31/07/2015

Mi Totentanz

Outro post nos 45 do segundo tempo, porque a escritora que vos fala é desorganizada e procrastinadora. E não tinha energia em casa quando eu quis escrever. Mas de qualquer forma: E aí? O último post do Mês Literário, não é exatamente o tipo de post que todos os meus leitores amam, mas é algo que eu vinha prometendo escrever e postar há muito tempo: O conto sobre a morte da Kat e sua transformação. Pode não ser muito interessante para quem não curte As Crônicas de Kat e é um conto de terror, mas eu sentia que eu precisava postar isso em algum momento e achei que seria uma boa ideia terminar o Mês Literário com um conto, assim como ele começou. Para as pessoas que não querem ler o conto de jeito nenhum, porque não curtem ou tem medo, tudo bem e eu prometo que os posts de agosto serão bem divertidos e leves. Mas para os interessados, eu realmente acho que Mi Totentanz pode deixar muita gente curiosa para ler As Crônicas de Kat. Quem resolver ler: Eu adoraria um feedback, porque com a minha ficção eu estou sempre treinando e tentando melhorar. Mas chega de falar, aqui está o conto sobre a morte e transformação da minha vampirinha. Espero que gostem. (E eu sinto muito sobre a formatação, eu estou sem Office e precisei escrever tudo aqui).

Eu sei que essa lua não está cheia, mas foi a melhor imagem que eu consegui.
Era isso ou uma menininha sangrando e eu quero dar pesadelos com a história, não antes dela.

Mi Totentanz
Eu comecei uma contagem regressiva para o dia do sacrifício no meu aniversário de 7 anos, mas depois de um tempo ficou entediante. Quando minha rotina de acordar, marcar o calendário e ler livros e mais livros mudou para a pratica de feitiços em qualquer hora do dia ou da noite que minha mãe achasse mais conveniente, eu fui perdendo as contas. Dias, semanas e meses se tornaram baseadas em estudo e treinamento. E eu não me importava, era divertido. Eu era inteligente e talentosa e o orgulho nos olhos da minha mãe - mesmo que fosse orgulho de si mesma - era o mais próximo que eu tive de amor. Por isso, quando eu fui acordada no dia 8 de setembro de 1844, mesmo que alguém me perguntasse o que aconteceria era eu provavelmente responderia com: hoje é o segundo domingo do mês, então é dia de estudar as religiões do mediterrâneo.
- Acorde e ponha todo esse sono pra fora. - Minha mãe cantarolou me puxando pelos ombos para me acordar - Hoje é o grande dia.
O brilho no olhar dela era algo genuíno. Eu sabia pouco sobre isso, mas sabia que ela estava feliz. Ela abriu um baú de couro que devia ter levado para meu quarto em algum momento da noite e começou a colocar os pouquíssimos pertences que eu tinha nele. Eu continuava um pouco perdida:
- Grande dia?
Ela se virou para mim, com aquele brilho estranho ainda no olhar.
- Faz exatamente 9 anos 364 dias e 5 horas que você nasceu, Katerina. É hora de começar a prepará-la, meu sacrifício puro.
Com bile na garganta, eu dei uma olhada de lado para a parede onde a marca do Inferno costumava ficar, não havia nada lá. Depois de 4 anos me ensinando o que deveria fazer depois da noite em que morreria, eu estava sendo deixada sozinha para completar uma obrigação que era mesmo só minha. Era demais para alguém que ainda ia completar 10 anos. Jocelyn terminou de guardar tudo que era meu no baú, com exceção de minhas roupas, enquanto as lágimas surgiram no canto dos meus olhos.
- Ah, não tenha medo, Katerina. A maior parte do seu trabalho já foi feita ou será feita a partir de amanhã. Todo o trabalho hoje será meu, apenas aproveite este momento.
- Mamãe. - Disse com um fiapo de voz que nunca havia usado e nunca usaria outra vez. - Vai doer?
- Serei sincera: Sim. E não usarei eufemismos: Bastante. Entretanto, é só por esta noite, o que é uma noite de dor em comparação a uma eternidade de conquistas? - Antes que eu pudesse processar o que tudo aquilo significava, ela me puxou pela mão - Mas chega de dúvidas e medos, eu tenho algo a lhe mostrar.
Ela me arrastou para fora do quarto que eu estava vendo pela última vez como humana e me levou até o dela. Depois de me colocar sentada na cama, ela abriu seu armário pequeno e tirou um embrulho que me deu.
- É seu. Para usar esta noite. - Antes que meus dedos começassem a se mover, ela me impediu - Você só pode abrir se me falar sobre o feitiço que eu farei essa noite.
Eu estava acostumada a ter que fazer essas pequenas trocas, só que geralmente era algo bem mais simples, como meu almoço por um poema traduzido para o francês. Ou um pedaço da história do Inferno em troca de uma tarde livre. Mas o feitiço complicado e tudo que eu sabia sobre ele escapou dos meus lábios com facilidade - eram, de certa forma, fatos familiares. Não pareciam ser destinados para mim, o medo que eu tive há poucos instantes havia sido completamente substituído por minha curiosidade em saber o que o pacote continha.
- Muito bem, Katerina. É bom que saiba como foi transformada, poderá usar isso em breve. Pode abrir seu presente.
Rasguei o papel pardo com vontade e um vestido branco de renda e seda apareceu diante de mim. Ele tinha mangas curtas e parecia mais uma camisola do que um vestido do dia-a-dia e era, afinal, uma espécie de mortalha. De qualquer forma, era mais bonito do que qualquer coisa que eu já tive em vida. Jocelyn ficou satisfeita com minha alegria.
- E isso é só para o sacrifício. Nós vamos para a cidade agora, comprar roupas para depois disso. Eu economizei muito para as compras. Amanhã envio você para a Romênia e você estará usando as melhores roupas que posso conseguir. - O sorriso sumiu e ela se abaixou em minha frente - Espero que me dê muito orgulho, filhinha. Você será minha forma de ser conhecida no mundo.
- Bruxas não são conhecidas pelos feitiços que fazem. - Recitei, do grimório da mãe dela - Elas são conhecidas pelas consequências deles.
- Exatamente. - Ela concordou, ainda sem sorrir - Meu maior feitiço fará de você algo maravilhoso e por sua existência eterna ser a consequência, eu quero ter certeza de que você será alguém por quem vale a pena ser conhecida.
Concordei com um balançar de cabeça. De repente, me vi disposta a trabalhar para que aquele dia e nosso ritual saísse como da melhor forma possível. Eu queria que aquilo acontecesse, certo? Eu queria me tornar uma vampira e viver para sempre. O medo era apenas uma fraqueza humana que eu deixaria de sentir em algumas horas.
Jocelyn fez café da manhã - queria garantir que eu tivesse todas as refeições do dia - e me levou a Graz. Passamos algumas horas comprando vestidos. Ela deixou que eu escolhesse e eu escolhi todos os mais claros com tons de bege a branco. Por algum motivo, isso deixou minha mãe muito satisfeita. No almoço, ela quis que fôssemos ao melhor lugar da cidade, que tinha meu prato preferido, mas antes de entrarmos pediu com a voz de professora:
- Conte-me sobre o encanto que faz com que vampiros se metamorfoseiem.
Depois do almoço e antes da sobremesa a mesma história:
- Fale sobre a árvore genealógica das Petry.
Voltamos para casa um pouco antes das três da tarde, assim que minha mãe combinou com um carroceiro que me buscasse no dia seguinte ao meio dia, para me levar a estação em Viena. Precisávamos começar 12 horas antes da hora marcada para minha morte. Fui até a biblioteca pegar todas as ferramentas que precisariam naquela noite e depois de guardar todas as roupas no mesmo baú que guardara meus outros pertences, mamãe se juntou a mim na sala. Seu sorriso e sua alegria haviam desaparecido. Ela agora estava no modo bruxa, o que duraria até o fim do ritual, e eu deveria fazer a mesma coisa.
Eu a vi recitar as palavras que deveria, completando o que ela deveria dizer antes mesmo que o fizesse pois essas eram outras palavras que eu decorei. Quando chegou a minha vez de dizer a mesma coisa, fazer a mesma promessa, ela começou a fazer um corte em seu pulso com um punhal novo. Eu não sabia desta parte e quando tentei alcançar o punhal para fazer a mesma coisa, mamãe o pôs de lado e balançou a cabeça.
- Não. Você precisa se manter imaculada. Esse feitiço deveria garantir que você se ligasse a mim apenas por ser minha filha, mas por todo caso eu quero garantir que o primeiro sangue que você consuma seja o meu.
Eu olhei para a tigela de madeira na qual ela depositava o sangue que escorria de seu pulso em uma quantidade perigosa.
- Você acha que ele continuará fresco até as 3 da manhã?
- Eu não disse nada sobre quando você irá bebê-lo.
Ela terminou a tarefa sangrenta e rasgou um pedaço do próprio vestido para cobrir o ferimento. Então entregou a tigela para mim. Minha hesitação durou menos de um segundo. Eu precisava fazer aquilo de qualquer forma e estava cansada de agir como uma criança. O sangue tinha um gosto amargo de ferrugem e ainda estava quente. Não era uma sensação boa, mas não parecia de todo ruim. Minha mãe começou um canto longo, outra parte do feitiço que eu desconhecia. Fechei os olhos, tentando imaginar um mundo em que eu usaria daquela mesma bebida como sustento. Era impossível: Pra mim beber aquilo era outra das muitas obrigações desagradáveis que eu tive que enfrentar, eu nunca faria aquilo por prazer. Mas o que eu sabia sobre prazer? O canto de minha mãe terminou quando eu deixei apenas uma mancha vermelha no fundo da tigela. Se ela ficou satisfeita, ela não demonstrou mais nada.
- Ao banho. - Disse, narrando a segunda parte do processo.
Foi a parte mais simples: nossa banheira foi enchida de água e cercada de velas e eu tomei banho entoando um canto que aprendi aos 3 anos de idade. Depois de desembaraçar os cabelos e usar o vestido que ganhei naquela manhã, fui levada ao jardim da frente. Eram quase 6 e o sol já se punha, mesmo sendo fim de verão.
Mamãe me pôs no ponto que eu ficaria a noite inteira e começou o complicado desenho no chão, com as próprias mãos, a partir de onde eu estava. Eu fiquei imóvel por horas, o que era complicado. Deixei minha mente imaginar a vida que eu teria depois daquilo. Me imaginei conhecendo o mundo, os lugares e os prazeres que só conhecia através dos diários que havia lido. Me lembrei que não precisava ter medo do desconhecido, pois seria uma criatura forte que destruiria qualquer coisa que se colocasse em meu caminho. Eu não pensava que teria que matar para sobreviver ou em nenhuma outra das partes complicadas de ser um vampiro. Eu sabia que não precisaria me esconder da luz do sol e que instrumentos religiosos apenas me irritariam. Madeira seria perigosa, mas só quando realmente estivesse próxima ao meu coração. Pouquíssimo me perturbaria, eu era um sacrifício, não uma vampira comum e eu havia sido treinada para ser uma das melhores e mais talentosas vampiras. Eu não tinha motivos para hesitar.
Em algum momento, me peguei bocejando. Me belisquei, para me manter de pé e no lugar certo e foi nesse momento que minha mãe terminou os desenhos no chão. Já era noite. Ela estava suja de terra e o corte em seu braço havia ensopado o pano que usara para estancá-lo. Parecia selvagem. Ela encarou a lua para determinar as horas e eu fiz o mesmo. Um pouco depois das 20h.
- Katerina. - Ela disse me encarando com os olhos da mesma cor que eu - Vá até a sala e pegue uma adaga purificada. Não apague os desenhos ou encoste em mim.
Eu fiz assim, com todo cuidado e quando voltei ela mandou que eu fosse até o centro do desenho outra vez.
- Faça os cortes. Os que toda bruxa sabe fazer.
- Eu não posso cortar a mim mesma. - Respondi, achando a ideia uma loucura.
- Sim, você pode. Eu treinei você para isso. Alcance os lugares certos e se deite com a adaga sobre o coração quando terminar. E não esqueça de dizer o feitiço que te manterá consciente. Não correrei o risco de sujar você com meu sangue e estragar meu trabalho de dez anos. - E então ela disse a última coisa que me disse em vida, com um brilho sanguinário no olhar e a intensidade de alguém que viveu uma vida por um único objetivo: - E não ouse derramar uma gota de sangue no lugar errado.
Com a obstinação que vinha treinando há horas, usei a adaga para fazer os cortes. O primeiro doeu como um corte de papel. O quinto, como uma mordida. No décimo terceiro, eu já havia me esquecido da dor, tão entorpecida que só me preocupava com atingir a profundidade certa. Eu não gritei, ou interrompi o canto. Conforme me deitava e colocava a adaga sobre meu peito, arrumando meu corpo no lugar certo, me dei conta de que antes daquilo eu nunca havia derramado uma gota de sangue na vida. Eu sempre fora protegida, primeiro pela Morte, depois pelo Inferno.
É realmente algo interessante, perder todo o sangue do seu corpo estando consciente disso. A dor dos cortes profundos se desfaz aos poucos e é substituída por uma sensação de tontura que toma conta do seu corpo. Depois disso, eu deveria ficar inconsciente, mas essa misericórdia nunca me foi concedida, graças ao feitiço. Eu senti cada parte da luta do meu coração para manter meus órgãos funcionando. Tentei usar o que sabia sobre qual deles pararia primeiro para me distrair, mas minha mente estava além de qualquer esforço. Minha vida estava se esvaindo com meu sangue. Minha alma começou sua agonia desde então.
Minhas veias já se arrastavam como lixas produzindo uma dor que eu não era capaz de exteriorizar, quando a meia noite chegou. Era finalmente meu aniversário e eu estaria respirando há 10 anos dentro de 3 horas. Cada batida do meu coração me sufocava com dores insuportáveis e intraduzíveis para quem nunca a sentiu. Eu me lembro do primeiro som de estalo agora, mas sei que passou despercebido por meu corpo praticamente inanimado. Até mesmo os sibilos que vieram em seguida, tomando conta da floresta pareceram mais um sonho.
- Katerina. - Meu nome foi sibilado pelo exército de bruxas Petry que surgiam da terra a minha volta.
A Dança da Morte começara para a garota que não só brincou com a Morte, como a venceu em seu jogo. Era uma Danse Macabre composta apenas para mim. Mi Totentanz. A Morte estava vindo reclamar o que a havia sido jurado. Não fazia ideia do tempo que eu já pertencia ao Inferno. Eu senti sua presença se aproximar devagar de mim, tentando me alcançar, e eu desejei ser levada. Eu desejei pertencer a seu reino. Eu consigo me lembrar do frio de sua sombra se aproximando de mim. Mas os esqueletos, o exército que deveria me levar em seus braços, nunca conseguiu se aproximar de mim o suficiente. Seus corpos sem vontade própria eram destruídos por fogo assim que pisavam nas poças de meu sangue, causando pequenas convulsões. Eu queria chorar, mas a água já seguia o mesmo caminho do sangue.
Quando a meia noite acabou, e a Danse com ela, a lua cheia desapareceu, deixando a noite escura. Foram mais duas horas de escuridão completa e dor inenarrável. Eu era a batida do meu coração, porque ela era tudo que restara de mim. E então, 3 da manhã.
Eu não consigo me lembrar o que aconteceu na hora exata, mas eu sei que algo aconteceu. Alguma coisa existiu entre a dor e a clareza. Eu não consigo lembrar de morrer, assim como não me lembro de nascer. Mas o renascer vampiro é algo único. Aquele momento de silêncio que volta com uma clareza mental única, e a sensação de respirar o ar puro pela primeira vez.
E então a sede. Profunda e cortante a ponto de fazer com que você esqueça de que todo aquele sangue em volta era o seu próprio.



