As Crônicas de Kat - 2ª fase - Capítulo V

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“Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!”
Mario Quintana (Canção da Primavera)

As Crônicas de Kat:
I Coríntios 15:25-26

Piatra Neamţ, Romênia
29 de fevereiro de 2016
Anika
Eu estou na janela, esperando, então vejo o grupo de pessoas chegar antes do resto das meninas. Minha respiração acelera e embaça o vidro e eu uso a manga o casaco para limpar. Quando reconheço o primeiro rosto um suspiro de alívio embaça o vidro outra vez, mas eu corro para fora antes de fazer outra limpeza na janela. Elas voltaram! Cansadas, graves e sujas de lama, mas voltaram. Estou tão feliz em ver os rostos de Ellie e de Kat outra vez, em ver um grupo de vampiras retornando seguras para a proteção do Exército, que só percebo que elas são quatro, e não cinco, quando alguém pontua isso, atrás de mim. Um saco de ossos carbonizados é jogado aos pés de Persephone.
- Ela aceitou meu conselho. - É tudo que a vidente diz, ficando pálida.
- Você sabia que isso ia acontecer! - Kat acusa. - E ainda assim permitiu que ela saísse da cidade!
- Não se pode evitar o destino. Qualquer coisa que eu fizesse a levaria até lá naquele momento. E você precisava dela lá, não teria saído se ela não estivesse lá.
- Mas você sabia que ela iria morrer. - Sophie interpela, parecendo irada - Sabia que profanariam o corpo dela e ainda assim não fez nada a respeito. VOCÊ SABIA QUE SERIA ELA! E SEQUER ME DISSE.
- Fica mais claro para mim conforme a data se aproxima. Eu não sabia qual das gêmeas seria até depois da série de debates com as bruxas de Piatra Neamț e depois disso tudo que eu podia fazer era garantir que a morte dela tivesse sentido.
- PERSEPHONE, ELA ERA UMA DAS MINHAS. EU CONFIEI QUE VOCÊ A PROTEGERIA ENQUANTO EU NÃO ESTIVESSE AQUI. - A voz de Kat fica a cada momento mais profunda e alta, na linha que representa a beira do ódio.
A notícia não me atinge imediatamente, mas quando eu vejo a desolação no olhar de Ellie e o ressentimento no olhar de Sophie, eu me dou conta: Miranda morreu. Mais que isso, seu corpo foi queimado. Valentina, a pessoa que deveria estar pior pela perda da gêmea, parece deslocada, com algo faltando, mas nada em seu rosto indica tristeza. Ela está, no máximo, incomodada por estar parada no jardim e no frio. A profundidade do vazio dentro de mim parece prestes a me engolir. Nunca verei Miranda outra vez. E ainda assim, o fato de não beber nada há quase cinco dias parece me incomodar mais.
- É uma luta perdida, Kat. - Persephone diz, com a voz ameaçando falhar.
- Se eu tivesse medo de lutas perdidas eu provavelmente estaria morta agora, Persephone. Eu teria ficado presa em Cianne, sendo sugada pela quinta ou sexta geração de bruxas. Eu ainda estaria amaldiçoada e presa em Graz como uma meia vampira. Eu não tenho medo. Toda luta é perdida se você nem se arrisca a lutar.
- Eu estou lutando há dezoito anos e estou cansada de tentar.
- Eu estou há 181 e ainda não cheguei nem perto de desistir. E se você quer que nós cheguemos a nossos limites, você também será levada até os seus. Então diga, imediatamente, quem você sabe que vai cair e quando elas irão cair. Porque se você colocar mais uma das garotas que eu jurei proteger em perigo, a próxima a morrer é você. E não me interessa quando seu destino disse que você morreria, você descobrirá que eu posso perfeitamente ser mais poderosa que ele.
Os olhos lilases de Persephone faíscam e seu maxilar trava. Eu sei que ela está lutando contra algo dentro dela quando diz:
- Nós conversaremos sobre isso esta noite. No momento, sei que vocês cinco precisam de banhos e de algo para recuperarem as forças.
Kat a encara por um momento e em seguida concorda. Todas nós queremos falar com ela e com Ellie e entender o que aconteceu, mas sob a luz da morte de Miranda decidimos que é melhor deixar o grupo que acabou de chegar em paz. Retornamos para a casa abrigo em silêncio. Voltamos para a casa do lado de fora de Piatra assim que Sophie nos enviou uma mensagem avisando que destruíra o Clã Romeno e resgatara Kat e Ellie no processo. Foi tão repentino que pareceu até suspeito, mas Persephone confirmou o que elas haviam feito e saímos da cidade para o alívio das bruxas.
Sou a última a entrar, ficando para trás para olhar com cuidado para Valentina e checar se ela realmente está bem. Sei que ela não sente, mas perder uma gêmea é algo que afetaria qualquer criatura. Ela parece sem algum tipo de equilíbrio, mas além disso está bem. Não falo com ela, mas espero que meu olhar transmita muita coisa. Quando entro na casa, o Exército já se dividiu. Toco as paredes enquanto ando distraída de volta para a janela, com a mente em Miranda.
- Anika. - Uma voz me chama da porta, me fazendo saltar. - Posso falar com você um instante?
Me viro para encontrar Pierre parado onde eu entrei.
- O que você quer? - Pergunto, sem me mexer.
- Falar sobre algo que você provavelmente não quer que o resto do Exército ouça.
- O que possivelmente...?
- A morte de Miranda. A primeira delas.
Solto um grunhido e volto até ele, ignorando o sorriso presunçoso quando o puxo pela manga até a varanda e fecho a porta de vidro atrás de mim.
- Fale.
- Eu sei que as gêmeas não morreram tendo o sangue sugado.
- Não me diga, Sherlock. O que te fez perceber isso? A falta de cicatrizes?
- A obsessão por facas. Ela pontuou. - Os olhos dele se aprofundam nos meus antes que ele pergunte: - Elas se mataram não foi?
Suspiro.
- Eu as encontrei sangrando com uma ferida no pescoço e segurando facas nas mãos pálidas. Pensei que já estivessem mortas, mas quando me aproximei os olhos de Miranda se mexeram. Elas eram tão delicadas. Menores que eu e tão adoráveis. E ainda estavam respirando. Pareciam exatamente o tipo de prêmio que eu queria levar de volta para casa, mesmo que Kat as matasse, só para provar que Sophie estava errada sobre eu não ser completamente vampira. Então eu as batizei. Elas morreram docemente e quando acordaram, mais confusas do que qualquer outra coisa eu pedi que confirmassem minha história complexa sobre a morte dramática delas. Sua transformação era exatamente a coisa que Kat não queria que ninguém fizesse: Eu as transformara sem permissão e sem consentimento. Elas me contaram sua história real e eu fui até ao circo apenas para roubar roupas limpas que reforçassem minha história.
- Por que elas queriam se matar?
- Elas eram espertas, sabiam que duas crianças de 11 anos não poderiam simplesmente fugir e esperar sobreviver, então um pacto de suicídio era mais lógico.
- Não, eu quis dizer, o que levou elas a desejarem morrer? - Olho para ele como se fosse a criatura mais idiota do mundo e ele ergue as mãos. - Eu estou dando o benefício da dúvida a elas. Prefiro não acreditar que apenas a vida no circo tenha feito com que elas desistissem da própria vida.
Não pela primeira vez, eu sinto vontade de arrancar a cabeça dele do pescoço.
- Apenas a vida no circo? Pierre, elas são frutos de um estupro cometido pelo homem que comprou a mãe delas na Armênia. Foram abusadas de todas as formas imagináveis e suportaram isso com uma força cuja fonte eu queria compreender. Você as conheceu com a pele perfeita e um sorriso no rosto. Eu as vi com os olhos fundos de olheiras e feridas escuras onde a roupa cobria. Cada uma de nós treze teve sua parcela de sofrimento na vida, eu não nego isso, mas Miranda e Valentina... A pior parte é que elas sentiam vergonha do que aconteceu, como se fosse culpa delas. Uma vergonha tão profunda que controlou sua pós-vida.
Pierre aperta os lábios, tentando definir como se sente.
- Por isso você nunca falou sobre elas terem se suicidado.
- Eu planejava falar. Quando a transformação de Tatiana fez com que a ordem prima de Kat fosse quebrada, eu achei que não teria problema ser honesta sobre a morte das gêmeas, mas elas me impediram. Porque elas teriam recusado. Se lhes fosse prometido viver para sempre, elas se matariam de forma ainda mais violenta. A vida para elas significava dor e eu não teria tido a coragem de transformá-las, porque não saberia prometer uma boa vida com a mesma certeza que Kat promete. Eu as transformei forçadamente, por minhas razões mimadas e egoístas e elas viveram uma vida plena, com todo tipo de emoção por 116 anos.
- Valentina ainda está viva.
Reviro os olhos e abro a porta de vidro para voltar para dentro da casa assim que digo:
- Por quanto tempo isso continuará depois que ela receber sua alma ferida de volta e não tiver ao seu lado a única pessoa que poderia mantê-la sã?

3 de março
Juliana
- Que isso nunca caia nos ouvidos de Persephone - Louise diz, encarando Charlottie, a única pupila de Persephone que restou. - Ou de Kat. Mas parece que nossa líder finalmente encontrou uma adversária à altura.
A frase me faz olhar para a casa de vidro. O reflexo do sol de fim de tarde impede que eu veja qualquer coisa no andar de cima, mas eu não preciso de muito esforço para imaginar Kat sentada de frente a Persephone e um grimório, com a testa franzida enquanto ouve previsões. Elas têm tido algumas reuniões desde que Kat voltou, cada uma mais secreta que a última, já que Persephone disse que se nós soubéssemos quais de nós vão se perder na guerra, as chances de realmente irmos embora aumentam.
- Elas não são adversárias - eu digo. - Estão do mesmo lado na guerra.
- Você sabe o que eu quero dizer. - Louise diz, chocando o ombro contra o meu.
- Elas têm retóricas parecidas. A mania de esconder as coisas que acham que as outras pessoas não deveriam saber. É completamente estúpido. - Charlottie diz, de onde está.
Eu chuto a pedra à minha frente. Sentar em alguma parte da floresta para olhar o pôr-do-sol sobre Piatra Neamț é uma nova tradição entre Louise e eu. As últimas noites têm parecido cada vez mais escuras e amaldiçoadas. Mesmo a lua cheia traz sombras que parecem observar você. Ficar aqui de cima faz com que eu possa aproveitar o sol até seu último raio. Hoje, Charlottie veio conosco, já que Sophie desapareceu mais cedo.
- Então, elas não disseram nada sobre como curaram Kat dos ferimentos? - Louise pergunta, percebendo logo o que deixa Charlottie tão revoltada.
- Não. A única coisa sobre a qual Kat quer falar é sobre a morte de Miranda e como evitar que acabemos perdendo mais alguém. - Charlottie responde atrás de mim. - Mas nada que eu já não esperasse. Kat e Ellie mudaram depois desse tempo presas. Não profundamente ou violentamente, mas algo mudou dentro delas. Provavelmente relacionado à suas almas.
- Isso não seria um bom motivo para que elas contassem o que aconteceu? - Pergunto, com certa ingenuidade. - Estamos todas preocupadas com as almas umas das outras.
Charlottie bufa.
- Nenhum dos motivos pelos quais aquelas duas fazem qualquer coisa é bom. Se nos colocasse em perigo ou nos ajudasse, Kat provavelmente diria alguma coisa. Se não diz, tudo que podemos fazer é seguir em frente.
- Seguir em frente. - Louise bufa. Então fica séria, o rosto absorvendo a escuridão que aumenta - Isso é algo que esse Exército não conseguiria fazer nem se houvessem mil feitiços para isso. Nós somos assombradas por fantasmas tão antigos quanto o tempo. Literais e figurativos. E eu não acho que vamos conseguir nos livrar deles.
O silêncio toma conta do nosso pequeno grupo. As palavras de Louise ficam no ar e eu penso no que dizer depois disso, mas um crack atrás de nós faz com que eu me vire.
Eu não estou mais pensando em fantasmas quando vejo quem surgiu do meio do mato, porque a cena é estranha demais. Em qualquer que fosse o caso, as gêmeas seriam as primeiras a entrar na floresta e se enfiar na lama, mas ainda assim, desde que as conheci, sempre houve algo de impecável nelas. Como mesmo sua desorganização e sujeira fosse metódica, coordenada. A aparição repentina de Valentina, completamente cheia de lama e de folhas no cabelo que não parece ver uma escova há semanas, faz com que fique muito óbvio que algo está errado.
- Cumprindo tarefas? - Eu pergunto quando Valentina passa por nós para dentro da casa.
Ela para de andar e pisca, parecendo perdida por alguns segundos. Então respira fundo antes de responder.
- Não, não. Apenas tentando encontrar uma coisa.
- Precisa de ajuda? - Louise pergunta.
- Não. - É a resposta firme de Valentina. Ela completa com um balançar de cabeça violento. - Mas obrigada, meninas. – Acrescenta, antes de voltar para seu caminho.
Louise, Charlottie e eu nos entreolhamos quando ela entra em casa. Quando eu dou de ombros, voltamos a olhar para o céu, já com estranhas estrelas que parecem brilhantes demais.
- Como eu disse. - Louise diz, bem mais baixo, com um suspiro. - Fantasmas.

