Amor e outras metáforas, um post sobre a minha arromanticidade

Recentemente, eu me peguei planejando meu casamento — o que é uma forma estranha de começar um post, mas acompanhem meu raciocínio. Eu sempre quis um casamento em um lugar clássico e antigo, então eu pesquisei a mansão onde gravaram Vestida Para Casar e a casa de barcos onde gravaram ABC do Amor, que também aparece em Vestida Para Casar. Qualquer um dos dois é um local plausível, mas eu me senti mais inclinada à casa de barcos, já que ela faz parte dos dois filmes. Depois de decidir isso, eu fiz uma pasta no Pinterest com os detalhes do casamento, mas também resolvi descrever tudo, por que não?

O casamento seria em uma quinta-feira porque quintas são meus dias da sorte e casar no meio da semana faz afastaria as pessoas que não se importam tanto assim comigo. As flores do buquê e da decoração seriam ramos de lavanda e lírios brancos, porque eu gosto da mistura de lilás e verde com branco, e lírios me lembram da minha mãe. Na saída da cerimônia, saquinhos com lavanda também. Meu vestido da cerimônia seria um vestido de baile branco estilo princesa e o da festa um vestido estilo sereia com alças grandes e na cor champanhe. As roupas das madrinhas, lilás e/ou verde musgo, de cetim. Não precisa ser vestidos, mas a cor e o material precisam estar de acordo com meus planos. Padrinhos são completamente opcionais nesse cenário porque eu não sei o gênero da pessoa com quem eu vou me casar e essa pessoa pode ter amigos de vários gêneros também (eu não vou ter padrinhos porque eu tenho uns 3 amigos homens só e eu preciso deles assistindo a cerimônia). Minha sobrinha seria daminha e talvez daqui pra lá eu já tenha afilhados também. A decoração seria clássica, não rústica. A música da cerimônia, arranjos orquestrais das minhas músicas preferidas e eu entraria ao som de Sparks Fly da Taylor Swift. Na festa, um DJ tocaria uma seleção de músicas muito particular escolhida por mim que seria enviada aos convidados com antecedência para que eles conhecessem todas. Ou um dos meus amigos músicos seria contratado para tocar. A seleção do buffet também seria baseada nos meus filmes preferidos e o bolo seria de chocolate com a decoração de geodes da pedra do meu signo (ametista) e a pedra do signo de quem quer que eu esteja me casando, assim como as alianças seriam, com base nos anéis de noivado. Eu penso em só um pouco mais de 100 convidados, talvez 150 levando em consideração a presença de apenas 70% da lista de convidados.

Depois de ler isso tudo, você pode se perguntar: que tipo de pessoa arromântica tem o casamento planejado até o último detalhe? Alguém que deseja todas as coisas românticas do mundo, mas não com ninguém que eu já tenha visto (ou se apaixonado por!!) na vida.

"Eu não acho que eu estou pronta para me apaixonar"

Explicar arromanticidade do meu ponto de vista se torna mais complicado quanto mais eu falo, então vou começar com o conceito (recomendo uma pesquisa mais aprofundada caso o tema pareça interessante. Pode te ensinar coisas sobre você mesmo, mesmo que você não seja arromântique): Arromanticidade se refere à orientação de quem não experimenta atração romântica ou experimenta atração romântica com raridade ou somente sob condições específicas. Por ser um termo guarda-chuva, a orientação faz parte de um espectro que engloba várias orientações, como por exemplo a demirromanticidade, onde um vínculo precisa ser criado antes que a atração romantica exista. Pessoas arromânticas podem pertencer a várias outras orientações e identidades como o meu caso, que sou arromântica e bissexual. Ou seja, não experimento atração romântica, mas experimento atração sexual por quase todo mundo. 

Existe muito debate por aí sobre as identidades alheias e os rótulos que parecem novos, por mais que eles tenham história. Eu não vou perder tempo defendendo minha própria identidade, porque eu sei que as pessoas que não entendem, não estão tentando entender. O que eu vou dizer é o seguinte: Cada rótulo existente, em todas as línguas do mundo, para explicar nossas identidades foram inventados. Alguns foram inventados através de violência e mais tarde reclamados como motivo de orgulho. Outros foram criados por estratégias de dominação e se mantém até hoje, mesmo com as pessoas que pertencem ao grupo tentando destruí-los. Mas os rótulos mais específicos, gentis e surpreendentes foram criados para dar nome a algo que nunca vai poder realmente ser resumido a palavras: a experiência humana. Bissexual e arromântica são duas palavras muito pequenas para explicar quem eu sou e tudo que eu sinto, mas aceitar essas palavras e dizê-las em voz alta faz com que eu me sinta real.