Obrigada pelo melhor Mês Literário até agora,
Vejo vocês logo, logo
G.

25/07/2015

15 fatos sobre meu primeiro livro

Olá, pessoas da terra. Primeiramente, eu queria agradecer pelas 36 mil visualizações alcançadas na quarta. Era minha meta para o Mês Literário e isso deixa o blog com mais de 500 visualizações no mês. Vocês são demais e eu espero que estejam curtindo tudo. Segundamente, mesmo sabendo que este post saiu EXTREMAMENTE tarde e que a maioria das pessoas acabará lendo no dia 26, feliz Dia Nacional do Escritor!! (Lembrando sempre que o "nacional" é importante porque também existe o Dia Mundial do Escritor que é 13 de outubro). Foi bem complicado decidir sobre o que escreveria hoje, porque as ideias não surgiam. Eu sabia que precisava escrever, mas estava achando impossível escrever algo que chegasse aos pés do post do ano passado (60 razões para escrever). Só que então eu lembrei que existe uma coisa sobre a qual as pessoas sempre querem saber (o que me deixa superfeliz) e que combina com o Dia Nacional do Escritor e com o Mês Literário: meu primeiro livro.
Para quem ainda não sabe (ONDE VOCÊ ESTEVE TODO ESSE TEMPO?) eu escrevi um livro e estou agora (e há dois anos) revisando-o. Mais Uma Vez é o primeiro livro da trilogia Sociedade Inglesa de Oposição que foca na história de Heather Richards, uma adolescente herdeira de um legado familiar secular e de um império de hotéis que desenvolve poderes aos 16 anos de idade. Os tais poderes são apenas uma sensibilidade extrema a ondas cerebrais de forma a controlar seu próprio corpo com seus processos físicos e químicos, e também a captar ondas cerebrais alheias, assim se conectando às mentes dos outros. Depois de uma pesquisa pela internet e de encontrar um diário que só pode ter sido deixado para ela de propósito, Heather acaba encontrando a Sociedade Inglesa de Oposição, um grupo de pessoas com os mesmos poderes que ela - do qual ela aparentemente é líder hereditária - que podem ou não ser a resposta de uma pergunta que vem assombrando ela há quase um ano: porque seu melhor amigo de infância, Mike, causa reações tão estranhas a seu corpo?
Se a sinopse te deixou interessado ou se você ainda precisa de mais para ficar convencido a ler meu livro eu sugiro que você pegue a pipoca e embarque nesses 15 fatos aleatórios:

1. Eu comecei a trabalhar em Mais Uma Vez em setembro de 2010...
Começou com a ideia de uma personagem que podia controlar os próprios sentimentos - sempre achei intrigante essa ideia de controlar os sentimentos ou não tê-los - e evoluiu pra caramba depois disso. Eu parei e comecei de novo mudando a base da história nada mais, nada menos que 8 vezes. (Apesar de uma delas ter sido porque o computador que eu usava na época queimou). Sempre fico paranoica quando lembro que faz todo esse tempo que eu estou trabalhando em um livro só. Toda vez que eu surto pensando que se levar tanto tempo para lançar um livro sempre eu vou acabar lançando 2 livros na minha vida inteira, eu preciso socar a mim mesma e lembrar que eu só tenho 17 anos e que meus métodos ainda vão mudar muito. Além disso, obras primas como Drácula levaram 7 anos até ficar perfeitas. Mas acho que uma das piores partes de dizer que eu trabalho neste livro há quase 5 anos é que cria uma expectativa muito grande em quem lerá e isso quase nunca é bom.
Por outro lado, eu sei que não daria certo publicar MUV 2, 3 ou 4 anos atrás. O livro está ficando do jeito que eu realmente quero só hoje. A história e os personagens foram tomando uma forma mais real para mim durante todo esse tempo, eu cresci com eles, eles mudaram tanto quanto eu mudei. Eles passaram pelo meu melhor e pelo meu pior. Uma das coisas importantes é que eu tinha 12 anos quando comecei e achava 16/17 anos uma idade completamente mágica. Agora eu sou mais velha que minha personagem principal e eu consigo ter uma imagem mais clara de como alguém de 16 anos agiria. Além disso, eu estou me dedicado a evoluir e melhorar sempre a forma como eu escrevo - acreditem, a minha escrita em 2012 não era merecedora de um livro. (Não que vocês precisem de muito para acreditar, meus posts de 2012 estão aí pra isso).

2. ...E "terminei de escrevê-lo" em março de 2013
As aspas estão ali porque muito do meu processo de revisão inclui escrever cenas extras que dão mais sentido a história. A história está escrita, montada, elaborada em uma ordem coerente desde março de 2013, mas ela ainda precisava e precisa ser reescrita, revisada e reorganizada algumas vezes para ficar perfeita. Não que eu ache que a perfeição é algo alcançável (porque não importa quantas vezes eu mexa nesse livro sempre vai ter algo que eu vou querer mudar, que eu ache que fica melhor de outro jeito - isso acontece com todo autor), mas uma vez eu li que quando você está no caminho certo com a sua arte todas as coisas parecem estar no lugar e é assim que eu tenho me sentido enquanto reviso MUV. Eu sinto que assim que terminar essa segunda fase de revisões (eu acho que eu já expliquei meu método de revisão em um post, mas não me lembro qual, qualquer coisa explico de novo depois), eu vou ler o livro inteiro, respirar fundo, fechar os arquivos, arrumar os detalhes da publicação e nunca mais ler o livro outra vez, exatamente como o Khaled Hosseini (autor de O Caçador de Pipas, que disse em entrevista que não lê os próprios livros ou sentiria vontade de mudar tudo).

3. A trilogia costumava ter um site oficial
Que eu tirei do ar, porque estava feio desatualizado e desorganizado. Não tenho certeza de quantas pessoas acessaram ele, mas o link costumava ficar aqui no blog. Eu queria trazer ele de volta e até comecei a editá-lo, mas nunca achei tempo, paciência ou criatividade para terminar de arrumar tudo. Provavelmente, quando o lançamento do livro estiver mais próximo eu relançarei o site com tudo que ele tem direito. Por enquanto, todas as informações sobre os livros estão na aba Sociedade Inglesa de Oposição, lá em cima.