7 de março
Anika
A sensação de que estou sendo observada tem sido minha fiel companheira nos últimos dias. É ridículo, porque tem acontecido coisas demais para que qualquer pessoa fique me observando, mas certas sensações grudam em você e simplesmente não vão embora. É isso que me acorda às cinco hoje e depois de virar no colchão por muito tempo e jogar fora todos os truques que conheço para me fazer dormir, eu resolvo levantar e descer para ver o sol nascer.
No andar de baixo, uma silhueta toma uma parte da parede de vidro que dá para a cidade. Alguém mais insone que eu observa a escuridão ainda tomada por estrelas. Aperto os olhos para descobrir quem é, mas quando Ellie se vira, percebo que deveria ter adivinhado.
- Formigas na cama? - Ela pergunta, quando paro ao seu lado.
- Bem que eu queria. Eram tempos mais simples. Sensações ruins. Odeio essa maldita ruptura. E você?
- Sonhos ruins. – É a resposta simples.
Ellie tem a mão direita firmemente fechada em seu pingente de safira. A outra mão deixa a parede de vidro para acariciar meu couro cabeludo. Ela sempre faz isso, essas coisas levemente maternais. Não reclamo porque elas fazem com que eu me sinta estranhamente segura. Ficamos em silêncio observando a cidade. Estar dentro dos limites da cidade que mais emana energia bruxa na Europa deixou marcas em todo Exército, mas comigo foi diferente. Metade das bruxas da cidade tem meu sangue e a outra metade se associou com ele em algum ponto. É como se Piatra fosse a cidade das descendentes de Deyah. Eu sou uma delas, a renegada, mas uma delas. Eu senti que pertencia àquele lugar e as bruxas que pediram que eu ficasse, sentiram o mesmo. E eu quero ficar. Ou ao menos voltar, se eu sobreviver a tudo.
- Annie. - Ellie chama. Volto a olhar para ela e vejo que as duas mãos estão no colar agora. - Você tem medo?
A resposta irônica está na ponta da língua, mas eu lembro do que acabei de pensar. Não mais o “quando tudo isso acabar” que aparecia na boca de Mirada o tempo todo. “Se eu sobreviver a tudo”. Minha resposta sai complicada:
- Você sabia que eu nunca esbarrei com a Morte quando era viva? Tão poucas de nós podem dizer isso. Talvez ninguém mais. Eu não entendia o que era morrer até que aconteceu comigo. Entendia medo, maldade e guerras. Era grata por me ver protegida de todas essas coisas. Mas eu sabia tão pouco sobre morte que quando eu percebi que você e Kat iriam me matar, eu não tive medo. Porque eu sabia o que ia acontecer. Eu morreria, então eu voltaria e viveria para sempre. Agora eu também sei o que vai acontecer. Sei o que me espera se eu morrer. E agora eu conheço a Morte. Sei quão real e implacável e inevitável ela é. Eu não sou estúpida.
Ellie pisca, surpresa.
- Eu nunca tinha parado para pensar sobre a sua morte.
Olho para a linha do horizonte. O sol nasce do outro lado da casa e mesmo que esteja quase despontando, ainda não recaiu sobre Piatra Neamț. A cidade continua apenas como manchas disformes na minha visão, com pequenas luzes salpicadas.
- Eu vivi a vida mais confortável entre as vampiras do Exército. Tatiana costumava me chamar de princesinha nos primeiros anos, quando você não estava olhando. Minha maior reclamação era o fato de que minha mãe não me deixava usar meus poderes como eu queria. Quando Kat fez seu grande discurso sobre como todas nós experimentamos a dor quando éramos vivas, eu me sobressaltei. Eu nasci em um castelo e cresci em outro. Eu tinha os favores de uma imperatriz. Eu não conheci a dor quando era viva e por mais que eu entenda que depois de todo esse tempo, eu sou uma parte tão ativa do Exército quanto você, ouvir Kat me fez me perguntar porque eu estava lá. Claro que a resposta estava no rosto de Selene. E lá embaixo.
Ellie vira o rosto para Piatra também. Ela entende.
- Kat leva o sangue que você carrega muito a sério.
- Eu sei disso. Mas eu não estou aqui por mim, Ellie. Estou aqui por uma promessa. Não sou como o resto de vocês. Sou apenas a princesinha que foi sequestrada em um palácio por um grupo de fadas que lhe ofereceram vida eterna. E se eu não estiver pronta? E se eu for uma das primeiras que vocês perderão, por ser fraca?
Ellie se mexe abruptamente e eu me viro para ela.
- Você está pronta. - Ela diz, firme. - Você nasceu para isso.
- Deyah? - Pergunto, sabendo que não foram simplesmente minhas palavras que a assustaram. Ellie concorda com a cabeça e eu suspiro - Às vezes eu queria poder falar com ela. Descobrir que diabos ela quer de mim e porque era tão importante ter uma herdeira dela nessa empreitada.
Ellie não diz nada. O sol finalmente corta a escuridão do céu e começa a refletir sobre os telhados da cidadezinha.
- Sério? É isso que você quer? Você poderia me pedir qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. E escolhe falar com Anika como pedido?
Me viro para Ellie, que claramente não está falando comigo. É sempre estranho, mas hipnotizante, a observar falando com fantasmas.
- Você não pensou nisso porque é impossível. Ela não tem a alma dela, não pode se comunicar com nada em um plano espiritual. - Uma pausa. - Deyah. - Revirada de olhos. - Certo. Você salvou a minha vida e a das meninas, se é isso que você quer, é isso que você terá. Eu vou dar um jeito.
- Ela quer falar comigo? - Interrompo, sentindo algo dentro de mim se acender. - É isso que ela escolheu por ter ajudado vocês?
Ellie olha para mim e sorri.
- Suas palavras despertaram esse desejo nela. Agora precisamos descobrir como.
- Talvez Sophie saiba alguma coisa. Ou Persephone. E eu posso ajudar.
Ela finalmente solta a safira e é para bagunçar meu cabelo outra vez.
- Deixe-as acordar. Quanto antes eu me livrar desse favor para Deyah, melhor.

12 de março
Juliana
Resolvo me esconder dos “Feliz aniversário” no segundo andar. Não interessa quantas vezes eu responda “Não tem como ele ser pior que o último aniversário do Exército”, eles continuam vindo e antes do meio dia, eu me sinto cansada. O que eu não conto é com encontrar Persephone e Kat discutindo no andar de cima. Estou me preparando para dar meia volta e buscar outro refúgio quando Kat diz?
- Não, Ju, fique. Me ajude a colocar razão na cabeça dessa covarde. - Kat incita e eu suspiro, fincando o pé onde eu estou - Se você soubesse que perderia Louise amanhã, você faria algo para impedir ou simplesmente se sentaria e esperaria o destino chegar?
- Por que? Louise é uma das que serão perdidas? - Pergunto, alarmada.
- Não é ficar sentada e esperar o destino chegar, Kat. - Persephone responde, me ignorando - Quão difícil é entender que independente do que você faça, você estará seguindo seu destino? Até a luta contra, faz parte de uma linha do tempo traçada para você, uma completamente imutável e indestrutível. Você não pode alterar o que foi escrito para você. Você não pode se considerar mais esperta que o Destino, porque foi moldada por ele.
- E você tem certeza disso ou ninguém simplesmente tentou antes de mim?
- Claro que já tentaram. Eu já tentei. E todos nós falhamos, miseravelmente.
- Então existem textos sobre isso, documentos. E eu preciso deles. Se já tentaram antes, já cometeram erros, dos quais eu posso passar por cima para finalmente acertar.
Persephone bufa. Está mais que claro que elas já tiveram essa discussão um milhão de vezes nos últimos dias.
- Katerina, me escute. Eu estou ajudando você a atravessar o Inferno para conseguir pegar a sua alma e a de algumas centenas de vampiros de volta. Eu vou quase que literalmente empurrar você por um buraco na lua para que você possa desafiar uma das entidades mais antigas do mundo, a que rege tudo que há de ruim neste universo e em outros. Eu não duvido da sua capacidade de fazer coisas impossíveis, eu não duvido na capacidade do seu Exército de vencer qualquer inimigo. Mas algumas lutas não podem ser vencidas porque não existem. Você não pode mudar o tempo. Não pode alterar a única coisa entre todas que é indestrutível. Concentre sua energia em outras coisas.
- Mas se o futuro é imutável, por que as previsões da Morte se alteram a depender das escolhas tomadas? - A frase sai tão rápido que eu só percebo que saiu de mim quando Persephone se volta para a minha direção.
Ela se vira como um tornado e os olhos faíscam com o máximo de raiva que eu já vi olhos humanos exprimirem, sem que o Inferno esteja envolvido. Persephone não diz uma palavra por mais de um minuto, enquanto me encara, e eu quase espero que ela erga a mão e coloque fogo em mim, mas Kat pigarreia, indicando que quer uma resposta. A bruxa vidente fecha os olhos e pressiona os indicadores contra as pálpebras.
- A Morte não conversa com o Destino. Eles são forças diferentes, que se envolvem com partes diferentes de um todo universal. A Morte tem domínio sobre começos e fins, por isso ela prevê os resultados de cada escolha tomada. Videntes entendem a língua do Destino, por isso tem indicações precisas do que foi escrito em uma linha do tempo.
Olho para Kat e a vampira faz o mesmo para mim. Damos de ombro ao mesmo tempo.
- Faz sentido, mas eu não vou apenas aceitar sua palavra. - Kat diz, fazendo Persephone voltar a abrir os olhos - Eu preciso de prova, de material. Preciso que alguém termine a viagem que comecei com Ellie e traga os livros de mamãe. - Persephone empalidece e Kat nota na mesma hora - Previsão?
- Ao menos uma intuição bem forte. Mas quer saber? Eu desisto, Katerina. Se você quer insistir nisso com tanta violência, não sou eu quem vou te convencer do contrário e muito menos te ajudar. Se você quer mandar alguém a Graz, mande, mas antes disso, eu preciso que você conheça alguém. Se ela não te fizer entender exatamente o que o Destino é, nada mais fará. Levarei você até o oráculo.
Me inclino na direção da conversa quase inconscientemente.
- Qual dos? – Kat resmunga - Existem tantas lendas sobre oráculos que você precisa ser mais específica.
A bruxa parece insultada.
- Oráculo é o nome que nós damos à vidente mais poderosa de um clã. Àquela que consegue interpretar mais claramente os designíos do futuro e se comunica diretamente com o Destino é concedida a liderança e o conhecimento.
Kat ergue a sobrancelha.
- Está me dizendo que existe uma vidente lá fora que se comunica com o Destino com mais clareza do que você?
Persephone sorri.
- Não, não existe. Mas eu só sou tão poderosa porque fui profetizada. Nasci com um destino traçado, então, não posso assumir as responsabilidades do oráculo, então Rowan as assumiu.
Selene, que passou por mim quando a última frase começou a ser dita, dá pulinhos ao ouvir o nome.
- Nós vamos ver tia Rowan? - Ela pergunta, correndo para abraçar sua irmã.
- E ela é sua tia. - Kat completa o meu pensamento.
- A irmã mais nova do meu pai. - Persephone murmura, bagunçando o cabelo de Selene - Ela é apenas dois anos mais velha que eu. E antes que você pergunte, eu não a odeio. Apenas invejo seu destino.
Kat ergue as mãos em rendição.
- E quanto iremos ver esse oráculo? No próximo quarto crescente? Quando o céu se tornar vermelho?
- Depois de amanhã. Eu só preciso de um dia para informá-la e para que ela se prepare para a nossa ida.
- Por definição, o trabalho dela não é justamente prever o futuro? - Pergunto, não conseguindo ignorar a deixa.
Persephone me encara outra vez.
- Você não tem um aniversário para comemorar?
Suspiro.
- Aparentemente, não. Ninguém está em um clima muito comemorativo recentemente e eu não aguento mais comemorações desanimadas. E são apenas 31 anos.
Kat se aproxima de mim e enlaça o braço no meu.
- Quem é você e o que fez com a minha Juliana? Vamos animar aquelas dez lá embaixo. Se o último aniversário do Exército provou qualquer coisa é que deveríamos aproveitar e celebrar cada momento. Aparentemente, você nunca sabe quando o Destino vai te atingir.
Persephone ri e enquanto eu e Kat descemos as escadas de volta para o primeiro andar, diz, um pouco mais alto:
- Parece que você finalmente está aprendendo.