Enquanto humanos, nós temos a necessidade de nos comunicar e usamos palavras para isso. Por isso demos nome a tudo no mundo e agora tentamos dar nome às partes de nós mesmos que outras pessoas não podem alcançar. Rótulos são culturais, políticos e mais do que qualquer outra coisa, são linguísticos. Seu objetivo principal é comunicar algo particular a uma outra pessoa. Então, não faz diferença se você acha que a identidade de alguém é válida ou não. Quem se apresenta a você não está buscando validação. Se você se recusa a incluir a identidade de alguém em seu discurso, o rótulo em si já cumpriu sua função: você sabe quem a pessoa é, só se recusa aceitar. E você pode odiar o nome da banana e chamar ela de laranja o quanto quiser, mas isso não significa que você consiga fazer suco.

"Eu estou apaixonado há duas semanas e meia e é uma dor que eu não desejaria aos meus piores inimigos"

Agora vamos falar sobre como essa identidade reproduz dentro de mim: Em caos interno. Eu nem sei por onde começar, mas eu desabafei com minha alma gêmea recentemente e a vantagem de ter uma alma gêmea é justamente descobrir coisas sobre a sua alma que você não entendia anteriormente. Então vamos começar justamente das conclusões alcançadas.

Pra muitas pessoas arromânticas a atração romântica só aparece depois de um vínculo de atração platônica é estabelecido. Para mim esses dois tipos de existem em realidades completamente separadas e a partir do momento em que um vínculo platônico é estabelecido, eu não consigo ver mais a pessoa com outros olhos. Isso não quer dizer que eu não confunda o que eu sinto por uma pessoa. Só porque eu sei que eu não consigo sentir um tipo de atração se sentir o outro não quer dizer que eu imediatamente reconheça sentimento X como sentimento X e não como sentimento Z. Isso acontece porque apesar da atração romântica e a platônica não se misturarem, os outros tipos de atração se misturam. Eu podia explicar em texto, mas eu gosto de gráficos fofinhos, então eis o gráfico:

Percebe como a atração sexual toca a atração platônica de leve? Essa é a minha disponibilidade em entrar em uma situação de amizade colorida


Mas a coisa fica bem pior quando você leva em consideração que entre todas as pessoas pelas quais eu já me apaixonei, apenas uma conseguiu despertar atração romântica em mim. A maioria fica naquele meiozinho onde a atração sexual, sensorial e estética se misturam, mas não tocam nem a atração romântica nem a platônica. A maior parte dos meus sentimentos nasce nesse vão. Elas também podem nascer na mistura de atração sensorial com estética ou na mistura de atração sensorial com atração sexual. Ali nasce a ~~obsessão~~ e depois disso, o sentimento se move no sentido platônico — onde eu provavelmente vou querer a pessoa na na minha vida por muito tempo, porque eu gosto da companhia dela — ou na atração romântica — onde eu provavelmente vou querer ter um relacionamento com a pessoa e acabar tudo em um coração partido ou no casamento acima descrito. (Nota da autora: sentimentos também podem nascer já na atração platônica, onde ficam pra sempre. Ou na atração romântica, o que ainda não aconteceu, pra falar a verdade).

Vamos aos exemplos, pra deixar tudo mais claro: A última pessoa por quem eu me apaixonei nasceu de uma mistura de atração sensorial e atração estética e apesar de ter chegado consideravelmente perto de atração romântica, a coisa toda morreu na atração sexual. E hoje em dia não existe atração nenhuma ali — a morte foi violenta e não deixou sobreviventes. Paralelamente, a primeira pessoa por quem eu me apaixonei foi a única responsável por me causar atração romântica e honestamente falando, apesar de fazer mais ou menos uns 6 anos desde que eu "superei", até hoje, se ela disser "vamo?", eu já tô lá. Mas apesar de nós termos sido meio-que amigas por um tempo, hoje em dia não existe mais nenhuma conexão ali (o que não quer dizer que não possa ser reconstruída). Nós não temos o suficiente em comum para sustentar uma relação platônica, mas eu ainda tenho um áudio que ela me mandou OITO ANOS atrás, porque ele me causa umas borboletas estranhas e eu não consigo me libertar disso.