4. O livro já tem uma capa há cerca de um ano
Eu tive a ideia de como queria a capa no fim de 2013. Minha mãe fez um esboço na mesma época (que aliás, eu queria muito saber onde foi parar, mas tanta coisa foi jogada fora sem que eu soubesse na última mudança que eu tenho certeza de que o perdi), e sugeriu que eu pedisse a uma prima dela que fizesse a arte. Eu pedi, sem muita pressa porque não sabia quando o livro ficaria pronto e em agosto do ano passado, eu recebi o desenho que - por sinal - ficou maravilhoso. Ela conseguiu fazer o desenho de uma forma que eu nem sabia que era exatamente o que eu queria (o que reforça meu recalque de quem sabe desenhar). Eu também achei a fonte perfeita para a capa e já organizei ela. O plano era lançar a capa junto com o novo site, mas como até hoje eu não consegui fazer isso, ela continua guardada seguramente no meu computador. Considerando de SIdO é uma trilogia, eu queria as 3 capas no mesmo estilo e já teria encomendado a arte das outras duas, se eu fizesse alguma ideia de como quero que elas sejam.

5. Eu ainda não decidi entre indie publishing ou focar em publicar em editoras.
Um pouquinho depois de ter terminado de escrever Mais Uma Vez, mesmo sabendo que teria muita revisão pela frente, eu resolvi procurar editoras. Descobri que a maioria delas não está aceitando manuscritos de autores novos (e mesmo dois anos depois continuam sem aceitar) e outras têm critérios rígidos a esse respeito. Um selo de uma editora que foi criado para facilitar a entrada de novos talentos no mundo literário cobra APENAS 14 mil reais para sua publicação. Só isso já meio assustador e deprimente pra quem está começando, mas eu resolvi terminar o livro antes de surtar com isso. Aí, um tempo depois, eu encontrei uma opção: indie publishing.
Na publicação independente, você é responsável por tudo: capa, edição, conteúdo, divulgação e mais importante, venda. Algumas empresas facilitam esse tipo de publicação, publicando de graça, mas retendo para si uma porcentagem da venda. De outras formas, o lucro é todo seu, mas o investimento na publicação também. Diversos autores que eu gosto começaram com publicações independentes e conheço vários autores da minha idade que tiveram suas obras lançadas da mesma forma. Eu sempre achei uma opção ótima para mim porque dessa forma eu saberia se meu livro tem mercado ou não e dependeria da minha própria dedicação para vendê-lo. A questão é que eu não sei se confio em mim mesma para esse tipo de coisa (eu sou preguiçosa e irresponsável), então me pego pensando se não seria melhor me dedicar a ser publicada por editoras, apenas. Inclusive, eu descobri algumas editoras menores que têm interesse em lançar jovens e agora até tenho contatos que podem me ajudar nesse sentido. Eu simplesmente ainda não decidi o que quero exatamente. Existe sempre a opção de publicar independentemente e usar as vendas como uma forma de chamar a atenção das editoras. Talvez, depois que o livro estiver do jeito que eu quero eu o leia e decida o que quero fazer.

6. A Fernanda Nia - Ilustradora do blog e dos livros Como eu realmente - desenhou uma personagem do livro em 2014
Eu estava tranquila no Twitter, quando a Fernanda Nia - uma das minhas ilustradoras preferidas - perguntou quem era autor porque ela queria desenhar um personagem. Eu respondi e dei as características de uma personagem de MUV e ela fez o maravilhoso desenho que está aqui do lado. Nem preciso dizer que eu fangirlei muito aquele dia. Foi a primeira vez - excetuando-se o desenho da capa do livro, é claro - que desenharam uma personagem minha e foi alguém que eu admiro ainda por cima. Eu fico imaginando o dia (que eu realmente espero que aconteça de verdade) em que começarem a desenhar personagens meus em fanarts. É bem capaz de eu virar mais fã do ilustrador do que o ilustrador de mim.
Caso você esteja se perguntando: Esta é Layla Banks, a melhor amiga da personagem principal. Ela tem 17 anos, três empregos, um senso de humor brilhante e uma espécie de positivismo e crença no amor verdadeiro que aparentemente todo melhor amigo de gente muito cética tem. Ela foi a primeira e por muito tempo a única a saber sobre o segredo da Heather e conseguiu sempre ajudar a amiga, mesmo quando tudo pareceu sobrecarregá-la. O único problema é que ela não é nada imparcial no que diz respeito a influência de Mike na vida de Heather, até porque ela é a capitã do ship dos dois.

7. Algumas pessoas já leram o capítulo um do livro
Alguns amigos meus já leram o primeiro capítulo de Mais Uma Vez e eles são o motivo pelo qual eu sei que (pelo menos) o primeiro capítulo está bom. Todo mundo que leu disse que precisa saber mais sobre e que amou a introdução dos personagens. Eu planejava postar este primeiro capítulo em algum lugar, mas eu acho que poucas pessoas leriam a partir do link, então eu prefiro ir eu mesma mostrando para as pessoas aos poucos. Enquanto eu estava tendo aula (sim, minha universidade ainda está em greve), inclusive, minha professora de português passou um texto de tema livre e e gênero literário livre que ela leria sem revelar o autor e os outros alunos falariam sobre e eu resolvi mandar o primeiro capítulo de MUV pra poder receber uma critica honesta. Ela leu vários textos desse trabalho, mas nunca chegou ao meu.
Eu meio que tive essa ideia maluca de andar com o capítulo um na bolsa enquanto estiver na Bienal do Rio, mas não é como se a galera fosse à Bienal do Rio me ver, então não sei o que quero com isso. De qualquer forma, se você vai à XVII Bienal do Livro Rio entre os dias 8 e 13 de setembro e quiser ler o primeiro capítulo do livro é só me achar no Twitter pra gente marcar. (Eu vou falar mais sobre ir para a Bienal em um futuro próximo).
Ah, antes que eu esqueça. No início do ano, eu postei um trecho do capítulo 3 de Mais Uma Vez no Facebook e se alguém quiser ler, é só clicar aqui.

8. A história se passa em 2011
E o bizarro é que desde que eu comecei a escrever a história, em 2010, eu já coloquei a linha do tempo dela em outubro/novembro de 2011. O ano não é citado no livro, mas como Heather sempre está dizendo que 1811 foi 200 anos atrás, acaba ficando claro. A menos que eu mude algo a história dos livros 2 e 3 seguem o ano de 2012 inteiro e o começo de 2013. Eu não consigo me lembrar porque eu quis que a história se passasse em 2011, mas sei que quando o período em que o livro se passa foi chegando eu resolvi tentar escrever cada dia correspondendo ao dia da história, para terminar  de escrever o livro ainda em 2011 - o que, obviamente, não deu certo. Além disso, eu perguntei para uma menina inglesa no Twitter como estava o tempo em Londres naquela época, e ela me disse - eu nunca vou esquecer disso - que estava mais quente do que ela esperava, mas muito chuvoso.

9. No livro inteiro, apenas uma música é citada.
E é Every Breath do Boyce Avenue. Em versões diferentes, a "música que toca no carro do Mike" foi mudando porque eu sempre achava que aquela música não era boa o suficiente para o livro ou não combinava com o que um garoto de 17 anos ouviria. Então, um dia eu fui procurar o que um garoto de 17 anos realmente ouviria em 2011 e acabei esbarrando com Every Breath do Boyce Avenue. Desde então, a música é essa porque ela combina perfeitamente com a cena inteira, do começo ao fim.


10. Existe um crossover entre As Crônicas de Kat e Sociedade Inglesa de Oposição
E eu me pergunto diariamente o quê que eu tinha na cabeça quando fui colocar as duas histórias no mesmo universo, porque uma não tem nada a ver com a outra, mas eu me vejo o tempo todo tentando adequar uma à outra. Explicando: Os padrinhos da Ellie de As Crônicas de Kat, que apareceram primeiro em Haunted, depois no Capítulo 6 quando Bianka diz para Ellie "Além disso, sua madrinha lhe disse uma coisa que você guardou dentro de você e depois testou, para descobrir que ela estava certa." são personagens importantíssimos em SIdO. Peter e Faith têm um papel importante na descoberta na Heather sobre ela mesma, sua família e seus poderes. Não posso falar mais ou vou soltar muito spoiler, mas eu posso dizer que Ellie e sua "morte trágica" são citadas de passagem em algum ponto da história da trilogia.

11. Neve, o primeiro dos extintos Contos de Inverno do blog, se passa no universo de MUV
No primeiro ano, minha professora de redação pediu um conto e como eu estava muito envolvida no universo de Sociedade Inglesa de Oposição e estava pensando em escrever algo para o blog durante o inverno, a ideia de Neve surgiu. Inicialmente, eu pensei que Neve poderia ser um dos últimos capítulos da trilogia, mas depois preferi deixar apenas como um conto paralelo. Quem quiser ler, pode ficar a vontade. (Este fato foi adicionado ao post quase 48 horas depois, porque a escritora que vos fala esqueceu um fato e de falar sobre o conto).

12. Todos os personagens principais de Mais Uma Vez foram batizados graças a personagens de filmes - exceto Mike.
E não foi proposital! Eu simplesmente estava avaliando os nomes dos personagens do livro e me dei conta de que os personagens principais todos ganharam o nome que têm por causa de algum filme que eu vi quando estava começando a história. E nem são filmes que eu amei: A Heather ganhou este nome graças a Triangle, Layla por causa de Sky High, Rosalie, a irmã mais nova da Heather, graças a Eclipse (especificamente, Eclipse), Faith foi graças a um filme que eu assisti onde um casal que não conseguia ter filhos teve uma menininha e colocou o nome dela de Faith (que significa Fé), cujo nome eu não consigo me lembrar, mas sei que me fez chorar pra caramba. A lista continua, mas não adiantaria falar de personagens que ninguém conhece. Michael Leonards foi o único personagem que não sofreu influencia de filme nenhum para ser batizado: ele ganhou esse nome simplesmente porque eu estava obcecada por este nome em 2010. Eu juro, todo personagem masculino que eu criei em 2010 ou se chamava William, ou se chamava Michael. Sem exceções.

13. Mais Uma Vez não é o primeiro título que o livro teve. Nem o segundo.
O primeiro foi One More Time, ou seja, a mesma coisa, mas em inglês. Esse primeiro nome foi mantido até 2013, mas quando eu comecei a pensar sobre publicação, eu sabia que essa coisa de título em inglês não daria muito certo. A primeira tradução que eu pensei foi Apenas Mais Uma Vez. Depois, frustrada com como esse título soava, eu pensei em manter o One More Time e acrescentar Mais Uma Vez no subtítulo. Ainda achando terrível, eu finalmente decidi mudar o título para Mais Uma Vez e a trilogia, que costumava carregar o título do primeiro livro, ganhou o novo nome de Sociedade Inglesa de Oposição. A dúvida que sobra é porque o nome do livro é Mais Uma Vez: bem, vocês terão que ler, porque a resposta é um spoiler dos grandes.