14 de março
Anika
Fico surpresa ao saber que mais ninguém quer voltar a Piatra Neamț. Quando Kat anuncia a visita à cidade para conhecer o oráculo - a vidente mais poderosa do clã de Persephone - e diz que apenas eu, Olívia, Ellie e Juliana iremos, quase ninguém mostra algum tipo de descontentamento. A única a fazê-lo é Sophie, mas Sophie reclamaria por ser excluída em qualquer situação e a explicação de Persephone de que o próprio oráculo escolheu quem deveria ir, faz com que ela se resigne.
Às duas da tarde, eu estou parada na varanda da casa de vidro esperando por quem irá. A primeira a aparecer é Olívia, que já chega mexendo nervosamente em uma linha solta da barra do vestido preto que usa. Ela apenas balança a cabeça quando me vê e depois fica parada ao meu lado, imóvel como se tivesse olhado nos olhos de Medusa. Kat e Ellie chegam em seguida, silenciosas. Elas ainda andam sempre juntas e muitas vezes ficam sozinhas em salas de portas fechadas, mas nenhuma de nós as vê conversando em público. Juliana pipoca do nosso lado, quase como uma aparição, mais animada e curiosa do que preocupada. E finalmente, Persephone chega com Selene, a última tão animada quanto Ju, mas a primeira parecendo exausta. Ela precisou pedir permissão para que nós entremos na cidade outra vez e isso causou muito caos. Eu provavelmente deveria dizer “permissão para que as meninas entrem”. Ao que tudo indica, minha permissão não foi revogada, já que meu retorno era esperado. A sensação de pertencimento me toma outra vez ao pensar sobre isso. Elas sabem de algo que eu não sei e eu sinto que Deyah também sabe. Só espero que oráculo conheça uma forma de me fazer conversar com Deyah.
- Prontas? - É tudo que Persephone diz, e antes que respondamos, indica a estrada de terra e começar a caminhar conosco.
Atravessamos a fronteira de Piatra às duas e quarenta e cinco. Diversas pessoas se viram na rua e cabeças aparecem pelas janelas de casas para observar nossos passos, sentindo a quebra do solo sagrado no ar. Persephone treme a cada olhar, mas não retribui nenhum deles. Andamos em silêncio e em formação, calmas e atentas. Quase uma hora depois de entrarmos na cidade, Persephone se aproxima de uma casinha amarela cercada e abre o portãozinho da cerca. O jardim da frente é tomado de arvorezinhas com frutas vermelhas que eu não reconheço de primeira e um caminho de pedrinhas, que Selene pula, leva à varanda.
As primeiras três batidas de Persephone não têm resposta. As cinco subsequentes também não.
- Pensei que você tivesse avisado que nós viríamos. - Kat diz.
- E ela não poderia prever isso de qualquer forma? - Ellie completa.
Juliana ri baixinho e Persephone suspira.
- Vocês duas estão certas. O que quer dizer que eu prevejo uma entrada dramática.
Mal ela fecha a boca, uma aparição ruiva surge à lateral direita da casa, fazendo com que todo mundo se vire ao mesmo tempo.
- Uma garota não pode ser uma vidente e ter uma paixão pelo teatro ao mesmo tempo, Persephone? Mas sem aparições dramáticas de minha parte hoje, eu estava apenas colhendo folhas para fazer chá para as visitas. Não é todo dia que você recebe a maior profecia do seu clã na porta de casa.
Quando ela termina de falar, já está parada à nossa frente, com uma cesta de folhas de chá para comprovar suas palavras. É a jovem com os cabelos mais vermelhos em que já coloquei os olhos, mas tirando isso e os olhos castanhos, ela poderia ser irmã de Persephone. As feições são idênticas e a pele tem o mesmo tom quase brilhante no sol.
- Rowan. - Ela se apresenta, olhando para Kat.
- Katerina. Essas são - A vampirinha aponta - Olívia, Juliana, Ellie e Anika.
- A Freira, o Ramo, o Réquiem e a Princesa. - Rowan acompanha, olhando para cada uma de nós.
- Não faça isso. - Persephone sibila.
Ao mesmo tempo que Juliana diz:
- O Ramo?
- Desculpa, cabeça em profecias. - Rowan diz, para a sobrinha - Vamos entrar. - Ela se vira para a porta, mas parece pensar outra vez - Mas antes, onde está a minha garotinha?
Como se invocada, Selene sai de trás da saia de Persephone e pula para abraçar Rowan. O oráculo quase deixa a cesta que carrega cair no chão, mas abraça a sobrinha mais nova com quase tanto ânimo quanto ela. Quando se afasta, diz:
- E então?
Selene franze o cenho.
- Eu estou bem. Persephone não tem deixado faltar nada. E não, eu ainda não voltei a estudar, mas Persie diz que tudo bem perder um ano letivo pelo bem maior.
Rowan ergue a sobrancelha para a mais velha das sobrinhas, mas não diz nada quando coloca Selene no chão e abre a porta. Ela faz sinal para que entremos e as meninas se adiantam, enquanto eu adio minha entrada o suficiente para ouvir:
- Não era isso que você iria perguntar. - A voz de Persephone diz, baixinho.
- Eu me preocupo mais com se essas vampiras estão tratando bem a Selene do que se ela está na escola ou não. - Rowan resmunga - Ela é só uma garotinha.
- Ela está bem. É mais forte do que aparenta.
- Elas mataram seus pais, Persephone. E eu sei que seu destino é ajuda-las, mas o de Selene não.
- O destino de Selene é assumir o legado da família da minha mãe e para isso ela precisa estar perto dele. Não é você quem decide.
- Como você pode estar tão certa tendo passado esses últimos meses com...?
Persephone sibila para fazer com que ela se cale.
- Eu sei. Ela é minha irmã e herdeira. O meu legado é dela.
Rowan solta um som inteligível, demonstrando que cansou dessa discussão, na qual já deve ter sido vencida várias vezes. O fim da conversa me dá a oportunidade de observar o interior da casa do oráculo. Tendo conhecido duas das casas que Persephone herdou, eu imagino que estivesse esperando por algo diferente da casa da vidente mais poderosa da família. A casa de Rowan é apenas um chalé. Colorido, organizado, bem decorado, mas menor do que a casa de Kat em Graz. Ela é mais acolhedora, porém, e parece mais uma casa de avó, incluindo o cheirinho de biscoitos recém assados. Uma olhada pela janela dos fundos indica que o terreno se prolonga por um longo jardim, com todo tipo de planta. Os batentes das portas estão tomados de pendentes de cristais. Imagino que ela realmente não precise de mais que isso.
A porta da frente nos levou à uma sala com um sofázinho e uma estante de livros - nada além disso. Rowan toma logo a frente e nos indica a cozinha, onde pede que esperemos na mesa. Ela coloca a assadeira com biscoitos sobre a mesa e impede que Selene pegue um porque eles ainda estão quentes. Em seguida, organiza lentamente as folhas que trouxe na cesta e depois que as separa, as coloca para ferver. O cheiro de chá do que quer que seja toma conta da cozinha em menos de um minuto. Enquanto Rowan continua se movendo habilidosamente pela cozinha, nós observamos os passos dela com solenidade e ninguém diz coisa alguma. Vindo de qualquer lugar, um gato passa correndo embaixo da mesa e quando Selene pergunta se pode brincar com ele - Mikail - no quintal, Rowan a entrega um biscoito e a libera.
Depois de ver Selene se afastar o suficiente pelo quintal, Rowan tira o avental que usa e se senta na mesa, virada para todas nós.
- Enquanto eu tive meus motivos para atrair justamente essa assembleia de pessoas para a minha casa, eu sei que vocês tiveram seus motivos para vir até aqui e eu acho que nós precisamos resolver isso antes de partir para as outras coisas. Por onde começamos?
Kat olha para Persephone e a bruxa vidente revira os olhos.
- Kat quer saber mais sobre o Destino, porque ela acredita que pode reescrever os desígnios preparados para o seu Exército. - diz, para Rowan.
Rowan encara a vampira líder.
- Essas duas afirmações se anulam. Se você descobrir mais sobre o Destino, vai descobrir que todas as suas ações foram escritas por ele e assim perder toda a sua autonomia e a fé de que pode fazer algo que altere o que você nasceu para ser.
- Eu não vou ficar sentada e deixar todas as previsões de Persephone se realizarem.
- Ah, se eu fosse você seria exatamente o que eu faria. Só Deus sabe o que aconteceria se as coisas não seguissem como as interpretações dela. Literalmente.
- Bem, você não é eu. Eu tenho quebrado regras para conseguir o que eu quero da forma que eu quero desde o primeiro dia.
Rowan tira os olhos de Kat para passar por nós quatro por um instante. Seus olhos param nos meus e parecem assombrados por um instante. Provavelmente é a semelhança com Selene. Ainda olhando para mim, ela volta a falar a Kat.
- Isso tudo é por medo de perder as suas? Você sabia que seria perigoso e que provavelmente alguém morreria desde sempre. E elas também sabiam ou descobriram rapidamente. Qual o sentido se envolver em outra guerra e uma completamente infrutífera à essa altura?
- Só porque você sabe que algo vai acontecer, você tem que aceitar?
- Sim. Esta é a descrição do meu trabalho. Descobrir que as coisas vão acontecer, quando e como elas vão acontecer e trabalhar na aceitação do fato.
- Nesse caso, nós temos bem pouco em comum.
A chaleira apita e Rowan se levanta abruptamente. Ela permanece calada enquanto serve o chá em duas xícaras. Por um instante ela se vira para Ellie, mas Ellie despensa com um sinal da mão. Quando Rowan volta para a mesa e entrega a xícara de chá para Persephone, ela volta a falar com Kat:
- Se você quer saber mais sobre o Destino, eu sou a pessoa para ajudar você nisso. Eu fui criada para conversar na linguagem secreta que ele se expressa desde que eu era um bebezinho. Persephone é um bebê profetizado, ela conversa com o Destino aos gritos desde que nasceu, mas ela também é uma bruxa e precisa focar em outros poderes. Eu sou apenas uma vidente e cada segundo dos meus vinte anos foram dedicados a conhecer a força regente do tempo. E é por isso que eu preciso dizer: Não gaste sua energia. Não faz sentido se dedicar a isso quando você tem tantas coisas incríveis no seu futuro. Deixe o Destino nas mãos das que foram amaldiçoadas e marcadas por ele. Você é a Libertadora. Não se importe tanto com isso.
Um cacho rebelde escapa do rabo de cavalo perfeito de Kat e cai sobre sua testa. Por alguns segundos, essa é a única coisa em sua expressão que se move. De repente, seu rosto se afogueia e o lábio inferior treme quando ela diz:
- Eu não irei levar as onze únicas pessoas em que eu confio para o Inferno sabendo quais delas não retornarão se eu puder fazer algo sobre isso. Não é discutível. Não é negociável. Não há nada que você possa fazer a respeito. Se você pode me ajudar, eu aceito a sua ajuda, mas não tente me dissuadir a respeito. Eu sou a garota que nasceu para morrer, não me diga que eu não posso desafiar o destino.
A expressão de Rowan relaxa pela primeira vez desde que chegamos. Ela quase poderia rir, mas de novo, ela se parece com Persephone em alguns aspectos. Ainda assim, ergue as mãos em rendição comicamente.
- Você realmente acredita nisso? Que nasceu para morrer?
Kat revira os olhos.
- Sei que não nasci para a Morte, mas para o Inferno. Mas eu não nasci para receber os poderes das minhas ancestrais e para ser uma bruxa Petry. Eu nasci para ser uma vampira poderosa no Inferno e garantir vida eterna para minha mãe. E eu mudei tudo. Agora isso é só a menor parte da minha vida.
- Não foi para isso que você nasceu, Kat. Bem, talvez seja para o que você nasceu, mas não o motivo pelo qual você existe. E eu tenho algo que prova isso.

