Diário de Bordo 7 - Eu desisto - Parte 3: Anna Karenina

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Eu amo o Natal. Na verdade, eu amo qualquer data comemorativa, mas o Natal é mais que uma data, é toda uma temporada. Talvez eu devesse dizer "Eu amo as festas de fim de ano" aqui já que quando penso em Natal, eu penso em semanas antes da data oficial. Em colocar a árvore de Natal no lugar, em ver as luzes de Natal em todo canto, em confraternizações, em comer panetone até dizer chega e finalmente no dia da ceia e nos presentes. Eu amo as festas de fim de ano, mas elas ainda vem carregada de sentimentos que não podem ser tão bons. Como eu disse antes, eu entrei em dezembro carregada de vários sentimentos e estava disposta a sentir todos eles independente de serem negativos ou positivos. Houve outra diferença entre esses Natais e os últimos: Eu não tinha muito o que "fazer", além das tradições típicas. Em todos os outros anos eu me pressionei para fazer do Natal o melhor possível, enquanto no último, as confraternizações apareceram naturalmente, minhas ideias de presentes foram surgindo sem que eu precisasse pensar muito e o mundo exterior tomou forma de Natal antes mesmo que eu pegasse o espírito. Eu até mesmo encontrei o vestido perfeito para o Natal, algo que não acontecia desde que minha mãe era viva. Com tudo acontecendo sem que eu precisasse forçar, eu tive tempo para pensar, avaliar e sentir. Terminar o Natal no chão do banheiro colocando para fora toda a ceia graças a uma crise de ansiedade me fez pensar mais ainda. E aqui vão as conclusões.