14. Apesar do livro ter tido 8 versões no total, eu só tenho 4 delas salvas no computador.
Não me pergunte o que aconteceu com as outras 4. Eu tive um total de 6 computadores diferentes nesses quase 5 anos trabalhando no livro, então é um milagre do Senhor Jesus Cristo que eu tenha tantas versões assim salvas. E elas são úteis para mim hoje em dia: enquanto eu escrevo as cenas extras, eu lembro de cenas das versões anteriores que poderiam ser reescritas e colocadas na nova versão e às vezes elas se encaixam perfeitamente. Sem spoilers, mas digamos que tem até um beijo na chuva envolvido.

15. A primeira versão do segundo livro foi escrita no NaNoWriMo de 2013
E eu prometi que nunca mais escreveria um livro de uma série no NaNoWriMo outra vez - o trabalho é imenso, e como você depende dos outros livros da série para confirmar alguns fatos isso acaba envolvendo uma pesquisa que atrapalha o processo do NaNoWriMo. Na verdade, eu não consegui terminar o livro exatamente, só chegar a 50 mil palavras e decidir como eu quero o final. Quando eu tiver que reescrevê-lo (e eu mal vejo a hora - eu odeio revisar, escrever mesmo com as palavras sendo criadas pela primeira vez é o que eu mais amo), eu provavelmente começarei do início, mantendo só as cenas que ficaram realmente boas. Uma delas está no meu perfil do NaNoWriMo: É um trechinho, que não tem nenhum spoiler específico da série, então se alguém quiser ler, é só clicar aqui.

Eu acho que é só isso. Eu espero que esses 15 fatos tenham deixado mais gente ainda interessada no livro e na trilogia. E se você leu tudo, não gosta desse tipo de história, mas ainda quer ler um livro meu, eu posso desde já anunciar que neste NaNoWriMo estarei escrevendo um drama e mesmo que eu não faça ideia de nada sobre a publicação dele, uma hora ele sai.
G.

20/07/2015

E no dia do amigo, eu apresento uma nova escritora

Boa tarde, pessoas. O post de hoje é um pouquinho diferente do que o de sempre, especialmente porque não fui eu quem o escrevi. Pois é, como hoje é dia do amigo (inclusive, feliz dia do amigo a todos os meus leitores, que também são meus amigos, apesar de nem todos os meus amigos serem meus leitores) (várias falsianes na vida), eu resolvi publicar um texto de um amigona minha. Inclusive, ela já fez uma participação especial em um post de 2014, que tinha o mesmo tema desse novo texto. Eu realmente não estou suficientemente criativa para escrever uma introdução enorme, então antes do texto eu só quero pedir, por favor, deixem suas impressões sobre o texto? Me digam o que acharam dele e se eu deveria fazer isso mais vezes. É muito importante pra mim e para a autora do texto. De qualquer forma, aqui vai um pequeno ensaio sobre sentimentos, por Annie Scigo:

Eu queria ter a maneira da Giulia de conseguir colocar as coisas de uma forma engraçada e fácil, ela consegue melhorar tudo, para ser bem sincera. Deixar as coisas mais simples e conseguir me tirar um sorriso do rosto realmente rápido, por isso a admiro tanto.

Pensei mil vezes no que escrever para o mês literário, comecei uma história, mas achei que nada daquilo tinha ficado bom o bastante, então resolvi falar de: sentimentos.

Isso é tão clichê, todo mundo fala de sentimentos, o tempo todo. Se bem que na maioria das vezes não sinto a essência do que algumas pessoas escrevem. Eu não sinto realmente algo que me toque. Parece que as pessoas se forçam a falar de sentimentos hoje em dia.

Mas bem, vamos lá.

Eu terminei um relacionamento de um ano e, eu juro, de primeira instancia eu não fiquei nem um pouco louca por causa disso. Não quis postar milhões de fotos nas redes sociais para mostrar para a pessoa que eu estava completamente bem. É claro que você não fica bem, mas a pessoa não precisa saber seu estado de espirito, vamos combinar.

Eu componho, então tudo o que eu tentei fazer foi colocar a falta que ele me fazia nas minhas letras, codificar as minhas histórias, algo que ligasse a ele para eu me sentir melhor, para eu sentir que estava deixando rastros dele por aí, para eu finalmente poder me desprender. Eu tentei tanto, mas nada adiantou.

Eu consegui escrever músicas, eu consegui começar histórias e dar o rumo que eu queria, já que essa dor toda pode te deixar bem produtiva, mas então toda esperança de eu ficar bem se foi, porque nada daquilo melhorava. Mas eu realmente não sei o que doía mais: o fato de eu não ter um companheiro ou encarar a rotina e o vazio que ele deixou.

Eu tentei mil maneiras de deixa-lo ir. Meditei, rolei na cama, gritei sozinha no meu quarto e chorei, além das citadas acima. Fiz tudinho. Até tentar encontra-lo em outras pessoas eu tentei, mas nada adiantou muito, para ser beeeeeeem sincera.

Era incrível minha reação com fotos que eu achava por aí no meu notebook, ou os textinhos de aniversários. Eu não sabia o que fazer. A dor consegue te sufocar até você achar que não tem nada. Eu tentava de todas as formas pensar que não era o fim do mundo, mas, qual é(!), tudo nessa idade é o fim do mundo.

Mas, bem, realmente: não é.

Com o tempo as coisas ficam amenas. Você consegue levantar da cama sem sentir aquele desejo 
incontrolável de ficar ali, porque você sabe que não vai mais ouvir a risada da pessoa, que você não vai mais olhar para o celular e ter uma mensagem dela ali.

Mas se você quer saber, todo final de relacionamento tem um lado positivo, por mais duro que tenha sido o termino.

Por incrível que pareça você amadurece, você muda e você cresce.

Por mais que ainda doa pensar que eu não o tenho mais, eu não faria nada diferente, nem as coisas que nos levaram a ter nossa última conversa, a “definitiva”. Eu cresci tanto com esse relacionamento e me fortaleci tanto no caminho.

Eu não seria nada do que eu sou hoje se não fosse por ele. Eu não seria uma pessoa melhor se ele não tivesse acreditado que eu poderia ser.

Vocês podem achar egoísmo da minha parte, ou até estupidez, falar que eu não mudaria nada, até porque, se dói tanto assim, por que não fazer tudo diferente para dar certo, né? Mas eu acho que tudo aconteceu como tinha que acontecer.

Eu tive que lutar todos os dias, e continuo lutando, para me levantar, nos dois sentidos, porque tinha manhas que eu simplesmente não queria sair da cama, mas eu lutava por algo, por um futuro que eu não sabia se existia, já que você sempre pensa que vai ficar sozinha para sempre.

Eu não o amo menos por falar que eu não mudaria nada, na verdade acho que o amo demais. Mais até do que eu podia suportar.

Você fica bem, você suporta isso, mesmo que tenha dias que você acha que não pode, você tenta, pois eu acho que tudo acontece, não por nossos desejos, ou nosso egoísmo, nosso orgulho e nossos sentimentos, mas sim porque tem que acontecer.

Você aprende com a dor quando você vê que tudo o que aconteceu é por causa de um plano muito maior. De que não se trata de você. De que não se trata de você e outro alguém, seja ele quem for. Isso tudo nos torna quem somos.

Eu tentei por semanas tirar aquilo de mim, quando tudo o que eu precisava era entender que tudo não é sobre mim e “my selfish ways”. Eu aprendi o que eu tinha que aprender, e se o meu futuro for com ele, nossos caminhos vão se cruzar, é assim que a vida funciona.

Eu sei que vão ter dias que serão mais complicados que outros, talvez eu leve um ano para finalmente me sentir inteira de novo, mas o que conta é o que eu aprendi com tudo isso.

O tempo realmente cura e te ensina, te amadurece.

Então se você passou por algo assim, se você está passando, mesmo que não seja um(a) namorado(a), até perder uma melhor amiga ou amigo, até de forma besta, lembre-se que as pessoas não são suas, que as pessoas estão na sua vida, só isso. Que elas podem entrar e sair, e não depende de você se elas vão ficar ou não. As vezes elas entram na sua vida só para te ensinar alguma coisa, para te mostrar um caminho diferente para seguir.

Tira um tempo para você, pensa na sua vida e no seu futuro. Se coloca em primeiro lugar. Pensa que ainda tem um bocado de pessoas para entrar na sua vida, e muda-la de mil maneiras diferentes. Você escolhe o que fazer a partir do ponto que se “desprende de alguém”. Não tem problema pensar em você, se colocar em primeiro lugar, fazer algo que te faça bem. Mesmo que isso seja sentar e chorar a tarde inteira. Mas lembre-se de levantar e fazer alguma coisa, ir a um lugar sozinho só para ver as pessoas.

Lembre-se que a sua vida continua, e só depende de você para isso.

Respira fundo e encara isso de frente, chora, esperneia e grita, mas pensa que tudo vai ficar bem no final, e se não está tudo bem, é porque não é o final.

Tudo, no final, toda a dor, vai te fazer ser quem você é, e nisso, no meio da bagunça, você vai se achar.

“First love does not mean best love; Best friends may not mean best friends forever.”

17/07/2015

13 motivos para ler Carmilla

Aviso: Este post é sobre um livro de terror gótico e contém algumas imagens que podem ser consideradas perturbadoras para alguns públicos. Eu< não considero esse livro tão assustador assim, mas eu sou apaixonada demais por literatura gótica para ser confiável. Vocês foram avisados.

