgãos internos vitais. Me reservo o direito de fazer isso.
- Precisa existir um jeito. - Rosno. A raiva vai tomar conta de mim se eu não respirar fundo. Começo a soltar fatos para me concentrar - Tudo que aconteceu nos últimos 181 anos. Toda a sua história. Tudo isso não aconteceu para que você terminasse no meio da Romênia, depois de ter sido atacada por uns lobos controlados por alguns idiotas.
- Pense assim: Estou sangrando até a morte. Uma morte que pouquíssimos vampiros tiveram em todos os séculos desde que o vampirismo começou. - Ela tosse outra vez, mas não chega a cuspir sangue e demora menos para se recuperar. - Sempre temos humanos por perto. Não gostamos de admitir, é claro, mas por mais poderosos que possamos acreditar que somos, temos uma dependência absoluta aos seres frágeis que destruímos.
Quase não ouço a última frase, porque desta vez a palavra humanos ressoa dentro de mim. E eu me sinto estúpida no mesmo instante. É o motivo pelo qual eu não posso sair deste barracão, o motivo pelo qual Olívia se sente claustrofóbica perto de mim, o motivo pelo qual se eu der meu sangue para alguém e em seguida matar a pessoa, absolutamente nada acontece.
- Kat. Nós temos sangue humano. - Digo prendendo o cabelo em um coque - Você está olhando para cinco litros dele.
Ela franze o cenho antes de arregalar os olhos.
- Você enlouqueceu. - Diz, simplesmente.
- Momentos de desespero... - digo.
- Ellie, eu não vou me alimentar de você. Nós nem sabemos se isso é seguro.
- Você está morrendo! Uma chance em um milhão precisa ser agarrada.
- Ainda assim. Um vampiro se alimentar do outro, é obsceno.
- Eu não sou uma vampira, Katerina Petry. Não tenho sido há cinco meses.
- Continua sendo um ser imortal!
Para alguém que está sangrando e sem um bom pedaço do corpo, ela consegue ser absurdamente firme no que quer. E para uma vampira, ela consegue ser absolutamente irracional quando o assunto sou eu.
- Eu sou o que sou por causa de você e estou aqui pelo mesmo motivo. Eu não vou permitir que você morra, não interessa o que eu tenha que fazer a respeito.
- Ellie.
- Eles sabem o que sua morte fará comigo, Kat. Eles temiam matar você por isso. Quer que isso aconteça? Quer que eu me torne uma besta terrível porque você desistiu de tudo e se deixou morrer por causa de puritanismo estupido e regras que ninguém mais respeitaria em uma situação como esta?
Ela aperta os lábios. Quando levanto a ponta da minha unha até uma veia em meu pescoço suas mãos correm para o meu braço.
- Eu não poderia machucar você. - Diz em um sopro de voz.
Pego sua mão e coloco entre as minhas.
- Você não vai. Cada gota de sangue que você beber será substituída no instante seguinte. Você poderia se alimentar de mim por mil dias. Além disso, como você mesma gosta de dizer, você me criou, Kat. Fez de mim quem eu sou. Sou sua para machucar e destruir porque devo tudo a você.
Solto sua mão para alcançar meu pescoço outra vez. Ela faz uma última tentativa, com um sussurro de não. Sua expressão não aparenta tristeza, ou dor, ou nenhuma outra coisa. É uma espécie de adoração. Já a vi olhando para mim desta forma, como se eu fosse mais um conceito do que um ser vivo. Algo intocável. Eu não entendo. Nunca entendi. Antes, porque não podia sentir. Agora porque não é o que sinto por ela.
- Nós já estivemos nessa situação antes, lembra? - Sussurro quando minha unha alcança a veia saltitante em meu pescoço. Lhe ofereço o pescoço ao invés do pulso porque ela precisa de todo sangue que puder, o mais rápido possível. - Eu sei que você fingia daquela vez e que estava na minha mente para garantir que meu sangue estaria a sua mercê. Mas você sabe que não pode recusar meu sangue, Katerina. Sabe o que acontece quando você me desafia.
Um filete de sangue escorre do meu pescoço e eu vejo seus olhos escurecerem. Me inclino em sua direção, mas nem preciso me abaixar por completo. Com uma força que não sei de onde vem, Kat se senta e ataca meu pescoço como se estivesse tocando sangue pela primeira vez.
Eu me lembro da primeira vez que fui mordida. A dor era como se duas agulhas enormes entrassem em minhas veias rasgando tudo no caminho. O medo tomou conta de mim e eu desejava mais do que nunca que acabasse. É completamente diferente agora. Primeiro, porque eu sei que não posso morrer. Depois, porque eu conheço Kat. Sei o que ela é capaz e o que ela fará. Finalmente, porque outra coisa acontece. Sou carregada por uma sensação que conheço bem demais. Estive lá por anos e fui consciente disso por muito mais tempo do que queria. Eu queimo, mas é muito mais que isso. Não é por fora, não é fogo em mim. Eu sou o fogo.
Ainda sentindo os dentes de Kat em minha pele e seus lábios sugando tudo que consegue alcançar, eu tenho um instante de pânico. Minha alma não está mais no Inferno e ainda assim a mordida dela me carrega para lá. Clica na mesma hora. Eu estou conectada com ela. Com a alma dela. Enfio a mão entre seus cabelos e a pressiono contra mim com mais força. Fecho os olhos. Ouço gritos e choro. Sinto o desespero, a dor e todas as outras piores sensações que um humano pode experimentar. Nada vem com o impacto que viria se eu realmente estivesse lá, se a ligação terrena não existisse. Eu poderia afastar tudo para o fundo da minha mente, mas não faço isso. Estou na alma de Kat. Se eu quisesse eu poderia simplesmente acessar as partes mais obscuras e secretas da existência dela.
No momento em que penso nisso, ela se afasta e para de joelhos à minha frente. Me observa com os olhos injetados e os lábios sujos de sangue por um longo instante, antes de dizer:
- Eu estava tão dentro de você quanto você de mim, Ellie. Não seja absurda.
Sorrio.
- Está melhor?
- Pergunta idiota. - Ela responde, se colocando de pé e tentando arrumar o vestido rasgado - Você sabe que diabos acabou de acontecer entre nós? Eu mordi você e nossas almas se conectaram. Todas as buscas de Persephone sobre como nos conectar com a nossa alma no Inferno. Como ir para lá sem perder nossos corpos. E a resposta era você. O tempo todo. Você sabia disso?
Discordo com a cabeça.
- Não é como se eu permitisse que vampiros me mordessem o tempo todo, Kat.
- “O Réquiem possui as chaves”.
- Pensei que significasse o conhecimento sobre a saída.
- Mas é no sentindo físico da coisa... - Sua voz morre aos poucos e ela para onde está, levando a mão à testa.
A observo com meu corpo assumindo uma sonolência natural. De repente, Kat volta a se ajoelhar ao meu lado e toma meu rosto entre as mãos.
- Obrigada. - Sussurra, com a respiração atingindo meu rosto e o cheiro do meu próprio sangue voltando para mim. - Você é o ser mais incrível que já pisou nessa Terra e eu fico honrada por você ainda acreditar que você é minha criação. Adoro você no sentindo mais puro da palavra, Ellie.
Não permito que a sensação gostosa dentro de mim se prolongue por muito tempo. Meus sentimentos são minha maldição. Aceitá-los é decretar meu fim.