"Entre no espírito de Natal ou eu mato você."
Saudades Melissa & Joey. Vocês tietes do Nick Robinson deveria assistir minha série.
Não me entendam mal, eu amo minha família. Individualmente. Eu poderia te contar porque eu gosto de cada uma das minhas tias, primos, avós e todo outro tipo de parente que eu pensar. E eu amo cada um deles tanto. Mas a verdade é que se levarmos em consideração a família num todo, enquanto unidade, nós somos um lixo. É claro que eu me refiro à minha família estendida e ao lado da família que eu cresci conhecendo, não às pessoas que eu vejo de 5 em 5 anos e que não sabem nada sobre mim enquanto pessoa (minha vida acadêmica, profissional e amorosa - tema do próximo post - é de conhecimento geral, ao que tudo indica). Essa família específica fica cada vez mais longe daquela unidade perfeita que faz de uma família uma família. Eu não estou exigindo perfeição de ninguém, é claro, famílias perfeitas não existem. Mas não é sobre as imperfeições da família, é sobre a falta da sensação do que faz da família uma família.
No fim de semana do velório da minha mãe, como tinha muita gente da família em casa, nós fizemos um almoço na casa de uma tia, onde a família se reúne desde antes de eu nascer. Minha bisavó ainda era viva e como o velório trouxe o maior número de pessoas para a cidade desde o aniversário de 80 anos dela, parecia lógico reunir todo mundo em uma ocasião mais feliz. Isso foi antes que fosse decretado que eu ficaria em Vitória da Conquista e ainda existia uma onda de surrealidade na situação que eu estava enfrentando. Mas eu me lembro de me sentir bem naquele dia. De estar cercada das minhas lembranças de infância e me sentir acolhida, protegida. Depois disso e quando eu fui obrigada a continuar na cidade que eu mais odeio nesse mundo, eu me lembro de pensar que pelo menos poderia ser como era quando eu era criança e vinha passar férias aqui. Nós teríamos reuniões divertidas e alguém faria piadinhas de tio e depois pegaria um violão e nós conversaríamos a tarde inteira se entupindo de alguma sobremesa. Foi por essa ilusão que eu lutei por mais ou menos um ano e oito meses. Então, o Natal de 2015 aconteceu.
Pensando em retrospecto, era óbvio que minha família não era a mesma desde que a minha bisa morreu. O que aconteceu de verdade - de verdade mesmo, várias pessoas da família disseram isso - é que a gente perdeu o motivo de se reunir. Nossa primeira reunião de família em 2015 foi no dia 1º de novembro, depois que eu perguntei se a gente não faria nada no Natal, já que em 2014 não houve nada no Natal. Depois disso, eu me ofereci para qualquer coisa que envolvesse a ceia de Natal e comecei o que eu achava que seria uma tradição de ser aquela que levava rabanada para as festas da família. Eu adorei aquilo. Fiz por amor ao Natal mesmo. E aí no dia 25, resolveram fazer o almoço de enterro dos ossos e ninguém pensou em me mandar uma mensagem dizendo "Você vem?". Eu conto essa história todo santo ano, mas eu nem me importo em ser chata. Eu chorei tanto naquele dia. Eu me senti humilhada, porque eu tinha perguntado na ceia se teria almoço no dia seguinte, e negaram. Eu disse em mensagem para o pessoal do Rio que não haveria almoço. Então, do nada, começaram a surgir fotos do almoço no grupo da família. Eu chorei de raiva e mágoa por horas. Me recusei a ver qualquer pessoa da família durante o resto do dia e fui assistir ao final de Jessica Jones.
Eu não consigo superar isso, porque eu nunca consegui falar com ninguém sobre isso. Quando eu pressionava, todo mundo mudava de assunto e agora parece que faz tempo demais para que isso seja conversado. Mas a minha mágoa voltou à tona com tudo em 2017 e eu me percebi frustrada em um nível completamente novo. Para começo de conversa, ninguém nem queria fazer o Natal. Eu tinha resolvido que não faria nada para o Natal acontecer e levou literais semanas até que alguém se movesse para o Natal acontecer. Depois disso, alguém ligou para a minha irmã e pediu que nós levássemos uma ave. Me magoou um pouco porque todo ano eu acordo cedo para fazer rabanada para a festa da família. Todo ano. Mas àquela altura eu estava sendo a garota mimada que deixa coisas pequenas a abalarem e eu não deixaria que minha raiva estragasse o Natal. 
Na ceia, eu me dei conta de uma coisa na qual eu estava evitando pensar. Nenhum de nós queria estar ali. Não era a reunião de família bonita que acontece no Natal. Não era aquela coisa real e tangível. Todo mundo estava bravo por algum motivo ou magoado por outro. Mal era um evento. Quando minha bisa era viva, as reuniões de Natal eram a coisa lógica. A família se reúne em um lugar no Natal. Nós perdemos parte do nosso dia cozinhando para uma festa, compramos roupas e gastamos dinheiro com presentes bobos para o amigo secreto. Agora, a maior parte da família não vê lógica em se reunir. Nós não temos esse amor bonito que nos unia ali. E isso é uma droga, mas é a verdade. Eu acabei em um Natal por obrigação, ao invés do Natal por amor. E por mais que eu tenha lutado para fazer dois natais acontecerem, eu não tenho mais forças para isso.
Família é quem ama e quem quer estar com você. É mais do que as pessoas que são ligadas por sangue a você. Eu sinto falta de estar cercada de pessoas que eu sinto que se amam muito e querem estar ali. Eu sinto falta das tradições e reuniões que aconteciam porque eram certas. Não estou dizendo que minha família não se ama, só que eu não sinto amor em nossas reuniões. Existe um tipo de amor que você reconhece nas pequenas coisas e eu quero isso de novo. Tudo que eu sei é que nós temos muito o que trabalhar, pensar e conversar para voltar a ser uma unidade. E eu me incluo muito nisso.
Talvez eu só esteja vendo algo que não via quando era criança. Eu sinto falta de todas as pessoas que não foram para a ceia de Natal pelos mais diversos motivos. E eu sinto falta de quando as pessoas queriam estar ali. E de querer estar lá. E de não me sentir tão mal com os comentários que ouvi, que acabei a noite em um banheiro.
Minhas "Festas de Fim de Ano" foram boas. A confraternização do trabalho foi divertida, a confraternização dos meus amigos foi melhor ainda. Eu assisti meus especiais de Natal preferidos na Nick. E eu fiz rabanada, levei para meus colegas de trabalho e na festa dos amigos, e vou continuar fazendo todo ano. Fazer rabanada para um grupo grande de pessoas é uma das minhas coisas preferidas sobre o fim do ano. Eu abri presentes que comprei para mim mesma, embaixo da árvore no dia 25. E eu assisti The Hauted Thundermans na madrugada do dia 25 porque é o que eu faço quando eu termino um feriado não me sentindo muito bem. Eu criei tradições só minhas e elas fazem muito bem para mim. São algo que ninguém pode tirar de mim.
Os planos para o ano que vem são bem claros. Eu e minha irmã faremos nossa própria ceia em casa. Todo mundo está convidado. Vai ter comida, sobremesa, bebida, decoração, brincadeiras, tudo. Talvez uma galera precise se sentar no chão, mas vai ter espaço para todo mundo. Eu quero pessoas que queiram estar aqui e que queiram estar com a gente. E se eu terminar a noite de Natal sozinha, que seja. Terminarei e ainda vou assistir um monte de filmes de Natal se eu quiser. O que eu não quero é me forçar a fazer nada. Eu quero devotar minhas energias ao que eu amo. E eu amo minha família, quero que estejam aqui. O que eu não quero é me sentir sozinha cercada de pessoas que eu amo e que eu sei que também me amam.
G.

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