Eu estava em dúvida entre postar este post - que tinha sido prometido em março, mas acabou não saindo porque eu perdi a criatividade - ou um do Diário Artístico sobre imaginação, mas aí eu fiquei bem inspirada pelo fato de ontem ter sido noite de lua nova e pensei, porque não? (Não, isso não faz sentido. Mas às vezes acontece).
Eu tenho perturbado todo mundo que eu conheço tentando convencê-los a ler Carmilla há 2 anos e 3 meses e ainda não consegui fazer sequer uma viva alma lê-lo. No começo, eu achava que era pelo fato de ser um livro antigo e por meu gosto literário ser exótico, mas no ano passado uma websérie baseada no livro começou de DO NADA milhares de jovens se apaixonaram pela história. (O que me deixou bem brava com esse novo fandom que surgiu lendo meu livro preferido e tomando conta dele - mas eu já superei. Mais ou menos.) (A websérie é legal - eu vi 9 episódios no último Halloween e penso em começar de vez a ver qualquer hora dessas -, mas quando você passa um ano inteiro sofrendo por um livro e aí surge uma galera com um fandom de série, muitas vezes relevando a história do livro é normal ficar protetora a esse respeito - pergunta pra quem era fã de Vampire Diaries antes da série). Então só duas coisas podem ter acontecido: Ou eu tenho tentado convencer as pessoas erradas a lerem meu livro preferido ou eu não tenho perturbado ninguém o suficiente. E caso o problema seja este último, aqui estão 13 motivos para ler Carmilla:

Ilustração por diargonauta.
1. A sinopse do livro
Para quem ainda não sabe - a maioria das pessoas - Carmilla é uma novela de 1872 que conta a historia de Laura, uma jovem que vive basicamente isolada do mundo, sendo criada pelo pai e por duas governantas. Logo após receber a notícia de que a companhia que esperava receber faleceu de forma misteriosa, Laura e seu pai presenciam um acidente de carruagem e depois de um combinado suspeito acabam responsáveis por cuidar e abrigar a frágil jovem acidentada, que mais tarde se apresenta como Carmilla. A dona da casa e narradora acaba se vendo em um relacionamento tóxico com a jovem acidentada e personagem título, que a seduz e assombra ao mesmo tempo.
É um livro vitoriano com todas as características de uma história de vampiro clássica, mas com um detalhe simples: Tem uma mulher no papel de vilã e possui aquela coisa toda de garota/garota. Sim, é um livro extremamente gay, mas não é uma história de amor. Um trecho de um dos meus ensaios preferidos sobre o livro explica Carmilla e suas ações de uma forma simples (não que ela tenha a obrigação de explicar nada a vocês, bolsas de sangue): "De fato, o mito do vampiro fascina, porque ele é um ser que vive na sociedade, mas está fora do alcance de suas normas. Sua condição de morto-vivo o coloca fora das convenções sociais dos vivos, incluindo a sexual. [...] Um vampiro heterossexual é, portanto, um vampiro domado pela civilização. Carmilla subverte esses limites sexuais porque sabe que o sangue não conhece gênero."

2. O terror gótico
Eu reeeealmente não acho que Carmilla seja um livro assustador. É um livro perturbador, do tipo que te afeta posteriormente. Eu não senti medo lendo o livro, mas eu tive vários pesadelos com gatos me mordendo em salas escuras e jogos de sombra em casas góticas depois. A questão é que por ser um livro gótico Carmilla te suga (hehehe, Carmilla te suga) para uma atmosfera tecida pelo autor pra te deixar envolvida em um cenário místico em que qualquer coisa - principalmente tudo que existe no lugar mais escuro da sua imaginação - pode se tornar real.
Se você nunca leu um livro gótico, deixa eu tentar explicar: já leu O Morro dos Ventos Uivantes? Ou algo mais contemporâneo como Dezesseis Luas? Qualquer coisa da L. J. Smith? Nesse caso, você já leu um livro gótico, sim. Não é exatamente assustador, mas vai te deixar marcado e dominado durante leitura e até depois dela. Vai dominar sua mente e coração e fazer com que sua imaginação corra solta. Se você realmente nunca leu nada do gênero gótico e continua sem fazer ideia do que eu estou falando: O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO COM A SUA VIDA?????????

Ilustração por Isabella Mazzanti 
3.  É um bom começo para quem quer ler clássicos, mas tem preguiça.
Apesar de ser um livro do século XIX - o que já deixa muita gente com sono só de pensar - Carmilla é um livro extremamente fácil de ler. É pequeno, até porque é excerto de uma obra maior, que foi republicado como um livro só. Minha edição física de bolso da editora Hedra tem só 149 páginas - o menor livro da minha estante. Além disso, traduções como a primeira que eu li, em linguagem atual, simplesmente são devoradas pelos olhos dos leitores mais vorazes. (Se alguém quiser, eu posso mandar um link para download do Dropbox depois. Outra vantagem de Carmilla: como o autor morreu em 1873 o livro é de domínio público há algumas décadas e já foi disponibilizado traduzido por alguns sites.)

4. O livro é praticamente YA
Pensem comigo: as duas personagens principais são praticamente adolescentes e existe muito no livro que é sobre Laura ser uma jovem solitária, que está se descobrindo. Sendo narrada pela personagem principal alguns anos no futuro, ainda existe uma avaliação das ações que ela tomou como jovem. É basicamente young adult fantasy do século XIX.

5. Feminismo
Carmilla é um livro com uma personagem feminina que desafiava muitas das convenções sociais e crenças absolutas da época, diferente do que todo mundo estava acostumado em 1871, ano em que a história começou a ser publicada em forma de folhetim. Ao colocar uma mulher no papel de vilã, a ideia da mulher como um ser inocente que precisa ser salva, presente em basicamente todo livro gótico foi colocada em questão. Quer dizer, o livro ainda tem uma mocinha que precisa ser salva, mas o perigo ao qual ela é submetida não vem da parte de um homem que existe em oposição aos salvadores dela. Vem da parte de uma mulher que existe em oposição a ela, provando que mulheres não precisavam ser personagens tão bidimensionais. Além disso, quase sempre que mulheres apareciam como vilãs na literatura, elas acabavam matando um homem, ou sendo a perdição da vida de um "homem bom". Carmilla, não. Ela não poderia se importar menos com os homens. Definitivamente.

Essa é a minha favorita. Ilustração por BeatrizMartinVidal
6. A influência exercida sobre Drácula
Estamos falando do maior livro sobre vampiros aqui, queridos. Até quem nunca leu Drácula sabe quem é Drácula e sabe dos aspectos básicos de Drácula (o fato de ele dormir em um caixão, queimar ao sol, não gostar de alho e de crucifixos, et cétera). O nome Drácula evoca uma ideia de vampiro tão intricada à sociedade que até hoje as pessoas dizem que "vampiro de verdade" só vampiro como Drácula. E Carmilla influenciou a existência desse personagem. Vocês tem noção da importância disso?
A influência é mais óbvia em uns momentos e menos em outros. Por exemplo: o ódio por itens religiosos está presente nos dois livros. A metamorfose, também. A força nas mãos, igualmente. Bram Stoker era assumidamente apaixonado pela obra de Le Fanu e inclusive no conto O Hospede de Dracula existe uma referência a uma condessa austríaca assim como a vampira de Carmilla (e O Hóspede de Drácula era o primeiro capítulo original do livro, que depois foi deixado de lado).

7. A influência exercida sobre As Crônicas de Kat
Sim, citar minha própria história nesse post é totalmente válido. A influência de Carmilla sobre As Crônicas de Kat é tão intensa que cobre tudo desde os detalhes sobre a transformação de vampiras até a personalidade e o local de nascimento da personagem principal. Eu só estou dizendo que se você gosta apenas um pouco de As Crônicas de Kat, provavelmente gostará muito de Carmilla.

8. As adaptações (Ou mais especificamente A Maldição de Styria)
Se você não é o tipo de pessoa que gosta de filmes que seguem o livro à risca (grande parte do tempo eu sou, mas com clássicos góticos você simplesmente espera que os personagens sejam retratados com fidelidade e o resto vai dar certo), você vai amar provavelmente quase qualquer adaptação de Carmilla existente. E existem muitas. Estamos falando de dezenas de filmes, alguns episódios de séries e uma webserie.
Meu único problema com adaptações de Carmilla é a mania de sexualizar e/ou romantizar a história. É muito mais raro você encontrar um ator atraente representando Drácula do que encontrar uma atriz atraente representando Carmilla. Eles dois são os monstros de suas histórias, mas ele é assustador enquanto ela é sexy. (E não são só nas adaptações: uma das edições nacionais de Carmilla faz parte de uma série de livros eróticos. O livro não tem sexo, mas de alguma forma duas garotas são automaticamente relacionadas a erotismo.). Além disso, é bem raro (acontece, mas é raro) ver alguém shippando Drácula e Mina ou Drácula e Lucy, mas quase todo mundo shippa Carmilla e Laura.
Agora o parágrafo raivoso: Deixa eu esclarecer uma coisa para vocês (Pode conter spoilers - você sempre pode pular para o próximo parágafo): ELAS NÃO ESTÃO APAIXONADAS NO LIVRO! Sim, o livro é supergay, mas não é sobre duas garotas que se casarão e criarão bebês vampiros felizes. É sobre uma garota solitária sendo assombrada por uma vampira com duzentos anos de experiência que provavelmente já havia dito "Eras minha, serás minha, tu e eu seremos uma só" para 500 outras garotas antes de dizer para a Laura. Pronto, eu disse. Não é uma história de amor é uma história de terror gótico, gente.
Agora de volta a porque eu acho que as adaptações são um motivo para ler Carmilla: Alguns meses atrás, eu assisti a um filme indie que estava esperando para ver há 2 anos e foi completamente apaixonante. É um filme inspirado por Carmilla, com várias mudanças básicas, mas que mantêm o aspecto gótico, todo o sangue e o horror. O nome é A Maldição de Styria e ele estreou aqui no Brasil em 2014 no Fantaspoa, mas eu não pude ir ver porque moro meio longe de Porto Alegre. Eu amei todas as partes do filme, mas eu tenho consciência de que só quem leu o livro pode aproveitar a plenitude dele (leia-se: altas críticas negativas de quem não leu), o que quer dizer que quem quiser ver o filme vai ter que ler o livro.

9. As fanarts
Eu decidi encher esse post de fanarts porque eu sou completamente encantada com como alguém consegue transformar uma cena tão maravilhosamente narrada e tecida para causar terror em um desenho completamente incrível e definitivamente perturbador. Digo isso como alguém que não desenharia bem nem se a minha vida dependesse disso. Em 2013 eu descaradamente usei várias fanarts de Carmilla para fazer propaganda de As Crônicas de Kat - porque em alguns casos elas se encaixavam perfeitamente. Hoje em dia no Tumblr você acha mais fanarts da webserie do que qualquer outra coisa (porque vocês talentosos que fazem as fanarts da webserie não podem fazer mais fanarts do livro?), mas depois de fuçar muito eu consegui achar ontem algumas fanarts que eu nunca tinha visto e eu fiquei tão encantada que comecei a gritar "HOJE É NATAL?" no Twitter.

Ilustração por kuroudraws

10. Gatos
Ok, talvez isso não seja um motivo assim tão bom para ler o livro, mas vamos encarar: o que é melhor, um vampiro que se transforma em morcego ou um vampiro que se transforma em um gato? Os que preferem cachorro podem até lembrar que Drácula também se transformou em lobo, mas aceitem: gatos são melhores. E uma vampira que se transforma em um gigante gato preto é maravilhoso. (Fato aleatório: se eu tivesse adotado uma gatinha ao invés de um gatinho o nome dela seria Mircalla - para entender porque, você vai ter que ler o livro -. Na verdade, eu quero ter uma gata com esse nome um dia, mas por enquanto eu só posso ter um mesmo) (Eu pretendo falar sobre meu gato aqui no blog, depois do mês literário. Só disse isso pra avisar mesmo) (Aliás, os posts de agosto serão sobre assuntos muito aleatórios, vocês vão amar).