Katerina
Sendo tomada por uma languidez delicada, Ellie pega no sono rapidamente, com a cabeça repousando sobre minhas coxas. Seu corpo vai precisar de pouquíssimo tempo para repor o sangue que acabou de perder, mas ela está febril e enrubescida enquanto seu sistema imunológico trabalha.
O sangue dela dentro de mim queima como se fosse ouro direto de uma caldeira, mas eu me sinto como se estivesse viva outra vez. Parte de mim acredita que eu posso sair por aquela porta e enfrentar cada um dos vampiros de guarda com meus próprios punhos, mas outra parte sabe muito bem que isso é apenas insanidade causada pela proximidade que estou de minha alma. Estou cheia de uma raiva infernal e meu corpo deseja fazer qualquer coisa que faça a dor parar. Isso é o estado natural de um vampiro, mas agora eu consigo vê-lo com clareza. Não existe sede me impedindo de ver o que está acontecendo. Eu queimo. O sangue do Réquiem criou uma ponte entre mim e minha alma e somos quase uma só novamente, mesmo que por um pequeno espaço de tempo. Quem diria que a resposta que Persephone busca está na veia que pulsa a centímetros de meus dedos?
Ellie se encolhe quando toco a veia onde mordi. Não por dor, é apenas uma reação involuntária que ela tem quando alguém perturba seu sono. A própria Morte considerou Ellie minha maior fraqueza e em momentos assim, eu consigo entender porquê. Nós entendemos as fraquezas e delicadezas uma da outra, nossos temperamentos e gatilhos. Fomos tudo que a outra tinha por tempo demais. O sangue que corria entre nossas veias era como um laço. E mesmo ela não sendo mais vampira, o laço não parece ter se afrouxado - não que eu saiba por qual motivo. Ela é como um pedaço estranho de mim. A parte de mim que continuaria vivendo e sendo indestrutível, mesmo depois que eu fosse embora.
Fico feliz pelo que ela fez hoje. Sei que é Felicidade, o sentimento - isso é quão próxima estou da minha alma. Me envergonho por ter estado perto de desistir, mas tenho orgulho de ter conseguido criar algo que me salvasse. A parte estranha é a certeza que tenho dentro de mim de que se estivesse com uma versão humana com qualquer outra das minhas doze vampiras agora, eu continuaria sangrando até a morte, por horas e mais horas. Não que duvide do respeito que elas têm por mim ou da admiração, mas o laço entre Ellie e eu é completamente diferente.
Pego a esmeralda descansando sobre meu peito. Ela está verde e límpida agora o que significa que nenhuma das meninas está sangrando. Suspiro aliviada, mas sei que isso não tira o risco que elas estão correndo. Não muda o fato de que elas estão sendo procuradas por cada um dos vampiros do Clã Romeno e que mesmo que elas nos achem, serão recebidas por um acampamento pronto para matar cada uma delas antes de matar Ellie. Nós precisamos arranjar uma forma de prepará-las. De avisar sobre o que está acontecendo.
A sensação de inutilidade me fere por dentro. Estou presa aqui e tive sorte de ter carcereiros tão sádicos. Eles podiam ter me matado rapidamente hoje cedo e não haveria sangue de Ellie que me salvasse, mas não fizeram porque queriam que eu sofresse. Me pergunto o que farão quando procurarem por mim amanhã e descobrirem que sigo viva e respirando. Apesar da ideia ser perturbadora, a ideia de ação me conforta. Preciso sentir que estou fazendo algo. Bocejo, com a adrenalina no sangue abrindo espaço para a satisfação. Coloco a cabeça de Ellie no chão delicadamente e me deito ao seu lado, me aconchegando na curva que seu corpo encolhido faz, para pegar no sono assim como fazíamos quando Pierre ainda era um bebê entre nós.

Piatra Neamț, Romênia
Kaylee
Quando as pedras voltam ao seu tom normal e puro, estamos todas sentadas em um círculo no primeiro andar. Um silêncio perturbador tomou conta da sala e cada um dos presentes parece tomado por algum tipo de encanto. As pedras sangraram durante todo o dia. Nós fomos acordadas pela sensação de formigamento no pescoço, que foi seguida pelas pontadas na barriga algumas horas depois. Ficamos nessa sala, observando a passagem do tempo e esperando por algum sinal do que estava acontecendo e onde estava acontecendo. Quem quer que tenha sagrado sangrou durante todo dia e agora parece ter parado de sangrar aos pouquinhos. Não tem como isso ser um bom sinal.
- Agora é um bom momento para seus poderes mediúnicos funcionarem, Persephone. - Sophie diz, finalmente quebrando o silêncio desolado.
Olho para a falante com cuidado e a pego roendo as unhas. Sophie não é uma pessoa que demonstra nervosismo com facilidade, com sua fama de nunca sentir medo, mas os onze dias desde o sequestro de Kat e Ellie e o fato de que durante todo esse tempo não encontramos nenhuma pista de onde elas estão, está fazendo um estrago nos nervos dela. Acho que ela preferiria que as meninas estivessem definitivamente mortas e isso pudesse ser provado, porque aí ela poderia fazer outras coisas.
- Ah, eles estão. - Persephone diz, com um suspiro - Só não sei se vocês vão gostar de ouvir o que eles têm a dizer.
- Elas...? - Anika começa arregalando os olhos.
A bruxa balança a cabeça.
- Não, não. Até onde sei, elas estão vivas, apesar de eu não ter entendido completamente como. Elas provavelmente nunca serão absolutamente honestas a respeito de como sobreviveram, mas isso não é importante agora. O problema é outro e é bem mais complicado que isso. - Ela se cala e observa a audiência.
Além de nós onze, que estamos no mesmo círculo que ela, Amelie, Pierre e Selene observam tudo sentados em um canto em silêncio. Apesar de serem considerados apenas acompanhantes nas loucuras que estamos envolvidos, eles têm ajudado da forma que podem na busca por Kat e Ellie, mesmo quando isso significa apenas ficar fora do caminho.
- Será que dá para você falar de uma vez e parar de criar tensão desnecessária? - Charlottie reclama, antes que a irmã o faça.
- Eles descobriram como capturar e destruir a alma de Ellie. - Persephone diz. É possível sentir no ar que a sala vai explodir em cochichos nos próximos três segundos, então Persephone levanta as mãos antes que isso aconteça. - Mas antes de fazer isso eles precisam destruir toda ligação física que Ellie possui na Terra.
- E o que isso significa? - Pergunto, no silêncio que se segue.
- Eles estão vindo atrás da gente. - Sophie responde, as feições obscuras. - Precisam matar todos nós. A começar pela linhagem sanguínea principal de Ellie. - Pierre engasga e ela sorri. - É, inclusive você. Depois eles vão destruir todo mundo que está ligada a ela de outras formas. Ou seja, todas as doze.
- Mas você... - Charlottie interpela - Não têm como matarem você.
- Eu sei, mas eles podem deixar para se preocupar com isso depois que tiverem matado eles cinco. - Ela faz um gesto amplo apontando Anika, as gêmeas, Tatiana e Pierre. - A prioridade agora é manter vocês vivos. Precisam ir para um lugar seguro. Já que Persephone avisou a tantas bruxas do norte onde ela está, vocês precisam ir para o sul o quanto antes. Existe uma chance, nada pequena, de que eles estejam nos observando durante todo esse tempo e de que possamos sofrer um ataque ainda esta noite.