Juliana
Rowan vai para um dos cômodos que não vimos e o clima na mesa muda. Isso é algo raríssimo de se dizer, mas Persephone parece perdida, sem saber o que esperar. Anika e Olívia observam seus arredores, como fazem toda vez que o oráculo se cala. Kat e Ellie trocam olhares, mas não dizem mais nada. Quando Rowan volta, carrega papéis antigos e dois cadernos nas mãos. Ela os deposita sobre a mesa, mas se serve de chá outra vez antes de mexer neles. Eu me pergunto se ela toma esse tempo para falar com o Destino sobre seu próximo passo.
- Um pouco mais de 150 anos atrás, uma vampira com a descrição bem próxima à de Deyah veio para Piatra Neamț pela primeira vez. - Rowan começa assim que se senta - A cidade não era sagrada ainda, é claro, mas já era cheia de bruxas e Deyah tentou seduzi-las a se tornar vampiras e se juntarem ao Clã Romeno. Isso não funcionou, já que a maioria das bruxas eram vacinadas contra as investidas do Clã, mas Deyah não foi embora, porque engatou um romance com um vidente, pertencente à minha família. Os dois permaneceram juntos por alguns anos, sem que o vidente se tornasse vampiro, e ninguém sabia qual era a vantagem que Deyah poderia estar conseguindo em ficar com ele e presa em Piatra por tanto tempo. Deyah o deixou no começo de 1867 e ele despareceu dois meses depois, mas não sem antes ser o portador de uma profecia. - A vidente pega um dos papéis com a mão que não segura a xícara de chá e o coloca na frente de Kat. - Ele fez esse desenho, repetidas vezes e o entregou para cada vidente da família na época. Na legenda, palavras em hebraico. Minha avó dizia que ele não sabia ler hebraico, mas isso são especulações. A questão é que eu também não sou a pessoa mais apropriada para traduzir hebraico, mas eu imagino que Olívia seja.
Olívia lança um olhar rápido pra Rowan antes de se inclinar para o desenho. De onde eu estou - com Olívia e Ellie me distanciando do desenho, eu não consigo enxergar o papel, mas o que quer que seja, faz com que Kat se encolha.
- Eu não sou fluente em hebraico - Olívia diz -, mas essas palavras são inconfundíveis. זה כתוב. Está escrito.
- A frase preferida do Destino. - Persephone resmunga.
- Era uma profecia incompleta na época, mas ela foi se completando com palavras soltas durante os séculos. Cada oráculo de nosso clã previu alguma coisa. A última frase veio da minha boca e foi a primeira frase completa que eu disse.
- Como isso é possível? - Kat quase grita, perdendo o controle da voz e de si mesma.
Cutuco Olívia com o cotovelo e ela pega o desenho para passar para mim. Anika se aproxima para ver comigo e nós duas prendemos a respiração ao mesmo tempo. É Kat. O desenho é uma representação perfeita do rosto angelical e imutável da nossa líder, talvez melhor do que desenhos dela que foram feitos em frente à modelo. A qualidade do papel e a datação do desenho confirmam o que Rowan disse, 1867.
- Grandes profecias precisam de tempo. O motivo da minha família ter sido escolhida para trazer essa profecia à luz foi um mistério por um bom tempo, mas hoje faz todo sentido. Quando o desenho foi divulgado, chamavam a menina da imagem de O Anjo. Em 1873, o título A Libertadora e Seu Exército, apareceu. Em 1880, os títulos das integrantes do Exército começaram a surgir em grupos: O Réquiem, A Intocável, A Princesa, O Yin e o Yang, A Prometida, A Amaldiçoada, A Irmã, O Fogo, O Ramo, A Árvore e A Freira.
- O que todos esses títulos significam? - Pergunto, ao mesmo tempo que Kat diz:
- O que exatamente essa profecia diz?
Rowan opta por responder a Kat.
- A profecia diz que vocês descerão ao Inferno, no dia mais escuro do ano mais escuro e as mais merecedoras retornarão vitoriosas com acordos escritos no céu, em sangue e fogo.
- Todas nós somos merecedoras.
- Não é isso que está escrito, Katerina.
- E é por isso que eu quero reescrever.
Rowan apenas balança a cabeça, desprezando o que ela disse, provavelmente já tendo visto essa reação em dezenas de pessoas.
- É um texto longo que especifica exatamente como as coisas serão. O Inferno tem tentado impedir essas coisas de acontecerem há mais de um século, mas tudo que fizeram foi criar o Réquiem e abrir uma ruptura que criou o ano propício para a realização da profecia.
- Eu imagino que 2016 seja o ano mais escuro. - Ellie diz, falando pela primeira vez desde que chegamos. Rowan concorda com a cabeça. - Qual o dia?
- A lua negra.
- 30 de setembro. - Ellie diz, olhando para Kat.
- Nós temos até lá para sermos apenas dez. - Kat resmunga - Eu perderei mais duas nos próximos seis meses.
- Você sabe que não significa que elas morrerão, certo? – Rowan pondera.
- Não importa, Rowan. - Persephone diz, entredentes. - Nós não deveríamos estar nos preocupando com as que perderemos e sim em preparar as que ficarão, mas Kat não me escuta.
- O que precisamos preparar? - Kat diz - Mais treinos físicos? Mais sessões de leituras de mão? Isso é preparação ou apenas mais enrolação até que “a próxima coisa que o Destino preparou aconteça”?
- Ah, mas existem muitas coisas para acontecer até lá. - Persephone anuncia, fechando os punhos sobre a mesa - Muitas mais do que você imagina. Existe uma mudança violenta prestes a acontecer e não interessa o quanto eu tente, eu não consigo descobrir o que exatamente será.
- Você não leu a profecia. - Kat diz, meio acusando, meio zombando da vidente.
- O conselho do oráculo não achou adequado, já que ela faz parte da profecia. - Rowan é quem responde, brincando com a xícara de chá vazia. - Ela sabe o que vai acontecer apenas pelo que previu para ela mesma e pelas coisas que eu deixei escapar nos últimos anos. A profecia em si é de guarda do oráculo.
- Mas eu a lerei. - Kat afirma, com toda firmeza.
- Apenas porque eu acredito que o texto dissuadirá você de perseguir essa luta idiota com o Destino. Você é uma das pessoas com o Destino mais brilhante que já habitou a Terra, Katerina. Não faz sentido lutar contra isso.
- Não é você quem decide.
Ao meu lado, Anika se remexe. Persephone e Rowan entram em um suspiro sincronizado, enquanto Selene entra na cozinha, cansada de brincar com o gato. Rowan olha para a janela, surpresa por o sol estar se pondo e quando coloca Selene em seu colo para comer biscoitos, sentencia:
- Isso é o suficiente dessa maldita profecia. Precisamos focar nas coisas mais imediatas. O que Persephone disse sobre a mudança violenta... Se eu tivesse que deduzir, eu diria que é a terceira bruxa.
Toda cor desaparece do rosto de Persephone. Isso costuma acontecer quando ela tem uma revelação muito poderosa e eu sempre sinto uma vontade irracional de fazer o sinal da cruz quando a vejo desse jeito. Olívia acaba fazendo isso por mim.
- Eu pensei que a tríade fossemos eu, Ellie e Sophie. - Persephone geme.
- O Réquiem é a chave. Vocês precisam de um portal, um guia e um pilar.
- Me diga que a mudança violeta não provém dos Grandes Acordos.
Rowan sorri com ironia.
- Você sabe que precisaria falar com ela eventualmente.
Persephone solta uma palavra em romeno que eu não reconheço, mas que pela cara que Selene faz só pode ser um palavrão. Kat ergue a sobrancelha e encara as videntes:
- Precisamos de outra bruxa?
- Vocês precisam de uma tríade para mudar de dimensão. - Rowan concorda - Três bruxas nesse caso. Persephone é a única que não precisa ser ligada a você, é claro. Mas as outras duas precisam estar ligadas de alguma forma.
- Por que Persephone não precisa? - Ellie pergunta.
Rowan encara a sobrinha.
- Você não contou a elas sobre seu destino?
- Não é da conta delas. - Persephone corta - Quem será a terceira bruxa?
- Como eu poderia saber disso?
- Bem, nós precisamos saber quem é para começar a prepara-la.
- Será que dá para vocês duas me incluírem na conversa? - Kat reclama, admitindo uma fraqueza que ela nunca admitiria normalmente - Como nós vamos conseguir uma terceira bruxa no Exército sem ter que descer ao Inferno?
- Da mesma forma que conseguiram a primeira. - Rowan responde.
Kat fica muda, o que faz com que Rowan sorria outra vez. Persephone apenas bufa:
- A próxima lua cheia acontece na mesma semana que o equinócio. Você sabe o que isso significa.
Kat aperta as sobrancelhas.
- Os Grandes Acordos com a Morte.
- Um sacrifício pelo que o seu coração mais deseja.
- Ainda assim, a alma está fora dos domínios da Morte. - Kat diz, tentando entender - Ela apenas acidentalmente concedeu imortalidade sem condições a Sophie, mas ainda assim a alma teve um longo e tumultuoso trajeto de volta a dominar o corpo.
- É o dia da década em que a Morte está mais poderosa, Kat. - Persephone resmunga.
- Você pode conseguir algo que não pertence à Morte, se sacrificar a ela algo que também não a pertence. - Rowan completa.
- O que isso deveria significar?
- Sacrifícios são coisas pessoais, significa uma coisa para cada pessoa. Passe isso às suas vampiras que foram bruxas e quem quer que tenha algo que possa sacrificar, que não pertença à Morte e que seja tão importante para a portadora quanto a própria alma, recebe a alma de volta dia 23 e se transforma no pilar.
Silêncio se segue. Rowan vê isso como assunto encerrado e encara nós três, vampiras que foram convocadas por ela e que ainda não tiveram participação praticamente nenhuma na tarde.
- Anika. - Ela anuncia olhando para a doppelganger da garotinha que tem no colo - Existem tantas coisas que eu queria poder contar para você agora. Muitas mais do que você imagina. Mas eu tenho a forte sensação de que se eu disser qualquer coisa essa casa será assombrada por uma fantasma furiosa para todo o sempre. Ellie pode se comunicar com espíritos e com pessoas físicas, mas também pode se comunicar através de espíritos e espíritos através dela.
- Você não está sugerindo possessão. - Ellie reclama imediatamente.
- Faça de uma forma segura e temporária, mas é a única forma que eu consigo pensar. - Rowan diz, fazendo uma careta para Ellie - E Deyah precisa falar com Anika. O que ela tem a dizer vai definir o futuro não só do seu clã, mas do de Persephone e do meu também. Talvez Deyah até fale sobre o que aconteceu em 1867.
- Foi o ano antes que eu nascesse. - Anika comenta.
Rowan a observa dos pés à cabeça.
- Foi mesmo, não foi?
Ellie se resigna a não dizer mais nada, cansada, e Rowan olha para mim.
- Se não estou errada, você tem uma irmã?
- Você está errada, tenho duas.
Bela frase de entrada, Juliana. Rowan não se importa.
- Me refiro à sua irmã humana. Você precisa encontrá-la. Ela será uma das formas com as quais o Inferno vai tentar distrair você e quanto antes você se livrar desta distração, melhor.
- Alex está em Nova Orleans.
- Não, não está. Ela deixou Nova Orleans no começo do ano. Pergunte à líder dos Apreciadores.
- O que Amelie tem a ver com isso?
- Ela dirá a você.
- Se você sabe, você me dirá.
- O que eu sei é que você precisa encontra-la, dar um fim à distração e voltar para cá o quanto antes. Suas duas irmãs precisarão você em algum ponto. Você é o Ramo, mas não um que pode ser quebrado.
- Eu não vou sair daqui com mais perguntas do que eu cheguei, então você pode me explicar em detalhes exatamente o que isso tudo significa.
Do nada, Rowan pega um dos cadernos e atira na minha frente.
- A Árvore e O Ramo tiveram suas funções desenhadas em 1912. Minha tataravó foi completamente obcecada pelo que vocês significariam para a guerra e manteve um diário apenas sobre vocês. Ele é seu. Faça bom proveito das informações contidas aí.
O problema é que o caderno caiu aberto e a página não parece aleatória. As palavras romenas “Poate o ramură supraviețui fără copac ei?” estão escritas em carvão em uma anotação esbaforida que deixou manchas por toda folha. Meu corpo se retesa automaticamente. “Pode um ramo sobreviver sem a sua árvore?”.
- E quanto a mim? - Olívia diz quando nada mais é dito por mim ou por Rowan.
- Nada de muito perigoso ou dramático para você ainda. Eu só pensei que já que Kat virá para cá para estudar o Destino, talvez você pudesse vir junto para me ajudar com algumas traduções? Muitas profecias foram feitas em latim e hebraico e eu nunca conheci ninguém que tivesse facilidade com as línguas.
Olívia suspira.
- Tudo bem. Se eu posso ajudar.
Persephone faz um sinal com a mão e as luzes da casa se acendem.
- Exibida. - Rowan reclama, mas afasta Selene e se coloca de pé.
- É hora de ir. - Persephone anuncia - Digamos que o Exército tem muito o que pensar. Kat pode voltar amanhã com Olívia se quiser.
Todas nós nos levantamos e nos preparamos para sair, mas antes que possamos fazer isso, Rowan segura o braço de Persephone e fala a ela na frente de todas.
- Persie, eu realmente acho que você deveria contar a elas sobre seu destino. Elas devem a você, ao menos isso.
Persephone não diz nada, mas toca na mão de Rowan demonstrando mais proximidade familiar do que em qualquer outro momento. Então pega Selene pela mão e sai, sem se despedir.