Enquanto isso, no fundo eu sempre soube que minha alma gêmea seria platônica. Quando eu era criança, eu não sonhava com o casamento perfeito, eu sonhava em ter uma melhor amiga de infância que se mudaria para a casa ao lado da minha e compartilharia a vida comigo. Você percebe nos meus livros também como a figura da melhor amiga se mostra importante. E claro, em A Linha de Rumo (e-book em promoção por R$6,39 até o dia 31 #publi #ad) no discurso da Lucy sobre almas gêmeas fica claro quais são minhas crenças sobre o tema. Acabou que a minha alma gêmea e a minha melhor amiga não são a mesma pessoa, porque eu tenho sorte o suficiente de ter vários amigos (uau). Mas ter encontrado uma alma gêmea na Kira é simplesmente a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Sempre foi pra ser ela.

Antes de ir para a última parte do post, eu também gostaria de fazer uma menção honrosa a Katerina Petry, meu neném aroace. Eu sinto que as pessoas que leram As Crônicas de Kat nem sempre entenderam que a Kat era aroace, justamente pelas partes da história onde ela demonstra intensa atração estética pela Ellie. É por isso que eu gosto muito de dois momentos do finalzinho da história (spoilers, mas nada que estrague o plot à frente): Quando a Kat vê Rubi saindo do quarto da Ellie e fica feliz, saindo do caminho para que Ellie não se sinta culpada; E quando a Sophie diz para Ellie não deixar o que ela quer de Kat ficar no caminho do que Kat pode lhe oferecer. Ellie é o amor da vida de Kat de uma forma muito particular — Kat sempre quis uma família e Kat foi criada para o poder. De alguma forma, Ellie é os dois em uma pessoa só.

"Você já viu alguém mais bonita? Ela é simplesmente o meu tipo." "Uau, eu nem sabia que tinha um tipo."

Eu nunca fui o tipo de pessoa que precisa de relacionamentos românticos para se sentir completa e ainda não sou. Apesar disso, os outros aspectos da minha vida irem se encaminhando sempre me deixam com a sensação de que eu queria ter alguém do meu lado. Isso é uma mudança de 360 graus do meu humor um ano atrás, quando a última coisa que eu queria era me apaixonar. Eu tenho essas fases onde eu queria muito estar em um relacionamento e elas normalmente vão embora depois de algum tempo, mas existe algo diferente nessa vez.

Todas as partes do meu coração têm estado suspensas ultimamente. Eu não sei bem o que eu quero de quem quer que eu acabe me apaixonando, mas eu quero que pareça natural e certo. Agora todo trabalho do mundo tem sido em convencer a mim mesma de que eu mereço isso. A ideia sempre foi estar com alguém com quem eu queira estar e que queira estar comigo e isso é o bastante, mas eu sou tão resistente a toda e qualquer situação romântica e todo avanço nesse sentido que simplesmente ainda não aconteceu, por mais perto que tenha estado de acontecer.

Eu tenho me segurado a sentimentos por alguém que ainda parecem natural e certos, mas até isso está suspenso. Eu perdi o timing da situação e depois cometi o erro de escrever uma mensagem que nunca enviei e a comunicação foi interrompida no meio. Uma pandemia depois, só Deus sabe onde estamos. E muito do que aconteceu pode ter sido coisa da minha cabeça. E talvez nunca chegue a lugar nenhum. Mas eu tenho uma base dos sentimentos que eu quero ter por alguém, por causa dessa experiência.

Foi algo que minha psicóloga disse alguns anos atrás: eu posso nunca ter estado em um relacionamento, mas todas as outras coisas que eu vivi e todos os outros relacionamentos que eu presenciei fazem de mim preparada para saber o que eu quero. Então, eu vou esperar. Na esperança de que um dia eu perceba que esperar valeu a pena.

Até a próxima,
G.

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