E a explosão de cochichos deixa de ser controlada. Segurança é a única coisa que gostávamos de fingir ter depois de virmos para Piatra Neamț e ela deixou de existir agora que o clã que jurou destruir Kat também pretende nos destruir
- Não existe lugar seguro próximo. - Anika reclama - E se o risco é de que um clã de vampiros sanguinários atravesse aquela parede de vidro agora e mate nós cinco, nós precisamos de um lugar seguro imediatamente.
Incitados pelas palavras dela, todo mundo encara a parede de vidro, onde nada além de um pôr-do-sol alaranjado encara de volta. Como estou olhando para o lado dela, percebo quando Amelie se levanta e limpa a garganta como sempre fazia antes de discursar aos Apreciadores.
- Existe um lugar seguro próximo. Estamos na barreira dele. - Ela diz, fazendo todas a encararem.
- Nós não podemos entrar em solo sagrado, Amelie. - Digo, cuidadosamente.
- Podem, se as bruxas da cidade concederem a proteção a vocês.
- VOCÊ SURTOU?? - Persephone rebate, quase vermelha. - Nós não podemos simplesmente conceder proteção a vampiros depois de 100 anos.
- Sua família inteira se preparou para nos ajudar com nosso propósito durante todo esse tempo, Persephone. - Sophie diz - Você vai deixar tudo se perder por causa de um bando de vampiros selvagens simplesmente porque não quer conceder proteção a nós?
- Não é questão de querer, Sophie. Piatra Neamț é uma das poucas cidades completamente seguras para bruxas na Romênia. Deixar um vampiro entrar é abrir precedentes.
- Nós não vamos matar ninguém da sua família, Persie. - Miranda diz, cuidadosamente.
- Anika estava ameaçando Selene não faz 3 dias.
- Anika! - Sophie exclama. Todos os outros olhares acusam a vampira.
Ela dá de ombros.
- Eu estava entediada. Não quer dizer que eu realmente faria algo que colocasse todo nosso plano a perder. Ao contrário de Persephone.
A bruxa vidente bufa de frustração e olha para Miranda em busca de ajuda. Por mais próximas que elas pareçam estar, ela parece não se dar conta de que quando a vida de Miranda está em risco, ela não vai levar em consideração princípios dos outros. Persephone para de repente e empalidece com uma noção repentina. Então balança a cabeça e encara Sophie, compreendendo que ela é nossa líder.
- Um dia. Apenas por esta noite e o dia de amanhã. Então nós vamos enviar vocês para um lugar ao sul ou descobrir uma forma completamente segura de destruir todo clã romeno.

23 de fevereiro
Valentina
Não foi apenas um dia. Chegamos a uma casa segura no centro de Piatra Neamț no dia 18 à noite e na manhã do dia 19, todas as bruxas da cidade queriam nossas cabeças arrancadas em praça pública. Como Persephone permitia vampiros na cidade mais sagrada da Romênia? Com muito tato, a bruxa responsável por nos colocar em Piatra Neamț conseguiu convencer as bruxas de seu clã a conversarem. Persephone e Sophie ficaram responsáveis pela diplomacia e nós fomos proibidas de pisar fora da casa enquanto elas não resolvessem as coisas. Como resultado, estamos presas aqui há cinco dias. E sem nenhum avanço na situação Kat e Ellie.
Não sei dizer qual de nós está mais impaciente, estando presas e encontrando uma bruxa de cara feia cada vez que colocamos a cara na janela. Pelo menos estamos seguras, mesmo que seja da pior forma possível. Estou na sala de estar, ouvindo música com o celular para bloquear os sons dos passos sem rumo das outras meninas da casa e de Miranda brincando com as facas que encontrou na cozinha e passou horas afiando. É óbvio na postura dela que ela torce para errar a mira e quebrar a janela. Tenho os pés sobre as costas do sofá, o corpo atravessado no assento e o pescoço balançando perigosamente no fim dele. As facas passam sobre minha cabeça tão rápido que tudo que eu consigo ver delas é um flash, quando sua lâmina é atingida pelo fecho de luz da janela. Quase desejo que uma delas caia sobre mim para que eu tenha uma desculpa que seja para beber uma gotinha de sangue.
Mas Miranda é boa demais nisso - com mais de cem anos de treinamento. Mesmo quando me levanto abruptamente, com uma cambalhota, ela simplesmente move a mão que está segurando a faca alguns centímetros para cima e a lâmina passa muito longe de mim, apesar de eu conseguir ouvi-la. Ela me encara com as mãos na bainha da última faca, erguendo a sobrancelha.
- Não tem nada que você queira me contar sobre as coisas que você tem feito com Persephone? - Pergunto, esperando a revirada de olhos.
E ela vem junto com um bufo.
- Você quer saber sobre minhas descobertas?
- Eu alcancei um nível completamente novo de tédio, Miranda.
Ela faz uma careta antes de jogar a última faca, entre o espaço do braço que tem a mão na cintura.
- Você deu azar. Faz cinco dias que estamos presas nessa casa sem nada que não seja completamente mundano e absolutamente entediante. Não tem como descobrir coisa alguma.
- Tem que ter algo que você não tenha me contado.
- Duvido muito.
- Por favor, Miranda. Se eu não for distraída com uma história agora, eu vou ser forçada a pegar uma dessas facas e me ferir mortalmente só para poder sair e me alimentar.
- Você está blefando. - Ela diz, cruzando os braços. Mas percebe no meu olhar que eu não tenho nada a perder e completa: - Não vão deixar que você saia para se alimentar assim.
- Também não deixariam que eu sangrasse até a morte. Especialmente quando uma de nós pode ter tido o mesmo fim.
- Valentina!
- O que? Por que todo mundo fica fingindo que não é uma possibilidade? Kat pode perfeitamente ter morrido naquele dia e se isso aconteceu nós precisamos seguir em frente sem ela.
- Persephone disse que elas estão vivas.
- Persephone também sempre diz que não tem como ter certeza de nada.
Miranda faz uma pausa e me observa com cuidado. Estamos as duas de pé no meio da sala de estar, na mesma altura, com rosto quase idênticos. Somos gêmeas. Entendemos uma à outra como ninguém e, se estivermos próximas, conseguimos nos comunicar sem palavras. Mas quando nos afastamos, quando temos interesses diferentes, as diferenças entre nós ficam óbvias demais.
- Você acha que nós conseguimos fazer isso sem Kat? - Ela pergunta, depois de um minuto.
Pondero.
- Eu sei que nós temos a bruxa mais poderosa do mundo do nosso lado. Além do Réquiem, que, se Kat realmente estiver morta, tem fúria o suficiente para destruir o Inferno sozinha sem quebrar nenhuma unha. Persephone disse que nós não precisamos ser treze para terminar o que começamos e se Kat escolheu cada uma de nós é porque sabe que poderíamos fazer isso.
- Ela não escolheu nós duas.
- Não desistiu de nenhuma das duas também.
Ela balança a cabeça e desvia o olhar. Sinal claro de que quer me contar algo, mas não sabe como. Espero, mas logo perco a paciência. Estou prestes a gritar que diga logo, quando ela fala:
- Persephone disse que seremos dez quando descermos ao Inferno. E sete quando tudo acabar. Também disse que mudanças drásticas acontecerão no Exército antes do equinócio de primavera.
Ergo a sobrancelha.
- Por que ela te conta esse tipo de coisa e não ao resto do Exército?
- Ela disse que confia em mim. Eu pareço me importar com ela e com o que ela tem a oferecer, ao invés de simplesmente vê-la como uma ferramenta para nossos planos.