11. Estes trechos
Mostrar é (quase) sempre melhor que dizer, então, aqui vão 3 dos meus trechos preferidos de Carmilla.
"Mas curiosidade é paixão incontida e inescrupulosa, e jovem alguma pode suportar, com paciência, que alguém - seja lá quem for - lhe frustre a curiosidade. Que mal havia em me contar o que eu queria tanto saber? Será que ela não confiava no meu bom senso ou na minha honradez? Por que não acreditava em mim quando eu lhe garantia formalmente que jamais revelaria a qualquer mortal uma única sílaba do que me contasse?
Havia uma frieza um tanto precoce, achava eu, na persistência com que ela, com um sorriso melancólico, recusava-se a me revelar o mínimo detalhe.
Não posso dizer que a questão nos levasse a desavenças, pois ela jamais protagonizava qualquer discussão. Evidentemente, era injusto da minha parte, pressioná-la, até deselegante, mas eu não conseguia deixar de fazê-o; no entanto, melhor seria não ter insistido.
O que ela me disse, na minha avaliação injusta, somava a... nada, resumindo-se a três revelações vagas:
Primeiro: seu nome era Carmilla.
Segundo: sua família é antiga e nobre.
Terceiro: sua residência ficava no oeste." Capítulo IV: Os hábitos dela. Carmilla, A Vampira de Karnstein. Editora Hedra. 2010.
"— Não sabes o quanto te prezo ou não duvidarias da minha confiança. Mas eu estou sob juramento, pior do que uma freira, e não me atrevo a revelar minha história, nem mesmo para ti. Está próximo o momento em que saberás de tudo. Vais me achar cruel, muito egoísta, mas o amor é sempre egoísta; quanto mais ardente, mais egoísta. Não sabes como sou ciumenta. Tens que vir comigo, amando-me para a morte; ou então me odeie, mas vem comigo, e me odeie na morte e depois dela. Não existe a palavra indiferença na minha natureza apática." Capítulo VI: Estranha agonia. Carmilla, A Vampira de Karnstein. Editora Hedra. 2010.
"Como eles escapam de suas sepulturas e retornam a elas por algumas horas todos os dias, sem perturbar o reboco ou deixar quaisquer vestígios de perturbação no estado do caixão ou do cimento, sempre foi admitido como sendo absolutamente inexplicável. A infame existência do vampiro é sustentada pelo renovado sono diário na sepultura. Sua horrível luxúria por sangue vivo supre o vigor da sua existência acordada. O vampiro é propenso a ficar fascinado com uma absorvente veemência, lembrando a paixão do amor, especialmente por pessoas. Na perseguição a essas irá exercitar inesgotável paciência e astúcia, pois o acesso a um determinado objetivo pode ser obstruído uma centena de maneiras. Ele nunca vai desistir enquanto não tiver satisfeito sua paixão e drenada a própria vida da vítima cobiçada. Mas irá, nesses casos, prolongar seu mortífero gozo com o requinte de um gastrônomo e ampliá-lo através das progressivas investidas de uma ardilosa abordagem. Nesses casos, parece que anseiam por algo parecido com simpatia e aprovação. Normalmente vai direto ao seu objetivo, subjuga-o com violência e estrangula e exaure muitas vezes em um único banquete." Capítulo XV: Ordálio e Execução. Carmilla. Casa do Mago das Letras - Livros Eletrônicos. 2009.

12. Porque te faz se apaixonar por diversas outras obras
Carmilla foi um dos primeiros livros que eu li quando minha obsessão por literatura gótica começou e foi a influência dele sobre diversos outros livros que me fez ler muita coisa de 2013 pra cá. Me apaixonar por este livro foi o que me fez pesquisar mais sobre o gênero e me encantar por muitas histórias (Incluindo Drácula e os livros da Anne Rice). O livro que eu estou lendo agora, Góticos: Vampiros, Múmias, Fantasmas e Outros Astros da Literatura de Terror e sua continuação, são antologias de contos, poemas e ensaios do gênero que incluem textos do autor de Carmilla, Sheridan Le Fanu, além de Bram Stoker (Drácula), Mary Shelley (Frankenstein), Robert Louis Stevenson (O médico e o monstro), Sir Arthur Conan Doyle (Sherlock Holmes) entre outros. Outra recomendação gigantesca que eu faço.

13. A história do autor
Ilustração por E. J. Barnes
No último Mês Literário, eu fiz uma lista de autores favoritos e naturalmente, Sheridan Le Fanu estava incluso. Aqui vai o resumo da história dele que eu postei ano passado:
"Joseph Thomas Sheridan Le Fanu (a.k.a J. S. Le Fanu, Sheridan Le Fanu ou simplesmente, Le Fanu) nasceu em Dublin, Irlanda em 28 de agosto de 1814, em uma família de literatos. Estudou direito na Trinity College em Dublin, era um dos alunos mais brilhantes da turma e de forma incomum, pode estudar em casa e fazer provas na faculdade. Em 1838 ele começou a contribuir com as histórias para a Dublin University Magazine. Em 1839 ele foi convidado a se juntar à ordem de advogados irlandesa, mas recusou e logo abandonou o direito pelo jornalismo. Em 1840 se tornou dono de diversos jornais irlandeses.
"Le Fanu se casou em 1844 com Susanna Bennett, com quem teve quatro filhos: Eleanor, Emma, Thomas e George. Susanna começou a sofrer de problemas psicológicos ao meio da década de 1850, e começou a buscar apoio na religiosidade. Na época, Le Fanu trabalhava excessivamente e não visitava a igreja tanto quanto gostaria.  Susanna morreu após um ataque de histeria em abril de 1858. A tristeza e a culpa em perder a esposa levou Le Fanu a abandonar a literatura até a morte de sua mãe em 1861. Seus últimos anos foram passados em melancolia e trabalho até a sua morte em 1873. Le Fanu escreveu diversos gêneros, mas se tornou mais conhecido pela literatura de terror, que lhe rendeu o título de "pai do gótico" mesmo não sendo o primeiro autor do gênero.
"O cara era basicamente um gênio e um apaixonado por literatura. Ele pode não ser o mais popular do gênero, mas foi quem influenciou todos os populares. Em Carmilla, livro mais conhecido dele e meu livro preferido, ele lançou algo totalmente inovador para a literatura da época: uma vilã feminina. E eu acho que Carmilla é o que eu mais gosto sobre ele. É um livro do tipo que nunca havia sido visto antes do Le Fanu e que nunca voltou a ser visto depois dele."

G.

12/07/2015

Oryx e Crake por Margaret Atwood

Boa noite, companheiros humanos. Bem-vindos à segunda resenha do ano, primeira resenha do mês literário e talvez única resenha de um livro que foi diretamente recomendado por uma ídola minha. Pois é, Mandy Lee não só é uma cantora e compositora incrível (da melhor banda com as melhores músicas do mundo), um ser humano lindo (e ruivo) com uma personalidade maravilhosa e uma cozinheira lendária, mas ela também tem um gosto literário impecável. Algumas pessoas simplesmente são perfeitas e não há nada que a gente possa fazer a respeito.
Falando sério agora, eu estava um pouco preocupada em relação a resenhar este livro porque eu não sei ser imparcial (o que é ótimo para alguém que cursa jornalismo afirmar). Relacione alguma coisa que eu amo com uma obra de arte e eu já vou achar a melhor coisa feita na história da humanidade (eu literalmente já dei 5 estrelas a livros e filmes simplesmente porque eles citaram Viena - minha segunda cidade preferida no mundo - uma vez só). Então eu prometi a mim mesma que tentaria ser direta sobre o livro e que se ele não fosse bom, eu não resenharia (porque eu tenho uma filosofia contra resenhas negativas. É aquela coisa de se não tem nada de bom a dizer, não diga nada). Mas isso não foi um problema, o livro é maravilhoso. Claro que é, Mandy Fucking Lee gostou dele - eu meio que estou chateada comigo mesma por ter achado existia chances de um livro que ela gostou ser ruim. (Eu sou o pior tipo de fangirl) (Para quem abriu o link do tweet lá em cima: Eu também comprei The Sociopath Next Door, mas eu comprei em inglês e considerando a ressaca literária na qual me encontro esse ano, eu vou demorar uma eternidade para ler um livro não-ficção em inglês. Se ele for tão bom quanto O&C vocês provavelmente encontrarão uma resenha dele aqui mais ou menos em 2018, 2019). DE QUALQUER FORMA, vamos focar no livro:

Estava procurando uma imagem para o post e achei essa ilustração que fizeram para o livro. E agora eu quero me casar com essa imagem.
Oryx e Crake é um romance especulativo (definição da autora) pós-apocalítico contado do ponto de vista do Homem das Neves, que aparentemente é o único ser humano comum existente na época. Eu digo "ser humano comum" porque junto com ele estão os Filhos de Crake ou Crakers, seres modificados em laboratório, criados a partir de embriões humanos para "melhorar a humanidade". Assim que o livro começa nós somos sugados para os flashbacks do personagem em questão que nos mostra um futuro não muito distante de onde nós estamos no momento, onde cientistas e suas famílias vivem em complexos projetando todo tipo de avanço científico, mais para ganhar dinheiro do que qualquer outra coisa. O mundo não é mais do jeito que conhecemos, até as estações mudaram e os desastres naturais antes esporádicos, agora são frequentes. Envolvidos nas memórias do Homem das Neves, que costumava se chamar Jimmy, vemos como o mundo decadente da infância de Jimmy se tornou a destruição na qual o Homem das Neves habita. (SPOILER ALERT: O apocalipse começou no Brasil. Corram.). O livro é o primeiro de 3 e eu estou desesperada para ler os últimos dois, mesmo que as histórias sejam meio que independentes.
Ontem eu disse na página que quem ficou revoltado comigo dizendo no último post que gosto de fazer leitores sofrerem, podia se sentir vingado, porque o livro que eu estava lendo estava destruindo a minha vida. E era verdade. Como a maioria dos livros e filmes sobre o fim da humanidade, Oryx e Crake é o tipo de história que eu adoro escrever, mas odeio ler, porque me faz questionar cada parte da minha vida. Até coisas que eu nem sabia que me incomodavam. Não é um livro fácil de ler, ou o tipo de livro que eu recomendaria para todo mundo que eu conheço. Na verdade ele é bem pesado e não dá pra aproveitar ele de verdade sem estar minimamente consciente disso. Mas é um bom livro, sem questionamentos sobre isso.
Um outro ponto sobre o livro é porque, como ele foi escrito em 2003, já é possível fazer uma leve comparação com a forma como pensávamos no início do milênio e como a gente pensa agora, na segunda década. Por exemplo, a autora previu o fim do livro de papel que na história foram transformados em CD-ROMs (eu sei, eu achei engraçado e fiquei chocada com o pouco tempo que passou para CD-ROMs tornarem-se obsoletos). Eu não acredito mais que isso vá acontecer - até o disco de vinil está de volta e tem mercado. A menos que exista uma queda considerável no número de leitores nas próximas gerações (o que não parece que vai acontecer) ou algo bem sério a respeito da produção de papel, eu acho que a crise na indústria literária não vai chegar ao ponto da extinção do livro de papel tão cedo. Por outro lado, o livro tem toda essa parte sobre como as faculdades de cursos de humanas foram maltratadas e como seus cursos se tornaram apenas destinados a criar subalternos dos cientistas e isso me afetou de verdade. Já faz parte do pensamento comum que a arte e as humanidades não têm tanta importância. A verdade é que se você não estuda ou não quer estudar nem direito, nem medicina e nem nenhuma engenharia você provavelmente ouviu pelo menos uma vez que deveria cursar uma dessas coisas. A gente criou uma sociedade que necessita de um número absurdo de profissões para funcionar perfeitamente, só para agir como se algumas dessas profissões fossem melhores que outras. E, se você não tiver como trabalhar nas melhores, é melhor nem tentar ser bem sucedido. Eu não sei se isso ou a forma como a humanidade acabou em Oryx e Crake é mais assustador para mim. Talvez os dois.