16 de março
- Eu não vou deixar que você faça isso sozinha.
- Você precisa ficar para a Danse Macabre e eu não posso perder nenhum segundo.
- Não, não preciso. Eu não tenho nada tão importante quanto a minha alma para sacrificar. Eu vou com você.
- Louise, ela é minha irmã.
- E você é a minha. Duas vezes. Nenhuma de nós deveria deixar o país sozinha, Juliana.
Bato a mala e me viro para encarar minha irmã. Minha melhor amiga. A Árvore cujas raízes me manterão de pé até o fim da guerra. Ela é minha irmã muito mais de duas vezes.
- Lou. Eu não vou deixar você fazer isso. Você precisa ficar aqui e eu preciso fazer isso sozinha, uma vez que seja. Você sabe que mesmo quando estamos distantes nós estamos conectadas. Você tem um pedaço da minha alma. Mas agora, eu sei que você precisa ficar aqui e saberia disso mesmo que duas videntes não tivessem me dito.
- Eu concordo sobre Louise ficar. - Kat diz, aparecendo na porta como um fantasma e me fazendo saltar - Mas não sobre você ir sozinha. Pierre irá com você.
- Kat...
- Não há discussão, Juliana. Você não pode deixar o país sem pelo menos um escudo com você e Pierre não está fazendo nada.
- Pierre só vai me atrasar e eu não estou no humor para aguentar as piadinhas dele. Eu posso me virar sozinha.
- Eu não tenho dúvida nenhuma disso, o que não significa que você deva se virar sozinha.
- Vai dizer que eu sou uma das que você perderá e você tem medo de que eu não volte? - Zombo, frustrada com o que considero falta de confiança.
- Você leu o diário, me diga você.
Dou um pulo, fazendo sinal para que Kat não fale sobre isso, mas Louise pergunta do mesmo jeito.
- Diário?
- Certo. Você venceu. - Rosno para Kat. - Pierre irá comigo. Mas Louise realmente fica. E eu não preciso de ninguém rastreando meus passos ou entrando em contato comigo o tempo todo para saber o que está acontecendo ou o que eu estou fazendo. Eu vou voltar e vou voltar muito antes do dia 30 de setembro.
- Eu sei, Ju. Eu confio em você. - Kat diz se aproximando para apertar minhas mãos - Só não se esqueça que você não precisa fazer nada sozinha.
Aperto as mãos de Kat, mas as solto em seguida para colocar a mala no chão e me despedir de todo mundo lá embaixo.
- Preciso, sim. Isso eu preciso fazer sozinha.

17 de março
Anika
- Que fique claro que eu só aceitei fazer isso por consideração a você.
- E por estar devendo isso a Deyah.
Ellie revira os olhos, mas concorda com a cabeça. Estamos esperando que Deyah apareça, sentadas do lado de fora da casa de vidro, no chão do barranco que permite que a casa tenha vista para Piatra Neamț. Marcamos a noite de lua crescente que está escondida entre diversas nuvens, porque Deyah não queria que ninguém tentasse espiar lá de dentro o que estávamos conversando. A muitos protestos, ela proibiu até mesmo a presença de Kat e insistiu que o que tinha para contar só dizia respeito a mim e que eu deveria escolher o que contaria ao Exército. Eu acho que Kat só desistiu de vir porque ela tem muita coisa com o que se preocupar.
O Exército tem estado em polvorosa desde que Kat anunciou o que o oráculo disse sobre os Grandes Acordos com a Morte na lua cheia do dia 23. Até o presente momento, nenhuma das ex-bruxas anunciou ter nada que não pertença à Morte e que seja tão importante para ela quanto a própria alma. Eu sei que eu não tenho. Eu tenho pouco de físico ou espiritual, que eu considere importante e, no momento, nada é tão importante quanto a minha alma. Eu fico olhando para as outras, que têm ligações importantes com outras pessoas e que têm coisas materiais que consideram importantes, mas todas elas parecem tão perdidas quanto eu. Tenho certeza que cada uma delas faria qualquer coisa para ser a terceira bruxa e recuperar a alma antes da hora, mas o enigma que é esse sacrifício ainda não foi resolvido por nenhuma de nós. E faltam apenas seis dias.
Olívia e Kat também passam cada dia mais tempo na casa de Rowan. Eu invejo os momentos dela lá dentro, com a energia de Piatra, mas se o oráculo não me quer, não há nada que eu possa fazer. Kat sempre volta das supostas aulas, circunspecta e observante. Parece estar aprendendo a nos ler, ao invés de falar com o Destino. Eu acho que as meninas que não foram bruxas e que não precisam se preocupar com os Acordos ficam o tempo todo pensando sobre as previsões de Persephone, sobre os segredos que ela guarda sobre o nosso futuro. Se Miranda ainda estivesse por aqui para ser pupila da bruxa vidente, talvez ela nos contasse algo nos bastidores, mas tudo que sabemos é o que ela contou para a gêmea (que no momento anda tão silenciosa que às vezes esquecemos onde ela está): Quando descermos ao Inferno, seremos dez. Quando tudo acabar, sete.
Isso deixa cinco pessoas para perder - duas delas antes do dia 30 de setembro - e todo mundo que não sabe quem é, parece acreditar que a próxima delas é Juliana. A saída repentina dela, com diversos pedidos para não ser incomodada, faz com que todo mundo desconfie de suas intenções. E tudo que Amelie disse faz com que a gente se pergunte se ela possui força o suficiente para suportar o que quer que ela veja lá fora. As únicas que não duvidam dela somos eu, Ellie, Kat e Olívia. Todo mundo que viu sua reação à profecia da família de Rowan sabe que ela vai fazer parte do ápice da guerra. Ninguém seria chamada por um enigma em uma profecia tão óbvia se seu papel não fosse complexo e indispensável no desenrolar do que foi escrito. Mas mesmo já sabendo qual será seu papel na guerra, Juliana foi completamente sigilosa a respeito, até mesmo com Louise, que é metade da profecia. Ela nos pediu que não falássemos nada sobre A Árvore e O Ramo até que ela volte e estamos guardando esse segredo. É o mínimo que podemos fazer depois de tudo que ela ouviu de Amelie.
- Você está calada há tempo demais. - Ellie comenta, sem olhar para mim.
- Acontece quando eu estou pensando sobre tudo ao mesmo tempo.
Ellie se prepara para responder a isso, mas de repente, se senta com a postura ereta como sempre faz quando um fantasma aparece.
- Ela chegou. - Diz, simplesmente, ainda olhando para a frente. - Faça isso o mais rápido possível. Meu corpo não é playground de fantasma.
Eu arrumo minha postura também. Ellie pega a minha mão e segura com força e eu posso sentir uma mudança quase imperceptível na atmosfera. Em seguida, a mão dela tem uma queda de temperatura tão repentina que só então eu percebo quão mais quente que a minha ela era. Uma nuvem que não parece tão escura quanto elas têm sido ultimamente sai da frente da meia lua e eu me arrisco a olhar para cima. Meu queixo quase cai. Suas feições mudaram completamente. Ainda é Ellie, mas a forma como ela olha para mim, a forma como empina o nariz, o franzir dos lábios - tudo é obviamente de outra pessoa.
- Anika. - Ela diz. Deyah diz, pelos lábios dela. A voz também é a de Ellie, mas não soa como Ellie, mesmo quando ela diz uma palavra apenas.
- Deyah. - Respondo, com a voz bem mais baixa do que eu pretendia.
- Você parece diferente olhando por esses olhos. Mais real. No sentido de parecer mais principesca.
- Eu sei, sou A Princesa da profecia. Alguns hábitos de castelo não vão embora, mesmo depois de um século na floresta.
O rosto dela se suaviza quando eu digo isso e me pergunto o quê eu disse de certo.
- Você se parece tanto com minha Michaella. Até fala como ela.
- Isso está começando a ficar estranho. Apenas me diga o que precisa dizer.
- É exatamente isso. Você se parece com Michaella. E com Selene. Todas as vezes que os dois clãs se unem uma das crianças tem este rosto. Os alemães têm uma palavra para isso...
- Doppelganger. - Completo.
Pequenas peças no meu cérebro parecem se conectar e desconectar enquanto eu entendo o que ela diz.
- Exatamente. - Deyah responde. - Não existe explicação para isso, não que eu saiba pelo menos. Talvez seja um desígnio do Destino, talvez apenas coisa de família. Mas aconteceu três vezes e eu me arrisco a dizer que pode acontecer outra vez no futuro.
- Você está me dizendo que eu sou descente da família do pai de Persephone e Selene. E que seu marido, o primeiro vampiro, também era.
- Seu nome era Claudius. Pelo menos isso as histórias reproduziram certo. - Deyah resmunga. - Mas sim. É exatamente o que eu estou dizendo.
- Meu pai não era um vidente. Metade da minha vida foi passada escondendo do homem que eu tinha poderes.
- E exatamente quão parecida com ele você é?
Meu pai era um típico clichê alemão de cabelos louros e olhos azuis. Eu não dou a Deyah o prazer de ter sua pergunta respondida. A fantasma percebe que eu estou revoltada e dá uma risadinha.
- Seus pais se casaram porque sua mãe queria esconder a desonra da gravidez fora do casamento, mas não foi por seu pai que ela foi desonrada. A história completa do seu nascimento é muito mais complicada e rica do que você poderia imaginar e eu nunca pensei que fosse ter a chance de conta-la a você. Fico feliz por ter essa chance antes de entrar no limbo.
- Como você poderia saber sobre isso? Nós nem estávamos no mesmo país.
- Isso é verdade, mas não quer dizer que eu não tinha como controlar seu destino. O com D minúsculo, é claro. A profecia não começou a ser feita em 1867, foi feita três anos antes. Quando eu cheguei a Piatra, conheci um vidente charmoso que não estava assustado por mim. Na verdade, ele disse que esperava por mim e que desejava passar tempo comigo. Galanteador o suficiente para que até mesmo alguém sem alma se sentisse atraída. Ou pelo menos, intrigada. Eu fiquei com ele por tempo suficiente para descobrir porque ele esperava por mim. Ele me contou sobre a profecia e me mostrou o desenho de Kat. Ele me disse que O Anjo me procuraria e que eu precisava guia-la. Eu não disse a ele que já a conhecia. Passei os quase dois anos seguintes tentando arrancar tudo que ele sabia sobre o que ela faria e descobri muito mais do que a família dele descobriria em anos. Inclusive, que ele descendia de Michaella. E de mim e de Claudius. Claudius aceitou se mudar para o isolamento comigo porque ele já ficava isolado na vila. Por ter visões. Todo mundo o achava louco. Não se ouvia sobre videntes na época, para tudo se dava o nome de “bruxa” e as bruxas de verdade não conheciam ninguém que tivesse visões, então não acreditavam que isso existisse. Eu não sei exatamente quando se percebeu que as visões eram o dom de falar com o Destino e ver o futuro, mas naqueles anos eu descobri que a descendência de Michaella tinha se dividido entre bruxas e videntes séculos antes. Eu sabia quem era a bruxa herdeira, é claro, mas perdi o rastro de ramos familiares com o tempo.
“Quando eu ouvi sobre a profecia e soube que Kat encabeçaria essa guerra, eu precisava fazer algo sobre. Precisava me envolver. Afinal, eu criei os vampiros, segredo que eu tinha escondido muito bem do Clã Romeno por muito tempo. Ainda não era seguro falar sobre isso, mas eu fui criando planos. O primeiro deles era fazer com que o vidente falasse sobre a profecia para outras pessoas, para garantir que ela fosse repassada. Depois eu o enviaria para a Áustria, em busca do ramo principal da minha família. Com uso de muita hipnose e por meses a fim, o convenci a fazer exatamente o que eu queria e fui embora. Ele seguiu os planos e desapareceu dois meses depois. Um ano depois, eu recebi de alguns contatos a notícia de que uma nova herdeira tinha nascido.”
- Você fez com que ele seduzisse minha mãe?
- Eu o enviei para fazer com que os dois lados da minha família se reunissem em uma pessoa, mas eu duvido muito que ele estivesse em condições de seduzir qualquer pessoa. Ele era um homem quebrado depois de mim e de toda a profecia que recebeu. Por isso o hipnotizar foi tão fácil. Queria me lembrar do seu nome.
- Então eu provavelmente fui fruto de um estupro. - Afirmo, esticando as pernas diante de mim. - No qual as duas partes foram forçadas.
O fantasma no corpo de Ellie ergue a sobrancelha.
- Isso horroriza você?
- Não é o tipo de fato que deixa uma pessoa contente. Mas por quê? Por que fazer tudo isso para ter uma descendente sua no Exército de Kat?
- Não é sobre isso que aquilo tudo era. Não é sobre ser representada no Exército através de você. É sobre você. É sobre o que você é, foi e o que você será. É porque quando tudo isso acabar, você vai ser exatamente o que eu queria criar em primeiro lugar. Poderosa, imortal e o tipo de criatura que faz a Morte e o Inferno tremerem.
Quero interpelar com um comentário cruel, mas a voz dela soa tão convicta e tão encantada pelos próprios planos que eu me calo. A brisa de finzinho de inverno que vinha circulando pela floresta muda de lado, mas as nuvens parecem congeladas no céu. A lua continua iluminando onde estamos e eu olho para trás para ver se ninguém está nos observando através das paredes de vidro. Meu movimento desperta Deyah do que quer que ela esteja pensando.
- Além disso, você poderá assumir o legado da família e se tornar a bruxa mais poderosa do mundo.
- Espera. - Digo, balançando a cabeça - A herdeira do legado da família é Selene. E a bruxa mais poderosa do mundo é Sophie.
Deyah faz um sinal de desprezo com a mão.
- O fato de você estar viva deslegitima toda a linhagem de Persephone e Selene. Eu tive uma chance de observar Rowan depois daquele dia em que vocês estiveram lá. Ela não pode me ver, então foi fácil. Descobri que aos oito anos Persephone fez a primeira previsão que não era sobre ela. Era sobre a herdeira do legado depois dela, que seria uma garota com uma descrição que você conhece muito bem. Ela sabia que não teria filhos, então seus pais tiveram outra filha. Quando Selene nasceu e seu rosto era parecido com o desenho que Perephone fez, seus pais respiraram aliviados. Imagino que você imagine o problema com essa previsão agora.
- Nós temos o mesmo rosto. - Digo, para o nada.
- Eu não faço ideia de como essa previsão vai se desenrolar, mas você tem o título de A Princesa na profecia. E poderia apostar tudo que tenho que isso não é sobre você ter nascido em um castelo.
- Você não tem nada.
- Touché. Quanto ao que você disse sobre Sophie: “Mais difícil de matar” não significa “mais poderosa”. “Mais velha” também não. No momento, Sophie é a bruxa mais poderosa no mundo, mas junto com a sua alma, você vai recuperar séculos de poder, Anika. O mesmo poder que criou os vampiros. E quando você assumir todo legado que partiu de mim... Não tem incesto nesse mundo que possa se considerar mais intocável.
- E se eu não quiser assumir seu legado? Se eu abrir mão dele, a linhagem de Persephone se torna legítima.
- Se você não assumir o legado, não terá vencido o Inferno de verdade.
- Não. Você não terá vencido o Inferno de verdade. Eu venço no momento em que retornar viva, mas você só vence se tiver sua criatura perfeita.
- E sua matriarca vencer é um problema?
- Eu não devo nada a você. Eu não pedi para que você fizesse nenhuma das coisas que você fez para que eu exista, mas você age como se eu devesse. Eu não conheço você, eu sequer fui ensinada sobre você até entrar o Exército.
- Pensei que sangue fosse a coisa mais importante para vampiros.
- Tem muita coisa que você não entende sobre vampiros. Você os perdeu, quase mil anos atrás. Você não é o motivo de todos nós estamos aqui, o Inferno é e a maior parte de nós não está contente com isso e quer com que tudo mude.
- Por que você está tão brava? Você ainda é A Princesa.
- Porque quando eu entrei no Exército, a ideia que mais me fascinou foi a de poder escolher meu próprio destino. Eu não conheci uma pessoa durante toda a minha vida que tivesse escolhido o que quis ser e sendo uma vampira, eu poderia. Então eu soube sobre a guerra e todo significado dela e o plano de ser o que eu queria foi adiado. Não vou permitir que um fantasma de mil anos dite o que eu posso ser ou não. Você não pode definir meu destino, eu sou a única que pode fazer isso.
Deyah me olha com um ar superior e uma espécie de curiosidade no olhar. Eu imagino se ela me vê como eu me vi quando ouvi a mim mesma: Uma criação de Kat, da cabeça aos pés.
- Você não pode mudar o Destino. Com o seu sangue vidente, você precisa aprender isso o quanto antes. - Uma nuvem finalmente cobre a lua e a fantasma se põe de pé no corpo de Ellie - Minha hora chegou. Apenas uma coisa: Da próxima vez que alguém disser que eu não venci o Inferno, lembre a pessoa que “vencer o Inferno” significa sair de lá, mesmo quando as cicatrizes permanecem para sempre.
Ela deixa o corpo antes que eu possa responder a isso e quando eu me levanto para impedir que Ellie caia, começa a chover.