- Ela sabe que você é uma vampira que na verdade só está buscando uma forma de ter poderes depois que receber a alma de volta né?
Ela bufa e passa por mim para se sentar no sofá.
- Duvido que ela saiba dessa última parte. Mas também duvido muito que ela não tenha os próprios motivos para confiar essas coisas a mim.
Me viro de vez para ela, finalmente entretida.
- O que você quer dizer?
Miranda suspira.
- Você ouviu sobre Deyah. Conhece Anika. Conheceu Bianka. Todas elas têm a mesma característica de nunca fazer nada sem segundas intenções. Cada uma de suas vontades seguem princípios, cada uma de suas ações exigem algo de volta. O fruto não cai longe da árvore, duvido que Persephone não aja da mesma forma.
- E que você acha que ela quer? - Pergunto, me sentando.
- Não é exatamente querer. É algo que ela sabe e tem me escondido por algum motivo. Charlottie se aproximou dela com a mesma velocidade que eu, e ao contrário de mim, Lottie será uma bruxa quando completarmos nossos planos. Persephone tinha mais razões para tratá-la como pupila do que a mim.
- Você tem alguma teoria sobre o que ela sabe?
Ela discorda com a cabeça.
- O que é um dos motivos pelos quais eu fico na cola dela o tempo todo. O que quer que ela saiba sobre mim pode servir como minha forma de conseguir o que quero um dia.
Eu rio.
- Você definitivamente é pupila dela.
Miranda simplesmente dá de ombros e nós duas caímos na gargalhada. Ainda estamos rindo quando a porta da frente é aberta com agressividade e duas bruxas frustradas e uma garotinha entram na sala, suadas e cansadas como se voltassem da guerra.
- Vou concordar com a teoria de Miranda sobre a ligação com o Inferno estar na Romênia, mas vou corrigir para o próprio Inferno é na Romênia. - Sophie resmunga assim que nos vê - Eu sinto que acabei de ter três dias de debates com o próprio diabo.
- Bruxas romenas são ditas de serem descendentes diretas de Lilith, então faça as contas. - Persephone completa, parecendo tão exausta quanto a parceira.
Quando ela fecha a porta atrás de si o ruído da chegada das outras vampiras que estavam espalhadas pela casa já é próximo e algumas delas já estão na sala. Sophie e Persephone se sentam ao nosso lado e a dona da casa pede que a irmã mais nova pegue um copo d’água para ela. Quando Kaylee completa o grupo, chegando ao lado de Amelie, Persephone solta um suspiro alto antes de dizer o que todas esperam:
- Vocês podem ficar. Por enquanto e com algumas condições.
Selene chega com a água e Persephone para de falar fazendo com que Sophie assuma:
- Nós prometemos que só manteríamos vampiras na segurança da cidade até termos Kat de volta. Que nem todas vocês ficarão aqui dentro. E que... - Ela faz uma pausa e fecha os olhos se preparando para as reações - Nós destruiríamos o Clã Romeno.
Surpreendentemente, o Exército não começa a falar como louco. Nós nos entreolhamos em um silêncio mortal. Estamos cansadas, preocupadas e desesperadas por um pouco de ação. Destruir um clã de centenas de anos parece algo extremamente estúpido a tentar se fazer, mas a essa altura ninguém se importa mais. Sophie abre os olhos no silêncio, surpresa. Ela busca pela irmã na sala e a vampira suspira:
- Como você pretende fazer isso?
- Ainda não tenho certeza. - Ela responde, sincera - Nosso primeiro passo é mover as da linhagem direta para algum lugar mais seguro. O conselho de bruxas decidiu que manter todas vocês aqui é um risco para a cidade, já que os vampiros buscarão uma forma de atacar. Quando a linhagem de Ellie estiver protegida, o resto de nós ataca. Por enquanto, a prioridade é manter Ellie viva e isso significa manter a linhagem em segurança.
- Qual o plano? - Anika pergunta, sabendo que é a primeira a morrer.
- Sophie vai levar as gêmeas até um lugar seguro no oeste. - Persephone diz, olhando para todas nós sem olhar para ninguém especificamente. - Depois levará Tatiana para um lugar seguro no sul. Pierre vai para Graz amanhã cedo - ele é suficientemente difícil de matar para não ter problemas para viajar em segurança. Anika é a única que o conselho permitiu que ficasse mesmo sendo a primeira a ser atacada. As outras vampiras do Exército podem ficar aqui só até todas estarem seguras, depois tem que sair para cumprir as outras partes do trato.
- Vocês vão me deixar sair do país sozinho? - Pierre pergunta, completamente surpreso.
- Para um lugar seguro. - Sophie sibila. - Mas você está à vontade para se colocar em perigo. Sabe que eu tenho como encontrar você.
Ninguém diz nada. Que evolução.
- Uma coisa de cada vez, então. - Sophie diz, batendo as mãos na coxa como se se preparasse para algo. - Amanhã de manhã eu e as gêmeas deixamos Piatra Neamț. Eu vou usar um feitiço de camuflagem antigo o que quer dizer que teremos que viajar da forma antiga. São cinco dias andando até o lugar seguro.
- Ótimo. - Reclamo - Nada como passar meu aniversário andando por uma estrada romena.
Sophie, que está ao meu lado, me cutuca com o cotovelo e me lança um sorriso, não querendo dizer nada na frente de Persephone. Sei o que significa no mesmo momento. Vamos encontrar uma forma de comemorar a data no meio do caminho.
- Enquanto estamos viajando, seria uma boa ideia que vocês fossem pensando em formas de ataque e em outras formas de descobrirmos o paradeiro daquelas duas. Não é possível que o acampamento do Clã Romeno não tenha chamado algum tipo de atenção. A Romênia não é um país tão grande assim.
- Pode deixar. - Charlottie responde, encabeçando as vampiras que não são da linhagem de Ellie.
Um silêncio se segue enquanto procuramos algo mais a dizer, mas quando fica claro que nada mais precisa ser dito, Persephone se levanta.
- Agora que está tudo definido seria uma ótima ideia que vocês todas fossem dormir. Precisam estar descansadas.
Ninguém reclama e alguns boas noites são trocados com todas deixando a sala no maior silêncio possível. Suspiro e cutuco minha irmã, para que façamos o mesmo. Nos levantamos ao mesmo tempo, mas Persephone toca o braço de Miranda antes que ela dê qualquer passo. Me viro junto porque nossa conversa mais cedo definitivamente me deixou com vontade de prestar mais atenção nesses momentos. Persephone olha para minha irmã com uma espécie de admiração e algo mais, irreconhecível.
- Eu provavelmente não a verei mais, então aceita um conselho de alguém que tem motivos bons para confiar na própria intuição? - Parece ser algum tipo de piada interna, porque Miranda apenas sorri e a bruxa-vidente continua - Escolha o fogo. Como meio e como fim.

Vatra Dornei, Romênia
26/27 de fevereiro
Eleanor
Já é noite alta e eu estou deitada no meio do barracão, de braços abertos e encarando o teto quando o fantasma aparece e tudo que consigo fazer é suspirar. Não é Deyah, mas sim uma faladeira vampira que morreu há muito mais tempo do que eu poderia imaginar. Às vezes eu queria que Kat não fosse tão firme sobre só conversarmos apenas na língua do país onde estamos. Se eu não fosse fluente em finlandês poderia apenas desligar a mente do falatório desenfreado do fantasma, mas entendendo tudo que ela fala fica um pouco difícil. Kat ouve meu suspiro e ri.