Porque eu não posso ser talentosa desse jeito?
Para finalizar o post, eu quero contar algo meio pessoal: Eu sinto que uma das razões para eu ter gostado tanto desse livro é porque ele é tipo de livro que eu acharia em um dos passeios que eu e minha mãe fizemos aos sebos. A gente ia juntas frequentemente, sempre pra comprar uns 5 livros por 20 reais, e sempre acabávamos voltando com esse tipo de livro: que tem uma sinopse interessante, que faz a gente pensar. E geralmente eram os mais pesados, que ela lia primeiro - ela costumava esconder esses livros de mim, até eu fazer 14 anos, mas eu sempre achava e sempre puxava conversas sobre o livro depois. Enquanto eu lia, eu senti falta das nossas conversas, várias vezes. Eu sentia que ela era a única pessoa com quem eu poderia conversar sobre o livro e que entenderia minhas impressões. Não to contando isso para ninguém ficar triste, eu apenas estou feliz por poder escrever sobre o livro e saber que pessoas vão ler. O que mais uma vez reforça o poder da arte. Chupa essa, Crake.
G.

06/07/2015

Diário artístico: guilty pleasures.

Ok, então na semana passada eu estava pensando nas minhas histórias, quando me dei conta de que certa personagem a quem eu sou extremamente apegada precisa morrer. A personagem em questão é do livro que eu pretendo escrever no NaNoWriMo, ou seja, eu não vou começar a escrever sobre ela até novembro, mas já tenho pensado muito nela ultimamente. Logo, descobrir que ela vai morrer, me deixou mal por antecipação, porque ela acabou se tornando muito importante pra mim. Eu normalmente passo pelos 5 estágios de luto quando um personagem que eu amo precisa morrer. Sou completamente contra mortes desnecessárias (porque vamos combinar, alguns livros tem mortes que estão lá só pra cumprir cotas), então um personagem meu só morre quando a morte dele tem alguma influencia na história. Existe uma morte no começo do livro 2 de Sociedade Inglesa de Oposição que eu sabia que aconteceria desde a terceira ou quarta versão de Mais Uma Vez (a que eu estou organizando agora é a oitava). Ainda assim, depois de escrever as cenas de morte e velório, quando eu escrevi o primeiro rascunho do livro (no NaNoWriMo de 2013), eu fiquei mal por semanas! Chorei, tive pesadelos e tudo o mais.  Eu estou contando isso para introduzir a vocês a resposta de uma pergunta que leitores do mundo inteiro fazem há um bom tempo: escritores encontram algum tipo de prazer ao fazer o leitor sofrer? Bem, eu não posso falar por todos os escritores do mundo, mas SIM SIM E SIM. Além disso, SIM.
Não me entendam mal, eu não sou simplesmente sádica. A questão é que se eu vou passar por uma montanha russa de sentimentos enquanto escrevo alguma coisa - qualquer coisa - o mínimo que eu desejo é que meus leitores passem pela mesma montanha russa. Como escritora e leitores nós somos uma comunidade de pessoas sofrendo pela mesma história. Às vezes de forma diferente, às vezes de forma igual. Os mesmos personagens entram na nossa vida, contam suas histórias e causam seus efeitos em nós. E considerando que eu sou a pessoa responsável por dar vida a este universo, depende de mim que a história desses personagens seja contada de forma a causar os efeitos certos na vida das pessoas. Então, eu sinto um certo prazer, sim, em causar os mais variados sentimentos nos leitores desavisados dos meus textos literários.

Hehehe
Porém, fazer o leitor sofrer é só um dos meus prazeres culpados como escritora - nada supera fazer um personagem sofrer. Eu sinto que sou meio sociopata nesse sentido, porque certos personagens eu consigo matar e fazer sofrer sem a mínima culpa. Eu dou meu melhor para dar aos meus vilões mortes tão maldosas quanto sua vida. (Não sei se a próxima parte deste parágrafo conta como spoiler, considerando que eu postei o capítulo 3 de As Crônicas de Kat há quase 2 anos, mas se você ainda não leu, mas pretende ler ACDK pule para o próximo parágrafo) Exemplo: A Jocelyn de As Crônicas de Kat. Eu até sinto que eu economizei na descrição da morte dela. Não sei se ter o sangue derramado gota por gota por 3 horas para à meia-noite ter seu corpo levado para a própria Morte por de esqueletos das suas próprias ancestrais foi o suficiente para compensar todas as coisas que ela fez em 68 anos de atividades infernais... E eu acabo de perceber o quanto ACDK é uma história macabra.
FUN FACT: Eu tenho uma "lista de personagens que vão morrer". É um arquivo do bloco de notas onde eu escrevo o nome de quem terá que morrer para a continuidade de uma história. E mesmo que mude de ideia sobre o futuro do personagem, se o nome está na lista, eu não posso fazer nada a respeito, ele precisa morrer. [AGORA SIM SPOILER DE AS CRÔNICAS DE KAT ALERT] Existe uma personagem de ACDK, a quem eu só me apeguei no meio do capítulo 5, cujo nome foi escrito 3 vezes. A criatura está morta, mas muito morta mesmo. [FIM DO SPOILER DE AS CRÔNICAS DE KAT] Eu ainda estou decidindo se vou colocar o nome da personagem do livro que eu citei acima nesta lista ou não. Ainda não aceitei a morte dela completamente e talvez nunca aceite.

Tirinha de Estevão Ribeiro em Os Passarinhos. Uma das minhas tirinhas preferidas, inclusive.
No caso do conto que eu postei quarta-feira passada, Infelizmente, Rio, Eu te amo, minha intenção era justamente deixar todo mundo com a sensação que o conto deixou: QUE DIABOS ACONTECEU COM A LAURA? Alguém perguntou se ela existiu de verdade e minha reação foi: ponto pra você, leitor anônimo, você se deu conta de que ela podia não ser real. Mas respondendo aos mais assustados, sim, ela existiu. A minha vontade era criar uma história que fosse totalmente possível, mas que tivesse seu tom onírico. Não tenho certeza se isso só acontece comigo ou não, mas na minha vida eu já tive muita gente que surgiu, deixou uma marca e depois desapareceu completamente. Na maior parte das vezes, é só alguém que eu vi na rua, que abriu um sorriso que me deixou feliz o dia inteiro e que eu provavelmente nunca mais verei outra vez. Eu nem posso provar que a pessoa existiu, mas eu deixo nosso pequeno encontro que tive na parte do meu cérebro reservada para coisas muito felizes.
Acho que é isso por hoje,
G.

01/07/2015

Infelizmente, Rio, eu te amo

Boa noite, universo!!! Feliz Mês Literário! Para os novos leitores que não sabem: julho é o mês literário do QaMdE, o que em resumo quer dizer que esse mês é todo sobre literatura. Entre resenhas, contos e posts sobre escrever e ler neste mês nós não falaremos sobre nada além de literatura. Então, se você não gosta, pode voltar em agosto.
As diferenças entre o mês literário do ano passado e o deste ano são apenas duas: como eu não estou participando desta edição do Camp NaNoWriMo não teremos aquela atualização semanal de a quantas anda o Camp e também não teremos um capítulo de As Crônicas de Kat por semana. Na verdade, este ano eu não estou prometendo nada para o mês literário deste ano, só que só falarei sobre literatura mesmo. Eu acabo de ter um dia totalmente produtivo e cheio de inspiração, mas que veio depois de uma semana inteira de bloqueio criativo e de um mês inteiro de baixíssima produtividade, então eu não vou me animar dizendo que eu vou escrever pra caramba esse mês, sendo que não tenho como saber. (WOW, eu sou um exemplo. Meus leitores devem me amar).
De qualquer forma, este mês começa com um conto. Quem me ouviu falando sobre o conto que eu queria escrever sobre o Rio de Janeiro o ano passado provavelmente deduziu isso ao ver o nome do post (ou já sabia porque viu o link do Facebook). Eu não postava contos desde dezembro de 2013 (sinto muito pelo final desse último conto, inclusive, e pela formatação dele também), então eu não me lembro direito como as pessoas costumavam reagir quando eu postava contos no blog e o público que eu tenho hoje em dia é bem diferente do daquela época. Além disso, é minha primeira história com narrador masculino e é um romance bem simples com o Rio de Janeiro como plano de fundo. Resumindo: eu não faço ideia de se as pessoas vão ler, gostar e comentar e pra falar a verdade estou bem ansiosa a esse respeito. De qualquer forma, aqui está: Infelizmente, Rio, eu te amo.