Aeroporto Charles de Gaulle, França
18 de março
Juliana
- Por que Paris, entre todas as cidades do mundo? - Apenas Pierre faria uma pergunta dessas.
Eu não olho para ele, continuo no celular, buscando o número do hacker no Google, mesmo sem me lembrar de seu nome.
- Você sabe que minha família vem de Nova Orleans, certo?
- Exato. Paris é o lugar mais óbvio do mundo.
- É o lugar considerado ideal, seguro, moderno, etc.
- Eu pensei que quisessem esconder Alex.
- E protegê-la.
O nome pisca na tela e eu suspiro. É claro que ele se chama Pierre. Pego uma caneta na bolsa para anotar o telefone num guardanapo. Não posso usar meu celular. Na verdade, sequer posso ficar com ele, sabendo que Kat usaria para me rastrear sem que eu soubesse a qualquer minuto. O último rastro de mim que ela terá será no GDC, até que eu volte para a Romênia.
- Certeza que o primeiro passo é encontrar o hacker? - Pierre diz, espiando as anotações que eu fiz no guardanapo.
Respiro fundo.
- Existe um banco de dados com as informações de todos os membros dos Apreciadores da Arte do Sangue. Se eu conseguir acessá-lo, eu consigo descobrir quem mora ou tem casas em Paris, encontrar minha irmã e sair daqui o mais rápido possível.
- Ah, sim. Não teria como eu saber disso se você não me contasse. Precisa manter seu companheiro de viagem atualizado se quiser que eu ajude.
Vejo que Pierre terminou a comida e me coloco de pé com o auxílio da mala.
- Você não é meu companheiro de viagem. E eu não quero que você me ajude. - Digo, fazendo um sinal para que ele me siga e andando pelo corredor do desembarque para a fila de táxis.
- Fiel escudeiro, então? - Ele pergunta arrastando a mala atrás de mim.
- Vigia. Você está aqui para ter certeza de que eu estou viva e para avisar a Kat caso eu não esteja. Você vai aos lugares comigo e apenas observa, fica em um lugar seguro e não se envolve de forma nenhuma.
Atravesso as portas automáticas do aeroporto e um taxista me atende prontamente, o que é um sinal divino de sorte. Enquanto ele guarda as malas, Pierre entra no carro comigo e diz, em romeno:
- Esse definitivamente é um uso ruim de um demônio em uma luta direta contra algo infernal.
Olho para ele, mas indico o endereço do hotel ao motorista antes de responder a ele, também em romeno:
- O que você quer dizer?
- O que quer que seja, - Ele engole em seco  - me deixe falar com ele, Juliana. Eu sou a única pessoa no Exército além de Kat que tem experiência nisso e eu posso conversar e equilibrar forças.
- Eu não sei, Pierre. Eu só sinto que preciso fazer isso sozinha.
- Não preciso fazer nada por você. Me deixe servir de portal, de tradutor, qualquer coisa. Só não me jogue para escanteio quando eu posso ajudar.
Cruzo os braços.
- Tudo bem. Mas você vai precisar seguir minhas ordens.
- Sem hesitação.
Abro um sorriso.
- Acho que meu discurso ajudou em alguma coisa.
Pierre apenas revira os olhos e vira os olhares para a janela. E eu sei que é exatamente por causa do meu discurso que ele quer ajudar.