- Tem ficado um pouquinho entediante agora que eu não sou arrancada daqui para ser torturada todo dia não é? - Ela pergunta do canto onde está.
Me sento e olho para ela, enxergando-a com clareza de uma lua cheia que só agora começou a diminuir.
- Só um pouquinho. - Respondo, sorrindo.
No dia seguinte ao ataque oficial a Kat, eu me coloquei em frente à porta assim que ouvi passos dos vampiros do Clã se aproximando. Quando a porta foi aberta violentamente eu perguntei no mesmo instante se eles queriam ter o mesmo destino dos dois que vieram antes. Foi um ataque fraco, eu sabia muito bem que o que fizera no dia anterior tinha sido graças a um surto de adrenalina motivado pela raiva profunda que eu passei o dia fermentando. Eles também perceberam isso e estavam prestes a retrucar quando viram Kat sentada alguns metros atrás de mim. Eu poderia jurar que eles empalideceram, se não fosse tão improvável. O que quer que eles acreditavam sobre o Réquiem pareceu ter sido comprovado na forma como olharam para a vampirinha que sustentou o olhar como se sua existência fosse o milagre que eles acreditavam ser. Eles sussurraram um para os outros e saíram, nos deixando em paz pelos dias seguintes. Dois guardas voltaram a vigiar o barracão a todo tempo, mas de uma distância maior do que a que mantinham antes e sem falar nada o dia inteiro.
- A parte mais difícil é tentar não me obcecar pensando em como as meninas estão. - Digo, depois de alguns minutos.
É a vez de Kat suspirar.
- Elas têm Persephone e Sophie - bruxas poderosas e boas estrategistas. Além de Persephone conseguir prever perigos. As pedras não escureceram, elas estão bem.
- E por quanto tempo? E quão prejudicial isso pode ser para os nossos planos? Não estamos perdendo diversas janelas, presas aqui enquanto as meninas não têm como nos encontrar e não podem vir sem se colocar em perigo?
Kat limpa uma mancha de poeira no joelho, mesmo que nós duas estejamos completamente sujas. A situação dela está ainda pior, com o vestido destroçando e vários nós tentando mantê-lo no lugar.
- É exatamente a vontade deles, Ellie. Usar seus joguetes para nos distrair e fazer perder diversas janelas importantes. Mas não significa que não teremos como entrar depois disso. Precisamos de segurança, precisamos nos manter sãs. Quando acabarmos com as distrações o ataque será direto.
- Nosso ou deles? - Pergunto.
Seus olhos faíscam.
- Depende de quem achar onde a ruptura está primeiro.
Em resposta a isso, um trovão faz com que o barracão estremeça e eu reviro os olhos quando ela ri. As tentativas do Inferno de ficar lembrando que pode nos ouvir conseguem ser irritantes. Não adianta saber nossos planos e não conseguir fazer nada diretamente para impedi-los. Acreditem, eu saberia sobre conhecimento sem poder. E nesse ponto eu sei bem que o Inferno é mais palavras que ação.
- Você tem alguma ideia de que dia é hoje? - Pergunto para Kat, depois de um tempo.
- Não. Só sei que faz mais de duas semanas que estamos presas aqui. Talvez já tenha completado três.
- Isso significa que talvez tenhamos perdido o aniversário das gêmeas. - Digo, de alguma forma realmente chateada.
Kat, que tem estado nos melhores dos humores desde que passou pela experiência quase morte, ri alto outra vez.
- Valentina vai cobrar caro por isso. - Ela diz, ainda sorrindo - Culpa sua que não deixa de mimar suas meninas.
- Elas merecem, são vampiras maravilhosas.
- E obedientes. - Ela diz em uma clara provocação.
- Se isso foi uma referência a eu ter criado as vampiras da minha linhagem como filhas, eu vou ignorar você. Vou ignorar você completamente.
Outra risadinha se segue a isso e eu volto a me deitar. Kat fica em silêncio por um instante e eu fecho os olhos pensando em Anika, Valentina e Miranda. Junto com Pierre e Tatiana, elas são as primeiras a serem mortas caso queiram mesmo me matar - o que faz delas as pessoas que mais precisam estar seguras agora. Eu realmente me importo com aquelas três, mesmo que a relação que tenho com elas seja tão diferente da que eu tenho com Kat e Sophie. Especialmente as gêmeas - elas precisaram conquistar seu lugar no Exército, já que só foram aceitas porque Kat não queria perder Anika. De volta ao tempo em que ela se importava muito com respeitar os desejos de Deyah.
- Sabe quem mais fazia aniversário dia 27 de fevereiro? Deyah. - Kat diz, como se estivesse ouvindo meus pensamentos - Ela nunca comemorava no dia, só na lua nova seguinte. Hoje eu desconfio que ela tivesse muitos motivos para isso, mas na época eu acreditava que era simplesmente porque eram as noites mais escuras. Ela sempre pedia de presente histórias, coisas sobre nós que ela ainda não sabia ainda, informações que ela pudesse usar. Nos reuníamos em um círculo, fazíamos uma fogueira e contávamos as histórias com a promessa de que quando a fogueira apagasse, tudo voltava a ser segredo, ninguém pensaria mais sobre as histórias dos outros. É claro que Deyah pensava e às vezes falava sobre. Os segredos eram o presente dela.
- E foi graças a eles que eu descobri onde ficava a Casa da Morte.
Eu estava deitada com os olhos fechados e as palavras de Kat vinham tão carregadas de nostalgia que eu conseguia ver as imagens com clareza e era carregada para a imagem onírica que elas transmitiam. Quando eu ouço a voz de Deyah, tão distinta quanto a de Kat no silêncio da noite, eu me sento no mesmo instante, ouvindo meu coração disparar pela emoção de ver a única fantasma que eu precisava.
- Deyah! - Exclamo, notando com o canto do olho que assusto Kat - Por favor, me diga que você ainda está sã o suficiente para nos ajudar.
O espectro revira nos olhos e cruza os braços.
- Estou sã o suficiente para não fazer isso de graça.
- Preciso que você encontre Sophie e diga onde nós estamos.
- Desde quando Sophie me ouve?
- Ouvirá sabendo que você é a única forma que temos de nos comunicar. Nós estamos presas aqui há semanas e sem direito a feitiços de localização.
Ela arregala os olhos, parecendo perceber agora o estado em que nós nos encontramos.
- Nossa. Você passa alguns dias na França e quando volta tudo mudou. Como vocês se meteram nessa?
- Seu antigo clã encontrou Kat.
Deyah franze o cenho.
- Isso é algo que eu preciso saber mais sobre.
- E você tem todo direito de fazer perguntas, depois que nós sairmos daqui. Encontre Sophie e diga onde estamos. Peça que venha com todo o Exército exceto Anika, Tatiana e as gêmeas, que precisam ficar em segurança.
Ela balança a cabeça afirmativamente, mas não desaparece.
- Você não está esquecendo nada?
Esfrego as têmporas com frustração.
- O que você quer? Um pedido de por favor?
- Felicitações. - Kat diz, mesmo que só esteja acompanhando uma via da conversa - Feliz 1227º aniversário, Deyah. Apesar de você ter deixado de envelhecer há um tempo absurdo atrás e morrido há mais de 100 anos.
