Diário Artístico: Querida Giulia de 9 anos

by - 17:58

Este post não é exatamente literário, mas eu estou colocando ele sob o marcador do Diário Artístico por soar como uma entrada de diário e eu precisava muito postar ele hoje, porque motivos que eu vou explicar na carta. Eu tive a ideia de escrever uma carta para mim mesma aos nove anos no começo de 2017, talvez um pouco antes do meu aniversário, quando eu me dei conta de que estava fazendo 19 anos. É insano pensar que eu tinha nove anos dez anos inteiros atrás. Nove anos é a idade mais antiga em que eu lembro quem eu era claramente - lembro de outras idades, mas apenas como memórias. Eu lembro de quem eu era aos nove, como eu lembro quem eu era aos dezessete. Foi a idade em que muita coisa mudou e que eu mudei muito. Foi a idade em que eu tive minha primeira crise de pânico, a idade em que eu comecei a escrever e a idade em que eu comecei a aprender inglês. Eu não consigo nem pensar em todas as coisas que aconteceram nesses dez anos sem ficar tonta. Então eu quero falar com ela, com a "Giulia de 9 anos". E se vocês quiserem me acompanhar nisso, podem ficar à vontade:

"Sim você tem muito tempo para agir de acordo com a sua idade
Você não pode escrever um livro com apenas uma página"