Piatra Neamț, Romênia
20 de março
Kaylee
Céus quase tão escuros quanto a noite, trovões ensurdecedores que abalam a estrutura das casas e uma chuva que cobre a vista da cidade é como a primavera de 2016 diz olá a Piatra Neamţ. Dentro da casa de vidro de Persephone o clima parece tão tempestuoso quanto lá fora, com os Acordos com a Morte se aproximando pelas sombras e todos os outros problemas que parecem se multiplicar desde que Kat e Ellie foram sequestradas.
Depois de soltar a bomba sobre a existência de Anika há alguns dias, Deyah voltou noite passada para avisar a Ellie que ainda existem membros do Clã Romeno vivos. Não o suficiente para se unirem em algo tão forte quanto costumavam ser, mas o suficiente para que possa haver alguma retaliação. Além disso, as bruxas de Piatra pediram a destruição do Clã inteiro para permitir a nossa entrada na cidade e eu duvido muito que elas abram mão do acordo apenas porque ele coloca nossa vida em risco. Kat não pareceu surpresa quando ouviu a notícia esta manhã.
- Nada com raízes fincadas no Inferno é tão facilmente destruído com fogo. – Ela disse, dando de ombros.
Sophie grunhiu e se juntou a Persephone para criar um plano de defesa caso alguma coisa aconteça. Elas disseram que até o fim da noite terão um plano que precisará integrar todas as ex-bruxas do Exército. É uma clara tentativa de deixar todas nós com mais desejo de voltarmos a ser bruxas, mas elas ainda não perceberam que não tem nada a ver com vontade. Qualquer uma das meninas faria qualquer coisa para ter sua alma de volta em dois dias, sem precisar ir ao Inferno. O problema é o maldito enigma que cobre o sacrifício. Ninguém tem “algo que não pertence ao Inferno e que considera tão importante quanto a própria alma”. Quer dizer, quase ninguém.
Eu percebi quando Juliana viajou com Pierre e Amelie automaticamente foi isolada do resto da casa. Na noite depois da visita ao oráculo, Juliana chegou como um furacão, cheia de perguntas para Amelie. Isso fez com que todo mundo se reunisse em volta para observar e Juliana não se importou, apenas querendo respostas. Cada novidade que saía da boca de Amelie fazia com que todo mundo se movesse em direção a Juliana, tentando defende-la, protegendo sua retaguarda. A mesma força que as fazia fazer isso me movia em direção a Amelie. Apesar de eu me perguntar porque ela não tinha contado tudo aquilo antes, mesmo tendo passado semanas em nossa companhia e tendo recebido votos de confiança em diversos sentidos, eu queria defendê-la ou ao menos garantir que ela tivesse uma chance de se defender. Ninguém atacou Amelie porque todas ficaram mais preocupadas com Juliana e o fato de ela ter que deixar o Exército e ir a Paris, mas todo mundo se tornou muito consciente de que a presença de Amelie poderia ser danosa e de que ela não era uma de nós e sequer tinha algo que a prendesse do nosso lado, como Persephone e Pierre.
Naquela mesma noite, quando Kat nos contou sobre os Acordos, eu não percebi na hora. Tinha outras preocupações na cabeça e já que todo mundo queria pegar a alma de volta mais do que eu queria, eu sequer me preocupei com sacrifício algum. Depois que Juliana deixou a casa é que minhas observações me levaram à conclusão de que a pessoa sou eu. Existe mais gente que tem ligações que consideram tão importantes quanto a própria alma, mas a maior parte das meninas tem isso dentro do Exército e não faria sentido matar uma de nós para que a outra volte a ser bruxa no meio da guerra. Pierre seria “a coisa que não pertence à Morte” da forma mais profunda que nós conhecemos, mas nenhuma de nós se importa com ele de forma alguma. Dizem que Tatiana criou alguma ligação sobrenatural com ele, mas eu duvido muito que até mesmo ela se importe com ele tanto quanto com a própria alma. Resta assim, Amelie.
- Sério? Tanto quanto a sua própria alma? – É o que Kat pergunta, erguendo uma sobrancelha, mas sem olhar para mim quando conto a ela sobre minhas conclusões.
- Em minha defesa, não me importo com a minha alma tanto assim. Mas eu creio que perdê-la seria algo que me incomodaria, sim.
Estamos no andar de baixo da casa de vidro, assim como uma boa parte do Exército. O andar de cima está uma barulhada com a chuva que cai no teto e por algum motivo o térreo parece mais seguro. Ainda assim, existe barulho o suficiente onde estamos, com todo mundo falando ao mesmo tempo, para que eu me sinta segura em confidenciar isso a Kat.
- Ainda assim, você opta por sacrificá-la. – Kat diz, os olhos tão tempestuosos quanto as nuvens carregadas que ela encara.
- Eu não o fiz sem hesitar, mas é pelo bem maior.
- E vai deixar um monte de gente satisfeita.
Não respondo a isso, apesar de saber que é verdade. Também não me viro para olhar para onde Amelie lê um livro, apesar de desejar fazê-lo. Continuo encarando Kat, parada ao seu lado e ignorando as mesmas nuvens que ela parece tentar puxar em sua direção. Ela passa tanto tempo fazendo isso que eu resolvo interpelar:
- Está tudo bem, Kat?
Kat suspira profundamente e finalmente olha para mim.
- Você confiou em mim com algo hoje e eu farei o mesmo com você. Eu estava errada, Kaylee. Terrivelmente errada. Não em pensar que eu deveria lutar contra o Destino, porque eu não desisti disso ainda e nem pretendo... Mas em achar que eu deveria saber de tudo que vai acontecer. Eu não deveria ter descoberto. Eu joguei fora a benção da ignorância com toda prontidão e agora odeio Céus e Terra por isso.
- É ruim assim?
Ela desvia o olhar outra vez, dessa vez olhando para cima.
- Eu sempre soube que seria ruim, mas eu sempre achei que estaria pronta. Minha confiança em tudo era o que fazia de mim quem eu sou. Se eu precisasse queimar, eu queimava de cabeça erguida com a certeza de que voltaria das cinzas. Agora eu não sei mais se estou pronta, se sou a mais indicada para liderar vocês ou se o que fiz até agora foi o certo. E eu não tenho outra opção além de terminar o que comecei.
Algo pesado recai sobre mim. Pode ser um sentimento, uma conexão temporária com a minha alma. Pode ser apenas um efeito do estado de espírito de Kat ou da tempestade. Eu não consigo identificar o que é, mas sei que detesto.
- E vai valer a pena? No fim, terminar o que você começou... Terá significado algo?
Kat afasta o cabelo do rosto e cruza os braços.
- Precisa significar e precisa valer a pena. Eu não entrei nessa e carreguei todas vocês para que reste algum resquício de derrota em mim. – Ela olha nos meus olhos como faz pouquíssimas vezes.  – Apenas contei isso para você porque eu não posso simplesmente dizer: “Obrigada por confiar em mim, Kaylee. Você fez a escolha certa. Eu garantirei que você fique bem.”. Eu não posso mais garantir nada a ninguém. Não posso sequer pedir a você que você faça esse sacrifício.
- Mas você acredita que essa é uma boa ideia?
- É a única forma de conseguir a terceira bruxa.
- Não, não é. Responda a minha pergunta, Kat. Não interessa se você não se sente pronta, você é a única líder que eu tenho. Você acredita que sacrificar Amelie é uma boa ideia?
O lábio inferior de Kat se curva inconscientemente.
- Isso não vai ser fácil, Kaylee. Não vai ser apenas mais um quebra-molas no meio da estrada, será um barranco. Vai marcar você.
- Deve ser um sacrifício.
- Sim. Mas eu também sei que você não quer sua alma de volta com tanta vontade quanto o resto de nós, então eu não sei como isso afetará você.
- Nem eu, mas eu não tenho tempo para projetar o que vai acontecer e me permitir sentir medo. Eu deveria ser parte de um Exército, não um indivíduo. Soldados apenas tentam sobreviver agora.
Kat concorda com a cabeça.
- É uma boa ideia. E eu estarei aqui do outro lado, para ajudar você com o que quer que aconteça.
Respiro fundo.
- Não quero me importar com isso ainda. Agora precisamos organizar o sacrifício antes que ela perceba o que estamos fazendo.

22 de março
Anika
A tempestade manteve todo mundo acordado a noite toda e a escuridão do céu mesmo depois da alvorada fez com que todo mundo dormisse até tarde. Quando eu finalmente reúno coragem para abrir os olhos e alcançar meu celular, são quase cinco da tarde e apenas outras quatro pessoas estão acordadas. Não está mais chovendo, mas uma espécie de chiado vem do fundo da sala. Quando eu me sento para descobrir o que é, é que começo a distinguir vozes humanas e identifico uma televisão a manivela parada entre Valentina e Persephone, sentadas lado a lado a quatro colchões de distância de mim.
- Em que ano nós estamos? – Pergunto, chegando ao lado delas. Falei mais alto do que qualquer pessoa falaria em um quarto com dez pessoas dormindo, mas todas estão tão cansadas que ninguém sequer respira mais alto.
Persephone se sobressalta, mas não se vira para olhar para mim.
- Não vale a pena comprar uma TV de verdade sem saber quanto tempo ficaremos aqui. – Resmunga.
- É 2016. – digo, respondendo minha própria pergunta – Quem ainda precisa de televisão? Você pode assistir qualquer coisa pelo celular agora.
Persephone não responde, mas Valentina se vira para mim e dá de ombros.
- Miranda gostava de ver as notícias na televisão. Ela dizia que notícias na internet vem carregadas de opinião e as da TV dão mais tempo para pensar.
Isso faz com que eu me cale e me sente ao lado das duas.
- E quais notícias estamos tentando conseguir? – pergunto.
- Qualquer coisa que pareça infernal em algum nível. – Persephone responde - Não acho que sabemos o suficiente sobre o que tem escapado do Inferno e se tivermos alguma pista sobre isso, talvez consigamos tapar o buraco enquanto estivermos lá.
- Você está brincando né? Tudo parece infernal e inacreditável ultimamente. E parece estar se encaminhando para o pior. Mas é apenas o ritmo natural do mundo. A Terra é apenas o Inferno de outro planeta.
Persephone finalmente olha para mim.
- Você realmente acha que tudo que está acontecendo nos últimos anos não está diretamente relacionado à ruptura no Inferno? Milhares de mortes violentas, ignoradas. Grandes ataques acontecendo diariamente. Os mais ridículos crimes acontecendo e sendo perdoados ou até mesmo causados por quem foi eleito para manter a paz. O mundo assistindo bestializado a todo tipo de intolerância e fanatismo. Nós podemos dizer que isso sempre aconteceu, que é o ritmo natural do mundo, mas dessa vez é possível sentir que é diferente. Todo mundo tem adorado fingir que nada disso é real. Que faz tudo parte de um espetáculo que não nos atinge diretamente. Nós vemos crianças sangrarem e derramamos algumas lágrimas para no dia seguinte continuarmos nossas vidas. Enquanto isso, o horror se esgueira nas sombras e vem em nossa direção. Ele não pode ser parado e não é como se ninguém estivesse fazendo algo para pará-lo. Não existe nada que o Inferno goste mais do que a mais completa negligência.
- Então eu suponho que nós não vamos negligenciar isso. – respondo, nada abalada pelo discurso dela. – Apesar de estarmos envolvidas até o pescoço com algo quase tão importante quanto... – Deixo que a TV complete minha frase, falando sobre um tiroteio nos Estados Unidos.
Persephone volta a olhar para a TV, que já pede para ser recarregada.
- Eu apenas estou tentando fazer o serviço completo. Sem deixar buracos.
- Posso ajudar com isso. – Respondo, dando de ombros.
- Então recarregue a TV. – Valentina ordena.
Pego a manivela e começo a girá-la. Quanto mais eu faço, mais alto e claro o som fica e eu presto atenção nas notícias que continuam. Assassinato, tiroteio, incêndio, suicídios, golpes de estado e até mesmo a morte comum de pessoas que ainda tinham muito o que viver. Isso sempre aconteceu, o mundo sempre foi um lugar cruel. O problema é que a velocidade que as notícias são divulgadas faz com que a sensação se amplifique e os erros que já foram cometidos antes e são repetidos agora pareçam ainda mais errados. Ou pelo menos é disso que eu quero me convencer por enquanto.

23 de março
Sophie
Os gritos de Selene permanecem em meus ouvidos mesmo depois de já termos atravessado quilômetros sem ela. Na verdade, eu já consigo ver os contornos do Cimitirul Eternitatea iluminados pela lua cheia e o som estridente do choro da garotinha que não queria ser deixada de fora justo esta noite parece continuar a ecoar pelas árvores. Em dias normais isso não me perturbaria, mas hoje eu posso ver que isso perturbou a todas nós.
É o dia dos Grandes Acordos da Morte, nós estamos desfalcadas e a única substituição é Rowan, que não é de nenhum tipo de ajuda. A maior parte de nós não sabe quem é a bruxa que escolheu o sacrifício porque isso poderia deixar o sacrifício em questão arredio, mas Ellie, Kat e eu sabemos que Kaylee matará Amelie esta noite. Eu imagino que Persephone e Rowan também saibam, mas não disseram nada a respeito. O resto do Exército está apenas apreensivo, vendo coisas em sombras, sem saber o que esperar de hoje. Então o fantasma dos gritos de Selene nos perseguem pela noite. Provavelmente por isso, Persephone não para de falar enquanto andamos.
- Abadom não deveria ser o nome de um dos grandes demônios? – Ela pergunta para Kat, como se fosse importante falar sobre isso agora - O demônio do abismo?
Kat ri com um bufo.
- Você realmente acha que o Inferno deixaria o nome de um dos demônios grandes percorrer tão livremente a boca das pessoas e referências pop? Ele é forte. E poderoso o suficiente para não ser um demônio de possessão – só vem para a Terra através de pontes. Ele também é usado em grandes planos e poderosas maldições. Mas ele ainda é um garoto de mensagens. Enviado para conversar com uma garotinha de seis anos que havia nascido em uma janela e em uma fresta. Mais poderoso que o pai de Pierre, mas não poderoso o suficiente para dar as ordens.
Vejo os olhos lilases de Persephone recaírem sobre Kat cuidadosamente, mas é Rowan quem faz a pergunta:
- Você odeia ter sigo entregue de bandeja para o Inferno daquela forma não é?
Kat não responde no começo, mas vejo seus ombros caírem. Em seguida, ela suspira e volta a sua expressão e postura normal.
- Não sou responsável pelo que minha mãe queria quando me concebeu ou pela ideia que ela tinha de mim. Apenas pelo que fiz de mim mesma.
A frase marca a nossa chegada ao Cemitério Eternidade juntamente com diversos outros grupos de pessoas.

