Diário de Bordo 6 - Pós-apocalíptico - Parte 5: Coisas que não foram destruídas pela água

by - 22:05

Alguns dias antes da viagem eu estava pensando sobre como eu adoro acordar cedo para viajar. É legal dormir apenas por algumas horas, mas acordar no primeiro despertador, para poder sair de casa cedinho e ver o sol nascer na estrada, chegar cedinho no destino e poder aproveitar o dia inteiro. Isso não exatamente aconteceu no dia 5, já que eu acordei às 8, mas para o meu corpo maltratado pareceu que tinha sido isso. Eu tenho apenas 18 anos e não tenho mais idade para ser a doida que dorme três horas por dia em uma viagem de cinco dias e diz que "descansar eu posso em casa". Tanto para a minha ansiedade quanto para a minha gastrite nervosa, qualquer coisa menos que seis horas de sono é horrível. No dia em que eu pegaria o primeiro ônibus intermunicipal que eu pegava desde setembro de 2015, eu dormi por um pouco menos de cinco horas e para o meu corpo, isso era o mesmo que dormir duas. Junte isso com más notícias recebidas logo cedo, uma sensação estranha que vinha me acompanhando desde o ano novo e o fato de que da última vez que eu saí da cidade, eu passei mal e vocês podem imaginar meu estado mental naquela manhã.
Mas eu preciso explicar o quanto eu amo viajar: Até quando eu me sinto mal, consegue ser melhor do que passar bem em casa. Quer dizer, toda vez que eu me sinto mal eu quero correr para casa, mas eu duvido muito que se eu soubesse antecipadamente que passaria a viagem inteira me sentindo ansiosa, eu optaria por ficar em casa. A viagem até Jequié, a cidade do meu pai e cidade em que vivi dos 3 aos 11 anos (até setembro deste ano, é a cidade onde eu passei a maior parte da minha vida. Em setembro faz 8 anos que eu me mudei e eu oficialmente vou ter passado a maior parte da minha vida me mudando), leva três horas de ônibus. Eu estava levando quatro livros, mais cinco episódios de série e um filme baixado no tablet para me distrair e garantir que a viagem fosse tranquila. Porém, cientificamente falando, três horas de viagem para mim equivalem a apenas dez minutos na sala de aula. Eu amo a sensação de estar na estrada. De ver paisagens passando e de sussurrar músicas e tirar fotos (eu fiz uma playlist com as músicas que eu mais ouvi, que inclusive está na página Extras). Mesmo quando minha mente está fazendo uma maratona mental todas as piores coisas que podem acontecer em uma viagem, faz com que eu me sinta livre. Eu não terminei o livro que estava lendo, eu não assisti ao filme nem a série nenhuma, mas três horas depois cheguei ao meu destino, me sentindo melhor.



Todo mundo tem um momento - um ano, um período, uma mudança violenta - que marca o começo da vida como a gente se lembra. Como se antes disso você não reconhecesse quem foi, ou como se suas memórias de infância começassem aos 16 anos. No meu caso, o ano foi 2010, provavelmente por um bando de sensações que surgiram aos 12 anos, mas que no fundo da minha mente, parecem me acompanhar desde sempre. As memórias mais distantes parecem inventadas ou pertencentes a outra pessoa. Um dos motivos para isso provavelmente é o fato de que a maior parte das coisas que eu considerava sagrada quando era criança foram destruídas. Outro motivo é o fato de eu manter expectativas de que as coisas sejam como eram quando eu era criança, quando elas não têm mais como ser, então é como se as mudanças destruíssem o que já aconteceu. Mas mesmo que as coisas que aconteceram não pareçam ser reais, eu não quero esquecê-las. Eu quero lembrar de como eu me senti e do que eu queria fazer quando era apenas uma mini eu. Quero honrar os desejos mais profundos da garotinha que eu fui. Agora imaginem a seguinte situação: Eu volto para a cidade em que eu cresci, a cidade em que todas as lembranças que parecem invenção foram feitas e... Nada mudou.
Depois que eu deixei Jequié, eu voltei lá apenas duas vezes: Uma em 2011 e outra em 2014 (então eu vou lá mais ou menos uma vez a cada 3 anos, mesmo que a cidade fique apenas a 150km de distância). Nessas duas vezes, eu não parei para pensar muito. Talvez porque eu estivesse bem e sem preocupações. Talvez porque manter as memórias honradas não fizesse tanta diferença ainda. (Eu me tornei a rainha da nostalgia depois dos 18. A rainha de querer ser criança outra vez também.). Dessa vez, fazia toda diferença. Eu sempre falo sobre como voltar a morar na cidade em que eu nasci estragou tudo que eu gostava sobre a cidade. Todas as boas lembranças foram destroçadas por quase três anos morando aqui e por tudo que mudou. Eu odeio a cidade agora e mesmo que eu não queira cultivar esse sentimento ruim, é a verdade. Eu disse com todas as palavras no post em que explicava porque tinha voltado a morar na Bahia: "Acredito que algumas coisas são feitas para permanecerem apenas na memória, sendo lembradas com saudade ou com a certeza de que foi tudo uma boa lição. Vitória da Conquista é uma dessas coisas.". Sei que se eu voltasse a morar em Jequié, talvez isso acontecesse lá também ("Talvez" não, é certo. Eu também tenho muitas lembranças ruins naquela cidade. Uma infinidade delas. E passar mais tempo lá definitivamente traria elas a tona.), mas eu só passei dois dias na cidade e ver que as coisas continuavam do jeito que eram quando eu fui embora, me trouxe plenitude ao invés de chateação.