Querida Giulia de 9 anos,
Já faz dez anos. Eu sei, é louco. Hoje faz oficialmente dez anos desde que você acordou de um sonho e ficou completamente obcecada pela atriz com quem sonhou. Aquilo desencadeou uma série de eventos dramático e de mudanças consideráveis que só uma pessoa muito intuitiva ou completamente louca (você é os dois) poderia fazer ou causar. Sua obsessão levou à necessidade de aprender outra língua e de viajar o mundo. Necessidades que te guiaram por muito tempo e fizeram surgir muitos sonhos. Você queria saber o que aconteceria um, dois, cinco e dez anos depois disso, então eu estou aqui para contar tudo. Você conseguiu! Dez anos! Chegou à vida adulta! Preciso perguntar: Você tem algum conselho sobre o que eu faço agora?
Faz dez anos e você está morando na cidade onde nasceu, apenas 150 quilômetros do lugar onde estava há dez anos. Parece pouco, mas pense que essa caminhada foi quase feita com seus pés. Um passo de cada vez. Algumas coisas fizeram com que você desse um passo para trás ou para o lado e isso às vezes impede que haja progresso no percurso. Você saiu da Bahia em um ponto e agora seu lugar preferido no mundo é a segunda maior cidade do Brasil. Talvez você volte para lá um dia, mas agora você está em casa. E você odeia isso. Mas você fez um bom trabalho em se convencer de que isso é completamente temporário. Apenas um pit stop. Uma pausa para se hidratar, descansar e juntar forças para sair voando de novo.
Você está prestes a fazer uma promessa que eu gostaria que você não fizesse. É a única coisa desses dez anos que eu gostaria de mudar, porque essa promessa foi quebrada pelo menos uma centena de vezes nos últimos dez anos. Onde você estava com a cabeça, aos nove anos de idade, quando decidiu que era uma boa ideia fazer uma promessa que terminava com "nunca mais, nunca mais mesmo"? Aqui vai algo sobre você: Toda vez que você diz nunca, acaba fazendo. Não, não. Não discorde. Toda. Vez. Nunca diga nunca, especialmente em uma promessa. É quase amaldiçoar a si mesma. Você é péssima em cumprir promessas para si mesma, mas é sortuda o suficiente para que isso acabe dando certo. Essa promessa, a que eu queria poder mudar e que você descumpriu, acabou fazendo com que você descobrisse uma coisa muito muito importante sobre você. Então, eu não me arrependo de ter descumprido, apenas de ter feito.
Você também está prestes a encontrar seu chamado, a coisa que você ainda não acha que tem. Não é o que você vai achar que é no começo, mas você vai perceber que seu amor pela arte vai se manifestar criativamente de forma diferente. Não pense que você deve desconsiderar todos os planos que não tem nada a ver com arte. Você é jovem demais para tomar decisões (sim, jovem demais. Você vai descobrir isso bem rápido) e no futuro vai precisar ser muitas em uma. Ouça os pequenos ruídos que vão surgir dentro de você. Confie em você mesma. Vai dar tudo certo.
As coisas também vão ficar mais complicadas e assustadoras em casa. Eu não posso ajudar você nisso. Não posso impedir os pensamentos ruins e as dores no estômago toda vez que você ouve a frase "nós vamos ter uma conversa". Eu nem posso te dizer o que eu faria diferente, porque não adiantaria de nada. O que aconteceu não foi, em nível algum, culpa sua. Mas eu sei que você sabe disso. A consciência disso talvez seja o que fez de você tão forte nesses momentos. Se não foi, seria legal você deixar algum papel com anotações que dissessem o que foi. Garota, você foi muito mais madura nos seus próximos dois anos do que eu fui nos últimos dois meus. Não foi uma coisa natural, mas eu nunca tinha notado quão jovem e forte você foi até notar como outras pessoas da mesma idade reagiram a situações parecidas. Claro que você saiu com cicatrizes de guerra, mas você saiu não foi? E está aqui. Eu estou aqui.
Eu sei que você odeia conselhos, mas eis a ironia dessa carta: Você não pode lê-la - então, quando não seguir os conselhos que eu vou dar a seguir e se estabanar consecutivas vezes, eu não vou sequer poder dizer que eu avisei. Em primeiro lugar, pare de achar que você precisa abandonar seus amigos imaginários e brincadeiras criativas para crescer. Adultos não são pessoas sérias. Nós estamos mais perdidos que qualquer criança do mundo e nos apaixonamos pelas e curtimos as coisas mais bobas. Quanto mais você lutar contra sua inocência, mais você vai sentir falta dela quando crescer. Quanto mais você desprezar sua infância, mais vai querer correr de volta para ela quando for mais velha. Então, não controle sua própria criatividade. Assim que você se permitir a contar histórias para você mesma, você vai conseguir contar histórias para os outros.
Em segundo lugar, não tenha medo. Eu sei. Sei que ter medo é algo inerente a você e que às vezes parece ser maior do que você. Não é normal, mas não é culpa sua e você vai encontrar formas de lidar com isso no futuro. O que eu quero dizer por enquanto é: Quando você puder não ter medo, não tenha medo. Quando você achar que no final tudo vai dar certo, que vai ser muito bom e que vai valer à pena, não deixe que o medo impeça você. Não deixe que os pensamentos ruins anulem os bons.
Em terceiro, não diga "nunca". Já disse o porquê. É a mesma coisa que atrair a fúria do universo todo contra você.
Em quarto, nada é para sempre. Eu estou contando um monte de coisas para você que você nunca imaginaria. E se eu estivesse falando com a Giulia de 14 anos, ela provavelmente também não imaginaria nada disso. Eu me pergunto como a Giulia de 24 anos e a Giulia de 29 anos estão daqui a cinco e dez anos. Talvez elas estejam em Nova Iorque, rindo de tudo e pensando: Você conseguiu o que desejava! Talvez elas estejam com muito medo de não conseguir ainda. O que eu tenho certeza é que tudo que está acontecendo comigo agora, já acabou para elas. Pode ter recomeçado ou não, se renovando diariamente ou não, mas acabou, em algum momento. Porque nada dura para sempre, garota. É algo que é mais fácil de dizer do que de sentir, mas é verdade.
Em quinto, não ouça a voz de pessoas que acham que sabem mais do que você. Não que eu precise te dizer isso. Conheço você, senhorita eu-não-ouço-conselhos-e-sei-muito-bem-o-que-estou-fazendo. Mas preciso reforçar isso, porque é algo que eu gosto em você. Você é a única pessoa que conhece a si mesma, entende a si mesma e sabe o que você precisa. As pessoas podem ser mais maduras, mais vividas e apenas quererem o seu bem, mas ei, no final do dia é você quem vai continuar aqui, aguentando a si mesma e precisando lidar com a sua vida.
O conselho final é: Seja o tipo de pessoa por quem você quer se apaixonar. NÃO SE APAIXONAR AGORA, É CLARO - você tem nove anos, pelo amor de Deus. Mas ei, você foi criada em uma sociedade que faz com que você deseje encontrar sua alma gêmea, então sei que você já pensa sobre isso. Você adora pessoas que respingam e transpiram arte e amor. Que falam sobre o que gostam com os olhos brilhantes e até achar que estão irritando todo mundo. Pessoas que não querem impor seus gostos sobre os outros, apenas compartilhar o que amam. Seja essa pessoa. Se cerque do que você ama, mergulhe no que te inspira, suspire sonhadoramente no que faz você sonhar. Você está no meio ou está prestes a entrar na Obsessão por Poesia de 2007 (aconteceu de novo em 2017 - você quase gastou duzentos reais em livros de poesia essa semana) e eu não posso dizer isso com ênfase o suficiente: Mergulhe em poesia, nade em poesia, se afogue em poesia. Leia tanta poesia que sua sanidade acabe sendo colocada em questão. Escreva também.
Chego ao fim de meus relatos e conselhos com um sorriso besta no rosto, pensando em você. Caso você queira saber: sim, você ainda ama séries de super-heróis adolescentes. Sim, você ainda ama as músicas que começou a ouvir hoje e - por mais estranho que isso possa parecer em 2017 - ainda ouve elas no seu mp3. E você ainda lembra das datas mais malucas e comemora elas do seu jeito. Espero que você nunca pare de fazer isso, porque é uma das minhas coisas preferidas. Foi bom falar com você hoje e tem sido bom ser você durante todo esse tempo.
Vejo você de novo em dez anos (ou talvez hoje à noite, quando eu finalmente cumprir a promessa de assistir ao spinoff de Heroes - sim, a série teve até spinoff).
Com amor,
Giulia de 19 anos.

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2 comentários

  1. Ah, amei essa carta! Eu já fiz uma desse tipo só que "para meu futuro marido", foi parte de um projeto da igreja e eu me descobri fazendo a carta. Descobri até coisas que eu procuro numa pessoa e nem sabia!

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    1. Essa é a melhor parte de escrever e escrever sobre si mesma hauaha É o motivo para eu ainda manter um diário.

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