Me surpreendo quando a fantasma sorri e diz antes de desaparecer:
- Diga a Kat que agora ela me deve um segredo.

Rodovia 17B, Romênia
27 de fevereiro
Sophie
- Eu ainda não acredito que vocês realmente fizeram isso. - Miranda reclama pela milionésima vez.
É realmente complicado enfrentar uma viagem de 5 dias com a consciência de Perspehone no meu pé de ouvido, mas ela falou várias vezes que nós não deveríamos atacar ninguém, que Valentina não deveria se alimentar além do que o Exército tinha combinado, etc, então eu já esperava que fosse passar os dois dias seguintes falando sobre como não deveríamos ter feito isso.
- Nós não o matamos, Mi. Eu apenas queria sentir a emoção do ataque outra vez. - Valentina responde, ofegante. Estamos andando pela rodovia e o dia já quente parece mais quente ainda. Ultimamente os dias tem sido assim, ora quentes, ora com tempestades incompreensíveis. - Você precisa admitir que foi muito legal ver a reação dele quando eu surgi do nada. Nós devíamos ter aproveitado os poderes de Sophie antes dessa maldita regra de só se alimentar com gotinhas.
- Eu não acredito que você a apoiou nisso, Sophie. - Miranda diz, exasperada quando eu rio do que sua irmã disse - Vocês viram o que aconteceu quando quebraram a regra de Kat e ela explicou muito bem porque deveríamos segui-la a risca. Vocês quase colocaram a perder meses de dedicação à nossa limpeza.
- Eu mal me alimentei! E não lembro de ter destruído ou multiplicado coisa alguma!
- Mas esteve bem perto. Sangue quente é viciante, Valentina. Você poderia não ter conseguido parar.
Valentina está prestes a responder outra vez quando eu ergo as mãos em um movimento tão violento que as duas congelam.
- Já chega vocês duas! - Digo. - Miranda, eu devia a sua irmã um presente de aniversário. Vocês estão completando 127 anos em uma rodovia vazia no meio do nada. Merecem um descanso de regras que, por sinal, não foram quebradas. Você pode ter um presente agora, pode escolher qualquer coisa.
Ela hesita. Ainda quer gritar sobre termos atacado um homem que estava consertando o carro no acostamento, mas a ideia de ter o que quiser de presente hoje a anima.
- Veremos alguma coisa que eu queira quando passarmos por algum lugar habitável nesse fim de mundo. - Miranda diz com um suspiro e continuamos andando.
O lugar habitável só é encontrando depois de quase duas horas andando em silêncio e é apenas um posto de gasolina com uma loja de conveniências. Decidimos entrar de qualquer forma, eu poderia usar qualquer tipo de refresco. São um pouco mais de duas da tarde, mas a loja de conveniências está vazia. Depois de uma rápida deliberação sobre devermos ou não entrar com o feitiço que nos esconde, acabamos optando por entrar normalmente o que surpreende o vendedor. Ele olha duas vezes para o posto de gasolina e fica confuso quando não vê carro nenhum. O ignoro e entrego minha mochila para Miranda.
- O cartão de crédito está aí. Comprem a loja inteira se quiserem, mas façam isso com cuidado. Vocês ainda estão em risco de vida. Vou ao banheiro por dois minutinhos. - Aviso.
As gêmeas concordam com a cabeça ao mesmo tempo, fazendo com que pareçam mais iguais do que já são. Deixo as para escolher a bugiganga que queiram e entro no banheiro feminino imundo exasperadamente. Encaro o chuveiro em um dos cubículos decidindo se seria uma boa ideia molhar o cabelo, já que estou aqui. A outra opção seria enfiar minha cabeça embaixo da torneira, o que se mostra uma péssima ideia assim que eu abro a torneira e vejo a água saindo amarela. Quando caminho até o chuveiro, noto algo no espelho com o canto do olho, mas ignoro e sigo para onde ia com um suspiro.
Depois de deixar a água cair por um tempo e vê-la mais clara, coloco a cabeça embaixo do chuveiro com cuidado para não molhar as roupas. A água fria contra a minha cabeça me relaxa imensamente. Apesar de ter viajado muito a pé quando entrei no Exército e cobrir distâncias absurdas em considerável pouco tempo, o novo milênio e seus confortos tirou de mim essa habilidade. Sou forte demais para ficar mal por uma viagem de cinco dias a pé, mas isso não quer dizer que eu não me sinta cansada às vezes. Pelo menos mentalmente. Depois do que parece tempo o suficiente desligo o chuveiro e torço o cabelo, percebendo que agora ele tem cheiro de ferrugem. Volto até a bancada com as pias e encaro o espelho. Só depois que checo se não estou laranja ou mais suja é que eu lembro que deveria evitar aquele espelho.
- E eu aqui pensando que me livrara de você. - Reclamo já começando a me afastar do lugar onde estamos.
- Eu tenho uma mensagem de Ellie. - Deyah solta, sem rodeios.
Congelo onde estou e me viro de volta para onde o reflexo está.
- O que você disse?
- Elas estão em um acampamento a alguns quilômetros de Vatra Dornei. Eu indico o caminho caso você não seja orgulhosa demais para isso.
Eu me aproximo cuidadosamente do reflexo e presto toda atenção que não prestei no mais de um ano desde que Deyah escapou do Inferno. Trinta minutos depois, saio da loja de conveniência acompanhada das gêmeas embaixo de trinta quilos de bugigangas, além de mais coisas enfiadas em suas mochilas. Saímos pelos fundos, sem retornar para a rodovia, porque Deyah indicou um caminho mais simples pela floresta que a cerca. Ellie especificou que eu deveria levar todas as meninas, exceto, Anika, Tatiana e as gêmeas, mas nós estamos perto demais do acampamento e de Vatra Dornei, para que eu deixe a chance passar. O plano é manter as gêmeas escondidas em algum lugar e usar meus poderes para tirar Ellie e Kat de onde elas estão presas sem causar muito caos. Depois, mais fortes, voltamos para destruir o Clã Romeno, como prometemos às bruxas de Piatra Neamț.
- Uma missão de resgate! Esse é o tipo de emoção que eu queria de aniversário! - Miranda exclama depois de alguns minutos na mata fechada.
- Pois nem se anime. - Aviso logo - Vocês duas vão ficar o mais longe possível do acampamento.
- Mas por quê? - Valentina pergunta com a voz mais mimada possível.
- Porque tudo que o Clã mais quer é ter vocês duas na mão para matar.
- Eles precisam matar Anika antes. - Miranda resmunga.
- Eles podem perfeitamente prender as duas para matar assim que matarem Anika. Ellie disse que não era para levar vocês e vocês só estão indo porque eu não quero perder a chance de encontrar as duas por tecnicidades.
- Mas Sophie, nós podemos ajudar! - Miranda reclama.
Eu não subestimo as vampiras mais novas do Exército. Elas não são pessoas eternamente com 11, 12 ou 13 anos, são vampiras centenárias presas em corpos com essas idades. Mas eu também não ignoro o fato de que elas estão em corpos pequenos e facilmente destrutíveis, sendo máquinas mortíferas ou não.
- Manter vocês duas vivas significa manter Ellie viva. Então vocês ajudam muito se mantendo vivas e seguras. Não inventem de cometer atos heroicos. A ideia é fazer tudo o mais rápido possível.
