As mentiras não acabaram com a morte, uma resenha de Lies My Girlfriend Told Me por Julie Anne Peters

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Tudo começou em uma noite chuvosa de novembro do ano passado (mentira, não choveu em novembro do ano passado, eu só acho que começar histórias com noites chuvosas é legal. Amador, eu sei) quando, pouco depois de acrescentar Além-Mundos ao meu Rol de Livros Favoritos™, eu me dei conta de que meus três livros preferidos foram escritos por homens. A única coisa em comum que esses três livros têm são as personagens principais mulheres LGBTQ+, então eu tomei uma decisão séria: Em 2017 a meta era ler mais livros LGBTQ+ escritos por mulheres. Uma pesquisa rápida no Google me apresentou Julie Anne Peters. Depois de ler sinopses de uma série de livros dela, eu cheguei a Lies My Girlfriend Told Me (tradução literal: Mentiras que Minha Namorada me Contou) e fiquei completamente obcecada. O problema é que o livro não estava disponível no Brasil, nem o e-book estava disponível no Kindle. No Kobo, a versão e-book saía caríssima. Tudo que eu pude fazer por mais de seis meses foi encher o saco de todo mundo falando sobre o livro e chorar me perguntando quando eu conseguiria ler esse livro maravilhoso. No mês passado, finalmente, o livro ficou disponível no Kindle e eu nunca comprei nada tão rápido na minha vida. Li tudo em menos de uma semana e mesmo assim chorando porque eu não queria que ele acabasse, queria que fosse maior, queria que fosse eterno.
Lies My Girlfriend Told Me é contado do ponto de vista de Alixandra ou Alix, que acorda em uma manhã de sábado para descobrir que sua namorada, Swanee, sofreu um ataque cardíaco repentino e morreu. Sem entender como isso pode acontecer e passando pelos cinco estágios do luto várias vezes bem diante dos nossos olhos, Alix visita o quarto da namorada após seu velório e encontra o celular de Swanee que está cheio de mensagens desesperadas, apaixonadas e bilíngues do contato "L.T.". Usando o celular de Swan para contatar a remetente das mensagens com o pretexto de avisar a ela sobre a morte de Swanee, Alix conhece Liana, de quem se aproxima mais do que esperava.

Parte de edit feito por "" no Tumblr
Eu ia começar este parágrafo com a frase "minha parte preferida", mas não existem "partes preferidas" em Lies My Girlfriend Told Me. Minha parte preferida é o livro inteiro! O ponto do livro sobre o qual eu queria falar, porém, é o desenvolvimento da Alix. Eu comecei o livro a odiando, mesmo sabendo que era porque via muito de mim - ou de uma versão mais nova de mim - nela. Ela era uma reunião de vários aspectos adolescentes que irritam por serem muito próximos, que dão nos nervos por serem algo que eu já enfrentei e que sei que no fim farão ela quebrar a cara. Alix se apaixonou e de repente nada da vida dela servia mais para ela. Os pais eram muito exigentes, o irmãozinho era muito barulhento. A melhor amiga causava ciúmes em Swanee, então ela também não servia e foi abandonada em pleno dia do aniversário. Ela começou a faltar aula, desconsiderar os trabalhos de escola e todos os seus hobbies e afazeres se inclinaram na direção do "amor de sua vida". Tudo isso por um relacionamento de seis semanas! Assim sendo, o livro começar com a morte da Swanee é a melhor escolha possível. A Alix aos poucos vai de acreditar que a sua vida também acabou, a começar a reconstruir o que ela estava destruindo antes de perder Swanee. Ela vai de achar que a vida não tem sentido para descobrir seus interesses e entender suas paixões. A maturidade dela em assumir seus erros e corrigir o que pode ser corrigido. É tudo tão lindo.
Existem muitos aspectos que fazem do livro um dos melhores young adults que eu já li. O final? Eu posso escrever um artigo científico sobre aquele final. É muito importante, muito bem feito e muito lindo. A Liana? Meu novo crush literário (Daire, eu ainda te amo, mas Liana Torres é Liana Torres) (E sim, a personagem tem apenas uma letra a mais no nome do que uma personagem minha em um livro de temática parecida, a Lina Torres de Tóxico - eu ainda estou irritada com isso, mas me recuso a mudar qualquer coisa). Nós temos subplots atrativos, personagens interessantes, até bebês fofinhos. Um bom uso dos recursos digitais sem soar estranho (Eu não sei se outros autores de ya se preocupam com isso tanto quanto eu, mas eu sempre fico pensando em como integrar a internet na vida dos meus personagens sem ficar maçante. A Julie Anne Peters faz isso muito bem.): Temos mensagens de texto que não parecem forçadas, stalks no Facebook, tudo na medida certa. Temos os clichês, mas é o tipo de livro que você deseja clichês. Me dê todos os clichês possíveis! E eu já falei do desenvolvimento da personagem principal? JESUS. EU QUERO LER ESSE LIVRO DE NOVO.
Como eu preciso ser sincera, tem dois pontos do livro que eu não gostei. O primeiro é a Betheny (a melhor amiga da Alix) mal ter aparecido o livro inteiro e ter sido bem significativa para o final. A gente mal sabe como elas se conheceram e como elas eram quando ainda eram amigas. O segund ponto é a forma como a família da Swanee é retratada. Eles são "os estranhos" os "à margem da sociedade" e por isso recebem uma parcela da culpa das ações da Swanee. Em um momento, a mãe da Swanee diz para a Alix que ela disse à filha que ela era jovem demais para ter um relacionamento sério - isso fica completamente preso na cabeça da Alix junto com o fato dos pais de Swanee terem um relacionamento aberto e lidarem com o luto de uma forma diferente. O problema é que não é a Swanee ter, digamos, crenças diferentes sobre o amor que causou a dor nas três pessoas que ela traiu durante a história - foi ela ter mentido para todas elas e feito elas acreditarem que eram as únicas, que ela as amava profundamente e planejava passar a vida inteira com elas. A Swanee poderia ter sido criada pelos pais mais honestos do mundo e ainda ter agido assim. Ela poderia perfeitamente ter um relacionamento aberto, desde que não mentisse sobre isso. Os problemas foram, como diz o título dos livros, as mentiras. A família, pelo que acontece no livro, tinha muitos problemas a serem solucionados, especialmente com a filha mais nova, mas eles nunca tiveram essa solução. Eles ficam sem final e como culpados de algo que não é exatamente culpa deles. Esse foi o ponto negativo que não saiu da minha cabeça de jeito nenhum.
Mas pontos negativos de lado, o livro é maravilhoso e eu não acredito que nenhuma editora pegou ele para trazer para o Brasil. É muito injusto que ele não possa ser lido por todo mundo. Para mim agora, resta me controlar para não ler tudo de novo e o sofrimento porque o e-book do segundo livro que eu mais quero ler da minha lista de livros LGBTQ+ escritos por mulheres - Tell Me Again How A Crush Should Feel da Sara Farizan - também é muito caro.
G.

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