Kaylee
Eu não sei porque estou surpresa, considerando que o evento lunar de hoje literalmente se chama Grandes Acordos, mas algo em mim se torna covarde quando eu vejo vários outros grupos de pessoas entrando no cemitério para sacrificar algo à Morte. O Cimitirul Eternitatea está mais cheio de sons do que estaria em qualquer outro dia da década. As pessoas entram conversando, trazendo todo tipo de animais, crianças choronas ou até mesmo seres humanos adultos desacordados. Um terço dessas pessoas não vai voltar para casa e a maior parte delas nem sabe disso. Os outros dois terços sairão com presentes da força do universo mais trapaceira e inabalável do mundo. O que inclui eu.
Eu estou à frente do grupo, tentando parecer blasé e Kat, Ellie e Sophie estão olhando para mim quando atravessamos os portais do cemitério. Não olho de volta para não deixar minhas intenções claras demais. Ao invés disso, foco nas inscrições de cada uma das lápides até encontrar uma que me chama atenção: “Moartea nu are un calendar, are o foame de necontrolat, care trebuie să fie efectuată imediat.” A Morte não tem um calendário. Tem uma fome incontrolável, que precisa ser saciada imediatamente. É o túmulo de um bebê, Katinka, que morreu seis meses depois de ter nascido, mas é feito com muito mais dedicação do que geralmente colocam em túmulos de bebês. Paro na lápide elevada e me sento sobre a cobertura de mármore. Todas fazem o mesmo e ficamos caladas, observando a entrada e saída de pessoas. Escolher um túmulo foi a primeira parte. Agora, esperamos.
Existe uma espécie de suspense por baixo de toda aquela conversaria. Quanto mais a lua cheia sobre no céu, lançando raios de luz entre as dezenas de árvores no cemitério, mais esse suspense parece aumentar deixando todos à minha volta tensos. Para algumas pessoas que vieram negociar com a Morte, o que inclui eu e algumas meninas do Exército, esta é a primeira Danse Macabre em que estarão presentes. O fato de ser a maior Danse Macabre da década não diminui a ansiedade de ninguém. Surpreendentemente, Amelie não parece nervosa. Talvez esteja ansiosa, mas não demonstra. Eu esperaria mais, esta sendo a primeira vez que Amelie verá a Morte em toda a sua glória, mas ela é uma guerreira e o mínimo que pode fazer esta noite é parecer feroz.
- Você sabe que ela vai lutar, não sabe? – Kat perguntou esta manhã, quando comecei a me preparar definitivamente. – Está pronta para lutar contra ela?
- Sou um soldado também. – Foi tudo que eu consegui responder.
A lembrança repentina me faz pegar o braço de Amelie ao meu lado e colocar o dedão sobre seu pulso. Sua pulsação aumenta repentinamente quando ela se põe em alerta, mas ela confia em mim e não puxa o braço de volta, apenas me observa com curiosidade no olhar. Não retribuo seu olhar ou me explico, apenas fico sentindo o fluxo de sangue sob meus dedos. Tanto sangue. Sangue vampiro suficiente para transformar suas próximas cinco gerações – e tudo aquilo, de nada adiantaria quando a noite acabasse. O motivo principal pelo qual Amelie entrou nos Apreciadores, o motivo pelo qual ela ergueu a bandeira de Adele Mayfair e dos mais de quinhentos mortos do Massacre de Fevereiro de 98, tudo isso jogado fora esta noite para que eu possa ter minha alma de volta.
Eu lanço um olhar para ela antes de largar seu braço, mas não permito que os olhares digam muita coisa. Olho para minhas irmãs, em seguida. Elas são sangue do meu sangue, uma parte da minha própria alma e uma só pelo mesmo objetivo. É claro que a percepção chega até elas agora e é claro que elas me apoiam e protegem em minha decisão. Eu não queria isso, não queria voltar e nem queria ser dona da minha alma outra vez - eu a vendi quando tinha sete anos e não queria a liberdade outra vez, apenas um pouco de paz. Mas elas me deram um propósito e uma sensação de família e de pertencimento que minha família tinha perdido na cidade criada por seus antepassados. Não quero minha alma de volta por mim, quero minha alma de volta por elas. Quero lutar sua luta. E eu sei que faria todos os sacrifícios do mundo por isso.
De repente, enquanto eu ainda olho para elas tentando lembrar porque eu preciso desta noite, todas tocam suas pedras sobre o coração. É o nosso sinal de sentido, nosso aviso de que estamos prontas para a guerra. Sei que não é a última vez que verei esse sinal. Toco minha própria pedra e a solenidade toma conta do Exército. Eu me torno muito consciente de que Amelie não pode saber de nada de errado e tento distraí-la. Alguns minutos depois Valentina se aproxima distraidamente, como se fosse falar com Kat e coloca o diamante azul da irmã na minha mão enquanto Amelie não olha. Aproveito outro momento de distração para prender a corrente no braço e esconder o diamante sob a manga. Depois disso a meia noite parece chegar mais rapidamente.
Todo mundo percebe quando ela chega. Mesmo que não houvesse um sino que eu nunca ouvi antes anunciando o horário aos sete ventos, o súbito silêncio perturbador que toma conta do cemitério avisaria que a hora é agora. Nós treze nos colocamos de pé em forma e Amelie, Rowan e Persephone se colocam logo atrás. Eu vou me lembrando aos poucos das descrições de Kat sobre as Danse Macabres que ela vivenciou, mas não é do mesmo jeito. O solo não se parte e esqueletos não saem do chão para dançar. A dança que começa quando o último sino toca é dos ventos. Uma ventania toma conta do ambiente, mas é mais que claro que não é um vento comum, da natureza. O vento toca meu corpo e minhas roupas, mas não revolve a terra no chão, não balança as folhas das árvores e nem mexe qualquer outra coisa. Ele tem uma presença nele, uma presença intensa e poderosa como de alguém que você sabe estar bem atrás de você, mas que nunca se atreveria a olhar.
Depois de certo drama, a Morte finalmente se materializa em minha frente e eu tenho a resposta à todas as vezes que me perguntei como eu a enxergaria... E eu deveria ter adivinhado que não seria um rosto só. Apenas um corpo está diante de mim, mas o rosto muda constantemente como em um truque de espelhos. Dez rostos estão diante de mim e depois quinze e em seguida vinte. Nenhum deles é familiar, são apenas pessoas que eu matei, corpos. Eu entendo o que a mensagem da aparição. A Morte para mim sou eu. A Morte para mim é quem eu matei.
- Se não são minhas vampiras preferidas? – Duas mil vozes dizem na minha cabeça ao mesmo tempo. Dói. – Ou eu deveria dizer, as vampiras, a bruxa, o Réquiem e aparentemente videntes? E uma humana? Meus parabéns pela representatividade, Katerina.
- Para alguém que é o maldito símbolo personificado de como todas as coisas são finitas, você definitivamente gosta de perder tempo precioso. – Kat reclama.
- Eu me reservo o direito de ser cerimoniosa e você sabe disso. Gosto de me deleitar em certas ironias. Como o fato de que eu nunca pensei que você voltaria até mim para pedir por um favor. Depois de tudo que você fez e de como gosta de se gabar de ter escapado e enganado a Morte tantas vezes. Ver você de novo, em uma Danse, com um pedido a ser feito é uma daquelas coisas sobre a Vida que fazem dela tão divertidas.
- Você me entedia. – Kat diz, dando um passo a frente. A Morte estava parada na minha frente durante todo aquele tempo, mesmo que estivesse falando com Kat e olhando para Kat. – Você tem tentado mostrar quão poderosa você é desde o princípio dos tempos e falhado tão miseravelmente. Os vivos que você diz comandar tem encontrado as mais diversas formas de fugir de você e de burlar suas regras. E mesmos aqueles que permanecem nos seus domínios descobrem logo que o fim não é o fim, mas que a Morte é um meio para o que vem depois. Não existe fim. Apenas ciclos. E todos que têm medo de você são simplesmente ignorantes sobre tudo, mas eu não sou. Até porque a maior prova das minhas palavras está bem diante de você – você não pode tocar nenhuma de nós, porque pertencemos a forças maiores. Desde a nossa própria força até o Inferno ou o Destino. Nós estamos aqui, vivas, respirando, desejando e existindo e nenhuma de nós pertencemos a você. Somos mais poderosas. E sabemos disso.
- E ainda assim, precisam de mim.
- Como um meio para algo. Eu disse que era exatamente isso o que você era, um meio. Viemos aqui até hoje com algo para você, como uma transação comercial. Se você nos ajudar, sai dessa com alguma coisa. Se não, encontraremos outros jeitos. Você sabe que nós sempre damos um jeito.
A Morte finalmente olha para mim.
- E que você me oferece nesta noite tão mágica?
Amelie não é burra e já teve tempo mais que suficiente para se adaptar à poderosa presença da Morte. Assim que o que quer que ela esteja vendo no rosto da Morte se vira na minha direção, Amelie se prepara para fugir e eu preciso agarrar seu braço, com muito mais força e agilidade do que fiz antes. O Exército também fecha o cerco ao seu redor.
- Isso? – A Morte pergunta.
- Kaylee. – Amelie chama, tentando escapar do apertão que já deixa uma marca sob a pele.
- Amelie vem ingerido sangue de vampiro desde que tinha quatorze anos. São dez anos de domínio do Inferno sobre a vida dela. E agora, você poderá tê-la, mesmo que ela não pertença a você.
A Morte ergue a sobrancelha. Como uma multidão de rostos difusos concentrados em uma mesma face pode erguer a sobrancelha?
- E ela é um sacrifício para você por...?
Eu me recuso a responder isso e simplesmente pego Amelie com mais firmeza e a empurro para a frente da aparição. Eu sei que Amelie pode fugir desse apertão em seu braço a qualquer instante e sei que se ela não o faz é porque ainda tem algum tipo de confiança cega em mim ou porque se sente traída demais pelo que estou fazendo para sequer reagir. Não sei qual das duas opções seria pior. A Morte simplesmente se afasta.
- Não é assim que funciona. Você tem que matá-la e de forma definitiva. Além disso, não vou receber o sacrifício até quando você disser, palavra por palavra porque ela é um sacrifício para você. Vamos, Kaylee, deixe-me ter minha diversão.
- Eu já não prestei serviço suficiente para você? Com todo mundo que destruí quando morri?
Uma risada cortante parece vir do céu. Algo nisso me lembra que existem dezenas de outros grupos de pessoas espalhadas pelo lugar onde estamos e todas essas pessoas estão vivenciando suas próprias aparições da Morte e tendo seus próprios debates com a força que Kat calou tão rapidamente e que eu odeio com tão pouco contato.
- Não se engane. Eu não devo nada a você ou a nenhuma de vocês. Muito pelo contrário, vocês devem demais a mim. Diga a Amelie porque ela é um sacrifício para você e você poderá ter sua alma de volta. Ela morrerá de qualquer forma esta noite, não deixe a morte dela ser em vão.
Olho para Amelie com cautela. Noto o Exército se aproximar para me defender da forma como estou sendo atacada no momento. É quando me lembro de uma coisa: Esta é a última coisa que eu farei sem sentimentos. Qualquer coisa que eu diga ou faça não vai doer em mim ou me abalar. Eu preciso fazer essa vez valer.
- Você me mostrou o lado bom do sentir. – começo, olhando nos olhos amendoados de Amelie que me acusam e me odeiam com a fúria de treze Infernos - E me deu algo positivo a esperar quando eu recebesse minha alma de volta. Me mostrou como felicidade pura e a possibilidade de escolha se parecem do outro lado. Eu sei que matar você para conseguir minha alma de volta vai fazer com que você me assombre e com que eu nunca consiga ser feliz plenamente. Sei que você irá para o seu leito de morte me amaldiçoando. Mas, agora, eu não sinto nada. E eu posso arrancar seu coração do seu peito fingindo que a única coisa que vai me atingir é o cheiro do seu sangue. Eu preciso fazer isso.
Os olhos de Amelie faíscam, refletindo a lua, mas ela não se move e nem tenta fugir. É quando eu me lembro da poção que Persephone a entregou semanas atrás e sugeriu que ela tomasse em uma lua cheia. Ela escolheu hoje e não tem medo algum. Quero perguntar se ela sabia ou se ela ao menos tinha desconfiado. Mas não há mais tempo.
- Faça. – Algo ou alguém sibila. Poderia ser a Morte, mas também poderia ser Kat. Ou poderia ser a própria Amelie.
Não importa mais. O fim da meia noite está perto demais e eu tenho uma alma para receber de volta. Meus braços se movem sozinhos, com o movimento que ensaiei por horas. Eu a corto com a ponta do diamante de Miranda. Minhas mãos atravessam o corte. Alcanço seu coração. Aperto com força. Tem sangue. Tem tanto sangue. Sangue sai de tantos lugares e suja meu corpo inteiro. Me lembro da sede. Eu aprendi a ignorá-la e agora ela vem tão violenta quanto quando eu acordei em Cianne. Cianne. Aquela foi a última vez que eu senti tanto cheiro de sangue e tão perto.
Em algum momento, eu lembro que preciso tirar as mãos de dentro dela e seu corpo cai aos meus pés. Não enxergo mais nada, mas acho que é porque a lua aumentou de tamanho e a luz branca cobre todo o cemitério, impedindo que qualquer um enxergue. Eu quero me aproximar da luz, mas não posso me mover. Sinto algo quebrar. Talvez seja eu? Sou eu. Estou quebrada.
Sou trazida de volta pelo sino que anuncia a uma da manhã. Sinto o chão sob meus pés como se fosse a primeira vez que o tocasse. E quando a primeira lágrima cai, percebo que ainda tenho o coração de Amelie na mão.



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