Elas suspiram ao mesmo tempo e não voltam a dizer nada. Caminhamos entre as árvores pelo que parece tempo demais. Eu vou à frente e preciso lembrar o tempo todo que as meninas não se regeneram como eu e que eu não preciso de vampiras sangrando no momento ou eu esqueço de avisar sobre espinhos e de quebrar galhos que poderiam machucá-las. Mesmo estando consideravelmente perto e encontrando todas as referências que Deyah me passou, quando vejo a casa ao longe, com fumaça saindo de uma chaminé, o sol já está se pondo e um frio perturbador já me envolve, me deixando irritantemente arrepiada.
- Certo. - Digo, me virando para as gêmeas cerca de vinte metros antes do limite da mata. - Não saiam daqui. Eu vou fazer um reconhecimento do lugar e volto para dizer o que vocês precisam fazer.
Elas concordam com a cabeça e eu vou em direção ao fim da floresta com todo cuidado possível. Estou com o feitiço de cobertura, mas ainda assim escondo o corpo atrás de um tronco para observar o lugar. É uma casa de apenas um andar, construída em madeira - chamar de acampamento foi um exagero profundo de Deyah. Em frente, dois homens fortes e inacreditavelmente altos estão parados em guarda. A entrada da casa está tomada por cinco carros e pelo que eu descobri sobre o Clã Romeno isso provavelmente indica que todos ou grande parte dos os membros do clã estão no local. Ao fundo, um pouco distante de onde eu estou, um barracão de madeira, construído de qualquer jeito é vigiado por dois outros homens. Percebo na hora o que isso significa.
Com todo cuidado do mundo, me movimento ainda dentro da floresta para me aproximar o barracão e observá-lo com mais cuidado. Depois de ter certeza de que os dois homens não se movem de jeito algum, me aproximo do fundo do barracão e tento colar o ouvido na madeira para ouvir algo. Minha cabeça bate em uma barreira invisível. Tento furá-la com a mão, mas isso também é impossível. Engulo um bufo de frustração quando lembro que não deveria fazer barulho. Resolvo ver se consigo usar a magia dentro da barreira. Grama daninha cresce em volta do barracão e eu me afasto um pouco para fazê-la crescer. Rapidamente ela se transforma em hera e cresce pela parede do barracão, invadindo as frestas na madeira. Faço pequenas flores crescerem nela, como as flores que Kat me viu fazer crescer quando descobri que tinha meus poderes outra vez em 98.
- Sophie. - Ouço em um sussurro embargado vindo do barracão.
A voz de Kat era tudo que eu queria ouvir e eu sinto que meus ombros relaxam com um peso que eu nem sabia que estava lá. Encontrei ela. Kat está viva. Não precisaremos continuar sem ela. Antes de começar a pular de animação, lembro que ainda existe trabalho a ser feito. Elas estão vivas, mas ainda estão presas. Não me arrisco a dizer nada e começo a me afastar do barracão para voltar até onde as gêmeas estão. De repente, ouço um rosnado ao meu lado seguido de um uivo que me faz tremer. Bem atrás do barracão, presos em estacas decididamente fracas demais para eles, estão cinco gigantescos lobos que não podem me ver, mas decididamente sentem meu cheiro. Eu ouvi sobre os lobos do clã, mas eles assustam muito mais ao vivo. Saio com cuidado da presença deles, quase sem respirar para não chamar atenção.
- Eles podem ter trocas de turno e isso deixaria o barracão sem vigia por alguns minutos. - Miranda diz quando chego onde as deixei e explico o que vi.
- É uma possibilidade, mas como faremos para tirá-las de lá? Existe uma barreira invisível em volta do barracão.
Elas pensam por um minuto antes de Miranda ter um segundo de iluminação.
- Os vampiros do clã provavelmente entram no barracão. É a explicação mais lógica para como Kat estava sangrando há alguns dias. E eles só precisam manter Ellie presa. Kat seria morta facilmente se tentasse fugir.
- Onde você quer chegar? - Pergunto.
- Talvez a barreira só afete quem tem alma. Persephone me contou algumas coisas sobre isso quando me contava sobre o solo sagrado em Piatra. Vampiros descobriram como criar lugares onde só eles possam entrar também.
- Mas Ellie está lá.
- Ela provavelmente foi conduzida por um vampiro e só pode sair se for conduzida por um vampiro. E não pode ser Kat, se ela foi conduzida lá para dentro também.
Eu ouço a sugestão na voz dela antes que ela a formalize.
- Não, Miranda. Tem que existir uma forma de fazer isso sem colocar vocês duas em risco.
Ela dá de ombros.
- Você pode voltar para Piatra e estudar com Persephone uma forma de quebrar a barreira. Ou...
- Não.
- ...Nós esperamos a mudança de turno, você me camufla e eu tiro as duas de lá em segurança. Você tem poder o suficiente para camuflar Kat e Ellie também e nós poderemos sair como se nada tivesse acontecido.
- Eu não vou colocar vocês em risco. - Repito, o mais firme que consigo.
- Então escolha a outra opção, Sophie. Volte para Piatra e deixe uma Kat já pronta para fugir para trás. Nós duas sabemos que se você fosse optar pela segurança em primeiro lugar, teria voltado antes de qualquer coisa.
Cruzo os braços e tento pensar em outras opções. Tem de haver outras opções. Eu não posso colocar as gêmeas na linha de frente. Por outro lado, Miranda está certa. Eu sou poderosa o suficiente para esconder todo mundo. E se ninguém do clã estiver por perto para ver, seria praticamente como teletransportar as duas dali para a segurança. Fecho os olhos.
- Certo. Nós vamos. Mas à noite, em uma possível troca de turnos. Você entra, traz as duas até a floresta e nós corremos. E é você quem vai ouvir as broncas de Ellie depois.
Miranda sorri de excitação, mas Valentina pigarreia.
- Mas e eu?
- Você foi transformada primeiro e seria a primeira a ser morta. Ficará aqui. Em segurança. Eu já estou indo contra cada célula de mim deixando Miranda ir.
- Se ela for, eu também tenho que ir. - Valentina rebate, fincando o pé no chão.
- Val, por favor. Não faça a vampira mimada agora.
- Você precisa de toda ajuda que puder, Sophie. E se é uma questão de segurança, Miranda não pode ir também.
Solto um gemido de frustração.
- Por que vocês duas são tão completamente impossíveis?
- Porque somos vampiras de Ellie. - Miranda diz, sorrindo - E mesmo que ela tenha feito “recomendações”, ela sabe que tendo a chance de salvá-la, nós faremos isso.
Eu solto um suspiro cansado e desejo já ter terminado com isso tudo. Aponto o caminho para as duas e deixando as mochilas para trás, andamos até onde eu observei a casa à distância. Já está escurecendo, então esperamos em silêncio. Eu tenho usado o feitiço que esconde nós três por tanto tempo que no momento minhas veias pulsam mais rápido. Eu sou poderosa o suficiente para aguentar por muito mais tempo, com minha energia sendo renovada por minha alma o tempo todo, mas mesmo para mim a magia tem seu peso.
Quando a iluminação fica por conta da lua, a porta da casa é a aberta e algumas pessoas carregando postes acesos com fogo saem. Cada uma dessas tochas é fincada em um ponto, iluminando a parte de fora da casa quase completamente. Uma delas é fincada a passos de onde estamos e nós três prendemos a respiração ao mesmo tempo. Quando todo o espaço é iluminado, eles voltam para dentro, mas uma das pessoas - uma mulher tão alta quanto os vigias - se aproxima dos guardas da prisão de Kat e diz algo a eles, fazendo com que eles a acompanhem. Ela repete a ação com os guardas da porta e de repente todos estão dentro da casa.