"Porque eu sei que há pessoas que dizem que todas essas coisas não acontecem. E há pessoas que esquecem o que é ter 16 anos quando completarem 17 anos. Sei que todas essas coisas serão histórias um dia. E nossas fotos se tornarão fotografias antigas. Todos nós vamos ser a mãe ou o pai de alguém. Mas agora esses momentos não são histórias. Estão acontecendo.[...] É aquele momento em que você sabe que não é uma história triste. Você está vivo, e você se levanta e vê as luzes nos prédios e tudo o que faz você se perguntar. E você está ouvindo aquela música e aquela movimentação com as pessoas que você mais ama neste mundo. E neste momento, eu juro, somos infinitos."
- As Vantagens de Ser Invisível (2012)

Eu percebi enquanto escrevia que eu pulei as memórias ruins. Eu não vi o colégio em que passei os últimos anos na cidade, nem nenhuma das cinco casas em que morei lá. Mas eu passei na frente da escola da minha infância e na padaria que vendia moedas de chocolate e na internacionalmente reconhecida, melhor sorveteria da cidade (onde eu fui obrigada a comprar sorvete de cupuaçu e encher de confeito de chocolate, porque eu nunca me perdoaria se não fizesse isso). E de repente, é estranho. É estranho quando você se dá conta de que estava esquecendo de quem era quando tinha 5 anos, mas passa pela rua em que o ônibus saiu andando enquanto você ainda estava na escada e a memória volta claramente. Quando uma casa parece não ter sido pintada, mesmo que a tinta esteja desbotando, apenas porque você se lembrava dela laranja. Quando você se lembra da última vez em que passou por uma rua andando para comprar pão. Isso dói? Deveria doer? Ou a saudade que está vindo é boa? Eu não sinto falta de fazer todas essas coisas, eu sinto falta de tudo que eu tinha naquela época. Antes que eu pudesse perceber, eu estava fazendo listas mentais do que eu diria para mim mesma 10 anos atrás e sem saber como me sentir outra vez, eu percebo que eu não diria nada. Não a avisaria, nem faria com que ela mudasse qualquer coisa. Mas eu queria tanto poder conhecê-la outra vez. E isso, finalmente, dói.
Nos dois dias de viagem, eu não fiz muito. Meu pai estava trabalhando e eu fiquei na casa da namorada dele, saindo só quando ela saía. A ansiedade da viagem resultou em uma crise de gastrite ao fim da primeira noite, mas não foi tão ruim quanto da última vez. Apenas me lembrou e confirmou que eu preciso voltar à terapia o quanto antes. E toda energia ruim daquele momento já foi convertida em toda obscuridade que eu consigo concentrar em As Crônicas de Kat. Quando eu não estava internamente surtando, eu estava completamente nostálgica. Cheguei ao ponto de ficar assistindo Ilha Rá-Tim-Bum no sofá da sala e pensando em como a Majestade é a melhor personagem de todas. Também criei uma teoria de que eu vivia em um universo paralelo e me mudei para este quando o ano virou de 2014 para 2015, mas isso é assunto para um post menos emocional e profundo. A questão é que os dois dias passaram rápido e o resto da viagem, a roadtrip de carro até a capital, chegou cedinho no sábado. Dessa vez, eu realmente tive que acordar antes do sol nascer. E meu corpo definitivamente sentiu isso.
[Voz de narrador] Continua...
G.

P.S.: ACONTECERAM MAIS COISAS ESSE FIM DE SEMANA. MAIS UM POSTS VINDO DO DIÁRIO DE BORDO. E AMANHÃ CHEGA FAMÍLIA E MAIS COISA PARA FALAR. AJUDAAA.
P.P.S.: Anteontem o blog chegou a 60 mil visualizações e tudo que eu tenho a dizer é: Obrigada, obrigada, 60 mil obrigadas. Eu amo vocês <3

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4 comentários

  1. oi g!

    só queria dizer que amei esse post e posso ou não ter enchido os olhos de lágrimas pelas lembranças que isso me levou ???

    beijos,
    tatii

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    1. Ooi,

      Fico feliz por ele ter causado um efeito levemente positivo nas pessoas. Foi meio louco escrever este post porque essa viagem inteira fez muitas coisas inesperadas surgirem. Nem acredito que consegui fazer sentido.

      <3

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  2. Hey, Giulia!
    Sem exagero nenhum em minhas palavras, eu fiquei muito impactada com esse post, você descrevendo suas lembranças, me fez lembrar de tanta coisa e meu deus, que loucura.
    Eu sempre sumo daqui do blog, eu deixo vários posts pra ler e acabo nunca tendo tempo de ler, eu finalmente consegui ler, e eu sempre gosto muito de todos os posts, só dizendo.
    Beijos!

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    1. Oláá,
      Obrigada Dany, fico feliz que você tenha curtido os posts e que este tenha chegado positivamente a você. Foi um daqueles em que a gente não sabe bem como vai sair.
      Entendo a parte sobre tempo, sério. O que eu mais tenho é leitura acumulada nessa internet porque não dá pra parar e ler tudo. Mas sempre que puder passa por aqui sim, hein? Obrigada pelo carinho.
      Beeijo

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