Essa foto só está aqui para dividir espaço e ficar bonitinha no link do Facebook mesmo.
Eu conheci Laura no primeiro dia de aula do ensino médio. Ela estudava comigo e era filha do professor de física. Ele a chamava de La e para mim soava exatamente como o tipo de nome que ela deveria ter: uma nota musical. Laura parecia completamente composta de música. E quando ela jogava o cabelo para o lado e sorria para cada um dos presentes, meu estômago se transformava na própria Marquês de Sapucaí.
O sambódromo, aliás, foi um dos muitos lugares que me forçaram a conhecer com ela ao meu lado. Não que tenha sido um sacrifício, nunca. Mas se a professora de história não nos tivesse mandado conhecer cada ponto turístico da cidade e nos separado em duplas, eu nunca teria atravessado a sala para sentar ao lado dela. Eu estava pensando no primeiro dia, enquanto a esperava no último. A forma como ela se virou para mim, devagar, impedindo que qualquer fio de cabelo cobrisse seu rosto. Ela não estava usando os óculos aquele dia e o sorriso que portava do início ao fim da aula não desapareceu quando seus olhos me reconheceram. Ela sorria para todo mundo, o tempo todo. Mas não de uma forma falsa, do tipo “Quero agradar todo mundo”. Era apenas uma parte da personalidade dela. Uma mania. Algumas pessoas roíam unhas ou batiam os pés, ela sorria.
Eu lembrava dos primeiros dias com ela enquanto esperava ela na mesa do café, pela última vez. Eu não sabia que era a última vez, é claro, mas não havia como não pensar em retrospecto já que era o último dia letivo do 1º ano e aquela sensação de “muito já foi e muito ainda está por vir” estava muito presente em meu organismo. Pensei na forma como ela ficou totalmente chocada quando eu disse que já conhecia todos aqueles pontos turísticos, mas os detestava todos.
- Como você pode não gostar do Rio? - Mesmo decepcionada havia um sorriso em sua voz.
- 3 coisas: violência, desigualdade social e calor. - Eu também disse isso sorrindo porque não dava para não sorrir perto dela.
- Você basicamente está dizendo que odeia o mundo inteiro. Não existe um lugar no mundo que não tenha essas três coisas.
- Mas eu sinto que o Rio não tem nada além disso.
- Então esse trabalho foi feito para você.
Ela tomou o mapa das minhas mãos e marcou os lugares que mais gostava e os que precisava me mostrar. Passei o resto da nossa primeira reunião depois da aula, a observando tão concentrada que por alguns segundos seu sorriso desaparecia. Ela era linda, sem esforço nenhum. Nunca soube se era ela o tipo de garota que tinha consciência do quanto era bonita, mas eu sabia que várias garotas ficavam muito conscientes de si mesmas na frente dela.
O primeiro lugar que nós fomos foi a Quinta da Boa Vista. Ela queria me provar que o Museu Nacional e o Rio Zoo eram tão bons quanto os de qualquer outro país do mundo. Eu rebati que ter uma versão nacional de dois dos passeios mais entediantes do mundo não era conquista a se exibir. Mas a verdade é - e eu juro que admiti isso para ela depois de algum tempo - eu me diverti muito naquela tarde. Ela conhecia o melhor caminho, as melhores lanchonetes e até alguns funcionários que nos deram as melhores dicas para aproveitar os passeios. E no fim do dia, ela fez algo que depois se tornou tradição a cada dia dos nossos passeios: me levou no melhor lugar para ver o pôr-do-sol.
No segundo dia, uma briga das grandes em casa (não consigo me lembrar sobre o que foi daquela vez) tomou minha manhã inteira, me impedindo de ir para a escola. Ainda assim às 14h, Laura estava na minha porta, com dois ingressos para o Cristo Redentor nas mãos, dizendo que pediu ao pai para comprar com antecedência para que nós não perdêssemos tempo precioso na fila.
- Muita gente acha ruim que o passeio ao Cristo seja só subir e ficar olhando a vista, mas ninguém pensa o quanto deve ser legal fazer outras coisas naquela vista. Pintores, escritores e músicos matam para poder fazer arte em um lugar inspirador, mas ninguém nunca lembra quão inspirador aquele lugar é. – Ela dizia isso enquanto a gente subia os elevadores e escadas rolantes.
Já lá em cima, ela me levou pela mão até a parte da frente do monumento - aquela descida que dá frio na barriga aos mais medrosos. Depois de admirar a vista em silêncio por alguns minutos, ela abriu a mochila e tirou uma tela e um cavalete portátil de dentro e começou a montar seu local de trabalho. Eu, que sempre achei falta de educação ficar bisbilhotando o processo criativo dos outros, fiquei apenas observando o Rio de Janeiro lá de cima, odiando-o por odiar minha própria vida miserável. Eu me convencera, em 15 anos de vida, que sair do Rio era a única forma de sair da bagunça que era minha vida. Reclamar da cidade faria parte de quem eu era.
- Um pouquinho para a direita. – Ouvi Laura dizer depois de um tempo.
- O quê? – Disse me virando para olhar para ela.
- Vá um pouco para a direita. – Ela repetiu, apertando os lábios (mas ainda sorrindo) - Quero brincar com a luz um pouco.
Franzi o cenho.
- O que você está pintando?
- Você verá. Agora vá um pouco para a direita e continue encarando o Rio de Janeiro dessa forma introspectiva.
Eu fiz isso, mas dessa vez parei de pensar nos meus problemas e foquei na cidade. Tentei ver a cidade da forma como Laura via. Foi complicado no começo, mas aos poucos me livrei de meus próprios preconceitos contra a paisagem que contemplava. É uma cidade bonita. Bonita não, maravilhosa. De gente batalhadora e cultura extensa. Nós nos orgulhamos de ser uma cidade que combina natureza e urbanização e mesmo que grande parte das vezes a primeira acabe perdendo, até suas tentativas de continuar a reinar no meio do caos da cidade grande continuavam a ser poéticas. Lá de cima, do Cristo, é tão fácil se sentir pequeno em comparação à imensidão do Rio de Janeiro.
Quando o sol começou a se pôr, com o monumento já quase vazio, Laura colocou o pincel de lado e me puxou pela mão até o outro lado da vista, para ver o fim do dia. Eu ia perguntar sobre a pintura, mas com ela ainda segurando minhas mãos enquanto encarava o horizonte, as palavras foram sumindo até um silêncio encantador tomar conta da minha cabeça. Ficamos lá pelo que poderia ter sido um minuto ou uma eternidade. Quando o sol finalmente sumiu e nós tivemos que ir embora, ela disse que estava escuro demais para que eu visse o quadro e que me mostraria em uma ocasião melhor. Eu me sentia tão bem que nem discuti.
As outras semanas do projeto foram do mesmo jeito: enquanto eu odiava cada vez mais a minha casa, eu aprendi a amar o Rio, enquanto me apaixonava por Laura. Ela me levava a praias, a monumentos, a igrejas, a shoppings, a cada um dos lugares preferidos dela e até a lugares que ela ainda não conhecia. E no fim da tarde sempre íamos ao melhor ponto para ver o pôr-do-sol e apenas o observávamos, em silêncio. Eu costumava chegar em casa com sono demais para ouvir as brigas e feliz demais para me deixar afetar pela atmosfera carregada da minha casa. Laura faria qualquer coisa ser suportável com apenas um sorriso. E isso ela tinha de sobra.
No último dia antes da entrega do trabalho, nós deveríamos nos reunir para escrever um relatório sobre os passeios que fizemos, mas ela não queria terminar aquilo de qualquer jeito:
- Escolha seu local preferido de todos os nossos passeios e nós nos reuniremos lá. Além disso, levarei uma surpresa.
Escolhi a Praça XV e quando ela perguntou o porquê fiquei morrendo de vergonha em admitir que era aquele o lugar onde conversamos por mais tempo. O sorriso que ela abriu ao ouvir essa frase não poderia ser descrito nem se a língua portuguesa tivesse meio milhão de palavras que fossem sinônimos de maravilhoso.
Ela apareceu na hora em que marcamos, com algo embalado em papel pardo. Nem me lembrava mais da pintura que ela fez de mim no Cristo. Quando ela desembalou o quadro, não sem me pedir antes uma opinião sincera, eu senti meu estômago dar voltas. Ela capturou todos os raios de sol que refletiam no meu cabelo, e cada nuance de cor em meus olhos, particularmente tristes, para não falar sobre a paisagem lá embaixo – prédios e praias do Rio de Janeiro, pintados em preto e branco em frente à minha figura e em colorido atrás de mim.
- Não gosto desse silêncio. – Ela disse, o sorriso desaparecendo.
- É um silêncio maravilhado, La. – Me apressei em dizer, odiando a ideia de qualquer coisa eclipsando o sorriso. – Nunca vi nada tão cheio do mais puro talento em toda minha vida.
- Também não exagera. – O sorriso voltou, mas ela olhava para o chão. – Eu estava pensando que talvez poderíamos levar isso, ao invés de um relatório, para a professora. Claro que deveríamos escrever um relatório também, por segurança, mas eu achei o quadro uma ideia mais criativa.
- Claro, ótima ideia. – Disse tentando esconder a decepção em minha voz. Eu pensei que ela fosse me dar o quadro de presente, ou ainda melhor, manter para si. A ideia de dividir aquilo com o resto da turma parecia tão errada para mim.
Mas não fiquei pensando muito nisso. Ela segurou o quadro de lado e se aproximou para me beijar depois disso.
- Graças a Deus, você retribuiu. – Disse sorrindo, depois – Estava me perguntando se isso tudo tinha significado para você o que significou para mim.
Voltei para casa com um sorriso estúpido no rosto e no dia seguinte, com todo orgulho, apresentamos o quadro dela como nosso trabalho final. A professora adorou e nós recebemos a nota máxima. Três dias depois as aulas acabaram e eu marquei de encontrar Laura em uma lanchonete, próxima à Praça XV. Aquela foi a última vez que a vi, a tarde que me fez pensar em retrospectiva. Nada naquele encontro deu a sensação de que era a última vez que nos víamos. Era apenas uma tarde normal, como todas as outras em que nos encontramos passeando pela cidade. Comemos donuts e tomamos café enquanto riamos dividindo histórias. Não nos beijamos, mas eu nem me importava. Voltei para casa feliz e acreditando que podia mudar cada aspecto ruim da minha vida.
No dia seguinte, chamei meus pais para conversar e depois de algumas horas de discussões, eles chegaram a conclusão de que precisavam se separar. Depois disso mudei de casa e fui morar com a minha mãe, no mesmo bairro. Depois encontrei um emprego como jovem aprendiz em uma empresa de turismo.
Quase 3 semanas dentro das férias eu me dei conta de que não via Laura desde aquele último dia na lanchonete e que a única forma como nos comunicávamos fora na da escola era na antiga casa. Me senti horrível por ter levado tanto tempo para sentir sua falta, ainda mais considerando que todos os sentimentos maravilhosos que fizeram com que eu conseguisse arrumar minha vida vieram dela e de mais ninguém. A verdade é que a presença dela era algo persistente, que levava muito tempo para se dissipar.
Fui à minha antiga casa e deixei meu novo endereço com os moradores atuais perguntando se uma garota com a descrição de Laura havia ido lá. Eles disseram que não e prometeram que deixariam o endereço com ela caso ela aparecesse. Fiquei pensando se nos veríamos durante as férias, mas não aconteceu. Depois disso, no trabalho eu me pegava pensando nela a cada ponto turístico, lembrando dos nossos passeios e de como ela me fazia bem. E a cada pôr-do-sol, eu lembrava dos seus olhos perdidos e do seu silêncio cheio de significado. Uma frase, que ela disse na mesma tarde em que me beijou, após um dos pôr-do-sóis mais lindos que eu já vi, ficava na minha cabeça sempre:
- A verdade é que infelizmente, Rio, eu te amo.
No primeiro dia de aula do segundo ano, ela não estava lá. Ninguém falava sobre ela ou sobre a mudança do professor de física. Apesar da minha mente pipocar de perguntas, eu preferi não falar sobre ela com ninguém. Preferi manter ela apenas na minha mente. Como um sonho bom.