- Quanto tempo você acha que temos? - Miranda pergunta.
- Não faço a mínima ideia, por isso precisamos ir logo. Valentina fica aqui vigiando e pode gritar caso veja algum sinal deles. Nós duas vamos agora.
Valentina concorda com a cabeça e eu e Miranda saímos para as luzes das tochas. A primeira parte é fácil. Caminhamos com cuidado até o barracão. Penso nos lobos e tenho medo que eles notem nossa chegada, mas como eles já estão uivando enlouquecidamente e sendo ignorados pelo clã, eu imagino que não serão muito problema. Quando paramos na porta do barracão, eu testo outra vez se consigo tocar a madeira, mas minha mão atinge a barreira invisível com força outra vez. Para a minha surpresa a mãozinha de Miranda alcança a porta sem problemas e depois de enviar um olhar de “Eu avisei” para mim, ela entra no barracão com todo cuidado. Tiro a camuflagem dela quando ela está dentro.
- Miranda! - Ouço Ellie exclamar - O que eu diss...
- A gente não tem tempo! - Miranda rebate. - Me dê a mão e vamos sair daqui imediatamente.
Kat é a primeira a sair e eu a incluo na camuflagem para que possa me ver. O peso invisível cai das minhas costas de vez quando ela sorri entre toda a sujeira que toma seu corpo. Miranda e Ellie saem de mãos dadas logo depois.
- Venham - Sussurro - Com cuidado.
Mas assim que começamos a andar os rosnados dos lobos aumentam. Eles estão ali para vigiar Kat, provavelmente já conhecendo o cheiro do sangue dela muito bem. A saída dela os desperta e transforma seus uivos sem sentido em um plano de ataque.
- Vá na frente, Kat. - Ellie diz, o mais baixo que consegue. E quando Kat hesita: - Agora.
 Kat corre na direção de Valentina. Como eu tinha previsto, as estacas que seguravam os lobos eram fracas demais para efetivamente segurarem eles. Ellie e eu nos colocamos entre eles e Kat em uma tentativa ridícula de segurá-los. Dois deles pulam por cima de nós, enquanto os outros parecem entretidos por mim e por Ellie. Me viro e coloco fogo nos lobos atrás de mim, que estão indo em direção a Kat. O feitiço que eu mantive o dia inteiro já caiu, não há mais camuflagem.
- Fogo! - Miranda exclama parecendo então se dar conta de tudo.
Sequer tenho tempo de vê-la correr: Um lobo ataca meu braço e a dor me cega por um instante. Rapidamente ele queima também e sai de perto de mim para viver a dor que sente. Me viro para Ellie, que tem outro lobo em seu encalce e pouco para fazer além de tentar correr. Outro movimento com as mãos faz com que esse também queime. Falta apenas um lobo que eu não consigo encontrar em lugar algum. Me viro para onde Kat correu, mas antes que possa ver qualquer coisa o grito de Valentina corta o ar.
Ellie e eu corremos até a entrada da casa e somos recebidas pela pior cena possível. Miranda está entre o último lobo e cinco vampiros que acabaram de deixar a casa. Ela está parada na varanda, tem uma tocha nas mãos e a aponta em direção ao lobo para impedir que ele a ataque. Antes que eu possa gritar a avisando sobre os vampiros, eles arrancam a tocha das mãos dela e atiram no chão. Miranda grita percebendo o que está acontecendo. Eu tento o primeiro feitiço de ataque que vem na minha cabeça e em seguida diversos outros, mas uma risada cruel me indica que dentro dos limites da casa, magia não funciona.
Os vampiros cochicham entre si. O mais alto está segurando Miranda pelos cabelos. Eu cometo um erro que sinto que vai me perseguir para sempre, vejo o desespero em seus olhos. Uma espécie de medo que só os muito conscientes têm. Ela sabe onde sua alma está. Sabe para onde vai quando morrer. Tudo isso acontece em um milésimo de segundo; os homens dão de ombros e atiram Miranda no chão - não sem antes fazer o tipo de machucado que atrairá a atenção do lobo. Eles voltam para dentro da casa, deixando Miranda ser atacada pelo mostro no mesmo segundo.
Ellie tenta correr até onde ela está, mas eu sou forçada a segurá-la quando Miranda grita não, a obrigando a ficar exatamente onde está. Ela luta e é forte como nunca foi. Está sendo consumida pelo ódio naquele exato momento.
- EU NÃO TEREI COMO TIRAR VOCÊ DE UM LUGAR SEM MAGIA E TE PRENDER OUTRA VEZ É EXATAMENTE O QUE ELES QUEREM. - Grito, segurando Ellie mais força.
- ELA PRECISA SAIR DE LÁ! - Ela grita de volta, com uma dor que eu nunca ouvi antes.
- Sophie! - Ouço a voz de Miranda e me volto para a varanda. A última sílaba do meu nome soa aguda, doída - Fogo.
Fico confusa, mas seus olhos se voltam para a tocha e eu sei o que ela quer. Em seguida tudo que sai de seu corpo são gritos de dor. Solto Ellie e ela fica tão atônita que não se move. Alcanço a tocha que está no chão e dou uma última olhada em Miranda. Mas ela já se foi. Seus olhos estão estranhamente escuros, mais do que eram em vida e eu consigo ver as luzes refletidas neles como estrelas.
- Nós vamos salvar você. - Eu sussurro antes de atirar a tocha em seu corpo.
O lobo que se alimentava dela uiva quando o fogo também o atinge e vai em direção à porta fechada por ajuda. Seus arranhões desesperados derrubam a porta e ele corre para dentro, deixando um rastro de fogo pelo carpete. Dou alguns passos para trás. Meu sangue pulsa com a força do sangue derramado de Miranda e sei que um sacrifício por nós acabou de ser feito. Digo três palavras - apenas três palavras - e santifico o solo onde o sangue de Miranda tocou. Foram eles que quiseram derramar sangue na área protegida. Um sangue conectado ao meu, um sangue que também era meu. Eles criaram sua própria danação. Agora não podem mais sair.
A casa é tomada pelo fogo que começou no pelo do lobo. Não me movo - meus olhos ficam presos na entrada da casa. Gritos não me assustam, o cheiro de carne queimada não me dá ânsia. Sei que Kat, Valentina e Ellie se juntam a mim, mas não digo nada. Sei que Ellie chora, porque consigo ouvir. Mas nada disso faz diferença. Quando eu acessei o feitiço que nos ligava, olhando pela pedra contra a luz da lua, eu pensei estar vendo o Inferno, onde as almas de minhas irmãs descansavam. Mas eu estava vendo aquele momento. Uma previsão tão clara do futuro quando as que Persephone afirma ter. O Inferno é pior do que qualquer coisa criada por mim. A certeza de que eu estava enviando quem enviou Miranda para lá para o mesmo destino fazia com que minha alma se sentisse um pouco menos pesada.
Todas nós estamos olhando para a casa com a mesma obstinação, mas de repente eu sinto o olhar de Kat sobre mim. Nem preciso olhar de volta para saber no que ela está pensando. Eu disse a ela que na primeira vez que matei alguém, mesmo gostando de saber que ela queimava, não fiquei para assistir. Mas isso é diferente e eu sou alguém diferente agora. Eu preciso ficar até o último grito ser ouvido. Estarei olhando quando a última chama apagar. 



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